O Garoto Feito de Sol e Terra

1 Capítulo 1— O Começo de Tudo


A estrada de terra se estendia à frente como uma linha sem fim, ladeada por campos verdes que pareciam se perder no horizonte. As árvores balançavam suavemente com a brisa quente do final de tarde, enquanto um pequeno caminhão passava, levantando poeira pelo caminho.

A cidade de São Tomás era assim: tranquila, com sua praça central cheia de crianças correndo ao redor do coreto e senhores sentados nos bancos, jogando conversa fora. Para quem sempre viveu ali, tudo era familiar, quase monótono. Mas, para Eduardo Castilho, de apenas onze anos, era como entrar em um outro mundo.

Ele ainda não sabia como se sentia sobre aquilo.

Do banco de trás do carro, Eduardo observava as casas e pequenos comércios passarem pela janela. As placas pintadas à mão, os cães de rua atravessando calmamente, as bicicletas encostadas nas calçadas. Nada ali se parecia com a cidade grande de onde ele viera.

— Parece que voltamos no tempo — murmurou Helena Castilho, sua mãe, ajeitando os óculos escuros.

— Você disse que queria uma vida mais calma, sem tanto barulho e trânsito — respondeu seu marido, Frederico, concentrado na direção.

Eduardo revirou os olhos, passou a mão pelos seus cabelos pretos e voltou a encarar a paisagem pela janela. A mudança para o interior não havia sido uma escolha dele. Seu pai, um empresário de sucesso no setor agrícola, decidira investir em terras na região e, com isso, trouxera a família junto. Eduardo teve que abandonar seus amigos, sua escola e tudo que conhecia. Agora, estava ali, sendo arrastado para uma nova vida que não pedira.

Quando finalmente chegaram à casa nova, Eduardo precisou admitir que, pelo menos naquele ponto, seus pais haviam caprichado. O casarão no centro da cidade era imenso, de arquitetura colonial, com uma varanda grande e um jardim impecável. O portão de ferro trabalhado parecia destoar do restante das casas mais simples ao redor.

Assim que desceram do carro, Helena suspirou aliviada.

— Finalmente. Vamos ver como é lá dentro.

Enquanto os pais entravam na casa, dando ordens aos funcionários da transportadora que já estavam descarregando a mudança, Eduardo ficou parado na entrada, observando a rua. Ao longe, na praça, algumas crianças brincavam. Não reconhecia ninguém, mas imaginou que, em breve, teria que interagir com elas, quisesse ou não.

Nos dias seguintes, Helena começou a resolver as pendências da mudança. Entre idas e vindas ao comércio local, uma de suas prioridades era garantir que Eduardo tivesse uma boa educação na nova cidade. Sem perder tempo, agendou uma visita à única escola particular de São Tomás. Pequena, mas bem estruturada, parecia a opção ideal para manter uma continuidade nos estudos do filho.

— Sinto muito, senhora Helena — disse a diretora, com um sorriso cordial. — Não temos mais vagas para este ano.

A resposta pegou Helena de surpresa.

— Nenhuma? Mas... meu marido e eu podemos pagar bem. Se for o caso, podemos contribuir com doações para melhorias na escola.

A diretora manteve o tom educado, mas firme.

— Infelizmente, nossa capacidade já foi atingida. Os alunos que ingressam aqui normalmente vêm desde a pré-escola, e as vagas são muito disputadas. Mas temos uma ótima escola pública na cidade. Se quiser, posso ajudá-la com os trâmites da matrícula.

Helena saiu da escola particular com um aperto no peito. Não esperava esse tipo de dificuldade em uma cidade pequena. Tentou contatos, conversou com algumas pessoas influentes, mas todas as respostas foram as mesmas. Não havia vagas. Sem alternativas, precisou aceitar que Eduardo estudaria na escola pública da região.

Quando contou a decisão para o filho, ele apenas assentiu, sem expressar muita emoção.

— Tudo bem — disse, sem encará-la.

Mas não estava tudo bem.

Naquela noite, deitado em sua nova cama, no quarto ainda meio estranho para ele, Eduardo encarou o teto. Sentia um misto de ansiedade e incerteza. Não conhecia ninguém, não fazia ideia de como seria tratado, e não sabia se conseguiria se encaixar ali.

Ele se perguntou se as crianças daquela escola iam gostar dele.

Ou, pior: se iam odiá-lo.

A semana seguinte traria todas as respostas.