O Fogo do Ártico
3 A verdade do coração
Notas iniciais
Entrei na sala do trono e não havia ninguém lá. Pensei se o guarda não havia se engando, mas ouvi uma voz.
— Karine? – chamou a voz masculina.
— Ka-the-ri-ne! – exclamei soletrando irritada.
— Calma! – ele falou chegando perto de mim.
— Eu não vou ficar calma! – gritei.
— Por quê? – ele perguntou segurando minha mão.
— Me larga! – gritei soltando minha mão da dele.
— Você sabe que não pode evitar o que é inevitável! – falou segurando meu rosto.
— Eu não vou casar com você Bryan! – gritei fazendo até mesmo minha voz ecoar pelo salão e empurrando ele para longe de mim.
— Prefere que todo o povo dessa cidadezinha sofra? – perguntou em tom de ameaça.
Atirei uma lâmina em sua direção. Esta atingiu seu cabelo, próximo à orelha e atingiu a parede.
Um silêncio gélido tomou conta do lugar. O ar tinha uma mistura de diferentes sensações... Medo, pavor, raiva, desprezo, susto, rancor, amor, lembranças vindo à tona...
O clima estava muito tenso...
— Nunca mais me ameace! – gritei.
— Você sabe com quem está falando? – perguntou retoricamente também elevando seu tom de voz.
— Com um garoto mimado! – respondi na cara dele.
— Não ouse falar assim comigo! – ele gritou.
— Só vou avisar mais uma vez! Não me ameace! – falei apontando uma flecha para ele.
— Eu também vou avisar uma coisa! – ele falou segurando a flecha e tirando-a da minha mão. – Eu vou vencer essa batalha e a guerra... Porque você não tem escolha!
— Você vai ver como eu tenho escolha... É só esperar, Bryan!
— Eu vou esperar! – falou provocativo. – Só pra provar que eu estou certo...
Saí do salão bufando de raiva! Quem ele pensa que é? Eu nunca! Nunca! Vou me casar com ele!
Acabei parando no corredor. Lembrei-me de porque eu tinha que me casar com ele: porque eu era obrigada...
5 anos atrás
Nunca fui com a cara daquele americaninho com quem eu era obrigada a brincar, ele era fresco demais! E um guerreiro não pode ser fresco! Haja paciência!
Eu fugi dele e comecei a andar pelo palácio. Dei de cara com a sala de reuniões e ouvi a voz do rei e da rainha pela porta que estava entreaberta.
Eu ia entrar para falar para o rei e para a rainha que não queria mais ver a cara daquele mimado chato! Mas quando encostei a mão na fechadura ouvi meu nome...
— Katherine é apenas a guerreira!
— Preferem dar a mão de sua filha? – perguntou uma voz masculina.
— Ela recusaria! – exclamou a rainha.
— Então a guerreira é a única escolha de vocês... – falou uma voz feminina.
— A guerreira é uma guerreira! Não vai aceitar se casar! – gritou o rei.
— Se ela não se casar com o Bryan o tratado de paz estará desfeito, e aí sim Laypry irá entrar na maior guerra que já viu! – ameaçou a voz masculina.
— Sugiro que preparem a cabeça da jovem desde agora... – sugeriu a voz feminina. – Isso se não quiserem que esse povo sofra!
Risos ecoaram pelo ambiente...
Encostei-me à parede e desatei a chorar, assim como naquele dia. Sem esse casamento Laypry e todo o seu povo iram sofrer com a guerra.
Como guerreira era meu dever impedir isso e protege-los.
Colocar a verdade da vida acima da verdade do coração. Colocar os outros acima de você mesmo.
E por isso eu sou obrigada a casar com aquele mimado sem sal...
...
Mesmo que meu coração bata mais forte por outra pessoa.
Mesmo que meu corpo queira me ordenar a fugir desta realidade em que vivo.
Mesmo que o verão e a primavera sejam cobertos por uma camada espessa de neve.
Mesmo que o sol nunca mais nasça no meu coração.
Mesmo que algum dia eu esqueça o que é ser feliz.
...
Como guerreira, nem sempre a minha vontade vai valer. A verdade é que o povo é apenas protegido, mas não sabe disso... Tudo é escondido deles...
Pois se o povo descobrir que existem guerras em Laypry o pânico tomará conta de tudo e o caos só irá piorar a situação.
Mas quem realmente sofre... Sãs os guerreiros!
Nessa geração, Eu, Natan e Valery...
Mas acima do povo, quem eu não posso fazer sofrer são eles! Eles são meus irmãos... Minha família!
Por mais que eu queira não posso fugir e deixa-los na mão...
Por mais que eles me apoiem e digam que vai ficar tudo bem...
Por que eu sei que a verdade é que serei condenada a morte se fizer isso e eles também vão sofrer demais...
— Kate! – chamou uma voz conhecida tocando meu braço. – Você tá legal?
— Não me deixe! – falei pulando em cima da pessoa, abraçando-a e chorando. – Por favor, Natan!
— Por que eu faria isso? – ele perguntou retribuindo meu abraço.
— Me prometa! Apenas me prometa! – falei entre o choro afundando minha cabeça em seu ombro.
— Claro que prometo! – ele falou, e isso me deixou mais aliviada.
— Eu te amo, sabia? – perguntei parando de chorar.
— Eu também Kate...
— Katherine! – corrigi.
— O que?
— Existem várias Kates, mas eu tenho certeza que só uma Katherine...
— Que é você! – ele falou depositando meu rosto em suas mãos e dando um beijo na minha testa.
Que sensação boa... Uma sensação de segurança! Como é bom estar com meu irmão...
— Natan...
— Sim?
— Posso confiar em você? – perguntei receosa.
— Claro que pode! – respondeu como se aquilo fosse óbvio.
— É sério! – falei o encarando.
— O que houve? Você está me deixando preocupado...
Respirei fundo... Ok! Está na hora da verdade...
— Eu vou me casar! – falei de uma vez.
— Você vai o que?! – ele gritou se levantando.
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