O Futuro Está Aqui
4 Não Serve Mais!
Notas iniciais
— Wanda! – Uma exclamação percorreu o ambiente junto de uma batida na porta. – Ainda demora muito aí?
Natasha batucou o pé direito no piso de madeira, impaciente. Naquele momento, ela se encontrava completamente vestida com sua roupa de espiã enquanto aguardava sua amiga mais próxima e colega de equipe terminar de vestir as roupas de super-heroína feitas sob medida para ela.
Porém, essas roupas não eram a prova de gravidez.
— … serve mais, Nat!
Sem compreender o que era dito, Natasha franziu o cenho enquanto se aproximava da maçaneta, e bateu mais uma vez na porta somente pelo capricho de anunciar sua entrada, pois forçou a abertura do minúsculo toalete que as duas compartilhavam.
— Não serve mais, Nat! – Choramingou Wanda. – Meu corpete não fecha mais!
— Oh, céus.
Sentada no chão em frente ao vaso sanitário, Wanda tentava, sem sucesso, amarrar seu corpete na altura da crescente barriga. Natasha notou que os seios dela, apesar de firmes dentro da peça de roupa, restavam praticamente esmagados pelo tecido reforçado, bem como a calça legging preta alcançava somente um dedo acima da barra superior de sua calcinha. A situação, realmente, não era nada favorável para a futura mamãe.
— Wanda, o treino de hoje está suspenso.
— O quê? – A outra protestou enquanto levantava do chão e segurava, ao mesmo tempo, o corpete pendente em seu corpo. – Você não pode simplesmente cancelar meu treino!
— Eu posso e eu vou. – Natasha começou a tirar a roupa de espiã quando se aproximou de sua cama, buscando uma blusa e uma calça jeans. Wanda, que estava logo atrás, se sentiu um pouco desconfortável em vê-la seminua, mas logo chacoalhou a cabeça e continuou firme em seu lugar.
Percebendo que Wanda insistia em realizar um treinamento, Natasha suspirou.
— Caso um inimigo apareça, você está proibida de enfrentá-lo com a barriga à mostra. Um golpe, por mínimo que seja, traz riscos seríssimos de aborto. – Wanda engoliu em seco enquanto ela passava ao seu lado. – Por isso, no lugar do treino tradicional, nós vamos ao centrinho comprar algo decente para você se proteger.
Os olhos de Wanda brilharam – ela não tinha permissão de ir ao centrinho desde que se mudaram para a velha casa.
— Você jura?
Ela parecia um cãozinho animado, com o mais lindo sorriso estampado em seu rosto, arrancando uma gargalhada de Natasha.
— Sim, eu juro. Mas nada de baixar a guarda, você vai colocar em prática algumas lições de espiã. – Ela puxou um pedaço de papel e uma caneta da mesa de cabeceira, e logo terminou suas ordens: – Coloque um vestido confortável enquanto eu escrevo um bilhete para os meninos.
Wanda prontamente obedeceu e deixou o quarto em seguida. Logo, ela havia trocado a roupa de Vingadora por algo mais confortável, um vestido preto com pequenas flores, sentindo um alívio instantâneo ao deixar os seios e a barriga soltos na vestimenta. Com o olhar de pesar, porém, ela guardou seu uniforme em uma mala sob a cama de casal que dividia com Visão, incerta de quando o usaria de novo. Somente desabrochou um pequeno sorriso quando viu o corpete a legging dobrados junto das outras roupas que já não serviam mais, uma maneira de acreditar que vesti-las novamente não demoraria tanto quanto ela imaginava.
O casaco vermelho de mangas compridas que ela usava em combate, todavia, ficou esticado sobre a cama. Wanda observou-o com o canto dos olhos, cogitou a hipótese de guardá-lo em segurança na sua mala, mas logo desistiu da ideia. Pelo menos, uma parte dela permaneceria original.
~.~
Visão se aproximou da cerca a qual havia visto mais cedo para distinguir o alto som de choro para o grunhido de um animal em apuros. Precisamente, uma cadela estava presa no arame farpado e se debatia freneticamente tentando sair. Aquela região possuía algumas fazendas antes de se tornar uma única casa com um terreno gigante cercado por natureza, então, era apenas comum que alguns animais ainda se encontrassem perdidos pela região.
Quando Steve e Sam chegaram próximo do local onde seu colega se encontrava, viram o sintozóide segurar a cadela com firmeza para evitar dela se machucar ainda mais no arame, e sua voz metálica se limitou a ordenar:
— Segurem ela.
Os dois instantaneamente acataram:
— Shh, shh… Calma, garota. – Disse Sam ao senti-la se mexer ainda mais entre seus braços.
Visão tornou as mãos intangíveis e passou-as no meio do arame farpado, arrebentando-o com toda a força disponível em seus fortes braços para finalmente libertá-la. Ao se perceber livre daquele impedimento, a fêmea correu, mesmo com o tronco cortado e machucado devido ao arame. Foi a vez de Steve, líder do grupo, sugerir:
— Vamos ver se ela precisa de alguma ajuda com os ferimentos.
O trio seguiu a cadela de grande porte pela entrada da floresta, Sam e Steve caminhando devagar enquanto Visão flutuava a poucos centímetros do chão. Quando a avistaram, porém, perceberam que ela não estava sozinha; junto dela, abaixo da copa de uma árvore, havia uma matilha formada de cachorros iguais a ela, todavia, menores do que ela. Seus filhotes.
Sua “familie”.
O sintozóide do grupo suspirou ao ver a cena, sorrindo. A cadela lambia suas pequenas cabeças enquanto amamentava outros dois filhotes. Eles latiam, desengonçados, uma maneira de chamar a atenção da mãe. Não era Wanda, como ele temia, mas outra mãe que precisava de ajuda urgentemente para retornar à sua casa. Não era uma casa confortável, todavia, a árvore fornecia a proteção necessária naquele momento.
De alguma maneira, era como se a natureza tentasse sinalizar algo para ele.
— Visão, parceiro. – Perguntou Sam, pondo uma mão sobre as suas costas. – Você está bem?
— Nunca estive melhor. – Ele respondeu, o sorriso cedendo devagar à uma expressão mais séria. – Apenas com uma vontade imensurável de voltar para casa.
~.~
Wanda respirou, esbaforida, quando sentou em uma cadeira no centrinho da cidade e apoiou os braços em uma pequena mesa branca, em frente a um bonito café praticamente vazio. Com as sacolas nas mãos, Natasha se aproximou e sentou em uma cadeira próxima, dizendo:
— Vou pedir dois cafés.
A outra a observou com o canto dos olhos.
— Não vou contar pro Visão, relaxa. – Natasha acomodou as sacolas sob a mesa. – Volto logo. Lembre-se das lições.
Wanda assentiu, observando Natasha por cima dos ombros enquanto respirava devagar. Apesar de não caminharem tanto assim, ela estava há semanas confinada na casa, somente saindo para meditar uma vez por dia e andando nos corredores. Era difícil se acostumar novamente ao ritmo de Natasha, especialmente com a barriga começando a ficar pesada. Em silêncio, ela pediu mentalmente para o bebê não se mover tanto, para não cansá-la ainda mais.
Uma brisa fresca balançou alguns fios dos cabelos ruivos ao tempo que ela examinou o ambiente à sua volta: a cidade era minúscula, bastante voltada para o turismo que, naquela época, estava escasso. À sua esquerda havia o café, e à sua direita o chão de pedras se estendia em um mosaico até o meio de uma praça com um chafariz enorme e várias pequenas lojas de artesanato local.
Foi em uma dessas lojas, que vendia roupas feitas à mão, que Wanda e Natasha acharam um substituto perfeito para o corpete apertado: uma bata em tom vinho que cobria perfeitamente sua barriga, mantendo uma folga para mais alguns meses de crescimento da barriga. Por garantia, elas trouxeram mais algumas, um pouco maiores, caso precisassem nos meses finais. A senhora simpática que cuidava da loja parecia impressionada por elas comprarem roupas para tantos meses, mas, como estava vendendo bem em tempos de crise, resolveu não perguntar.
Em outra loja, porém, não tiveram a mesma sorte, com a vendedora perguntando vários detalhes sobre a gravidez de Wanda enquanto ela provava calças atrás de uma cortina. Natasha se limitava a responder com monossílabos, já que a colega ainda estava insegura em esconder seu sotaque Sokoviano com o americano que vinham treinando. Quando a mulher inconveniente às questionou sobre levarem tantas calças maiores, Wanda fez um esforço descomunal para dizer:
— Tenho muito enjoo. Ando vomitando bastante… Isso suja as roupas, sabe?
A mulher terminou de passar suas compras em silêncio.
Dando alguns passos de distância da loja, Wanda e Natasha gargalharam, com cuidado para não chamar atenção. Depois, ela andaram pelo local para buscar mais algumas coisas, como produtos de limpeza e roupas para os demais integrantes da equipe, até Wanda se sentir cansada demais para continuar, e procurar um lugar para se sentar antes que sentisse ainda mais fraqueza.
Seus pensamentos foram imediatamente cortados pela presença de Natasha ao seu lado, retornando com duas grandes xícaras de café equilibradas nas mãos. Wanda instantaneamente olhou para cima, deixando a treinadora orgulhosa:
— Você está indo bem. Observou o perímetro, reagiu rápido quando eu cheguei. Ótimo trabalho!
— Obrigada. – Sorriu Wanda enquanto bebericava o café, feliz por finalmente tomar um pouco de cafeína. Visão dizia que muito café poderia acelerar o bebê… Mas um pouco de vez em quando não faria mal.
Quando colocou a xícara de volta na mesa, Wanda sorriu, pensativa. Natasha logo perguntou:
— Lembrou de algo engraçado?
— Quando eu descobri que estava grávida, também fui a uma cafeteria com o Vizh. – Natasha inclinou o corpo para frente, interessada na história. – Foi a primeira vez que senti um desejo de comer algo diferente, então peguei três fatias muito doces de torta e um chocolate quente para beber.
— Isso não deu bom resultado, imagino. – Riu a colega.
— Não, eu desmaiei depois disso. – Wanda acariciou a borda da xícara com a ponta dos dedos. – Mas estava pensando agora que tive dois momentos especiais em cafeterias diferentes. Na companhia dele, e agora na sua. – Ela sorriu com o olhar baixo. – Isso me deixa feliz.
Natasha pegou a xícara com uma mão e sorriu enquanto bebia seu conteúdo, sorrindo para Wanda enquanto esticava o braço livre para acariciar gentilmente as costas de sua mão. Seus momentos especiais estavam longe de acabar.
~.~
Quando o restante dos Vingadores Ocultos voltou à casa, Visão sentiu imediatamente a sensação de solidão ao não encontrar Wanda sorrindo para ele. Ele pensava na cadela machucada e nos filhotes que viram anteriormente, o desespero tomando conta de seus sistemas enquanto flutuava pelos cômodos da casa tentando encontrá-la, sem sucesso.
Visão entrou no quarto que dividia com Wanda somente para encontrar sua jaqueta de combate estirada sobre a cama. Ele se aproximou, devagar, e sentou na beirada do colchão com o corpo virado para a janela, pegando a peça de roupa vermelha nas mãos e levando-a em direção ao seu nariz.
Ele não era capaz de reconhecer cheiros sem que sua mente rodasse um diagnóstico da origem e composição da essência, mas ele aprendera a ignorar aquilo quando o aroma era emanado por Wanda ou pelas suas roupas. Diversas vezes ele a vira lutar com a esvoaçante jaqueta em suas costas, admirando-a sempre pela força, coragem e, por que não, pela beleza que ela e seus poderes exibiam em combate.
Era comum que Wanda detestasse seus poderes. Todavia, Visão tentava prová-la do contrário todas as vezes, pegando suas mãos e pulsos e beijando-os com todo o carinho que conseguia externar através dos lábios sintéticos. Ela parecia se sentir um pouco melhor, sempre procurando seus braços para se encaixar neles após a demonstração de afeto. Desde que descobriu a gravidez, Visão não havia mais constatado a raiva pelas habilidades, sendo trocada por mera indiferença.
Ele inalou novamente o aroma místico advindo da jaqueta, uma mistura de folhas com a primavera brotando na terra, e segurou com força a jaqueta entre seus dedos, mantendo-se parado até escutar uma batida na porta, forçando-o a olhar para trás.
— Elas não estão em casa. – Disse Visão friamente para Sam, que se aproximava dele.
— Eu sei. – Sam sorriu. – Vim avisar que achamos um bilhete da Natasha avisando que elas precisaram ir ao centro da cidade comprar alguns itens faltantes.
— Certo. – Visão levantou e andou em direção à porta. – Vou encontrá-las para ver se necessitam de ajuda.
— Não vai, não.
Steve bloqueou a porta, encostando um dos braços fortes na madeira enquanto a mão oposta segurava a maçaneta.
— Capitão Rogers. – Disse Visão, cordialmente. – Eu gostaria de encontrá-las, por favor.
— Visão, lembra do que estávamos falando mais cedo? Sobre não sufocar? – Respondeu Steve. – Eu sei que você vai ficar agoniado aqui, mas é melhor deixá-las se virarem um pouco.
— Mas não seria um gesto cavalheiro buscar as compras para elas? – Perguntou Visão.
Steve apenas sorriu.
— Talvez fosse nos anos 1960. Não mais.
Visão baixou o olhar, pensando na cadela machucada em seus filhotes. Pensando em Wanda com a barriga crescendo cada vez mais, e no quanto queria protegê-la. Eventualmente, ele cedeu, e foi buscar se distrair com afazeres da casa enquanto a sensação de angústia oscilava em seus sistemas internos.
A apreensão de Visão, porém, impediu-os de ver a cerca em que a cadela ficara presa mais de perto; e eles estavam muito longe para ouvir um baixo som de “beep” em um dos arames presos na madeira.
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