O Garoto da Última Casa
18 Capítulo 17
Notas iniciais
CAPÍTULO 17 — MAIS UM, ENTRE TANTOS, BABACAS
– Acorda! — ouvi e senti alguém me cutucar várias vezes — Acorda!Pirralha, você não está em coma, não é mesmo?
– Se eu estivesse, acredite, eu não iria responder — disse com uma voz rouca, e abrindo meus olhos com certa dificuldade.Olaf estava parado ao lado da minha cama e já até tinha aberto minha janela.
– Certo — ele sorriu -, vou me lembrar disso, mas agora...
– O quê?
– Vai logo para o banho, que eu estou com pressa.
– Pressa?
– Sim, você pode esquecer ás vezes, porém eu ainda sou adulto.E adultos sempre tem pressa.
– Tudo bem, adulto — ironizei a última parte — Me dê alguns minutos.
– Ah — ele olhou em seu relógio de pulso — Te dou segundo, vai logo.
E então fui.
...
Andar por aqueles longos e confusos corredores da — minha — escola, depois de saber alguns grandes segredos daquela cidade,e ter tido um sonho, no minimo assustador, era estranho.
Era diferente.
Era como se a qualquer instante eu fosse encontrar uma bruxa ou algo assim.
Eu não levei o livro comigo.Percebi que era fraca demais, para defendê-lo se alguma coisa acontecesse, e mesmo que Ashley ficasse com raiva, eu o tinha em minha casa.Bem escondido.
– Achei que ia faltar hoje — uma voz conhecida soou atrás de mim — Acho que se fizesse isso, ia pessoalmente na sua casa te buscar — Não precisava me virar para ver quem era o dono daquela voz, mas mesmo assim, o fiz.
William.
– Estou aqui — anunciei o obvio — Mas não trouxe você-sabe-o-que.
– Falando assim, parece que está traficando uma droga.
– O que não deixa de ser, só que essa é diferente.
– Uma droga bem mais importante e poderosa.
– Contou a Ashley?
– Contei — ele me disse — Ela queria ir te matar, por que pegou o livro e queria matar Georgia por deixar você pegar o livro, mas se acalmou e, até sorriu, quando disse que você conseguia o ler.
– Espero que ela não me mate mesmo.
– Por enquanto, não, ela não vai te matar.
– Esse seu ''por enquanto'', é o que me assusta.
– Nada é para sempre, senhorita Miller, até a sua segurança.
– É melhor ficar quieto.
– Pela primeira vez, concordo com você.
...
– Ashley eu sinto tanto — comecei, assim que vi a loira vindo em minha direção, seguida por Henry, Brad e Jessica — Olha, você me conhece, na verdade, não, você não me conhece, mas... — fui interrompida por uma abraço.Um abraço de Ashley.Até mesmo William, me olhou surpreso.
– Eu nem consigo acreditar — ela ainda não havia me soltado — Você consegue ler.
– Ler eu consigo mesmo. — falei
– Estou falando do livro — ela se afastou de mim e encarou meus olhos, num tipo de contato desconfortável — Você consegue, né?
– Olha, não é bem um consegue — respondi — Há textos em diferentes línguas e eu não entendo a maioria.
– Isso não é problema — ela quase riu — Eu e Georgia falamos vários idiomas, podemos ajudar.
– Vocês conseguem ver também?
– Não, você é, realmente, á única que consegue, até agora — disse ela — Mas você pode escrever as letras e traduzimos depois.
– Me parece uma boa ideia — falei.
– Agora eu tenho que ir — ela anunciou — Vou tentar falar com meus pais.
E então se foi, sem esperar resposta.Todos estávamos boquiabertos com o bom humor de Ashley, tanto é que, só paramos de olhar para a garota que mais parecia saltitar que andar, quando a mesma desapareceu em meio aos outros alunos.
– Ela apareceu... — William começou.
– Feliz — terminei.
– Ah, que fofo, já terminam até as frases um do outro — Jessica disse e Henry revirou os olhos.
– Você e seu ancestral são iguais — observei sem nem perceber o que tinha falado.
– O que disse? — mesmo só Jessica tendo falado, percebi que todos queriam saber.
– O quê?
– Sobre meu ancestral.
– Seu o quê?Ancestral?Que piração — falei meio incerta.Eu não sabia se a Horda iria querer que eu contasse alguma coisa.
– Você é pirada, faz sentido. — Jessica se aproximou alguns passos de mim — Agora fala o que quis dizer, Miller, antes que eu arranque de você.
– Gentil como sempre, Avery — falei
– Fala — mandou.Que filha da...
– Eu vi seu ancestral — revelei.Quer saber?Que se dane, se eu não podia falar isso, já falei — Vi os bruxos da Horda Dos Sete.
– Como assim? — William disse.
– Ah, meio que eu sonhei com eles — falei
– Não existe ''meio que sonhei com eles'' — Jessica fez uma falha tentativa em me imitar — Ou sonha, ou não.
– Eu sonhei, tá legal?
– Certo, Miller — William se virou para mim — Você deve estar enganada.Quando contei a história...
– Não estou, juro — prometi — Eu os vi, eles me disseram que entregaram o poder do livro á mim.
– Mas... — porque só uma vez, uma vez, William não podia acreditar em mim sem questionar?
– Eu acredito nela, William — Brad disse e eu sorri para ele — Ela não poderia conseguir ler o livro, a troco de nada.É claro, que eles iriam escolhê-la por algum motivo e sem dúvida falariam com ela.
– Eles estão mortos!- Jessica parecia alarmada.
– Eles me falaram que são os mais poderosos bruxos de todos os tempos, e que falar comigo depois da morte é fichinha perto do que faziam.
– Isso é impossível — Jessica andava de um lado para o outro agora
– Não é — falei — E é.
– Faça sentido — pediu a garota em minha frente.
– Você realmente está buscando sentido numa história que envolve bruxas? — perguntei — Eu não sei como, mas aconteceu.
– Porque você? — a pergunta de Jessica era retórica e ela parou de andar, bem na minha frente, com um olhar assassino — É uma magrela, com um cabelo esquisito, e uma pele sem cor.Porque você?
– Não sabia que necessitava de beleza, em assuntos como esse — respondi sorrindo fraco.
– Sempre precisa.
– Olha, eu não sei porque diabos eles me escolheram — me irritei — Sou feia, curiosa, intrometida, esquisita e tudo mais, porém eles me escolheram mesmo assim, então fique quieta e me deixe em paz.Eu não tenho culpa se nasci assim, eu não tenho culpa de ser uma aberração, não tenho culpe de estar aqui, e nem nada.Se quiser reclamar, reclame com eles.Ops, lembrei, eles me escolheram, e não á você — depois de falar minhas palavras cheias de puro veneno, eu sai de perto daquelas pessoas indo em direção a minha sala de aula.Agora era aula de biologia.
Dessa vez eu não me perdi, por que achei a professora Claire pelo caminho, e ela me ajudou a chegar na sala.
Quando eu entrei no local que seria a aula, o lugar já estava quase cheio, mas ainda faltava poucas pessoas, por isso a senhora Claire resolveu esperar mais alguns minutos.Algumas alunos conversavam animadamente no fundo, incluindo Felipe Cromwell, quem eu, recentemente, descobri fazer parte do mundo de bruxos e bruxas.
Me sentei o mais afastado dele.Queria descanso.
Não consegui, é claro.
– Hey, Alexis Miller — o garoto com cabelos encaracolados sentou na cadeira ao meu lado poucos minutos depois — Acho que já está mais informada sobre Owens, não é?
– Digamos, que agora eu sei, que o clima não é a única coisa louca por aqui — respondi sem olhá-lo.
– Não mesmo — Felipe concordou
O silêncio reinou por alguns minutos.Felipe não falava mais nada e eu também não.Pelo canto do olho via o Cromwell abrir e fechar a boca, como se pensasse em uma coisa para falar e depois a descartasse.
Dois alunos morenos entraram na sala de aula, conversando sobre jogos eletrônicos.
– Porque não anda com o resto de vocês? — quebrei o silêncio entre nós.
– Como? — a aula já tinha começado, por isso ele sussurrou para mim.
– Por que não anda com Ashley,Brad, Henry, Gabriel, Jessica e... William?
– Não merecem a minha magnífica presença — a humildade nunca tinha se quer chegado a porta de Felipe Cromwell, pelo visto.
– Tudo bem, minta, é mais fácil, certo? — falei baixo — Mas acredite em mim, William é melhor que você nisso, já estou me acostumando.
– William Hãnsel — pareceu pensar sobre o garoto dos olhos azuis escuros — O amaldiçoadinnho.Que coisa triste a história dele, não é?Tão novo, tão patético e tão babaca, e prestes á morrer.
– Não se pudermos evitar — disse de imediato.
– Acontece que não podem — Felipe se virou para mim e abaixou ainda mais a voz, até ficar apenas um leve sussurro, quase como se o vento estivesse falando — Os Hãnsel se matam á gerações, porque que, justamente nessa, William Hãnsel, um dos menos merecedores, escaparia?
– Porque... — eu ia falar do livro, porém me veio algo em mente.Se ele era um bruxo e não estava com o grupo de Ashley, não deveria ser á toa. — Eu estou aqui — Foi a primeira coisa que me veio na cabeça, e possivelmente a mais idiota também.
– Ah, você está — ela sorriu como nunca tinha visto — Quanta coisa, não é mesmo?William está salvo.
– Só digo que...
– Eu só digo que, William está perdido e sabe disso — me interrompeu — Pergunte ao Will, se ele acredita em uma mundana que não sabe de quase nada.
– Ele disse que sou a única chance — eu sei que não era para ter falado nada, entretanto ás vezes as palavras me dominavam, e não o contrário.
– Mas eu sei que em nenhum momento deve ter falado á você que será eficaz — rebateu — Ele não acredita tanto quanto eu, que você resolverá alguma coisa, mas não tem opção.É acreditar, ou acreditar.
– Não é verdade.Ele, pelo menos um pouco, acredita em mim. — disse entredentes
– Não sou um grande amigo de William, mas uma coisa eu sei — ele se virou e encarou a professora que explicava alguma coisa no quadro — Ele não é muito de mentir.Que tal perguntar diretamente á ele, se o nosso campeão acredita, pelo menos um pouco, em você?
– Talvez eu faça isso — na verdade, eu quis dizer ''Sim, eu farei isso''
Ele olhou para meu rosto por alguns segundo, e começou a rir.
Gargalhou, na verdade.
– Senhor Cromwell, não quer compartilhar a piada com o resto da turma? — a senhora Claire deu as costas para o quadro e encarou o rapaz.
– Me desculpe, senhora — pediu — Eu realmente estava tentando me concentrar, mas infelizmente a senhorita Miller aqui, tem ótimas observações — quê, idiota?
– Que tipo de observações? — a senhora Claire encostou uma das mãos na mesa.
– Tipo como suas calças jeans, fazem a senhora ficar ainda mais gorda — Que maldição, eu vou acabar com Felipe Cromwell!
– O quê? — ela parecia realmente irritada, e o resto dos alunos não ajudaram em nada rindo.
– Não fui eu, quem disse foi a Alexis. — Felipe apontou para mim.
– Quê? — falei — Não disse nada, senhora.Eu estava...
– Os dois para fora — ela cortou minhas explicações.
– Quê? — me levantei — Eu não fiz nada e preciso dessa aula.Tenho dificuldade em biologia.
– Da próxima vez, pense nisso antes de falar mal de minhas calças — ela me encarou com ódio — E ainda por cima, atrapalhando os alunos que querem aprender — ''Ninguém gosta da sua aula, ninguém quer aprender, além de mim'' eu queria falar.
– Mas eu não... — tentei
– Para fora os dois, antes que eu chame a direção — e então calados, saímos.
O que eu fiz?Assim que eu e Felipe fechamos á porta da sala atrás de nós, eu dei um chute, com toda a minha força, na perna do Cromwell.
Ele gritou e segurou a perna.
– Você enlouqueceu, garota?! — seus olhos me encaravam furiosos — Faça isso de novo e...
– E o quê, babaca? — me aproximei dele, e como suas coisas estavam no chão agora, por onde passava fazia questão de chutá-las para mais longe — Eu precisava daquela aula, e agora vou perdê-la, por que você fingiu rir feito um idiota.
– Eu não fingi — ele soltou a perna — Eu realmente estava rindo, rindo de você.
– Ah, é?O que fiz para tamanha gargalhada?
– Alexis Miller está, simplesmente, apaixonadinha.
– Ah, não me faça rir — disse — Você é o maior babaca, eu jamais me apaixonaria por você.
– Não estou falando de mim — falou, cruzando os braços em frente ao corpo e se encostando na parede do corredor vazio — Estou falando de outra pessoa?
– Quem?Jensen Ackles? — coloquei minhas mãos na cintura e cerrei os olhos, numa tentativa de parecer ameaçadora.Sim, eu só tentei mesmo — Eu realmente estou apaixonada por ele.Quem não?
–Estou falando de William Hãnsel — ele parecia mais entediado e eu apenas juntei as sobrancelhas — E você, pelo menos lá no fundo, deve saber.Ou não?
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