O Garoto Da Casa Ao Lado
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Os primeiros raios de sol entravam pelas frestas das portas da sacada do quarto, mas não foi por isso que Daisuke Mai acordou. Naquela manhã quente de sábado, ouviam-se gritos do prédio ao lado. Abriu os olhos devagar, direcionando seu olhar para o relógio no criado mudo, e quase enfartou ao ver que as horas marcavam cinco e quarenta e cinco da manhã.
Mas quem era o maldito que estava fazendo tanto barulho a essa hora? — Pensava Mai. Levantou-se preguiçosamente, estava cansada e com sono, devido o horário que havia ido dormir por ter chegado tão tarde do trabalho.
Mai tinha vinte e dois anos, e trabalhava em uma empresa de administração, como secretária. Não era lá grande coisa, mas o salário não era tão ruim. Vivia sempre muito ocupada, afinal ser secretária não era tão fácil como aparentava.
Seu apartamento ficava no terceiro andar. Não era tão luxuoso, mas era aconchegante. Andou até a varanda arrastando os pés nas pantufas de coelho cor-de-rosa, esfregando os olhos por causa da claridade.
A garota de cabelos acobreados ficava visivelmente irritada quando a acordavam assim tão cedo pela manhã. Abriu as portas da varanda, piscando os olhos varias vezes até se acostumar com a luz. Olhou para baixo e viu um carro de mudanças.
Novo inquilino? Interessante.
— Espero que não seja uma velha chata como a antiga moradora. – Murmurou para si mesma.
A sua frente, no outro prédio, havia também uma sacada, e distância entre elas era curta. Poderia pular de uma para outra sem problemas. Podia-se notar certo movimento no interior do outro apartamento.
Estava curiosa, quem seria o novo morador? Isso Daisuke não sabia, sabia apenas, que se o visse naquele momento, jogaria aquele vaso de flores que estava na sua mesinha, por tê-la acordado tão cedo no seu dia de folga.
Ficou parada ali olhando, esperando alguém aparecer. Já estava se virando para entrar, quando o avistou. Tinha cabelos loiros, e olhos incrivelmente azuis. Seus lábios se abriram num sorriso e acenou para ela.
— Hey! Bom dia! – Sua voz era rouca, e seu entusiasmo seria contagiante se Mai não estivesse com mau humor.
— Bom dia. – Respondeu entre os dentes e entrou.
— “Bom dia! ’’ – Fez uma –terrível– imitação do garoto. – Como pode dar bom dia depois dessa barulheira toda? – Saiu resmungando indo em direção o banheiro.
O pequeno banheiro era todo em azulejos lilás, o que deixava Mai relaxada, sabe-se lá o por que.
Colocou a banheira para encher enquanto encarava o próprio reflexo no espelho. Ótimo. Agora ficarei com olheiras. Suspirou fazendo um coque no longo cabelo dourado e entrou no banho.
Relaxada no seu banho quente escutou a campainha tocar. Droga! Levantou-se pegando uma toalha, e enrolando em volta de seu corpo. Andou lentamente atravessando a cozinha quando a campainha tocou novamente. Uma. Duas. Três vezes.
— Já estou indo! – Falou irritada.
— Até que fim né? Achei que tivesse morrido. – Falou uma garota de cabelos ondulados e avermelhados.
— Eu estava no banho, Lucy. – Respondeu num tom infantil e revirou os olhos. Conheceu Lucy Wane quando se mudou, e viraram melhores amigas.– São seis da manhã. O que faz aqui tão cedo?
— Nossa, se quiser eu vou embora. – Respondeu fingindo estar magoada. Mai abriu a boca para responder, porém foi interrompida. – Enfim, eu estava passando por aqui, e adivinha?! Vi um cara, muito gato levando umas caixas pro prédio ao lado! – Falou tudo muito rápido lançando sorrisos maliciosos.
— O maldito-cara-muito-gato me acordou às cinco horas da manhã com todo esse barulho de mudança. – Falou entediada. – A propósito, ele se mudou pro apartamento aqui em frente.
Mal terminou de falar, e a ruiva correu para a porta da varanda, escancarando com tudo. Mai correu atrás dela, vendo que Lucy faria alguma besteira.
— Não acredito! Que inveja! Você ganhou um vizinho gato enquanto eu tenho que aturar aquelas crianças catarrentas do meu prédio! – Gritou fazendo cara de choro falso.
Mai novamente fez menção de que ia falar alguma coisa, mas perdeu a voz quando seus olhos bateram na figura parada do outro lado.
— Ao que parece minha vizinha também não é nada mal. – Falou o garoto sorrindo abertamente. – Sou Trevor Stone.
Só então percebeu. Estava apenas de toalha. Correu rapidamente para o quarto fechando a porta, e passando direto para a cozinha. Além de acordar os outros em plena madrugada, ainda é atrevido!
— Desculpe as atitudes da minha amiga, faz tempo que ela não vê um cara bonito sabe? – Ouviu ao voltar para o quarto. – Sou Lucy Wane.
Arregalou os olhos. Murmurou um palavrão enquanto vestia suas roupas. Maldita Lucy! Como iria encarar o tal Trevor? Ele deve achar que sou uma puritana que nunca viu um homem!
Lucy era o tipo de garota que não se importava com o que os outros pensavam sobre si. Era bonita, divertida, engraçada, e muito otimista. Uma ótima amiga. Porém Mai queria estrangular a criatura que ainda estava conversando com novo morador.
Seus pensamentos foram interrompidos quando a ruiva voltou ao quarto fechando a porta atrás de si. E lá estava o sorriso malicioso em seus lábios novamente.
— Ele está solteiro. – Cantarolou passando pela morena que parecia que ia atacar a qualquer momento. Daisuke a seguiu até a cozinha.
— Nossa, que pobreza. Você ta passando fome querida Maizinha? – Perguntou na ponta dos pés olhando nos armários.
— Você não presta mesmo. – Suspirou e a ruivinha lhe deu língua.
— Planos pra hoje?
— Sim. Assistir TV e depois dormir. – Respondeu Mai sentando-se na bancada da cozinha.
— Mas é sábado! Nós vamos a um bar que abriu semana passada. – Disse Lucy.
— Não.
— Sim! – Insistiu a outra.
— Não!
— Eu te compro uma sacola de M&M’s!
—... – Mai a olhou. – Duas sacolas.
— O que acha? Estou incrivelmente sexy? – Perguntou Lucy fazendo um gesto com a mão, imitando garras.
Mai e Lucy estavam no shopping provando roupas para ir ao bar naquela noite.
— Me arrependo profundamente de ter te contado sobre meu amor por chocolates. – Respondeu.
— Ai, Mai, assim você fere meus sentimentos. – Disse a ruiva fingindo interesse. – Não sei por que esse mau humor tendo um deus grego morando do seu lado.
Que exagero. Ele nem era tão bonito assim.
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Okay, ele era sim. – Pensou.
— De qualquer forma – Continuou – Nós vamos nos divertir muito hoje. Agora tire essa cara de criança birrenta, e vá experimentar essas roupas. – Disse Lucy lhe empurrando até o provador e jogando alguns vestidos em cima da morena.
Mai acabou por escolher uma saia jeans, e uma blusa branca com detalhes em preto, com uma jaqueta por cima, e uma sandália de tiras com salto. Já Lucy optou por um vestido justo azul-turquesa e, claro, seu precioso salto alto.
Estavam se arrumando no apartamento de Daisuke, a mesma estava sentada na cama enquanto Lucy a maquiava. Depois de duas horas de produção, elas desceram pelo elevador e saíram do prédio.
— Nossa, coloca um sorriso nesse rosto. – Reclamava Lucy no carro, durante o caminho até o bar.
Mai limitou-se a falar e mostrou o dedo do meio, o que fez a amiga gargalhar.
— Chegamos. – Disse a ruiva. – Está bem cheio hoje. – Observou saindo do carro.
Entraram lado a lado pela porta da frente. O lugar parecia mais uma boate, com algumas dançarinas e a luz avermelhada. Tocava uma música eletrônica, que estava estupidamente alta, na opinião de Mai.
Procuraram uma mesa vaga, e encontraram uma um pouco mais afastada. Sentaram-se falando sobre a vida alheia. Assunto começado é claro, por Lucy.
— Vou pegar algo pra gente beber. – Falou se levantando.
— Pegar algo pra beber... Você ta indo é paquerar o barman.— Disse Mai rindo da amiga que deu uma risadinha e foi em direção onde estavam servindo as bebidas.
Ficou em pé, e saiu andando, em direção ao banheiro. Viu de relance quando a ruiva conversava com o tal barman. Estava tão distraída olhando para a amiga, que só percebeu a pessoa na sua frente quando esbarrou nela.
— Desculpa, eu... – Interrompeu-se quando viu quem era o ser lá parado. Droga! Droga!
— Você é a garota da toalha né? – Perguntou Trevor.
Garota da toalha? Sério? Mas que porcaria.
— Sim. Daisuke Mai. – Forçou um sorriso. Podia ter certeza que estava corada.
— Você não é daqui, né? – Falou sorrindo novamente. Porque ele sorri tanto?
— Pois é. – Isso é meio obvio.— Nasci em Tóquio, mas vim pra cá há dois anos. – Olhou novamente para a amiga no outro lado, que ainda conversava enquanto jogava charme para o garçom. – Então... A gente se vê. – Falou constrangida.
Porque estava dando satisfações para um estranho?
— Tudo bem. Foi um prazer. – Disse Trevor e seus lábios abriram-se num sorriso cheio de... Malicia?
Aquilo foi um sorriso malicioso? Foi um sorriso malicioso!
Despediu-se indo até o banheiro feminino. “Porque estava tão envergonhada?” Perguntou a si mesma. “Talvez pelo fato de seu vizinho ter me visto inapropriadamente mais cedo, e agora ele acabara de se insinuar para ela.” E respondeu a si mesma, em pensamento, novamente.
— Que ótimo. Agora to ficando maluca, discutindo com meu próprio pensamento.
Retocou o batom vermelho, e suspirou. Quando saiu de lá, Lucy não estava mais no lugar onde a viu antes de entrar. Seu olhar percorreu a multidão procurando uma cabeleira vermelha até que a encontrou sentada bebendo calmamente seu drink.
Andou até lá, e sentou-se junto à amiga. Contou-lhe do ocorrido de minutos atrás e a ruiva riu dela.
— Que bom que a gente veio então! – Riu mais um pouco.
— Que bom nada. Eu fiquei muito constrangida. – Disse revirando os olhos.
Continuaram conversando, e a morena olhava para aquelas varias pessoas, como se procurasse algo. — Ou alguém.-
— Mai? Tá surda querida? – Perguntou Lucy, falando a ultima palavra sarcasticamente.
— Hã? O que disse? – Devolveu com outra pergunta, franzindo o cenho.
— Perguntei, se você vai sair amanhã. – Disse arqueando a sobrancelha. – Ou pretende ficar em casa, admirando o seu vizinho? – E lá estava aquele sorriso malicioso que Daisuke tanto conhecia.
— Não sei. E não. Acha o que? Que vou ficar sentada xeretando a vida do cara?
— Acho. Eu ficaria. – Respondeu.
— Se eu fosse uma pervertida como você talvez. – Falou rindo.
Dançaram, beberam. Conversaram mais. Lucy havia se ''separado’’ de Mai para ir procurar alguém, e desde então não a viu mais. Já estava bem tarde quando Mai resolveu ir embora. Tirou o celular do bolso para ligar para a amiga, quando o aparelho vibrou em suas mãos.
“Então, você vai ter que ir sem mim. Aquele barman é muito gato, sabe? – Sua amiga preferida, linda e gostosa, Lucy. ’’
Maldita! Como iria pra casa agora sem carro?
Ficou parada na frente do bar/boate esperando algum taxi.
— Hey, Mai não é? – Conhecia essa voz. Virou-se e lá estava ele de novo.
— Está me seguindo? – Arqueou a sobrancelha.
— Não. – Riu. – Estava indo embora. – Trevor olhou para os lados e estranhou a garota sozinha ali. – Quer uma carona?
Opa, apareceu na hora certa. Até que o não era má idéia.
— Se não for incomodar...
— Que nada, vem. – Andou até um carro preto e Mai a seguiu.
— Você não parece ser japonesa, a não ser pelo nome. – Comentou Trevor quando entraram no carro.
— Meu pai é americano e minha mãe japonesa. Eu puxei mais para aparência dele. – Falou. – Você é daqui mesmo, ou...? – Perguntou.
— Sim, sim. Nasci aqui, mas estava morando fora do país. Então decidi voltar.
— Porque voltou? – Perguntou Mai, e Trevor hesitou. – Quer dizer... Er, não precisa falar. – Forçou o sorriso.
— Bem, é que aconteceram umas coisas, sabe. Nada importante. – Sorriu.
— Ah... – Murmurou.
Se curiosidade matasse...
Ficaram em silencio até que chegaram. Desceram do carro e Daisuke o olhou um pouco envergonhada.
Porque diabos estava tão envergonhada?!
— Obrigada pela carona. – Disse Mai quebrando o silencio. Trevor se aproximou e deu um singelo beijo na bochecha da garota, que corou fortemente.
— De nada. Boa noite. – Sorriu entrando no prédio.
Mai ficou sem reação alguns instantes.
O que é que foi isso? Foi apenas um beijo na bochecha, eu heim.
Passou pela portaria do seu prédio. Na verdade os dois prédios eram do mesmo dono. Sabia muitas coisas sobre aquele lugar, afinal, morava ali desde que se mudara.
Nesses dois anos em que Mai morava ali, já havia visto todo o tipo de vizinho no prédio ao lado. Tinha aquela senhora maluca que conversava com gatos dizendo que seus abajures vigiavam-na noite e dia. Mai mantinha distância daquela mulher.
Teve aquele cara bipolar, que toda manhã tinha um humor diferente. Ora estava calmo, ora xingava aos quatro ventos por que alguém simplesmente havia olhado para ele. Mai ficava longe dele também.
Havia também aquele cara que cantava ópera toda manhã, ao nascer do sol. Esse era até simpático, mas fez com que Mai passasse a odiar música clássica.
Durante todo esse tempo que morara ali, Trevor foi o primeiro cara aparentemente normal que ela viu naquele apartamento, e que ela poderia ter ao menos essa vez, um vizinho que não fosse tão estranho. Bom, era isso que ela pensava.
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