O Garoto da Última Casa
51 Capítulo 50
Notas iniciais
CAPÍTULO 50 — QUAL SERÁ MEU ''FELIZES PARA SEMPRE''?
A fina garoa, típica de um final de tarde sem muitos sorrisos, batia contra a minha pele.
Na frente da casa dos Miller, conhecidos por sua curiosidade, eu me mantilha a espera. Olaf havia me proibido de ir no enterro de Ashley, por mais que eu argumentasse contra e minha única opção foi esperá-los ali, sozinha . No fundo eu sabia que ele estava certo. Eu era fraca demais para ver mais uma pessoa desaparecer por um buraco escuro, que seria coberto de terra logo em seguida. ‘’Talvez amanhã possa vê-la, visitar ela lá ’’ ele me disse ‘’Mas você não irá hoje’’
Com William foi um pouco diferente. Mesmo com um braço quebrado e um coração – eu sabia – igualmente no mesmo estado – por Miranda e por Ashley – ele não ouviu pedidos ou sugestões, apenas foi. Todo mundo tentou fazer ele ficar parado, descansando, mas William protestou contra qualquer coisa que não envolvesse ir ao enterro.
Por um breve segundo, eu imaginei que a Horda Atual viriaa cidade, para o enterro, por causa de Ashley – filha de dois dos membros. Mas isso não aconteceu. Assim que, graças a Olivia, consegui mandar uma carta, eles apenas lamentaram o ocorrido e mencionaram que ainda acham a cidade perigosa e preferem ficar longe um pouco mais. Oh, grandes amigos e pais, eu diria.
–Você não deveria ficar aqui fora – eu escutei a voz fraca de Olívia, atrás de mim.
–Eu deveria estar no enterro agora – rebati.
–Olaf está certo e você sabe. É bom que tenha ficado aqui.
–Talvez.
Ela fitou a rua vazia, assim como eu. Depois de alguns segundos em silêncio, eu senti seu olhar analisando-me por completo.
–Algum problema? – perguntei a ela, olhando-a de lado brevemente.
–Você acredita em missões de vida?
–Missões de vida?
–Como você, por exemplo – explicou ela – Que foi destinada a salvar uma cidade e a salvou.
–Olívia – repreendi, envergonhada – Por favor, eu tive ajuda.
–O que quero dizer é que todos temos uma missão de vida, algo que nos precisamos fazer nesse mundo antes de deixa-lo.
–E por que está me dizendo isso?
–Porque a minha já acabou.
–Você completou sua missão de vida antes de morrer?
–Não, eu completei quando William Hãnsel acordou são e salvo assim como a cidade – ela respondeu, com um breve suspiro – Eu descobri, recentemente, que essa sempre foi minha missão de vida, mas eu morri antes de completa-la.
–É por isso que sempre me ajudou? – ela confirmou com a cabeça – Mas e no nosso primeiro encontro? Você disse que era para eu tomar cuidado, me afastar ou algo assim.
–Eu não tinha certeza de qual era minha missão, naquele momento – ela sorriu de leve – Achei que era te salvar, mas você não precisava ser salva, nunca precisou. E por isso não fico preocupada em ir embora.
–Você nunca demora muito para voltar todas as vezes, não é? – eu ri, mas ela permaneceu séria – O quê?
–Eu não voltarei mais, querida – eu enruguei as sobrancelhas, confusa e desacreditada – Eu completei o que teria que completar aqui. Um fantasma, como vocês gostam de chamar, só aparece entre os vivos até sua missão ser terminada. Depois disso ele some.
–Vai sumir, não é?
–Eu não tenho escolha.
–Então veio aqui para isso? Para se despedir? – eu queria que ela respondesse ‘’não’’, mas era claro que a resposta não seria essa.
–Eu nunca vou me despedir de você, Alexandra, e tampouco consigo.
–Você está indo e veio aqui me falar isso. Que eu saiba é se despedir.
–No dia que você nasceu, eu sabia que deveria dizer adeus, mas eu não disse. – ela então se colocou em minha frente, enquanto me encarava – Sabe o que realmente falei a você?
Eu não disse nada e ela continuou.
–Eu disse ‘’até logo’’. Porque eu sabia que te veria novamente e porque eu sabia que te amava. Minha mãe foi uma horrível mãe, isso é verdade, mas ela me ensinou uma coisa. Só há algo mais forte que a magia no mundo, Alexandra, é isso se chama amor. Ainda mais um amor de mãe. E por mais que você encare isso como um despedida, eu encaro isso como um ‘’até logo’’, porque eu vou estar por perto sempre.
–Mas eu não vou te ver mais.
–Eu vou ser como o vento, querida – ela me disse, com carinho – Você não vai me ver, mas poderá me sentir.
...
Havia acabado de fazer uma semana da morte de Ashley e da vitória sobre as Bruxas, quando resolvemos nos reunir para conversar sobre o que precisasse ser conversado. A tristeza ainda permanecia nos rostos cansados dos meus amigos, mas por trás disso, naquele dia, eu consegui ver também um alivio e uma certa alegria. A tempestade, talvez, estivesse passando e o sol poderia voltar a brilhar em breve.
–Mandei uma carta para a Horda Atual – Jessica comunicou, quando todos já haviam chegado na minha casa e estávamos sentados na sala – Confesso que estava com raiva, por causa de enterro da Ashley.
–Você xingou eles de que nomes? – William perguntou, enquanto deixava o braço quebrado mais confortável com um travesseiro, em uma cadeira ao lado de Brad – Não quero os repetir quando falar com eles, é claro.
–Não os xinguei, William – Jessica não olhou na direção do Hãnsel, como nos últimos dias. Acho que quando descobriu que a Maldição tinha afetado sua alma e ela havia se apaixonado por ele, ficou até com vergonha de respirar ao seu lado. – Por mais tentador que possa parecer, mas eu os proibi de entrar na cidade.
–Tudo bem, você enlouqueceu – Brad se levantou de seu lugar, assustado – Alexis, onde ficam os calmantes nessa casa?
–Brad, fique quieto, eu não acabei – ela então, com toda a graça que poderia ter, se levantou do sofá para que todos a escutassem e a vissem melhor – Eu escrevi que se eles voltassem sofreriam sérias consequências.
–Tipo o quê? – Gabriel ajeitou os óculos, curioso.
–Tipo ameacei eles com uma Híbrida que matou a bruxa que eles estavam morrendo de medo.
–Você enlouqueceu mesmo – Brad confirmou – E se eles não acreditarem e voltarem aqui?
–Não se preocupe, pelas palavras deles, a cidade é de nossa responsabilidade, por enquanto. – ela deu de ombros.
–E se eles voltarem? O que faremos?
–Você não entendeu mesmo, não é, Brad? Eles estão com medo. A cidade não é nossa ‘’ por enquanto’’ – ela fez questão das aspas – Ela é nossa.
Nos encaramos por um segundos, desconfiando de todas aquelas palavras, mas quando Olaf sorriu para mim, eu não pude não sorrir para ele. No final, estávamos, todos nós, comemorando entre abraços e gargalhadas.
–Já que é um momento de felicidade, eu tenho que fazer uma confissão a Alexis! – Brad falou por cima das outras vozes e eu lhe dei atenção – Eu achei que você fosse lésbica.
– O quê? Por quê? – perguntei, enquanto Olaf ria ao meu lado.
–Você usava roupas estranhas e William claramente investia para seu lado e você fugia, sei lá. Isso foi meio lésbica. O que eu achei legal, por um segundo, devo confessar.
–Já que estamos fazemos esse tipo de confissão, posso fazer a minha também – disse a ele – Achei que você e William estavam juntos.
O Hãnsel se engasgou com a comida, do outro lado da sala, mas Brad riu.
–Ele não faz meu tipo – Brad deu de ombros.
–Seu tipo não é perfeito e maravilhoso, Brad querido? – William perguntou, com um sorriso torto.
Brad apenas o apertou de lado, com força, como se dissesse ‘’Ei, cara, obrigada por esse comentário típico’’.
–Eu acho melhor parar com as confissões, porque não tenho certeza se quero ouvir o que vocês tem a dizer sobre mim – Jessica interrompeu – Que tal irmos para a cozinha, comer algumas coisas e conversar sobre a proteção da cidade?
Todos concordaram e partiram para o outro cômodo, assim como eu. Bem, não exatamente. Uma mão segurou meu braço e me impediu de prosseguir. William, é claro.
–Vem – ele chamou – Vamos lá para fora.
–Por quê?
–Preciso te contar uma coisa.
E então fomos.
Enquanto todos se dirigiam para a cozinha, nos caminhamos para o jardim, em frente a casa, calados e meio afastados um do outro.
–Eu nunca mais vi Sophie – comentei, para quebrar o silêncio – Onde ela está?
–Com toda essa confusão, eu esqueci de dizer que mandei ela para um colégio distante da cidade, faz algum tempo, para mantê-la segura. Mas agora, eu vou busca-la.
–Que bom, eu quero muito ver Sophie.
William parou, quase que imediatamente, e se virou para mim.
–Não verá ela por, pelo menos, alguns meses, Miller – ele me disse – E nem a mim.
–O quê? Como assim?
–Sabe, eu passei minha vida inteira nessa cidade, preso a tudo isso, porque eu não poderia nem colocar os pés fora daqui. Mas agora eu posso. E, não sei se entende, mas eu preciso viajar, eu preciso sair, eu preciso ver coisas que eu nunca vi. Eu preciso conhecer o mundo em que eu vivo, sem me preocupar com minha idade ou com o que eu carrego dentro de mim.
Por alguns minutos, eu não disse nada.
–Você está brincando, não é? – eu falei finalmente e ele negou com a cabeça – Eu disse que gosto de você, eu beijei você e agora você simplesmente vai embora?
–Não é para sempre, Miller, eu vou voltar.
–Eu não posso acreditar nisso. — comentei, enquanto passava minhas mãos pelo rosto.
–Eu queria levar você junto, mas sabemos que seu lugar é aqui, sabemos que precisa dessa cidade – ele veio em minha direção, mas eu me afastei – Você não entende.
–Você realmente acha que eu vou entender?
–Não – ele respondeu, cabisbaixo – Você passou sua vida inteira indo de um lugar para o outro, não sabe como é ficar presa, se sentir presa, por tanto tempo.
–Pare de ser egoísta!
–Toda a minha vida eu pensei nas pessoas, porque, uma vez só, não posso pensar em mim?
Touché.
William estava certo, de certa forma. Sua vida foi terrível, cheia de mortes e sofrimento, ele precisava ser feliz, precisa sorrir com mais frequência. E, por mais que eu me recusasse a aceitar, se ele queria viajar para outros lugares para ter um pouco mais de felicidade, então eu devia deixa-lo ir.
–Eu iriei amanhã – ele comunicou – Queria que fosse a primeira a saber.
–E por quê?
–Por quê?
–Sim, por quê?
–Porque desde o momento que eu te vi pela primeira vez, eu achei que daria problemas – ele me disse – Mas, por incrível que pareça, eu estava errado.
–Eu não lhe dei problemas?
–Oh, não se engane, foi tudo o que mais me deu – ele sorriu – Mas você também me deu algo para eu acreditar, algo para me apegar, algo para lutar. Você me mostrou tanto, Alexis.
–Você me chamou de Alexis?
–E quero ter tempo para te chamar muitas e muitas outras vezes assim. Eu vou voltar, não porque amo essa cidade ou porque aqui e minha casa, eu vou voltar por você.
–William...
–E, por mais que seja uma frase idiota, eu nunca a disse a ninguém.
–Que frase?
–Eu amo você – eu congelei, enquanto ele abriu um alegre sorriso – Eu amo você quando ri ou quando faz uma careta, eu amo quando você é obediente ou quando revira os olhos, eu amo quando você me desafia a pensar em palavras que anulem as suas e eu amo quando você me faz sentir que tudo vai dar certo. Então, droga, não ache que eu sairei por ai, procurando outra Alexandra Miller, porque eu não vou encontrar. E, nem mesmo ache, que eu nunca voltarei para seu lado, porque enquanto você existir; o seu lugar, é o meu lugar.
Eu fiquei calada e quieta, como uma presa encurralada.
–Não vai me dizer nada? – ele perguntou, com uma das sobrancelhas levantadas.
Eu, sinceramente, não sabia o que dizer. As palavras se misturaram em minha mente e eu não consegui organizar uma resposta. William realmente havia me dito aquilo? Ele realmente, realmente havia me dito tudo aquilo?
–Tudo bem – ele sorriu sem humor e se virou.
Meu coração acelerou, enquanto o via caminhar para fora da minha casa e eu corri atrás dele, parando a metros de distância.
–Eu amo você também, William! – gritei e ele parou no mesmo instante, se virando logo em seguida. O que tornava tudo mais difícil, já que agora eu teria que olhar em seu olhos azuis – E nossa, achei que apenas ia dizer isso para a minha mãe na hora de dormir, mas eu realmente amo você. E sim, eu vou te esperar. E que se dane se for por toda a minha vida ou por alguns meses, eu vou te esperar.
Antes que eu pensasse em mais outra coisa para dizer, William Hãnsel veio em minha direção e juntou nossos lábios, selando o que me parecia a eternidade.
...
A sala era gigantesca e as paredes muito bem decoradas, com algumas mesas afastadas e no centro um completo vazio. Parecia um tipo de salão de festas antigo e velho.
–Gosta do que vê, ossinho? – O sr Avery perguntou, com a Horda dos Sete logo atrás – Era onde fazíamos nossas festas.
–Parece um museu – comentei.
–Sua casa parece um sótão, cheio de poeira, mas ninguém comentou, não é? – o Avery se irritou de forma hilária – Shhhh, você é mais bonita quieta.
Ignorando aquele comentário venenoso, eu olhei para a ancestral da família Oliver e senti sua tristeza.
–Eu sinto muito por Ash – disse.
–Ashley fez o que deveria fazer – ela me disse – E eu nunca tive tanto orgulho de uma pessoa como tenho dela.
–Fez um bom trabalho, sabia? – o sr Avery me falou, com uma careta – Eu não acreditei que fosse possível, mas você fez.
–Isso aqui é como uma despedida também? Como Olívia fez? – perguntei – Porque é muito estranho o sr Avery estar me elogiando.
–Quando se é legal, reclamam; quando se é chato, reclamam. O que vocês querem de mim? – resmungou com raiva.
–Não é uma despedida, Alexis – a Oliver me disse – Estamos aqui, porque queremos lhe dizer que não estamos mais sendo bloqueados em sua mente.
–Eu parei de bloqueá-los?
–Na verdade, era Calliope que nós bloqueava — a Oliver falou, com um quê de confusão, como se não entendesse como era possível.
–O que vai acontecer agora, então? A cidade parece calma e pacata.
–Você terá que ficar aqui, Alexis, mesmo assim – sr Avery me disse – É seu destino, afinal.
–É estranho – comentei.
–O quê, querida? – a ancestral de Ash, perguntou.
–É que eu prometi a mim mesma que esse lugar não seria meu lar e de repente eu sinto que é. E, quando vocês me falaram que eu deveria ficar aqui, eu senti que era realmente isso que eu deveria fazer, mas mais do que isso.
–O que mais?
–Eu senti que é o que quero.
Todos na sala sorriram para mim.
–Você é realmente uma Rainha – ela comentou.
–Obrigada.
–E como está Olaf?
–Estamos tentando manter uma boa relação.
–E a escola?
–Estou quase reprovando por faltas, mas vou dar um jeito nisso.
–E sua vida?
–Melhor que nunca.
Sorri convicta, porque era a verdade.
Passei a minha vida inteira sofrendo por quem eu era e agora, nossa, e agora eu sentia que gostava de mim mesma. Eu sentia também uma terrível necessidade de viver intensamente e sem me culpar por um passado doloroso e acidental, que foi a morte de meus pais. Pela primeira vez na minha vida, o peso do mundo saiu dos meus ombros e eu me sentia leve.
–É hora de ir, ossinho – o sr Avery me disse – E, não se preocupe, suas preces ainda não foram alcançadas e você ainda nos verá muito. Mas daremos um tempo a você, apenas isso.
–Que pena, não é? – mas eu e ele sorriamos, como crianças.
–Saia pela porta – a Oliver me disse.
E então eu segui, com passos ligeiros e firmes, para uma porta adjacente ao salão. Quando finalmente cheguei na porta e segurei na maçaneta, eu me virei para encarar, mais uma vez, a Horda mais fantástica de todos os tempos. E eles me encaram de volta.
–Não se meta em mais confusão, ossinho – o sr Avery pediu, quase mandou, na verdade.
–Isso realmente não se parece com a Alexis Miller que eu conheço, senhor – eu disse, sorrindo.
Então, sem mais palavras, eu abri a porta e caminhei para a minha casa, rumo a uma vida normal.
Ou, quase.
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