O Garoto Feito de Sol e Terra
32 Capítulo 32 — Fotos e Filmagem
O celular vibrou na mesa ao lado da cama de Eduardo. Ele franziu a testa, meio surpreso ao ver a tela iluminada com o nome de Leo.
Era uma chamada de vídeo.
Por um segundo, hesitou. Leo nunca fazia chamadas de vídeo. Nunca. A ideia dele ligando assim, do nada, já era estranha por si só.
Eduardo deslizou o dedo pela tela e atendeu.
A imagem demorou um segundo para carregar, e então o rosto de Leo surgiu na tela, um pouco desfocado no começo, como se ele estivesse ajustando a câmera. A iluminação era quente, dourada, provavelmente pelo sol da tarde na fazenda. Ele estava debaixo da varanda, o céu azul ao fundo, e parecia satisfeito demais consigo mesmo.
— Olha só, Castilho, tô ficando moderno. — Leo sorriu, e Eduardo notou que ele ainda segurava o telefone meio desajeitado, como se estivesse tentando entender a melhor forma de enquadrar o próprio rosto na câmera.
Eduardo sorriu, recostando-se na cama.
— Você finalmente aprendeu a fazer chamada de vídeo. Tô emocionado.
— Tudo graças a você. — Leo girou o celular, e a tela balançou um pouco até estabilizar, mostrando o terreiro da fazenda. — Olha isso aqui, me diz se não é a coisa mais bonita que você já viu.
Eduardo riu.
— Leo, é o terreiro. Eu já vi isso mil vezes.
— Mas não desse jeito. — Leo virou a câmera mais uma vez, agora apontando para um dos cavalos pastando na sombra. — Peguei esse ângulo aqui e achei bonito.
Eduardo observou a tela e, por um momento, ficou em silêncio. O ângulo realmente era bonito. A luz do sol atravessava as folhas da árvore, criando sombras desenhadas no chão, enquanto o cavalo branco se destacava contra o verde do campo ao fundo.
— Ficou legal mesmo. — admitiu.
— É, eu sei. — Leo sorriu de lado. — Tô ficando um fotógrafo profissional.
— Ah, pronto, agora além de fazendeiro, quer ser fotógrafo?
— Quem sabe? — Leo virou a câmera de volta para si, apoiando o celular em algum lugar para que sua imagem ficasse estável. — Você que me deu essa chance, riquinho.
Eduardo franziu a testa.
— Como assim?
Leo ergueu o celular e balançou de leve.
— Isso aqui. Esse celular. Foi você quem me deu. Agora eu posso tirar foto de tudo que acho legal. Antes, eu só via e esquecia depois. Agora posso guardar. Mandar pra você. — Ele sorriu, meio sem jeito. — Sei lá.
Eduardo sentiu um calor estranho no peito.
Ele nunca tinha parado para pensar nisso. Dar um celular a Leo parecia algo simples na época, algo que ele fez porque achou que seria útil para que pudessem se falar sempre. Mas agora percebia que tinha dado a ele algo muito maior.
Leo passou a sempre mandar fotos. Pequenas coisas do dia a dia: um bezerro recém-nascido, o céu pintado de cores diferentes ao entardecer, um passarinho empoleirado na cerca. Pequenos pedaços da vida na fazenda que, agora, podiam ser registrados.
— Eu fico muito feliz. — Eduardo disse, sincero.
Leo apenas assentiu, olhando de leve para o celular, antes de girar a câmera de novo e mostrar outra cena aleatória: Mariana e Sofia correndo pelo quintal, rindo e jogando água uma na outra.
— Olha elas, uma bagunça todo dia. — Leo comentou.
Eduardo riu.
— E você finge que não gosta.
— Eu não finjo nada. Só gosto quando elas não tão me enchendo.
Eduardo observou a cena mais um pouco. O vídeo tremia um pouco quando Leo se movia, mas era real. Era um pedaço da vida dele que, de alguma forma, Eduardo podia fazer parte mesmo estando longe.
E, por algum motivo, isso fez com que seu peito ficasse mais leve.
— Continua tirando fotos, Leo.
Leo olhou de volta para a tela, um pouco surpreso pela seriedade no tom de Eduardo.
— Por quê? O que foi?
Eduardo deu de ombros, sorrindo.
— Porque eu gosto de ver o que você vê.
Leo ficou em silêncio por um instante, e então riu baixinho.
— Tá ficando poético, hein?
— Cala a boca.
Leo continuou rindo, e a chamada seguiu, agora com ele mostrando o resto da fazenda, capturando detalhes que Eduardo nunca tinha prestado atenção antes.
◄☼►
O dia estava terminando e o céu da fazenda tingia-se de tons quentes de laranja e rosa. Eduardo e Leo estavam sentados lado a lado próximos da cerca de madeira, assistindo ao pôr do sol. O vento soprava leve, balançando as folhas das árvores ao longe, e o som dos grilos já começava a preencher o silêncio do entardecer.
Eduardo, perdido nos próprios pensamentos, sentiu a curiosidade queimando em sua garganta antes mesmo de formular as palavras. Ele sabia que a pergunta era desconfortável, mas a vontade de saber era maior.
— O que você sente? — perguntou de repente, ainda olhando para o horizonte.
Leo franziu o cenho, virando o rosto para encará-lo.
— Como assim?
Eduardo umedeceu os lábios, desviando o olhar por um instante.
— Quando a gente faz... aquilo. Quando eu tô... dentro de você. — A última parte saiu mais baixo, como se o vento fosse o único capaz de ouvir.
Leo sentiu o rosto esquentar na hora. Endireitou-se um pouco, sem saber se ria ou se fingia que não tinha ouvido. Mas Eduardo apenas esperou, sem desviar o olhar.
— Por que você quer saber isso agora, seu idiota? — Leo murmurou, cruzando os braços.
— Só quero saber. Fala logo. Dói?
Leo hesita por um momento.
— No começo… um pouco. Mas depois, não — respondeu, a voz mais baixa do que o normal.
Eduardo inclinou a cabeça, um sorriso travesso surgindo no canto dos lábios.
— Fala mais alto.
Leo estreitou os olhos para ele, bufando.
— Vai se ferrar. Não vou falar mais nada.
Eduardo riu, satisfeito por ter conseguido tirar uma reação dele. Mas então, Leo respirou fundo e olhou para o céu em tons de laranja e lilás, hesitante antes de dizer:
— Eu também quero experimentar.
Eduardo piscou, confuso.
— O quê?
Leo hesitou por um instante novamente, mantendo os olhos no horizonte, como se estivesse falando sobre algo banal. Mas então, sem rodeios, murmurou:
— Quero saber como é… estar do outro lado.
As palavras saíram baixas, quase indecisas, mas o peso delas caiu sobre Eduardo com força.
Eduardo ficou em silêncio, pego completamente de surpresa. Nunca tinha imaginado estar nessa posição, nunca sequer tinha cogitado isso. Mas agora…
Agora era diferente.
Porém, por Leo, ele aceitaria tudo.
◄☼►
Naquele dia, não passaram disso. Apenas se beijaram ali, sob o céu tingido de laranja e lilás, o vento morno envolvendo seus corpos enquanto os lábios se encontravam em um toque lento, carregado de algo novo. Algo que ainda não tinha nome, mas que estava ali, pairando entre os dois.
Quando Eduardo finalmente foi embora, pedalando pela estrada de terra que já conhecia tão bem, sentiu o coração batendo rápido no peito. Mas não era só pela despedida, ou pelo beijo.
Era pelo que viria depois.
O pedido de Leo ecoava em sua mente, se repetindo como um sussurro inescapável.
Ele quer saber como é.
Eduardo engoliu em seco.
E quanto mais pensava nisso, mais sentia aquele frio estranho no estômago. Não de medo, mas de expectativa. De antecipação.
Se entregaria do mesmo jeito que Leo havia se entregado a ele?
O pensamento fazia seu corpo arrepiar.
E, pela primeira vez, Eduardo percebeu que estava ansioso por isso.
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