O Garoto Do Teatro
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Antes que me tachem de rude, vou logo me apresentar.
Sou Erik L’opéra, tenho cabelos tão negros quanto às trevas e um olhar castanho tão vazio quanto à de um morto. Minha idade não importa. O que importa para este momento, é que moro com meu avô, desde que o acidente que tive com cinco anos.
E o que tem demais? Meus pais bebiam – descontroladamente. E eu podia ver em seus gestos, que não era amado por ambos. Talvez eu tenha sido um empecilho na vida ou algo do tipo, não quero saber mais o motivo. De qualquer modo, uma vez eles me levaram junto em um bar apenas para demostrarem que não eram tão desnaturados assim. Inútil, desde aquela idade eu sabia que não era Bem-Vindo, mas havia uma coisa que me preocupava mais: Eles estavam bebendo demais. E logo em minha mente veio aquelas campanhas sobre bebida e trânsito.
Aquilo não iria acabar bem. E realmente, acabou nada bem. O Carro dos meus pais capotou, e caímos para fora da estrada. Eu lembro até hoje dos meus membros doloridos, junto ao meu rosto, que mal podia enxergar o céu à noite cheia de estrelas... Ou seriam labaredas? Naquele momento, não faria diferença.
Devido à dor e a perda de sangue, desmaiei. E sinceramente, preferia estar morto – Além de o meu rosto ter ficado desfigurado por causa dos estilhaços do vidro e à exposição duradoura ao fogo, todos os meus membros tiveram que ser amputados. Eles citaram diversos motivos técnicos, mas bancar o inteligente não iria me fazer acostumar imediatamente à realidade – Que boa parte de minhas funções a partir de agora teriam que ser com o auxílio da Tecnologia.
De má vontade, meus pais pagaram as próteses. E, inclusive, uma máscara que esconderia meu rosto. Agora, apenas metade dele estava amostra. E assim que recebi as próteses, fugi de casa. Com passos desajeitados, lentos, e com bastante roupa, fugi para talvez o único local que me sentiria acolhido. – A casa de meus avós paternos. Bem, agora era apenas de meu avô, já que a mulher dele havia falecido por uma doença. Ao menos lá eu podia sentir que era amado, e ao contrário do acidente, eu lembro bem da cena dele me encontrando... Nesse estado.
Primeiramente, ele se assustou, mas depois foi se acalmando, consciente de todo o incidente. Meus pais? Sequer me procuraram. Ouvi dizer que tempos depois eles foram assassinados, mas para mim tanto faz quanto tanto fez, confesso. Eu já tinha 10 anos quando esse boato veio aos meus ouvidos. Em cinco anos, se aprende muita coisa, e eu aprendi um pouco sobre mecânica e marcenaria, e secretamente, alguns métodos rápidos de tortura. Eu havia um tanto de talento para essas coisas, e me ofereceu um emprego no pequeno teatro dele, que foi montado para dar um direcionamento artístico a crianças com menores rendas. Não como ator, claro. Mas cuidaria da manutenção, junto de vários adultos.
E cá estou. Hoje sou conhecido por todos, e até me apelidaram de “Fantasma da Ópera”. Bah, só por causa de meu nome e minha máscara. Mas tudo bem. Desde que não me atrapalhem, tudo bem. Porque, de todos os alunos lá, eu apenas ligo para uma aluna: Christine Danila, uma jovem que tinha a minha idade, cabelos castanhos sedosos e olhos azuis. Era uma das poucas pessoas que me fazia odiar meu rosto e meu corpo, mesmo que ela não pareça se importar com isso, me desejando um “Bom Dia” com sua voz doce e inocente. Apaixonado por ela? Talvez, mas eu não tenho esse direito. Sendo a pessoa que sou, viver comigo ou com uma pedra não teria diferença. Mas iria tentar sempre que possível colocar um sorriso no rosto delicado dela. Ah, como tentaria.
Existia uma infinita lista de itens de trabalhos que aquele pequeno teatro fez. Desde peças contemporâneas àquelas gregas e etc. Mas nunca uma ópera. Visto esse fato curioso, meu avô contratou uma professora de música e reuniu todos os atores para ver qual peça eles poderiam adaptar.
Um engraçadinho disse “Que tal o ‘Fantasma da Ópera? ’ Já temos até o fantasma!” e apontou para mim. Eu quase quis mandar ele se ferrar, mas estava trocando a corda que abria as cortinas – A antiga já tinha se desgastado demais. Portanto, não teria motivo para eu sair do meu serviço apenas para bater boca com um idiota. O Problema é que Christine também aprovou a ideia, inclusive já se candidatando para o papel da protagonista, que tinha o mesmo nome que ela: Christine Daaé, o que pegou a todos de surpresa, especialmente quando meu avô resolveu aderir à ideia. Até a de me colocar nessa peça como o fantasma, droga.
Os dias para mim, a partir de então, tornaram-se estressantes. Eu não tinha apenas que ensaiar, também tinha que cuidar dos cenários e do teatro, caramba! Ao menos, Cristine parecia estar se divertindo... Desejava-me boa sorte e muita força de vontade. E foi assim que aguentei os ensaios até o dia da apresentação.
Mas, durante os ensaios, via que ela andava interessada em outro aluno — Que conseguiu o papel de Visconde de Raoul de Chagny, que só de tentar lembrar o nome me tirava a paciência. Acho que é por causa dessa maldita paixão. Se não gostasse dela, não sentiria essa raiva desnecessária. E o pior, o cara que ela gostava era bonito. E tinha braços e pernas, e um rosto perfeito. Decidi então que não iria me deixar sucumbir a este amor ridículo, virar o Pierrot dessa história. Não, não. Sou uma pessoa impaciente, e não aguentaria sentir essas dúvidas, baboseiras de adolescência. Pra mim, é 8 ou 80.
Portanto, decidi que no final, no clímax, eu iria me matar. Parece frescura minha, e talvez seja, mas desde o acidente minha vida é tentar estender ela, brincar com ela, até me cansar. E chegou a hora; Chegou o momento d’eu ir para um local mais calmo – Talvez, acho que ao menos no Inferno ninguém vai me encher o saco. E quer saber? Estava até demorando.
Na Ópera, agi como o roteiro mandava. Tinha até uma boa quantidade de pessoas, e fiquei com pena, algumas delas iriam sair traumatizadas de lá. Chegou o momento do “casamento” entre Erik e Christine, o qual ele mandaria a jovem procurar o Visconde, que era quem ela realmente amava. Foi então que acabou minha obediência ao roteiro. Depois do beijo que ela me deu na testa, segui até onde tinha um botão e apertei, descendo uma corda já amarrada adequadamente para um enforcamento. – Que, aliás, havia preparado há poucos dias.
Danila não entendia, mas tentava continuar a encenar como se aquilo fosse uma adaptação. “Talvez, de fato, fosse” ela deve ter pensado. Mas ainda sim via em seus olhos o desespero. Peguei uma cadeira do cenário e subi, encaixando a corda na minha cabeça. Olhei para os lados, todos os atores e pessoal do staff estavam com os nervos a flor da pele, até meu avô, que engolia em seco, provavelmente pensando que eu fosse fazer alguma numa encenação. Até quando virei os olhos, a “Daaé” mantinha o olhar aflito. Ótimo, já que queriam uma encenação, que eles tenham a droga da encenação.
– Christine, eu acho que está escrito na minha cara, que eu te amo. Entretanto, não sou idiota ao ponto de te forçar a algo. Muito menos, de aturar algo. De aturar um sentimento que nos torna tão tolos e tão manipuláveis. O Homem mais forte pode se mostrar fraco com o amor, e o mais rico perder toda a riqueza com ela. Não sou idiota. Deixar-te-ei ir, mas ficarás com a alma de um homem escravo do amor em suas costas. E saiba que mesmo este que vos fala parecer louco e ranzinza, descobri a pouco que em mim também bate um coração. Uma falha, fatalmente. Portanto, digo-lhes adeus. Em especial ao meu avô, e Boa Noite, meu único público, e minha única casa, o teatro dele.
Então, empurrei com meu pé a cadeira, tendo como última visão as típicas cortinas se fechando. Patético.
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