O Garoto Feito de Sol e Terra

93 Capítulo 93 — A Comemoração


Dois meses haviam se passado.

Eduardo estava de volta ao trabalho, imerso nos projetos e reuniões, mas, pela primeira vez em muito tempo, sua mente não estava sufocada por arrependimentos ou incertezas.

Ele tinha paz de espírito.

E todos perceberam.

Os sócios notaram sua leveza nas reuniões, os colegas de equipe comentavam como ele parecia mais tranquilo, e até mesmo os clientes pareciam notar a mudança sutil. O Eduardo meticuloso e controlador ainda estava ali, mas algo havia mudado, havia um brilho diferente em seus olhos, uma calma silenciosa que antes não existia.

Fernando, que o conhecia bem demais para deixar passar, finalmente não resistiu.

Esperou o momento certo e, assim que Eduardo saiu de uma reunião, o puxou pelo braço, arrastando-o para um canto mais reservado do escritório.

— Tá na hora de você me contar o que realmente aconteceu. — Ele cruzou os braços, estreitando os olhos. — Eu conheço você. Esse ar de quem finalmente dorme bem à noite não engana ninguém.

Eduardo sorriu de canto, um sorriso enigmático, daqueles que não entregavam nada e, ao mesmo tempo, diziam tudo.

— Nada demais, Fernando. Só… algumas coisas fizeram sentido.

Fernando ergueu uma sobrancelha.

— "Fizeram sentido" como?

Eduardo apenas deu um leve tapinha no ombro do amigo e começou a se afastar.

— Um dia eu te conto.

Fernando bufou, cruzando os braços, claramente insatisfeito com a resposta evasiva.

— Você tá me deixando louco.

Eduardo apenas riu, deixando Fernando para trás com a frustração estampada no rosto.

Mas, por mais tranquilo que estivesse, uma verdade permanecia.

Ele ainda não tinha falado com Leo.

Não queria pressioná-lo, não queria invadir o espaço que sabia que Leo precisava. Ele havia dito tudo o que precisava dizer naquela carta, agora, era com Leo.

Mas, mesmo mantendo a distância, ele não conseguia evitar a ansiedade.

Porque, no fundo, ele esperava.

Esperava por uma resposta.

Ou, pelo menos, por um sinal.


◄☼►


Eduardo estava jogado no sofá em seu apartamento, assistindo a uma série qualquer, sem realmente prestar atenção. O episódio avançava, mas nada conseguia prendê-lo. Ele passava os dedos pelo controle remoto, mudando de posição a cada poucos minutos, sentindo aquela inquietação que vinha o acompanhando há dias.

Então, o celular vibrou ao seu lado.

Ele pegou o aparelho sem pensar, pronto para ignorar qualquer notificação irrelevante. Era uma ligação de um número desconhecido.

Eduardo revirou os olhos. Como sempre, era provável que fosse spam, telemarketing ou alguma oferta de serviço indesejada, que ele costumava receber e bloquear de imediato.

Ele franziu o cenho, hesitou um instante, mas, por algum motivo, atendeu.

— Alô?

Houve um silêncio breve do outro lado. Um silêncio carregado. E então, a voz que ele não ouvia há pelo menos dois meses soou, hesitante:

— Eduardo… sou eu.

O mundo de Eduardo congelou por um momento.

Era Leo.

Eduardo endireitou a postura no sofá, o coração disparando, mas manteve a voz controlada.

— Oi, Leo.

— Oi. — Leo pigarreou, e Eduardo podia jurar que ele também estava nervoso. — Eu… só queria dizer que minha mãe se recuperou. Ela tá bem de novo.

Eduardo fechou os olhos por um instante, deixando o alívio se espalhar por seu peito.

— Isso é ótimo. Fico feliz, de verdade.

— É… — Leo fez uma pausa. — E ela quer comemorar nesse sábado. Nada demais, só um bolinho, uma coisa bem simples…

Eduardo sentiu a respiração falhar por um segundo, e sua mente já começava a gritar “diz que sim, diz que sim agora”, mas ele se obrigou a esperar Leo terminar.

— E… eu gostaria que você viesse.

Eduardo nem precisou pensar.

— Eu vou.

A resposta veio rápida, firme, sem hesitação.

Do outro lado da linha, Leo ficou em silêncio por um momento, como se estivesse surpreso pela rapidez da resposta.

— Ok. — Ele disse, baixinho.

— Ok. — Eduardo repetiu, um sorriso começando a se formar em seu rosto.

— Então… até sábado?

— Até sábado.

Leo não disse mais nada, apenas desligou.

Eduardo ficou parado ali, o celular ainda na mão, tentando processar o que acabara de acontecer.

Leo ligou para ele.

E o chamou para ir até lá.

As palavras ecoavam na mente de Eduardo, reverberando como um trovão abafado no peito.

Por um instante, ele apenas ficou ali, segurando o celular, como se precisasse de mais alguns segundos para processar o que tinha acabado de acontecer. Como se precisasse ter certeza de que não tinha imaginado.

Mas não era um sonho.

Leo realmente ligou.

Leo realmente o queria lá.

Eduardo jogou a cabeça para trás no sofá e não conseguiu evitar soltar um riso, um daqueles risos que nascem no fundo da alma e escapam sem controle. O peito parecia prestes a explodir, as mãos tremiam de adrenalina, e seu coração batia tão forte que ele quase podia ouvir.

Dois meses inteiros sem contato. Dois meses esperando, sem saber se Leo algum dia daria algum sinal.

E agora… agora ele ligou.

Eduardo fechou os olhos e respirou fundo, tentando se acalmar, mas era impossível.

Ele se levantou de um salto, andou pelo apartamento, passou a mão pelos cabelos e riu sozinho outra vez.

Ele se lembrou que haveria um evento importante da empresa no sábado, ao qual deveria comparecer. Porém, o pensamento se desfez no mesmo instante.

Que se danasse o evento.

Aquela ligação era a única coisa que realmente importava.


◄☼►


No sábado, Leo estava dentro de casa quando o celular vibrou com uma nova mensagem.


Eduardo: Tô chegando.


Ele leu a mensagem uma vez, depois outra, como se precisasse absorver a realidade daquilo. Por um instante, hesitou. Mas então, sem pensar muito, saiu pela porta e caminhou até o lado de fora.

Foi quando viu os faróis iluminarem a estrada de terra.

O coração bateu mais forte.

O carro parou, e Eduardo desceu com pressa, os olhos encontrando os de Leo imediatamente.

Eles ficaram ali, se encarando por um momento.

Sem saber como agir. Sem saber o que dizer.

Eduardo enfiou as mãos nos bolsos, dando um pequeno sorriso. O silêncio pairou entre eles. Não era desconfortável. Era carregado de coisas não ditas.

Eduardo deu um passo mais perto.

— Achei que você nunca fosse me ligar.

Leo o olhou nos olhos.

O vento frio da noite passou entre eles, levantando um pouco a poeira da estrada, mas nenhum dos dois se moveu. Leo engoliu em seco, percebendo que suas mãos tremiam, não de medo, mas de antecipação. Tanta coisa poderia ser dita, mas nenhuma palavra parecia suficiente.

E então, sem pensar muito, o beijou.

O beijo foi lento, tenso, significativo.

Eduardo segurou o rosto de Leo com as duas mãos, aprofundando o contato, sentindo o calor que ele esperou por tanto tempo.

O mundo ficou pequeno. Só existiam os dois.

Quando se afastaram, Leo manteve os olhos fechados por um segundo, tentando recuperar o fôlego.

Eduardo sorriu de leve.

— Então… isso significa que ainda tenho alguma chance?

Leo sorriu de leve, ainda sentindo a respiração acelerada.

— Cala a boca.

Eduardo soltou uma risada baixa, os olhos brilhando.

Leo não disse mais nada. Apenas pegou a mão dele e o puxou suavemente em direção à casa.

— Vamos entrar logo.

Eduardo não hesitou.

Sem soltar a mão de Leo, ele o seguiu para dentro.

Ao entrar na casa, Eduardo foi imediatamente tomado por uma sensação familiar e acolhedora. O cheiro de bolo recém-saído do forno se misturava ao aroma amadeirado que sempre pareceu impregnado naquele lugar.

Seus olhos encontraram Rita primeiro, sentada na poltrona da sala, e um sorriso genuíno se formou em seu rosto ao vê-la tão melhor.

— Dona Rita — ele disse, se aproximando.

Ela sorriu calorosamente.

— Eduardo, meu filho. Que bom que você veio.

Ele se abaixou um pouco para dar um abraço gentil nela.

— Fico muito feliz em ver a senhora tão bem.

— Melhorando a cada dia — ela garantiu, com aquele olhar maternal cheio de significado.

Quando Eduardo se virou, encontrou Mariana e Sofia o observando.

— Bom te ver, Eduardo — Mariana disse, sorrindo.

Sofia apenas assentiu com a cabeça, mas a expressão satisfeita no rosto dela entregava tudo.

Ele cumprimentou as duas antes de se virar para o outro canto da sala, onde viu Gustavo, encostado na mesa, conversando com uma mulher.

— Gustavo!

O irmão de Leo sorriu e estendeu a mão para ele.

— Olha só quem apareceu.

Eles apertaram as mãos e trocaram um abraço rápido. Eduardo então olhou para a mulher ao lado de Gustavo, que sorria de forma simpática.

— Essa é a Jessica, minha namorada — Gustavo apresentou.

— Prazer — ela disse, estendendo a mão.

Eduardo apertou a mão dela com um sorriso.

— O prazer é meu.

Antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, um garotinho de cabelos castanhos apareceu ao lado de Jessica, segurando a barra da blusa dela.

Eduardo franziu o cenho, confuso.

— E esse rapazinho aqui?

Gustavo riu, bagunçando os cabelos do menino.

— Meu filho. Esse é o Matheus.

Eduardo piscou, surpreso.

— Você tem um filho?

Gustavo riu mais ainda.

— Pois é. Cinco anos já.

Eduardo olhou para o garoto, que o encarava com curiosidade, e sorriu.

— E aí, Matheus? Tudo bem?

O menino apenas assentiu com a cabeça, tímido, e se escondeu mais atrás da mãe.

Eduardo riu, ainda um pouco chocado.

— Caramba, eu nem sabia.

— Pois é — Gustavo deu de ombros. — A vida acontece.

Eduardo sentiu Leo se aproximar ao seu lado e lançou um olhar divertido para ele.

— Alguma outra grande revelação que eu deveria saber?

Leo cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha.

— Se tiver, você descobre no decorrer da noite.

Eduardo apenas riu, balançando a cabeça. Era bom estar ali.

A comemoração foi cheia de risadas, conversas e um clima leve que Leo não sentia há muito tempo. Sua mãe estava feliz, seus irmãos também, e, mesmo que ele não quisesse admitir em voz alta, ele também estava.

Eduardo permaneceu por perto o tempo todo, ajudando Rita com qualquer coisa que ela precisasse, conversando com Mariana e Sofia, sendo naturalmente parte daquilo tudo.

E Leo sentia. Sentia o quanto Eduardo queria estar ali.

Quando a noite terminou e todos foram dormir, Eduardo dormiu lá também.

Leo não reclamou.


◄☼►


Na tarde seguinte, Leo estava sentado no gramado da fazenda, olhando o pôr do sol. O vento bagunçava seus cabelos, e a vista dourada trazia uma nostalgia inevitável.

Foi então que ouviu passos atrás de si.

— Você sempre gostou desse lugar, né? — Eduardo falou, se aproximando.

Leo olhou para ele de canto, mas não disse nada. Eduardo se sentou ao lado dele, observando o horizonte com um sorriso no canto dos lábios.

— Sabe o que é engraçado? — Eduardo continuou. — Foi exatamente aqui que eu te beijei pela primeira vez.

Leo riu baixinho.

— Eu me lembro.

— Você ficou vermelho pra caralho depois. — Eduardo provocou, rindo.

— Cala a boca. — Leo riu junto, empurrando levemente o ombro dele. — Você que saiu correndo depois.

Eduardo arregalou os olhos, indignado.

— Eu não saí correndo!

Leo cruzou os braços, arqueando a sobrancelha com um sorriso presunçoso.

— Saiu sim. Me beijou e depois correu igual doido.

Eduardo abriu a boca para rebater, mas acabou soltando uma risada, balançando a cabeça.

— Tá bom, talvez eu tenha ficado meio em pânico.

Leo riu.

— Meio? Você sumiu por dias depois daquele beijo.

Eduardo passou a mão pelos cabelos, fingindo arrependimento.

— Admito, não foi meu momento mais corajoso.

Leo sorriu, balançando a cabeça, e o silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Era cheio de lembranças, cheio de coisas não ditas, mas que agora pareciam menos pesadas.

O vento soprava suave, e Eduardo inspirou fundo antes de falar novamente.

— Esse lugar… foi onde tudo começou. — Ele virou o rosto para Leo. Os olhos estavam cheios de algo que Leo não conseguia ignorar.

— Eduardo… — Leo começou, já sentindo algo vindo.

— Espera, me deixa terminar. — Eduardo sorriu.

Leo ficou quieto.

— Aqui foi onde eu percebi que o que eu sentia por você era diferente de tudo. Onde eu entendi que… você era parte de mim. — Eduardo continuou, a voz firme, mas carregada de sentimento. — A gente se perdeu pelo caminho… por minha culpa. Mas agora estamos aqui. De novo. No mesmo lugar.

Eduardo se virou completamente para ele.

— E eu não quero te perder de novo, Leo. Nunca mais.

Leo sentiu o coração acelerar.

— Então… — Eduardo respirou fundo, um pequeno sorriso nos lábios. Timidamente, ele estendeu a mão e entrelaçou os dedos nos de Leo, como se aquele toque fosse ao mesmo tempo um pedido e uma promessa.

O calor do contato fez o peito de Leo se acender, uma onda quente e suave subindo até a garganta.

— Você… aceita namorar comigo? — perguntou Eduardo, a voz firme, mas carregada de emoção, o olhar confiante preso ao dele.

Leo olhou para ele, segurando o riso que insistia em sair, enquanto o calor em seu peito parecia se espalhar por todo o corpo.

E então, com pura provocação nos olhos, respondeu:

— Eu não sei… preciso de um tempo pra pensar.

Eduardo ficou em silêncio por um instante. Apenas assentiu, tentando disfarçar o aperto que sentiu no peito. Mas Leo percebeu. Havia uma sombra de frustração em seu olhar, um descompasso breve no sorriso que antes parecia tão confiante.

— Tudo bem. — murmurou Eduardo, com a voz calma, mesmo que seus olhos dissessem o contrário.

Leo percebeu na hora. E riu.

Riu com gosto.

— Ah, qual é! Você me fez esperar um tempão, Castilho. Acho que tenho o direito de fazer um pouco de charme agora.

Eduardo estreitou os olhos, fingindo indignação.

— Você é um desgraçado mesmo.

Leo continuou rindo, até que parou e olhou para Eduardo ao seu lado. Observou o vento soprar nos cabelos escuros dele. Aqueles olhos ainda tinham o mesmo brilho de anos atrás.

E então, sem hesitar mais, Leo assentiu.

— Sim… eu aceito.

O sorriso que Eduardo deu valia mais do que qualquer palavra.

E antes que Leo pudesse dizer qualquer outra coisa, Eduardo o puxou para um beijo. Um beijo cheio de tudo que não foi dito. De tudo que eles viveram e que ainda tinham para viver.

O sol se punha atrás deles, enquanto o vento soprava suavemente. E, por um instante, ambos se sentiram exatamente onde deveriam estar.

Notas finais
A quem acompanhou até aqui, meu muitíssimo obrigada! Eu amei escrever essa história e amei mais ainda saber que tem gente acompanhando. Mas ainda não acabou, tem epílogo!!!