Notas iniciais
Gente, vocês podem pensar o que quiser da Jessica, menos que ela é boba...

Caminhei a passos lentos para encontrar minha mãe. Eu não conseguia parar de pensar no que Allison tinha me dito. Eu precisava dar um tempo para meu coração e precisava conversar com o Josh. As coisas entre nós estavam muito mal resolvidas.
— Oi, filha. — os olhos da minha mãe estavam transbordando de preocupação e automaticamente me senti mal. Era pra ser um dia feliz pra ela.
— Oi, mãe. Como você está?
— Estou bem e você?
— Vou ficar. Mas hoje vamos focar em você. Está ansiosa?
— Morrendo, quase. — sorriu.
— Então, vamos entrar.
A loja era enorme e estava abarrotada de vestidos e vendedoras correndo para todos os lados. Minha mãe parecia saber o que fazer porque seguiu para um caminho mais afastado sem nem piscar.
— Ellie. — alguém chamou o nome dela e nos viramos para encará-la.
— Marie. — era uma mulher de uns 45 anos com um sorriso contagiante e demonstrava uma certa intimidade com minha mãe.
— Essa é sua filha?
— Sim, essa é a Jessica. Jessica, essa é a Marie. Ela foi nossa vizinha antes de você nascer e me ajudou a escolher o vestido para o meu... hum... primeiro casamento.
— Prazer. — falei.
— O prazer é meu. Já escolhi alguns vestidos baseado no que você já me disse. Me acompanham?
— Claro.
Seguimos a Marie por um corredor extenso e entramos em uma sala aconchegante. Automaticamente sentei na poltrona e peguei alguns biscoitinhos.
— Seguindo seu palpite não peguei nenhum vestido branco ou muito jovial.
— Obrigada.
— Com prazer. Vamos começar?
Minha mãe rejeitou o primeiro vestido logo de cara porque tinha as costas muito aberta, o segundo porque ela odiou os babados e assim por diante.
Eu já estava ficando muito irritada quando, finalmente, Marie trouxe um vestido que nos fez ficar de boca aberta. Ele era bege quase nude, reto sem nenhum volume e uma manguinha de renda. Mas o que mais chamou nossa atenção foi o busto que tinha uma renda francesa dando um ar elegante e glamouroso.
— Uau.
— Ele é lindo. — falou minha mãe.
— Experimenta. — falou Marie.
Minha mãe experimentou ele de costas para ficar surpresa e bom, funcionou. Ele ficou incrível nela, parecia ser feito sob medida. Seu sorriso veio acompanhada de lágrimas no canto dos olhos.
— É esse. — falou ela olhando pra mim.
— É esse. — concordei com um sorriso nos lábios.

>>o
— Filha, eu sei que nosso relacionamento tem altos e baixos e que eu tento não me meter, mas o que aconteceu?
Eu queria tanto não ter que contar a história do meu relacionamento fracassado mais uma vez, mas queria ouvir algum (qualquer um) conselho da minha mãe, além do mais ela merecia saber, então eu contei. Contei pra ela desde o começo, a minha implicância com a Julie, a minha amizade com o Josh, minhas idas e vindas com o Will e por fim, o motivo da nossa briga inicial e tudo o que ele tinha me dito na noite anterior. Contei até da conversa com a Charlie e com a Allison.
Ela ficou um tempo impassível, apenas me encarando.
— Bom, você já recebeu lição de moral da Charlie e da Allison, mas acho que mereço falar um pouquinho mais. — respirei fundo.
— Pode mandar.
— Por que você não disse que o amava? — fiquei (muito) surpresa com sua pergunta.
— Bom, porque não amo.
— Tem certeza? — dei de ombros.
— Acho que sim.
— "Acho" não é sinônimo de certeza, Jessica.
— Onde você quer chegar, mãe?
— Está com medo.
— Medo?
— Isso, medo.
— E eu posso saber do que eu tenho medo?
— Você tem medo de amar o Will e dar errado, tem medo dos seus sentimentos pelo Josh, tem medo de não ser o suficiente, tem medo de que o amor que sente pelo Will e o amor que ele sente por você não seja o suficiente para mantê-lo ao seu lado.
— Não sei.
— Jessica, eu concordo com a Allison em um ponto. Você tem que dar um tempo para o seu coração, mas também tem que ter coragem para abraçar o que descobrir. — prendi a respiração.
— Coragem?
— Eu sei que é difícil, querida. Eu sei.
— Sabe? — ela sorriu.
— A coisa que eu mais tinha medo era abraçar os meus sentimentos pelo Richard.
— Sério?
— Claro que sim. No começo eu senti que estava traindo seu pai, depois fiquei com medo de você me odiar, fiquei com medo de jogar tudo para o alto e me decepcionar. Era um medo atrás do outro. Sinto muito por você ter puxado isso de mim.
— E o que você fez?
— Lembrei de uma conversa que eu tive com seu pai uns anos atrás.
— E sobre o que era?
— Estávamos conversando sobre o que aconteceria se um de nós morresse. Essa conversa foi muito antes da morte dele, mas lembrei do que ele me disse: "Se eu morresse Ellie, eu ia querer que tivesse coragem de abraçar o amor de novo". — sorri porque era algo que meu pai diria.
— Você ainda tem medo?
— Com certeza, mas mesmo assim reúno um pouquinho de coragem todo dia.
— Eu amo você. — falei e ela sorriu.
— Oh, querida, eu também amo você. Muito, muito.
Ficamos um tempinho em silêncio e voltamos a caminhar. Eu sabia o que eu tinha que fazer, e não queria esperar mais antes que eu perdesse a coragem.
— Mãe, a gente se vê em casa? Eu tenho que fazer um negócio. — ela sorriu.
— Claro. Boa sorte!
— Obrigada.
Voltei pelo mesmo caminho e peguei o celular reunindo toda a coragem que estava acumulada em mim. Respirei fundo e disquei o número.
— Josh?

>>o
Eu escolhi a minha cafeteria preferida que servia os muffins mais deliciosos de Nova York para ver se isso tirava um pouco do meu nervosismo. Combinei com o Josh aqui porque sabia que ele viria e porque precisava muito de um chocolate quente.
Eu o vi antes dele me ver. Seu cabelo estava bagunçado e sua barba estava por fazer, fazia ele parecer mais velho. Sua roupa combinava em tudo fazendo ele parecer um modelo de uma revista de moda, as mulheres levantaram a cabeça pra olhá-lo, até a garçonete arriscou uma olhadela. Ele abriu um sorriso sem jeito quando me viu.
— Fiquei muito surpreso quando me ligou. — falou e eu sorri.
— Eu também.
Assim que o Josh sentou a garçonete chegou. Ele pediu um chocolate quente e dois cookies, enquanto eu pedi chocolate quente e um muffin de chocolate. Eu podia sentir que ele estava inquieto e eu não estava muito diferente.
— Pois bem... — falou.
— Eu queria pedir desculpas pelo jeito que eu te tratei hoje. — ele sorriu.
— Não tem que pedir desculpas.
— Tenho sim. Eu só... eu estava chateada comigo e coloquei a culpa em você.
— Tinha o direito.
— Não, não tinha Josh. Eu conversei muito com a Allison e com a minha mãe e decidi que nós tínhamos que conversar.
— Conversar...
— Muitas coisas não foram resolvidas e muitas foram mal interpretadas.
— Como, por exemplo? — respirei fundo.
— Eu sei que disse para o Will que não sabia se gostava de você... — dei uma pausa para reunir coragem. — Mas isso não é verdade.
— Como assim? — Josh me encarava em um misto de surpresa e curiosidade. Antes de eu responder, a garçonete trouxe nossos pedidos e ficamos momentaneamente sem jeito.
— Eu tenho medo, Josh. Tenho medo do que os meus sentimentos querem dizer e tenho medo de me precipitar. Eu tenho certeza de uma coisa: eu tenho sentimentos fortes por você. Eu só não sei o que fazer com isso.
— Sentimentos fortes? — eu podia perceber que Josh estava fazendo muita força para parecer calmo.
— Desejo é algo que sinto por você desde a primeira vez que nos vimos, mas isso ficou mais forte aquele dia que me deu uma carona pra casa da faculdade. Afinal você é lindo, e eu sei que sabe disso. Mas não é só isso. Tem a confiança. Eu confio em você de olhos fechados, Josh. Sem nem piscar. Me sinto mais leve quando estou com você, como se eu não precisasse pensar pra falar.
— Sei como é. — ele falou com um sorriso e não contive o meu também.
— Esses sentimentos estavam misturados na minha mente e se embolavam no meu coração. Você era o melhor amigo do meu namorado, o que eu podia fazer? Em momento nenhum eu deixei de ser apaixonada pelo Will e isso não ajudava em nada.
— E... — suspirei.
— Agora que eu e o Will não somos mais um casal, vou dar um tempo para meu coração se acostumar com a ideia. Quero entender os meus sentimentos, quero saber o que está acontecendo comigo. Mas antes queria falar que eu não sou de forma alguma indiferente a você.
— Eu posso ter esperança? — dei de ombros.
— A última coisa que eu quero é te dar esperança. Não quero te magoar, me importo demais com você para fazer isso.
— Mas eu sou uma possibilidade, certo? Você está pensando em mim como... hum... alguém que pode não ser apenas amigo? — sorri.
— Sim, eu estou.
— Ótimo, é tudo o que eu queria ouvir. — aumentei meu sorriso.
— Por que você não se apaixonou por alguém mais fácil, hem? — falei.
— E que graça teria nisso?
— Ah não sei, a normalidade tem suas vantagens. — ele respirou fundo e bebeu um pouco do seu chocolate, apenas esperei.
— Acho que você merece sinceridade da minha parte também.
— Acho que sim.
— Bom, mesmo que depois de um tempo você descubra que ama o Will eu quero que você saiba que valeu a pena. — fiquei sem jeito na hora.
— Até mesmo a parte do soco? — Josh riu de um jeito muito agradável.
— Menos a parte do soco, mas faz muito tempo que eu não me permitia sentir algo assim por alguém.
— Desde aquela menina que... — ele começou a olhar fixamente para a xícara.
— Sim, a Lílian.
— Você gostava mesmo dela, né?
— Eu era um idiota, mesmo. Mil vezes pior do que hoje. Você consegue imaginar o idiota que conheceu só que mais imaturo? — dei uma risada irônica.
— Eu provavelmente te odiaria. — ele sorriu.
— Pois é, a Lílian odiava. Ela me achava um nojo. Era a única garota da escola que não me dava atenção até um dia que ficamos presos na escola. Conversamos muito e eu comecei a me apaixonar por ela ali. Foi um choque geral quando começamos a namorar e o Will me deu o maior apoio, e eu acho que a Chelsea gostava mais dela do que eu.
— E como foi que ela te contou sobre a gravidez? — ele respirou fundo e eu aproveitei para beber meu chocolate.
— Fomos comer um hambúrguer à noite e ela simplesmente falou. Eu achei que fosse uma piada, quando eu descobri que não era fiquei em choque. Eu não conseguia entender como isso tinha acontecido. Eu não queria ser pai, eu tinha 17 anos. O que eu ia fazer? Então eu falei pra ela que eu não podia fazer isso de forma alguma.
— E o que ela fez?
— Chorou, gritou, me chamou de covarde, mas disse que ia cuidar da criança e que ia morar com a irmã na Austrália. Alguns meses depois o Will disse que ela ligou pra ele.
— Espera, ela falou com o Will? — ele deu de ombros.
— Eu era um idiota, Jessica. E se você visse o jeito como eu a tratei você também não ia querer falar comigo. Ela disse para o Will que tinha perdido o bebê e achou que eu tinha o direito de saber.
— Você ficou aliviado? — e só aí ele me olhou.
— Eu me senti péssimo, Jessica. Eu só conseguia pensar que eu poderia ter tido um filho, sabe? Ruivo como eu, ou com cabelos loiros como ela, com os meus olhos verdes ou com os olhos castanhos dela. Eu não sei. Eu ainda me sinto culpado por abandoná-la.
Isso com certeza ainda mexia com ele, seu rosto estava franzido e seu olhar distante. Eu me sentia mal por ele, eu queria fazê-lo entender, tirar aquele sentimento do seu peito. Levantei automaticamente, sentei ao seu lado e peguei o seu rosto forçando ele a olhar pra mim.
— Você era só um garoto. Tinha 17 anos, não pode se culpar.
— Jessica, não é uma coisa tão fácil de se perdoar.
— Talvez se você conseguir ligar pra Lílian e conversar com ela se sinta melhor.
— Ela deve me odiar.
— Não odeia. Ela nunca te odiou, ela só estava frustrada, chateada. Se conversar com ela e fazê-la entender que sente muito, você consiga se perdoar.
— Talvez eu devesse fazer isso. — com essa história algo ficou martelando na minha cabeça.
— Posso te perguntar uma coisa? — perguntei.
— O que quiser. — abaixei as mãos e olhei para o meu muffin.
— Como você descobriu que gostava de mim? — ele sorriu.
— Tudo começou com aquela conversa no meu carro, quando eu te contei da Lilly. E depois com a nossa amizade comecei mesmo a me sentir cada vez mais atraído por você, mas só percebi isso quando o Phelipe me ligou falando que você estava na casa dele por causa do Will.
— Ficou assustado? — Josh deu de ombros.
— Muito. Depois de tanto tempo fugindo desse tipo de sentimento, eu tive que me deixar levar logo por você. Eu reuni uma enorme força de vontade para não te beijar toda vez que te via. Era quase tortura e naquele dia que você falou que gostava de mim, eu mal pensei. Eu queria tanto te beijar e a tanto tempo que me deixei levar pelo impulso. Quando você se afastou foi como acordar de um sonho muito bom e perceber que estava dormindo.
— Eu sinto muito? — ele sorriu.
— Não tem que sentir muito. Eu entendo porque fez aquilo, estava certa. Eu só queria tanto te beijar que não sei, perdi a cabeça por um momento.
— Não é tão ruim perder a cabeça de vez em quando. — eu queria muito que ele não tivesse dado seu sorriso à la Josh, mas ele deu.
Talvez fosse seus olhos verdes focados nos meus, ou seu sorriso de prender a respiração, de qualquer forma quando eu percebi estávamos muito perto mesmo um do outro.
— Jessica, se você não quiser fazer isso é melhor se afastar agora. — a voz dele era um sussurro rouco, o que não ajudava muito na hora de responder.
O que eu deveria ter feito era me afastar, falar alguma coisa inteligente, mas o que eu realmente fiz foi beijá-lo. Seus lábios eram macios e eu não precisei pensar muito porque o Josh sabia perfeitamente o que estava fazendo. Suas mãos seguravam meu rosto e seu beijo fazia meu corpo ficar mole.
Sempre pensei que caras bonitos tinham que ter um beijo incrível, bom, Josh não me decepcionou em nada. Não sei se passaram horas ou minutos, mas quando nos afastamos ambos estavam surpresos e até um pouco ofegantes.
— Uau. — falei e Josh sorriu.
— Isso é que é perder a cabeça por um momento. — não evitei a risada.
— E isso só deixa as coisas mais complicadas.
— Ei, Jessie, eu não vou pensar nada com isso. Eu só queria muito mesmo fazer isso e se por acaso você escolher o Will, ficarei feliz por ter pelo menos conseguido te beijar de verdade.
— Não pode fazer isso. — falei fingindo irritação.
— O quê?
— Jogar charme pra mim desse jeito, não é justo. — mais uma vez o sorriso à la Josh.
— Nunca jogo limpo, deveria saber disso.
Com medo das minhas próprias reações voltei para o meu lugar e voltei a beber meu chocolate que já não estava mais tão quente assim. Começamos a comer em silêncio e nos permitindo troca de olhares de vez em quando. Por um momento quase esqueci que tudo era tão complicado. Quase.

Notas finais
Vocês não amam o sorriso à la Josh?