O Garoto Feito de Sol e Terra
47 Capítulo 47 — O Peso da Verdade
O cheiro de comida caseira se espalhava pela cozinha impecável dos Albuquerque. A mesa estava posta com elegância, os pratos finos alinhados como se fossem parte de uma vitrine. Os pais de Kayla conversavam animadamente, rindo em meio a histórias sobre viagens, negócios e a vida perfeita que pareciam levar.
Eduardo estava ali, presente de corpo, mas não de mente.
Ele sorria nos momentos certos, respondia com educação, até soltava uma risada aqui e ali. Mas sua cabeça estava a quilômetros de distância, presa na última conversa com Carla.
"Ou você conta, ou eu conto."
As palavras dela não saíam da sua mente. Eram um peso sufocante em seu peito, uma âncora puxando-o para o fundo.
Kayla estava sentada ao seu lado, casualmente segurando sua mão sobre a mesa, como se aquele gesto já fosse natural entre eles. Eduardo não se afastou. Não queria parecer estranho, mas sentia como se estivesse se sufocando.
Ele não deveria estar ali.
E então, o celular vibrou em seu bolso. Ele piscou, tirando o aparelho discretamente e dando uma olhada na tela.
Uma nova mensagem.
Leo.
Leo: eduardo, vc tá vivo ou caiu dentro de um poço e esqueceram de te tirar?
Eduardo sentiu o coração falhar um batimento.
A culpa bateu forte.
A naturalidade de Leo, o jeito despreocupado como falava com ele, sem nem imaginar o que estava acontecendo do outro lado da tela.
Ele apertou os lábios, olhando para a conversa.
Leo: nunca fiquei tanto tempo sem te ver, hein?
Leo: nem pra dar um sinal de vida
Leo: tô quase mandando um carro de resgate
Eduardo engoliu seco.
Ele não conseguia rir da provocação. Não conseguia pensar em uma resposta irônica, como sempre fazia.
A ideia de que Leo descobriria da pior forma possível estava esmagando sua consciência.
Ele precisava contar.
Mesmo que isso custasse tudo.
Mesmo que Leo o odiasse depois.
Mesmo que tudo desmoronasse.
Ele respirou fundo, bloqueando o celular e o colocando sobre a mesa.
— Tudo bem, querido? — A mãe de Kayla perguntou, observando-o com um olhar afável.
Eduardo forçou um sorriso.
— Sim, tudo bem.
Kayla apertou de leve sua mão, voltando a falar sobre algo trivial. Mas Eduardo não estava mais ouvindo.
Sua decisão estava tomada.
Amanhã ele iria até a fazenda e contaria tudo.
◄☼►
O cheiro familiar de café fresco e pão de queijo recém-saído do forno preenchia a cozinha da fazenda quando Eduardo chegou.
Rita, como sempre, o recebeu com um sorriso caloroso.
— Chegou bem na hora, menino. Fiz pão de queijo agora mesmo.
Ela colocou uma cesta cheia deles sobre a mesa, o cheiro quentinho subindo no ar. Eduardo pegou um sem pensar, levando à boca enquanto sentia a ansiedade revirar seu estômago.
Ele mal tinha dado a primeira mordida quando ouviu passos descendo a escada.
— Olha só quem resolveu aparecer! — Leo surgiu no corredor, os cabelos bagunçados como sempre, a camisa levemente amarrotada. O sorriso fácil nos lábios. — Tava achando que tinha fugido da cidade, hein.
Eduardo tentou rir, mas não saiu muito convincente.
— Preciso falar com você. — Ele passou a mão na nuca, tentando não parecer tão nervoso. — No celeiro.
Leo arqueou uma sobrancelha, mas o sorriso continuava ali.
— Ih, tá sério demais. O que foi? Alguém morreu?
— Só vem, porra.
Leo deu de ombros, ainda mordendo um pedaço de pão de queijo enquanto seguia Eduardo para fora da casa, caminhando ao seu lado na direção do celeiro.
— Se eu soubesse que cê ia chegar todo tenso assim, tinha mandado minha mãe colocar calmante no café. — brincou.
Eduardo não respondeu. O nó na garganta apertava.
Eles entraram no celeiro, e a luz do sol vazava pelas frestas da madeira, desenhando feixes dourados que dançavam entre as partículas de poeira suspensas no ar. O cheiro de feno e terra misturava-se ao calor morno do fim de tarde, criando um cenário que parecia existir fora do tempo, longe de qualquer realidade que não fosse aquele momento, ali, entre eles.
Assim que fechou a porta, Eduardo abriu a boca, pronto para falar, mas antes que qualquer palavra pudesse escapar, Leo já estava à sua frente.
E então, sem aviso, sem hesitação, Leo o puxou pela camisa, reduzindo qualquer espaço entre os dois, e o beijou. Foi um toque firme e quente, urgente mas repleto de algo mais profundo. Um gesto que dizia mais do que qualquer palavra.
Eduardo ficou tenso por um instante, mas não resistiu. Porque como poderia?
Como poderia negar a única coisa que ainda fazia sentido no meio de toda aquela bagunça?
Como se seu corpo já soubesse o caminho antes mesmo da sua mente, ele retribuiu o beijo imediatamente, deixando-se afundar na sensação que sempre o puxava de volta, como uma maré inevitável.
As mãos de Leo deslizaram lentamente pela nuca de Eduardo, os dedos quentes e firmes, traçando um caminho familiar. O toque era seguro, íntimo, como se pertencesse ali desde sempre. E o beijo… o beijo era lar. Era um porto seguro no meio da tempestade, o único lugar onde Eduardo sentia que podia simplesmente existir, sem medo, sem máscaras. Nada no mundo se comparava àquela sensação.
Ele esqueceu tudo.
Esqueceu Carla.
Esqueceu Kayla.
Esqueceu que veio ali para acabar com sua própria farsa.
Mas ali só havia Leo, e aquele beijo que o puxava para um lugar que ele sabia que nunca poderia realmente pertencer.
Quando se separaram, Leo ainda sorria.
— Tá bom, agora desembucha. O que você queria falar?
Eduardo abriu a boca.
Mas tudo que viu foi aquele olhar. O olhar dourado de Leo iluminado pelos feixes de luz do celeiro, os olhos brilhando com algo tão puro, tão apaixonante, que doeu.
Ele não teve coragem.
Não conseguiu dizer.
O medo de ver aquele brilho sumir, de ser responsável por apagar aquele olhar, foi maior do que qualquer coisa.
Então, Eduardo disse a primeira coisa que passou por sua cabeça:
— Eu… esqueci o que ia falar.
Leo franziu a testa, claramente desconfiado.
— Como assim? Cê me arrasta até aqui todo sério, faz essa cara de quem vai confessar um crime e agora diz que esqueceu?
Eduardo desviou o olhar, passando a mão na nuca.
— Sei lá. Deu um branco.
Leo o encarou por um instante, os olhos semicerrados, analisando cada detalhe de sua expressão. Eduardo prendeu a respiração.
Mas então, como sempre fazia, Leo riu, balançando a cabeça.
— Você é muito estranho, Castilho.
Eduardo forçou um sorriso, tentando ignorar o aperto no peito.
Leo deu um tapa leve no braço dele antes de se afastar, ainda rindo.
E Eduardo ficou ali, sentindo o peso esmagador da verdade não dita, da confissão que morreu na garganta antes de sequer ser formada.
◄☼►
O resto da tarde se desenrolou como se nada tivesse acontecido.
Eduardo se forçou a agir normalmente, a enterrar o peso esmagador da verdade no fundo da mente e focar no que tinha diante de si: Leo, como sempre, jogando piadas enquanto o colocava para trabalhar.
— Bora, riquinho, vamos ver se essas mãos servem pra algo além de digitar no celular.
Eduardo revirou os olhos, mas seguiu Leo sem reclamar.
Ajudou a recolher feno, alimentar os animais e até carregar baldes de água. Leo não perdia a chance de provocá-lo, sempre dizendo que Eduardo ia "morrer de cansaço antes do pôr do sol", mas a verdade era que ele gostava daquilo. Gostava de estar ali, gostava de compartilhar aquele tempo com Leo.
Só queria que não fosse tão difícil.
Quando foram ao estábulo, Eduardo se pegou observando Leo mais do que deveria.
O jeito como a luz dourada do fim de tarde iluminava os fios bagunçados do cabelo dele, o brilho fácil nos olhos enquanto mexia nos animais com naturalidade, como se aquilo fosse a coisa mais simples e bonita do mundo. O sorriso torto, distraído, enquanto prendia a fivela de um arreio, concentrado no que fazia.
E foi nesse instante, nesse pequeno segundo onde tudo dentro de Eduardo pareceu ruir ao mesmo tempo, que ele cedeu.
Sem pensar, Eduardo o agarrou ali mesmo, puxando Leo pela camisa e colando seus lábios nos dele com urgência, como se a única coisa que pudesse fazer sentido no mundo fosse ter aquele beijo de novo.
Leo soltou um riso baixo contra seus lábios antes de corresponder, sem surpresa alguma, como se já estivesse esperando por isso o tempo todo.
As mãos de Eduardo deslizaram pelo corpo dele, puxando-o para mais perto, prendendo-se a ele como se pudesse segurá-lo ali para sempre.
— Caramba… — Leo murmurou entre um beijo e outro, rindo baixinho — Não é fácil ficar longe de mim, né?
Eduardo fechou os olhos, apertando os dedos contra a camisa dele, sentindo o calor do corpo colado ao seu.
— Cala a boca.
Leo sorriu contra sua boca e Eduardo se perdeu completamente nele.
Eduardo sentiu o corpo todo esquentar, o coração disparado no peito, a respiração acelerada contra os lábios de Leo. O cheiro dele, a forma como sua pele estava quente sob seus dedos, o jeito fácil com que Leo se entregava a ele, tudo era demais.
Ele puxou Leo para mais perto, como se não houvesse mais volta, como se fosse impossível se afastar. O beijo se aprofundou, os dedos de Eduardo apertando a cintura de Leo, segurando-o com a mesma urgência de quem tem medo de soltar e nunca mais encontrar o caminho de volta.
Ele queria mais.
Precisava de mais.
— Leo... — sussurrou contra sua boca, quase sem ar.
Leo sorriu, ainda rindo baixinho, os olhos semicerrados em provocação.
— Que foi? Perdeu o fôlego já?
Eduardo fechou os olhos, encostando a testa na dele, tentando recuperar algum controle sobre si mesmo. Mas não conseguia. Não quando era Leo. Não quando tudo que queria estava bem ali, ao seu alcance.
Então, num sussurro rouco, quase um pedido desesperado, ele falou:
— Vamos pro quarto.
Leo arqueou uma sobrancelha, claramente surpreso com a pressa. Mas o brilho nos olhos entregava que ele gostava disso, gostava de ver Eduardo assim, sem barreiras, sem hesitação, só cheio de desejo.
E então, ao invés de responder, Leo segurou a mão dele e, sem perder tempo, o puxou porta afora.
O trabalho da fazenda podia esperar.
Mas eles, não.
◄☼►
O quarto ainda estava quente, o cheiro da madeira misturado ao deles, ao suor, ao desejo que tinham acabado de dividir. O silêncio era confortável, apenas a respiração deles preenchendo o espaço. Eduardo estava deitado de costas, os olhos fixos no teto, ainda tentando processar tudo.
Ao seu lado, Leo estava virado para ele, um sorriso preguiçoso nos lábios, o brilho dourado dos olhos mais intenso do que nunca.
Sem dizer nada, Leo se inclinou e começou a distribuir pequenos beijos pelo pescoço de Eduardo.
Eduardo fechou os olhos por um segundo, sentindo o toque quente, os lábios de Leo encostando de leve contra sua pele, sem pressa.
Ele queria se entregar àquilo. Queria apenas sentir.
Mas a culpa já estava subindo em seu peito como uma corrente pesada e inevitável.
Ele se sentia um idiota.
Um verdadeiro lixo.
Tinha ido até ali para dizer a verdade, mas não conseguiu.
Em vez disso, se jogou ainda mais fundo na mentira.
Leo deu mais um beijo em seu pescoço antes de se afastar ligeiramente, apoiando a cabeça na mão e olhando para ele com aquele sorriso de quem estava exatamente onde queria estar.
Eduardo forçou um sorriso breve e desviou o olhar, o peito afundado em arrependimento.
Mas, se voltasse no tempo, ele realmente teria feito diferente?
Ele não sabia.
E esse era o pior de todos os sentimentos.
◄☼►
Três dias se passaram, e Leo estava radiante.
Desde a última visita de Eduardo à fazenda, tudo parecia do jeito certo. Eles se falavam o tempo todo pelo WhatsApp, como sempre, trocando mensagens cheias de piadas idiotas e provocações que só eles entendiam.
Era leve. Natural. Era como sempre foi.
E Leo não tinha motivos para achar que algo estava diferente.
Leo mandava fotos aleatórias do dia, vídeos da fazenda, de coisas completamente sem sentido, só para arrancar algum comentário de Eduardo.
E Eduardo respondia na hora.
Era fácil. Era a mesma coisa de sempre.
Ou pelo menos, era o que Leo achava.
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