O Garoto Feito de Sol e Terra
22 Capítulo 22 — Promessas ao Pôr do Sol
Eduardo estava deitado na cama, rolando o feed do celular sem realmente prestar atenção em nada.
Era engraçado como, agora que Leo tinha um celular, eles se falavam o tempo todo. Antes, Eduardo tinha que esperar o dia de ir até a fazenda para vê-lo ou então ligar para o telefone fixo, torcendo para que Rita ou Gustavo não atendessem primeiro. Agora, bastava uma mensagem.
Sem pensar muito, ele abriu a conversa e enviou um meme.
Era um vídeo curto de um cara tropeçando na lama enquanto tentava pular uma cerca, seguido da legenda: "eu tentando ir embora da sua fazenda sem sujar meu tênis"
Quase imediatamente, Leo respondeu.
Leo: kkkkkkkkkkk seu idiota
Eduardo riu sozinho, balançando a cabeça.
Outra notificação.
Leo: vem aqui amanhã
Não era um convite formal. Não havia um “se puder” ou um “se quiser”. Leo falava como se fosse óbvio que Eduardo iria. Como se soubesse que ele apareceria de qualquer jeito.
E, para ser sincero, ele estava certo.
Eduardo sorriu e digitou sem hesitar.
Eduardo: como se eu fosse dizer não
◄☼►
No dia seguinte, depois da aula, Tiago e os amigos cercaram Eduardo no pátio.
— Bora lá em casa jogar um FIFA. — Tiago sugeriu, jogando a mochila no ombro.
Eduardo hesitou.
Antes, ele teria aceitado sem pensar duas vezes. Mas agora… tudo que queria era ir para a fazenda.
— Não dá, tenho coisa pra fazer. — improvisou, tentando parecer convincente.
Tiago estreitou os olhos, desconfiado.
— Desde quando você tem coisa pra fazer?
Eduardo deu de ombros, já começando a se afastar.
— Desde hoje, ué.
Tiago revirou os olhos, mas não insistiu.
Assim que saiu do pátio, Eduardo pegou o celular e abriu a conversa.
Eduardo: tô indo
Segundos depois, a resposta veio.
Leo: tô esperando
◄☼►
Assim que chegou, Eduardo largou a bicicleta sem nem se preocupar em apoiá-la direito. Mas antes que pudesse dar mais dois passos, um punhado de terra voou direto no seu rosto. Ele exclamou:
— Filho da—
O riso de Leo ecoou pelo campo antes que Eduardo pudesse terminar a frase. Ele já estava correndo, rápido como sempre.
Eduardo não ficou para trás.
Foi atrás dele, rindo entre xingamentos, até que os dois acabaram no chão, rolando, brigando, jogando terra um no outro sem piedade. O cheiro da terra fresca misturava-se ao som das risadas, e, quando deram por si, estavam completamente imundos, com poeira nos cabelos, nas roupas e até nos dentes.
Riram até ficarem sem fôlego.
E então, exaustos, caíram lado a lado na grama, olhando para o céu que se tingia de laranja e rosa à medida que o sol começava a se despedir. A brisa era morna, carregando o cheiro do campo e o calor suave do fim da tarde.
Eduardo virou o rosto.
Leo já estava olhando para ele.
Nenhum dos dois desviou o olhar.
Não havia ninguém por perto. Não havia desculpas, não havia hesitação.
Então, eles se beijaram.
Foi simples, foi natural, como se sempre tivesse sido assim.
Sem pressa, sem medo.
Quando se afastaram, nenhum deles disse nada. Apenas ficaram ali, respirando fundo, sentindo o vento deslizar pela grama alta, o cheiro de terra e o calor suave do entardecer envolvendo tudo. O mundo parecia distante, e, por um instante, nada além daquele momento existia.
Então, quebrando o silêncio, Leo falou, a voz leve, quase sonhadora:
— Sabe, eu queria conhecer o mar um dia.
Eduardo virou o rosto para ele, curioso.
— Nunca viu o mar?
Leo balançou a cabeça, os olhos ainda presos no céu pintado em tons quentes.
— Nunca.
Eduardo ficou em silêncio por um momento, assimilando aquela resposta.
A ideia de que Leo, que parecia pertencer ao vento e à terra como se fossem extensões dele mesmo, nunca tivesse sentido a imensidão do oceano, nunca tivesse pisado na areia ou ouvido o som das ondas quebrando, soava… errada.
O mar era liberdade. E Leo merecia conhecê-lo.
Naquele instante, Eduardo soube. Um dia, levaria Leo para ver o mar.
Leo sempre esteve ali, naquela cidade pequena, naquela fazenda, naquela vida que parecia fixa, inalterável. Mas ele queria mais.
Ele queria sair.
Queria ver o mundo.
Eduardo sorriu de canto, os olhos ainda presos no horizonte alaranjado.
— Eu vou te levar.
Leo soltou um riso baixo, desviando o olhar para o céu.
— Você é um riquinho esnobe mesmo.
Eduardo revirou os olhos e deu um empurrão leve no ombro dele.
— Tô falando sério. Eu prometo.
Leo parou de rir. Sua expressão suavizou, e ele olhou para Eduardo por um segundo a mais, como se estivesse tentando medir a sinceridade naquelas palavras.
E, no fim, ele não precisou pensar muito.
Porque acreditou.
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