O Futuro Está Aqui
22 Little white lies
Notas iniciais
— Wanda. – Começou Natasha, dando um passo à frente ainda com o olhar fixo nela. – Tem algo que você gostaria de compartilhar com o grupo?
Os dentes de Wanda estavam cerrados por baixos dos lábios fechados, apertando tão fortemente que sua mandíbula doía. Não sabia como responder, especialmente quando Natasha parecia uma professora a repreendendo na frente da turma, e céus, como ela era ameaçadora naquela condição.
— Não. – A voz dela falhou. – Realmente não possuo nenhuma informação sobre essa tal SWORD.
— Certeza?
Natasha arqueou uma sobrancelha, e Wanda sentia-se péssima em mentir sobre o ocorrido no jantar, o encontro com Monica Rambeau, o cartão que estava na sua mesa de cabeceira. Os olhos de todos os seus colegas, inclusive o de Bucky Barnes, com quem não possuía tanto contato prévio, restavam sobre ela. Felizmente, os braços de Visão a mantinham em um abraço firme quando ela meneou com a cabeça, uma segurança extra para sustentar sua mentira.
— Por que inquirir a Wanda, Tasha? – Steve, com a folha na mão, mexeu as írises perfeitamente azuis para cima, tentando encarar as duas ao mesmo tempo.
— Nada, não. – Natasha suspirou. – Apenas achei que ela pudesse saber algo. Foi mera intuição.
Os olhos dela estavam cabisbaixos, visivelmente contrariados pela negativa de ajuda de Wanda. Esta, por sua vez, sentia toda a culpa pesar sobre seu peito, quase tirando o ar de seus pulmões por um instante. A expressão de sua amiga era exatamente a que ela imaginava para Visão quando soubesse dos pesadelos. Era como se todas as suas relações estivessem fragilizadas no momento mais único de sua vida.
Wanda olhou para cima e sinalizou com a cabeça para Visão que deveriam sair.
— Olha. – Ela se desprendeu do sintozóide e pegou um dos braços de Natasha entre os seus. – Eu posso não ter nenhuma informação... Conforme a sua intuição... Porém eu sei que vamos descobrir isso. Juntos.
— A mamãe aqui tem razão. – Sam sorriu e segurou o ombro de Natasha. – Não dá para brigar agora. Nem nunca, mas especialmente não agora.
As bochechas de Natasha mostraram as saliências de suas covinhas quando ela sorriu e concordou com a cabeça, sendo a oportunidade de Wanda e Visão se ausentarem um pouco do cômodo. Pediram licença e se afastaram, seguindo reto pelo corredor por onde vieram até acharem uma espécie de sacada com vista para a floresta. Ela recostou em um corrimão, respirando pesadamente.
— Aquilo foi assustador.
Visão segurou suas mãos, apertando suas palmas com força moderada para não a machucar.
— Está tudo bem. Não se preocupe mais. – Disse ele. – Estresse eleva o cortisol e isso pode provocar parto prematuro, Wanda. É algo que queremos evitar.
Por um instante entre as respirações, Wanda sorriu. Ver Visão preocupado com a saúde, dela e dos bebês, era algo que sempre a alegrava, não importava a situação. Desta forma, correspondeu aos apertos nas mãos com um aperto ainda mais forte, mantendo os olhos fechados enquanto sorria.
Visão sorria sem mostrar os dentes, impressionado pela beleza dela. A pele alva de Wanda lembrava uma manhã coberta de neve, porém, quando o sol refletia nas suas bochechas, também lembrava a cálida areia do deserto em uma tarde tórrida. Aquele contraste a representava perfeitamente, pelo simples fato que Wanda era os dois lados da mesma moeda, duas intensidades diferentes que traziam aconchego todas as horas do dia.
Igualmente pensava nessas situações futuras com os filhos. Vê-los acordar pela manhã ao lado de Wanda, em dias de inverno e de verão, sua (talvez?) futura esposa com eles no colo, ou sentada no chão lendo para os dois. Seu sorriso se alargava com o mero pensamento, porém, se enfraqueceu quando pensou estar indo longe demais, e ele tentou manter a expressão neutra enquanto esperava ela se acalmar.
— Certo. – Wanda finalmente abriu os olhos, apenas para se deparar com o olhar de Visão fixo nela. Em anos anteriores, poderia tê-la assustado, porém atualmente não era nem a preocupação mais remota. – Estou bem. Obrigada.
— No cartão de visitas entregue pela Monica, havia a menção da SWORD. – Visão ponderou, o tom de voz mais baixo que o usual. – Não lembro de ter visto o símbolo que estava nos drones, porém. Certamente teria reconhecido.
Um suspiro pesado escapou dos lábios de Wanda, e ele sentiu suas pequenas mãos tremerem.
— ... Acho que não é a SWORD que a incomoda, não é, meu bem?
Wanda torceu os lábios, comprimindo-os em uma linha finíssima, e seus olhos viraram para o lado oposto, observando qualquer coisa que não fosse Visão. Ele moveu uma das mãos para segurar seu rosto e sussurrou algo em sokoviano:
“Fale comigo.”
O coração de Wanda pulou dentro do peito, e uma onda de aninho cobriu todo o seu corpo, da ponta dos pés ao topo da cabeça. Visão sempre possuía alguma surpresa, um truque por baixo da manga, algo que geralmente a deixava bem. Saber que ele se interessara em aprender seu idioma natal, inclusive as complicadas flexões dos verbos, era realmente um gesto de carinho além do que imaginava, e dos seus lábios floresceu um sorriso caloroso, cobrindo todo seu rosto, junto de uma lágrima de alegria.
— Obrigada. – Ela murmurou de volta. – Fiquei emocionada.
Lentamente, Visão caminhou para ficar ao lado dela e a envolveu em um novo abraço, beijando o topo de sua cabeça. Não demorou para Wanda falar, ainda em seus braços:
— O olhar da Natasha quando eu menti, Vizh. Aquilo me quebrou de muitas maneiras diferentes... – Inspirou o ar profundamente antes de seguir: – Eu tinha falado da SWORD com ela minutos antes. Ela percebeu que eu estava mentindo quando disse não saber nada. Ao mesmo tempo, não quero falar com o pessoal, ao menos não ainda. Estou tão perdida, Vizh, que não sei para que lado me viro.
Visão absorveu todas as informações que lhe foram passadas, eventualmente mexendo a cabeça para mostrar que estava compreendendo e acompanhando o raciocínio.
— Você sempre pode se virar para o meu lado, Wanda. Eu estou à sua direita.
— Nunca imaginei ver você fazendo piadas, Vizh. – Ela riu. – Já está pronto para ser um pai piadista e envergonhar seus filhos na frente dos amiguinhos.
Os dois compartilharam uma risada significativa antes de Visão continuar:
— Você percebeu que a Natasha também mentiu?
— Como assim? – Perguntou Wanda.
— Quando Steve perguntou sobre a desconfiança, ela disse ser uma impressão. E mentiu, tendo a possibilidade de dizer a verdade e apontar a conversa de vocês mais cedo. Em termos mundanos, ela poderia tê-la dedurado. – Visão levou uma das mãos ao queixo metálico. – Sendo que a relação dela para com Steve é de confiança há período de tempo consideravelmente maior que o dela para com você.
As palavras dele faziam total sentido para a moça, que balançava a cabeça com os braços cruzados sobre a barriga.
— Você tem razão. Ela realmente me acobertou... Outro termo mundano que você talvez não conheça. “Acobertar” é impedir que alguém se meta em problemas.
— Compreendido. Obrigado, Wanda. Com certeza vou acobertar você em várias situações daqui para frente.
— Não é bem nesse sentido... Mas está ótimo. – Wanda rotacionou parcialmente o corpo na direção dele, usando as duas mãos para ajeitar a roupa humana que ele vestia. – Então qual seria o interesse da SWORD na gente?
— Eu... Infelizmente não possuo teorias para isso. – Admitiu Visão. – Ainda estou trabalhando nisso. Porém, até onde elaborei, pode ser o governo procurando por nós.
Um frio correu pela espinha de Wanda.
— Precisamos conversar com essa mulher, Monica, e saber como nos acharam. – A partir do silêncio de Wanda, Visão continuou: – Teria motivos para desconfiar que a sua natureza Sokoviana fosse suficiente para manifestar o interesse, especialmente nessa chamada “Latvéria” – ele fez um símbolo de aspas com os dedos –, contudo, pelo fato de drones da SWORD chegarem na fazenda, além do ataque na cidadela, tenho desconfiança de ter algo, como uma entidade, ou alguém, nos procurando.
Wanda piscou e concordou com a cabeça.
— Ou seja. – Ela o interrompeu antes que pudesse continuar. – Precisamos buscar Monica e descobrir suas verdadeiras intenções.
— Precisamente.
Não tardaria para seus colegas os procurarem. Os enjoos de Wanda, e eventuais escapulidas para buscar ar, não eram suficientes para escondê-los por muito tempo. Ainda que estivessem distraídos no encontro com Bucky, iriam estranhar a demora no retorno, principalmente quando descobrirem que não estavam no Palácio. Porém não teriam uma chance melhor.
Wanda e Visão se entreolharam, e assentiram com a cabeça um para o outro, ao que Visão mudou sua forma física para o rosto humano e os dois aproveitaram uma brecha para deixar o Palácio despercebidos.
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