O Futuro Está Aqui
18 Dois corações
Notas iniciais
Wanda abriu os olhos lentamente, despertando do sono mais tranquilo que tivera em alguns dias. Provavelmente a viagem e o passeio com Natasha a cansaram mais do que estava acostumada, e ela caíra no sono assim que recostou a cabeça no travesseiro. Seu despertar foi vagaroso, com o sol brando iluminando parcialmente sua cama.
Acariciou lentamente a barriga, uma maneira de desejar bom dia para o bebê, e logo esticou o braço para abraçar Visão, que havia adormecido ao seu lado, apenas para notar que estava sozinha.
Ela franziu o cenho. Para onde ele teria ido?
~.~
Um pouco longe dali, Natasha puxava Visão, disfarçado como um humano, pelo pulso rua abaixo.
— Natasha. – Ele mantinha a voz monótona habitual, e isso deixava Natasha louca de raiva por algum motivo. – Eu não posso abandonar a Wanda assim. Ela vai acordar, e estranhar porque eu não estava ao lado dela.
— Tá, tá, Vis, a Wanda sabe bem se cuidar. – No meio do comércio, Natasha se perdera algumas vezes da loja que vira no dia anterior. Apesar de ser cedo, as lojas abriam nas primeiras horas da manhã, o que facilitava para colocarem o plano em prática. – Você diz que foi dar uma volta ou algo assim.
— Mas, dessa maneira, ela vai achar que não quero a sua companhia, que eu desejo com todo o meu ser e...
— Visão. – Ela subitamente parou e o encarou de frente. – Você está realmente me deixando irritada. Então me deixa achar a loja para a gente voltar o quanto antes para a sua princesa. Estamos entendidos?
— Perfeitamente.
Mais alguns minutos sucederam a busca, até que a expressão de Natasha ficou totalmente iluminada ao finalmente encontrá-la e indicar a vitrine para Visão. Diversos anéis e pingentes brilharam diante de seus olhos, ouro e prata se misturando com pedras preciosas, realmente a destacando no meio das outras lojas.
— É este aqui, Vis.
Visão focalizou seus olhos no anel mostrado por Natasha, observando a argola dourada com um belo rubi por cima. A gema lembrava Visão de Wanda, tanto pela sua intensidade quanto pela coloração que remetia ao seu uniforme (antigo, mas ela chorava quanto pensava naquilo, então ele preferia omitir aquela parte) e seus poderes. Contudo, apesar de temer desestabilizar a animada Natasha, Visão disse:
— Nat, eu agradeço, porém, acho que não é um bom momento para ingressar em um compromisso com a Wanda. Falei disso com o Sam e o Steve algumas semanas atrás.
A sua companhia se manteve neutra.
— Ninguém está falando de você pedi-la em casamento. É apenas um presente. Algo que simbolize o amor de vocês.
Amor. Aquela palavra, sempre que mencionava, parecia derramar óleo quente dentro de seu peito robótico, uma sensação estranhamente boa que ele apreciava todas as vezes em que ocorria. Um sorriso bobo apareceu em seus lábios, e Natasha balançou a cabeça, incrédula.
— Eu não acredito que estou ajudando um robô apaixonado. Um robô. – Ela parecia incrédula. – Deus, como eu vim parar aqui...?
Um vendedor alto, vestindo um terno chique, se aproximou deles para oferecer ajuda.
— Vamos levar esse anel, por gentileza. – Natasha indicou com a palma da mão aberta, sendo que Visão esticou o braço em frente a ela.
— E mais uma coisa. – Ele tinha os olhos fixos em um pingente com uma boneca grávida banhado em prata, bastante discreto. – Quero levar esse aqui também, por favor.
~.~
E foi por isso que Visão chegou um pouco atrasado no quarto de Wanda, flutuando pela parede entre o ambiente externo e o amplo cômodo. Sentada na penteadeira, ela o observou através do reflexo, e somente disse, baixinho:
— Onde você foi?
A expressão dela não era de raiva, mas de descontentamento. Talvez ele tivesse demorado mais que gostaria, e Wanda achasse que ele havia esquecido do ultrassom para o qual ela se preparava desde a véspera em jejum. Seu cenho estava levemente franzido, e ele pôde jurar ter visto seus lábios macios em um beicinho que provocou um sorriso em Visão.
— Feche os olhos.
Wanda estava irritada demais para obedecer, mas, por algum motivo, olhar para Visão sorrindo diminuía aquele sentimento por completo. Portanto, virou-se na direção da penteadeira e acatou a ordem, mantendo os olhos cerrados e estremecendo ao sentir o toque quente da mão da Visão em seu pescoço.
O anel ficara com Natasha, em segurança, para o momento em que fosse ideal entregá-lo. Provavelmente um pedido de casamento. Contudo, naquele instante, desejava apenas celebrar a mulher, e a mãe, maravilhosa que Wanda era. Com todo o cuidado, ele prendeu o colar atrás de seu pescoço, um som de “tec” sob os dedos habilidosos indicando que estava preso por baixo dos cabelos ruivos. Uma rápida carícia nas madeixas antes dele dizer:
— Pode abrir.
Ela lentamente abriu os olhos, levando imediatamente os dedos da mão direita em direção ao pescoço e sentindo os olhos marejarem enquanto Visão recitava, baixinho:
“Metade de mim é tua,
E a outra metade é tua,
Ou minha deveria ser,
Mas se é minha, é tua,
E, portanto, toda tua.”
Do seu lugar, a moça pulou e abraçou Visão fortemente, sendo recebida pelo acalento de seus braços ao redor do corpo. Aquela era sua casa, com a criança em seu ventre e o calor do sintozóide os protegendo de todos os perigos do mundo.
— É William Shakespeare. – Ele comentou, ainda com Wanda nos braços. – O Mercador de Veneza, li na Base dos Vingadores. Pensei em você quando li, mesmo sem imaginar nossa vida futura. – Depois, limpou a garganta. – Achei que seria perfeito para o nosso Billy.
— Quer dizer o Tommy?
Visão franziu o nariz. Eventualmente ele iria ceder, e sabia disso, porém, queria lutar antes de efeticamente desistir.
— O ultrassom é daqui a pouco. Podemos ir? Quero comer logo. – Reclamou Wanda com a mão sobre o estômago.
— Bom, eu estou sem fome...
Com uma rajada avermelhada vinda dos dedos de Wanda, Visão sentiu uma almofada advinda da cama bater em seu rosto.
— Isso é roubo, você sabe.
— Não quando as regras não foram estabelecidas. – Ela piscou enquanto seguia em direção a porta.
~.~
Aquela sala de exames era mais assustadora do que Wanda imaginava.
Em verdade, naquele dia específico, Natasha, Sam e Steve ficaram no palácio de Wakanda para entrar em contato com a SHIELD e ver o que poderiam fazer em questões de segurança, enquanto Wanda e Visão seguiram até uma maternidade em Wakanda para realizar o pré-natal. Seguiram por um pequeno corredor ao lado do hospital, passando para uma ala de exames tão tecnológica que Wanda não pôde evitar de sentir um calafrio.
— Está tudo bem. – Sussurrou Visão, colocando a mão atrás das suas costas. – Eu estou aqui com você.
Wanda assentiu, engolindo em seco quando, vestindo somente um avental, ela deitou sobre a maca e Visão tomou o assento ao lado dela, dando espaço suficiente para o médico se acomodar frente a um grande monitor. A sala não era das maiores, porém tão bem equipada que parecia ser possível de realizar uma pequena cirurgia. As mãos sintéticas de Visão enveloparam os dedos de Wanda para trazer-lhe segurança.
Um médico sorriu ao entrar na sala, vestindo um jaleco com escritos no idioma de Wakanda.
— Boa tarde, senhora Wanda. Senhor Visão. – Seu sotaque era forte, e lembrava vagamente o de Wanda quando se mudara para os Estados Unidos. – O Rei T’Challa me solicitou que fizesse o seu ultrassom. E ele me deixou ciente que o senhor é um sintozóide, se preferir não usar o disfarce humano.
Visão assentiu e tornou-se novamente um robô em um piscar de olhos. O médico não parecia muito impressionado, talvez pelo contato direto com tecnologia por tanto tempo.
— A senhora está grávida de... Cinco meses, mais ou menos? E é o seu primeiro acompanhamento? – Wanda concordou com a cabeça. – Perfeito. Vou pedir alguns exames de sangue também, para termos um panorama daqui para frente.
Ele pegou o aparelho e dispôs um pouco de gel.
— Você vai sentir um geladinho na barriga, certo? – Foi gelado o suficiente para ela estremecer no lugar, mas a sensação não era ruim. – Vou deslizar um pouco para ver como estão as coisas com o bebê.
Silêncio sucedeu a explicação, com o monitor completamente virado para o doutor responsável pelo exame. Visão estava ansioso, e ocasionalmente apertava a mão de Wanda para tranquilizá-la, enquanto, na verdade, queria tranquilizar a ele próprio. Não demorou para o médico abrir um largo sorriso.
— Aguardem um minuto. Preciso que vejam algo.
Os futuros pais se entreolharam, sendo que o médico retornou brevemente com outro aparelho, o qual acoplou ao principal do ultrassom. Um novo deslize pela barriga de Wanda, e ele aumentou o som do dispositivo.
Um coração batendo.
Wanda praticamente perdeu o ar ao ouvir aquilo; e, apesar de Visão usualmente ter contato com o batimento cardíaco do bebê, era surreal escutá-lo junto de Wanda.
O som rapidamente cessou, e, depois de alguns segundos em total silêncio, o forte batimento voltou a soar.
— Novamente? – Questionou Visão.
Por sua vez, Wanda sentiu uma lágrima escorrer por sua face.
— São dois corações. – Ela sussurrou, segurando o pingente que ganhara de Visão com força entre os dedos da mão livre.
— Exatamente. – O médico virou o monitor para eles. – Vocês estão esperando dois meninos saudáveis.
Boquiaberto, Visão logo trocou sua expressão para um sorriso enquanto aninhava sua cabeça na cabeça de Wanda, segurando firmemente a sua mão.
— Eu sabia. – Ele sussurrava, sentindo a emoção e a felicidade cobrir todo o seu corpo. – De alguma maneira, eu sabia.
O choro de alegria marcava o rosto de Wanda quando ela pensou no que eles passaram até chegar lá. Os esconderijos, a casa, o quarto que aos poucos se tornava dos filhos. Thomas e William. Em breve, precisariam de mais um berço para acomodá-los, a felicidade em dobro que preencheria todos os dias de suas vidas.
— Tommy, Billy. – Wanda chamou bem baixinho. – A mamãe ama muito vocês.
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