O Garoto Feito de Sol e Terra
20 Capítulo 20 — O Dia Seguinte
Depois disso, nenhum dos dois falou mais nada.
Não havia necessidade.
O silêncio entre eles não era incômodo, nem tenso. Era denso, carregado de algo novo, algo que não precisavam nomear. Eles apenas se olharam por um instante, como se tentassem gravar cada detalhe daquele momento — o jeito que a luz fraca desenhava sombras nos rostos, a respiração ainda descompassada, o calor que parecia permanecer entre eles, mesmo sem toques.
Leo foi o primeiro a se mover. Soltou um suspiro longo e se jogou na cama de qualquer jeito, os braços abertos ao lado do corpo, os olhos fixos no teto. Ainda sentia o coração desacelerando aos poucos.
Eduardo se deitou no colchão no chão, observando as sombras que dançavam pelo teto, sentindo a estranha paz que se espalhava em seu peito.
Aquela noite era diferente de qualquer outra.
Mas, ao mesmo tempo, parecia o único lugar onde sempre deveriam estar.
E assim, sem precisar de mais palavras, sem precisar preencher o espaço entre eles com explicações ou certezas, os dois simplesmente fecharam os olhos.
E adormeceram, juntos, pela primeira vez sabendo que nada mais seria como antes.
◄☼►
O cheiro de café e pão fresco começou a se espalhar pela casa quando o sol mal tinha subido no horizonte.
Rita sempre acordava cedo, e naquela manhã não foi diferente.
Com a panela no fogo, ela secava as mãos no avental quando decidiu ir chamar os meninos. Subiu as escadas e bateu na porta do quarto de Leo, abrindo devagar.
— Bora, preguiçosos. — disse, em um tom firme, mas carinhoso. — O café já tá na mesa.
Eduardo foi o primeiro a abrir os olhos.
Por um segundo, ele não soube onde estava. Então, lembrou.
Lembrou da noite anterior.
Do beijo.
E lembrou que Leo estava ali.
Eduardo se sentou na beirada do colchão, esfregando o rosto com as mãos, ainda tentando entender como agir depois da noite anterior.
Virou o rosto e viu Leo ainda jogado na cama, os cabelos loiros bagunçados, os olhos fechados, o peito subindo e descendo num ritmo tranquilo.
Rita entrou no quarto com a autoridade de quem já estava acostumada a tirar os dois da cama à força. Cruzou os braços e abriu as janelas de uma vez, deixando a luz do sol inundar o cômodo.
— Acordem antes que Gustavo chegue e coma tudo.
Leo soltou um resmungo e puxou o travesseiro para cobrir o rosto.
— Cinco minutos.
— Cinco minutos nada, levanta.
Ela saiu, descendo as escadas sem esperar resposta.
Eduardo riu baixinho, mas sua atenção logo voltou para Leo, que agora se espreguiçava preguiçosamente, os olhos dourados pelo sol se abrindo devagar.
E então, sem dizer nada, os olhares se prenderam.
Leo mergulhou nos olhos escuros de Eduardo, profundos e indecifráveis. Eduardo, por sua vez, sentiu o peso daquele olhar dourado sobre ele, quente como a luz que atravessava as janelas.
Ficaram assim por um momento, sem palavras, sem movimentos, presos um no outro como se algo silencioso estivesse sendo dito ali, algo que ainda não sabiam como traduzir.
— LEONARDO!
O grito de Rita do andar de baixo os arrancou do transe.
Leo piscou primeiro, desviando o olhar como se só então tivesse percebido o que estava acontecendo. Eduardo passou a língua pelos lábios, só então percebendo que tinha prendido a respiração o tempo todo.
Sem mais demora, eles se levantaram. Ainda sonolentos, caminharam até o banheiro, onde escovaram os dentes lado a lado, trocando olhares silenciosos pelo espelho. Quando terminaram, desceram juntos as escadas em direção à cozinha, acompanhados pelo som suave da casa despertando.
A mesa estava cheia: pão caseiro, bolo de fubá, queijo fresco, café e leite morno.
Rita olhou para Eduardo.
— Espero que tenha dormido bem.
Eduardo assentiu com um sorriso.
— Dormi sim, obrigado.
Leo pegou uma caneca de café e cutucou Eduardo de leve com o ombro.
— Se prepare, riquinho. Hoje tem trabalho na fazenda.
Eduardo revirou os olhos, rindo.
— Desde quando visitar você virou trabalho forçado?
— Desde sempre.
Eles riram, como se nada tivesse mudado.
Mas os dois sabiam que mudou. Mudou para melhor.
◄☼►
O dia seguiu leve.
Eles passaram a manhã ajudando Rita com algumas coisas simples na fazenda, depois foram para o celeiro, onde sempre acabavam quando queriam matar o tempo.
Jogaram conversa fora, falaram sobre qual seria o pior jeito de morrer, qual era o animal mais idiota que já tinham visto, e Leo, como sempre, começou a inventar histórias absurdas sobre coisas que supostamente já aconteceram na fazenda.
Eduardo ria sem parar.
Era fácil estar ali.
Fácil demais.
E ele percebeu que não queria ir embora.
Mas, quando o sol já começava a se despedir no horizonte, sabia que não tinha escolha.
— Acho que já tá tarde. — Eduardo disse, se levantando.
Leo, que estava sentado sobre um fardo de feno, balançou a cabeça devagar.
— Vai mesmo deixar o trabalho incompleto? Olha só essa bagunça ainda.
Eduardo riu, pegando a bicicleta.
— Você se vira. Eu sou visita, não funcionário.
Leo bufou, fingindo indignação.
Eduardo já estava prestes a sair pela porta do celeiro quando parou. Seu peito batia mais forte do que deveria.
Ele não queria ir embora assim.
Então, sem pensar demais, girou nos calcanhares e voltou até Leo.
E o beijou.
Dessa vez, sem desculpas.
Sem pôr do sol, sem bebida, sem nada que servisse de escudo. Apenas os dois, naquele celeiro, onde ninguém podia vê-los.
Leo não hesitou nem por um segundo. Correspondendo com a mesma intensidade, com a mesma certeza que Eduardo sentia dentro de si.
Quando se afastaram, Eduardo ainda buscava palavras que não vinham.
Leo, por outro lado, apenas sorriu de lado, como se já soubesse que isso ia acontecer. Como se estivesse esperando.
— Gostei da despedida.
Eduardo riu, meio sem graça, e bagunçou os próprios cabelos.
— É… até mais.
— Até.
Eduardo subiu na bicicleta e foi embora com um sorriso que não conseguia segurar.
◄☼►
Já em casa, Eduardo estava deitado na cama, olhando para o teto, ainda processando tudo o que tinha acontecido.
O celular vibrou ao lado dele.
Pegou o aparelho e leu a mensagem.
Leo: vlw de novo pelo presente
Leo: to aprendendo a mexer nesse celular
Leo: foi mto legal ter vc aqui
Eduardo ficou olhando para a tela por um momento.
Um calor subiu pelo peito, um sorriso surgiu sozinho.
Pegou o celular e respondeu:
Eduardo: foi mto legal estar aí.
A resposta veio rápido.
Leo: então volta logo.
Eduardo riu, balançando a cabeça. E pela primeira vez, não se sentiu culpado por estar feliz.
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