O Garoto Feito de Sol e Terra
78 Capítulo 78 — O Caminho de Volta
Sete anos se passaram.
Eduardo Castilho agora não era mais um adolescente perdido, e sim um homem feito.
Aos vinte e cinco anos, estava formado, bem-sucedido e trabalhando na empresa da sua família, a Castilho Agronegócios. Ele tinha seguido exatamente o caminho que Frederico queria: estudou negócios em uma prestigiada universidade na Inglaterra, se formou com louvor e, sem hesitar, mergulhou no mercado corporativo.
Se havia algo que Eduardo aprendeu nesses anos, era se dedicar ao que precisava ser feito. Ele focou nos estudos, nas metas, nas oportunidades que se abriam diante dele. Se esforçou mais do que nunca, buscando ser impecável em tudo. Se tinha que ser um Castilho, então seria um Castilho de respeito.
E deu certo.
Ganhou prestígio, respeito e uma carreira sólida antes mesmo dos vinte e cinco. Aprendeu a lidar com os desafios do mundo dos negócios, se tornou estratégico, determinado, alguém que não deixava nada transparecer além da segurança e do controle absoluto.
Mas nem tudo foi sobre trabalho.
Eduardo se permitiu viver também. Saiu com pessoas, conheceu garotas, conheceu garotos. Ele nunca mais se prendeu a rótulos ou negações como no passado. Se ele se sentia atraído por alguém, simplesmente ia em frente. Ficou com algumas pessoas por períodos curtos, teve relações casuais, mas nunca algo realmente profundo.
Porque, no fundo, nenhuma dessas pessoas era Leo.
E era isso que ele nunca conseguiu superar.
Por mais que tivesse se jogado de cabeça em sua nova vida, por mais que tivesse mudado completamente, deixado o passado para trás… Leo ainda o assombrava.
Em algumas noites, quando o trabalho não o consumia por completo, Eduardo se pegava relembrando. O sorriso torto de Leo. O jeito como ele ria sem querer. Os olhos que diziam tanto mesmo quando ele ficava em silêncio.
O toque.
O gosto.
E as palavras cruéis que Eduardo jogou naquele fatídico dia.
Eduardo nunca procurou saber o que aconteceu com Leo depois que partiu. Nunca tentou pesquisar, nunca quis olhar. Porque tinha medo do que encontraria.
Talvez Leo tivesse seguido em frente. Talvez tivesse se esquecido dele completamente.
Talvez fosse melhor assim.
Ou talvez, só talvez, existisse uma parte de Eduardo que ainda esperava um dia reencontrá-lo.
◄☼►
O dia tinha sido longo.
Reuniões intermináveis, contratos para revisar, decisões para tomar. Eduardo estava exausto quando finalmente chegou em casa, tarde da noite. A pasta de couro foi largada sobre a mesa, a gravata afrouxada, e ele desabou na poltrona com um suspiro pesado.
Precisava encontrar uma anotação importante para um projeto em andamento, algo que tinha salvo em seu bloco de notas no celular meses atrás.
Desbloqueou o aparelho e abriu o aplicativo.
Deslizou a tela, procurando entre os textos e lembretes de trabalho, até que um título esquecido chamou sua atenção.
"19 de julho – Para Leo."
O coração de Eduardo falhou um batimento.
Ele sabia exatamente o que era.
Clicou no arquivo antes que pudesse hesitar, e, de repente, as palavras que ele mesmo escrevera dois anos atrás se abriram diante dos seus olhos.
Era o tipo de texto que nunca deveria ter sobrevivido ao tempo.
Algo escrito num momento em que a saudade era forte demais para ser ignorada.
Bloco de Notas – 19 de julho
“Leo,
Eu não sei se você vai ler isso um dia. Na verdade, eu duvido. Mas eu preciso escrever, porque se eu não colocar isso para fora, acho que vou enlouquecer.
Hoje é seu aniversário. E, como nos últimos anos, eu fiquei com o celular na mão, olhando para a tela, ensaiando uma mensagem que nunca vou ter coragem de enviar. Acho que o seu número nem é mais o mesmo, de qualquer forma.
Mas eu queria te ligar. Queria ouvir sua voz. Saber como você tá, se ainda mora no mesmo lugar, se ainda gosta das mesmas coisas. Se a vida foi boa pra você.
Mas eu sei que não tenho esse direito.
Faz anos que eu fui embora. Anos que deixei você sem olhar para trás. E se tem algo que eu aprendi nesse tempo, é que a última coisa que você deve querer é ouvir meu nome de novo.
Eu não culpo você.
Mas eu me culpo todos os dias.
Leo, eu fui um covarde.
Eu te tratei como se você fosse um erro. Como se tudo que a gente viveu tivesse sido um erro. Como se eu não tivesse sentido tudo que senti. Mas nunca foi um erro.
Você nunca foi.
Eu era só um moleque apavorado, tentando me agarrar a qualquer coisa que parecesse mais fácil do que admitir quem eu era. Do que admitir que você significava mais para mim do que qualquer outra coisa.
E no fim das contas, eu perdi tudo.
Mas nada doeu tanto quanto perder você.
E porra, eu sinto sua falta. Tanto.
Não importa quanto tempo passe, não importa quantas pessoas venham e vão da minha vida, não importa quantos quilômetros nos separem. Eu sempre sinto sua falta.
Às vezes, eu me pergunto se você ainda pensa em mim. Se, em algum momento, no meio do dia, uma música, um cheiro, um lugar, qualquer coisa, te faz lembrar de mim.
Eu queria dizer que espero que você esteja bem. Que tenha seguido em frente. Que tenha encontrado alguém que te faça feliz.
Mas a verdade é que eu sou egoísta o suficiente para desejar que, mesmo que só por um segundo, você ainda pense em mim.
Parabéns, Leo.
Onde quer que você esteja.
Se eu pudesse voltar no tempo, faria tudo diferente.
Mas eu sei que é tarde demais para isso.”
Eduardo piscou, mas as palavras na tela continuavam ali, cravadas como um lembrete cruel do que ele nunca conseguiu dizer.
O celular tremia levemente em sua mão. Sua visão ficou embaçada.
E então, sem controle, as lágrimas começaram a cair.
Ele não chorava há muito tempo.
Ele não permitia.
Mas agora, ali, sozinho no escuro do seu apartamento, sentindo o peso das palavras que escreveu, Eduardo desabou.
A culpa, o arrependimento, a saudade, tudo veio à tona de uma vez.
Ele pressionou os olhos com as mãos, tentando sufocar os soluços que escapavam. Tentando fingir que aquilo não o estava despedaçando.
Mas era tarde.
Porque ele sabia a verdade.
Sete anos tinham se passado.
E, no fundo, ele ainda amava Leo.
◄☼►
Eduardo desanuviou o pensamento sobre Leo e focou no trabalho novamente. O ritmo frenético da empresa, as reuniões intermináveis e a pressão de estar à altura das expectativas do pai eram o suficiente para mantê-lo ocupado, pelo menos, na maior parte do tempo.
Mas não o suficiente para fazer com que esquecesse.
Fernando, seu colega de trabalho e amigo, sabia de toda a história. Em uma noite de bebedeira, Eduardo tinha soltado tudo, o passado, os erros, as palavras cruéis, a culpa que o consumia há anos. Desde então, Fernando se tornara um incentivador incansável, sempre provocando Eduardo sobre seu amor mal resolvido e incentivando-o a consertar as coisas.
Ele conheceu Fernando na época da faculdade, na Inglaterra. Desde o início, se deram bem, Fernando era extrovertido, perspicaz e dono de um humor afiado que contrastava perfeitamente com a postura mais reservada de Eduardo. Com o tempo, a amizade dos dois se fortaleceu, e quando Eduardo voltou ao Brasil e começou a atuar nos negócios da família, não hesitou em indicar Fernando para a empresa de seu pai.
— Cara, você devia pelo menos ver como ele tá hoje em dia. — Fernando dizia, vez ou outra, quando o assunto vinha à tona. — Nem que seja pra matar essa agonia que você carrega.
Mas Eduardo nunca teve coragem.
Cada vez que pegava o celular e digitava o nome de Leo na barra de pesquisa, suas mãos tremiam. Cada vez que cogitava buscar qualquer vestígio dele na internet, sentia o estômago revirar. Ele sempre desistia antes mesmo de começar.
Até que, em um outro dia, depois de uma noite de drinks e conversa fiada, Fernando percebeu que algo estava diferente. Eduardo não falava muito, apenas olhava para o fundo do copo, perdido em seus próprios pensamentos.
— Você tá calado hoje. — Fernando comentou, encostando-se no balcão do bar. — Já sei. Tá pensando nele de novo.
Eduardo não respondeu. Apenas fechou os olhos e respirou fundo.
— Cara… — Fernando começou, agora mais sério. — Você não cansa?
Eduardo deu uma risada curta, sem humor.
— Eu já tentei parar, Fernando. Acredite em mim, eu já tentei.
Fernando ficou em silêncio por um momento, mas quando Eduardo voltou a beber, como se quisesse afogar tudo, ele se impacientou.
— Então resolve essa merda.
Eduardo encarou o amigo com os olhos cansados.
— Resolver como, cara? — Sua voz saiu mais áspera do que pretendia. — Ir atrás dele e dizer o quê? “Oi, Leo, sou eu, o babaca que acabou com tudo e te culpou por isso. Como você tá?”
Fernando soltou um suspiro, esfregando o rosto.
— Você faz ideia de como esse cara tá hoje?
Eduardo abriu a boca, mas nenhuma resposta veio.
Ele não fazia.
Sete anos. Sete anos sem notícias, sem saber se Leo seguiu em frente, se ainda morava em São Tomás, se ainda se lembrava dele.
— Olha, cara, eu já te vi lamentar por esse cara mais do que já vi qualquer um lamentar por uma pessoa na vida. — Fernando disse, a voz carregada de exasperação. — E eu tô cansado de te ver assim. Então faz alguma coisa.
Eduardo desviou o olhar.
Fernando não deixou passar.
— Vamos pra São Tomás.
O coração de Eduardo deu um salto dentro do peito.
— O quê?
— Isso mesmo que você ouviu. — Fernando apoiou os cotovelos na mesa. — Eu vou com você. Se precisar de um empurrão, se precisar de alguém pra segurar tua mão, eu vou com você, Eduardo.
Eduardo sentiu a garganta fechar.
Ele não sabia se era medo ou alívio. Talvez os dois.
— Eu… — Eduardo passou as mãos pelo rosto.
Fernando sorriu, cruzando os braços.
— Se você não for agora, nunca vai.
Eduardo respirou fundo.
São Tomás.
Leo.
Talvez fosse a hora.
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