O Futuro Está Aqui
3 Amar ≠ Sufocar
Notas iniciais
Sob seus pés planando na atmosfera, havia apenas a mata exuberante e o farfalhar do vento movimentando o local. As copas altas das árvores exibiam folhas verdes, anunciantes da primavera, ainda que os humanos os quais viviam ao seu redor considerassem o tempo frio e buscassem se agasalhar. Visão flutuava com graça, deixando o corpo tão leve quanto uma pena para se equilibrar no ar, e não notou quaisquer ameaças naquele local.
Inclusive, observando a imensidão ao redor dele, Visão sentiu somente a calma. Paz era a melhor definição. Entre as árvores existiam eventuais clareiras, um rio cortando ao sudoeste e uma vila no horizonte, longe o suficiente para não causar problemas. Porém, uma pequena cerca ao norte chamou a atenção de seus olhos aprimorados e, por conseguinte, ele calmamente desceu e encostou os pés no solo, retornando à densidade normal.
— A área é bastante extensa, sem maiores ameaças. Contudo, notei uma cerca ao norte, a qual creio ser prudente olharmos mais de perto.
— Ótimo, Visão. Obrigado. – Disse Steve Rogers antes de tornar o olhar para Sam Wilson. – O Asa Vermelha pode cercar o perímetro?
— Pode deixar, chefe. – O Falcão mexeu em alguns dispositivos no seu braço para liberar o drone de suas costas, e Visão franziu o cenho.
— Capitão Rogers. – Falou o sintozóide, consternado enquanto via o equipamento se afastar silenciosamente diante de seus olhos. – Eu posso cercar o perímetro no lugar do Asa Vermelha, se preferirem.
— Nada disso, Visão. – O Capitão América respondeu. – Gostaria que você caminhasse conosco, assim podemos conversar enquanto patrulhamos.
Então, quando Sam se posicionou à sua esquerda, Visão viu-se entre dois heróis e antigos colegas dos Vingadores originais, que, mais do que isso, tornaram-se o mais próximo de amigos que ele supôs ter em sua vida inteira. Suas habilidades o permitiam voar rapidamente entre distâncias e flutuar até a mais alta montanha do Planeta Terra, porém, naquele momento, preferia andar vagarosamente lado a lado com eles.
— Então, Vis. – Disse Steve após caminhar alguns metros na densa mata do bosque, uma maneira singela de se tornar um pouco mais próximo. – Qual é o seu relacionamento com a Wanda?
— Como assim? – Respondeu um confuso Visão.
— Você sabe… Eu lembro dos dois se encontrando em Wakanda. Depois viajando pela Europa. E, por fim, ela nos aparece grávida. – Steve pigarreou. – Você já tinha pedido ela em namoro?
Sam permaneceu calado, apenas observando a conversa entre os colegas de equipe, e pôs uma mão sobre o queixo enquanto analisava as palavras trocadas.
— É preciso… Pedir alguém em namoro?
Os olhos azuis de Visão estavam fixos no Capitão América, pessoa por quem possuía extrema consideração e considerava um exemplo de humanidade. Durante a Guerra Civil dos Vingadores, apesar de estarem em lados opostos, ele sempre mantivera o respeito com o colega.
— Logicamente. E você precisa dizer a palavra com “a” também.
— Steve, acho que não é uma… – Sam tentou intervir, mas foi parado pela voz metálica de Visão após uma fração de segundo raciocinando.
— Dizer… Que eu a amo?
— Perfeitamente.
As folhas sob seus pés quebravam à medida que pisavam sobre o solo, e este foi o único som que Visão escutou por alguns metros enquanto pensava em uma resposta. O sintozóide jamais havia perguntado se Wanda aceitaria namorar com ele, por julgar que namoros eram uma mera extensão da amizade e, tendo em vista a união crescente de ambos, julgou estarem nesse estágio de relacionamento automaticamente. Ainda, eles sussurraram promessas de jamais se abandonarem, mas ele não lembrava de ter alguma vez dito que a amava. Seus sistemas internos não lhe forneciam respostas concretas para as perguntas do Capitão.
Ao perceber que Visão estava incomodado, Sam adentrou a conversa:
— Vis, não liga para o vovô aqui. – Ele deu um tapinha amigável no ombro do colega. – Ele é muito antiquado e tem pavor de “relacionamentos modernos”.
Sam riu enquanto simulava as aspas com as mãos, e Steve resmungou.
— É só que ter filhos é um passo muito à frente do normal. – Terminou Steve, indicando com os dedos que eles deveriam seguir em frente. – Normalmente, as pessoas se casam, e depois planejam aumentar a prole.
Visão parou, deixando os dois andarem poucos metros sem ele. Ao perceberem que o sintozóide havia ficado pelo meio do caminho, eles se viraram na direção do colega, todavia, antes de perguntarem o que houve, o mesmo indagou:
— Vocês acham que eu devo pedir a Wanda em casamento?
O rosto de Steve se iluminou:
— Sim, eu acho que você deve pedir a mão dela. Formalizar a união!
Foi a vez de Sam ficar no meio de ambos, ponderando como a voz da razão que geralmente era:
— Pessoal. – Disse, colocando uma mão no ombro de Visão, e outra no ombro de Steve. – Vocês não acham que isso vai assustar um pouco a Wanda?
— Assustar? – Visão questionou.
— Perguntar algo tão importante agora pode deixar a coitada ainda mais nervosa. Ela engravidou em uma época ruim, em que estamos todos na corrida contra os Tratados de Sokovia. O que adiantaria vocês casarem se nem uma festa podem ter?
Ambos absorveram cada palavra dita, e refletiram em silêncio.
— Você ama a Wanda, Visão?
Assim que Sam finalizou a pergunta, Visão instantaneamente respondeu:
— Com cada fibra do meu ser. – E depois, ponderou suas palavras. O que significaria “amar” no sentido totalmente humano da palavra? Tudo o que ele sabia é que precisava proteger a ela e ao bebê. E que seus sentidos iam para o espaço quando eles se beijavam. E que o sorriso de Wanda iluminava todos os seus dias mais que o sol. E que todos os momentos ao lado dela eram especiais, dos mais simples aos mais especiais. Tudo que eles viveram e ainda viviam se tornava especial. Isso era o que ele reconhecia como “amor”.
Visão não falara disso com ninguém, mas Wanda lhe proporcionou uma vida. Uma vida de verdade, que não envolvia salvar o universo. Desde que descobriram sobre a gravidez, sua perspectiva mudou radicalmente e ele visava proteger seu pequeno mundo; a sua “familie”, como ouvira a moça sussurrar algumas vezes, achando que ele não prestava atenção.
— Se você a ama, Vis – continuou Sam –, você precisa deixá-la respirar. Não sufocar ela com perguntas sobre compromisso. – Ele soltou o ombro de Steve e colocou uma mão em cada braço de Visão. – Por favor, não me entenda mal. Eu quero a felicidade do mundo para vocês. Mas agora não é ideal para um passo tão grande. Você entende o que estou dizendo?
— Perfeitamente, Sam.
Tanto o Falcão quanto o sintozóide viraram a cabeça e encararam Steve, o qual levantou as palmas das mãos e admitiu sua derrota:
— O Sam está certo. Não vou mais incomodar com isso. – Como líder nato, ele fez um sinal com a mão para que seguissem caminhando. – Mas não descarte a ideia por completo, apenas deixe reservada para um momento oportuno.
Os próximos metros se transformaram em quilômetros silenciosos. Nem mesmo eles sabiam a extensão total de terra adquirida por T’Challa, contudo, respiravam aliviados por ser um local seguro para montarem uma Base de Operações, ainda que provisória; podiam, desta maneira, separar as missões e proteger a futura mamãe do grupo. O coração sintético de Visão pareceu bater mais rápido quando pensou em Wanda, grávida, e no beijo que deu em sua testa quando saiu para patrulhar.
— E como vocês acham que eu deveria dizer para a Wanda que a amo?
Sam riu em voz alta.
— Visão, isso não é algo que se planeja. Só… Vai sair naturalmente. Um dia, você vai vê-la cozinhando ou sorrindo enquanto lê um livro e vai dizer, “eu te amo”.
Subitamente, um alto barulho de choro atravessou a audição ultra sensível de Visão; e ambos Steve e Sam somente viram o dourado de sua capa riscar o céu quando ele rapidamente voou em direção ao norte. Mais que nunca, seus sentidos estavam eriçados para descobrir a origem daquele gemido.
“Por favor, que não seja a Wanda” foi seu último pensamento antes de se aproximar da fonte do agonizante barulho.
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