O Fogo de Eloin
2 II - A Luz Que Reina As Trevas - Parte I
Notas iniciais
A Floresta de Ghy não era tão segura como é nos nossos dias. Apesar de não o saber, Mochk estava a ser seguido pelas Criaturas da Floresta, bestas tão grandes como cavalos, com a força de um boi enraivecido e com a inteligência de um homem. Mochk estava à beira da morte e a constante sucessão de pinheiros cobertos de neve, a estrada maltratada e a fome não o ajudavam a manter a sua presença de espírito. Mochk partira da aldeia de Syl’t, que ficava no supé das Montanhas de Syl e junto ao Rio Prata, há doze dias. Estava no local mais isolado do reino que encontrara, e, ao contrário dos invernos de Merrean, a neve caía constantemente, o vento era forte e gelado e parecia que todos os animais tinham partido. A paisagem sempre igual da Floresta fazia-lhe crescer a ideia de que estava perdido, e a neve que caía, agora, com mais afinco não o deixava ver o caminho há sua frente.
Foi no décimo quinto dia de viagem que Mochk decidiu, por fim, sucumbir. Deitou-se num buraco que escavara na neve, que já atingira os cinquenta centímetros de altura, tapou-se com o seu cobertor que se começava a desfazer e esperou pela Morte. Ele nunca fora um rapaz corajoso, e sabia que nunca iria conseguir chegar com vida a casa. Mochk esperou, esperou e esperou. Esperou durante dias, e dormiu por quase todos eles. A Morte não veio, mas ele manteve-se no seu nicho.
Era já o décimo quinto dia do novo ano quando Mochk se levantou e olhou em volta, na esperança de encontrar a Floresta com menos neve e menos árvores, e de se encontrar mais próximo da aldeia de Elv. Era com desilusão que se apercebia que não estava, que, se estava mais próximo de alguma coisa, era do Coração de Ghy, onde as Bestas Inomináveis habitavam e onde nenhum homem que lá entrara saíra com vida.
Tarde de mais apercebeu-se do silêncio assombroso que o rodeava. Apercebeu-se que era impossível ter sobrevivido todos aqueles dias sem beber nem comer. Pensou que estava morto. Olhou em redor e, no crepúsculo da noite, viu olhos brilhantes a olharem para ele. Viu dentes que pareciam facas de talhante a brilharem com a luz da lua cheia daquela noite. As Criaturas da Florestas, as Bestas Inomináveis, os Demónios do mundo estavam a guarda-lo, e Mochk sentiu medo. Engoliu em seco e deu um passo para trás inconscientemente. Os silvos dos seus novos companheiros ecoaram de forma arrepiante no silêncio paranormal daquela noite.
Fechando os olhos, Mochk rezou para que a sua morte fosse o mais rápida e indolor possível. E, novamente, esperou que a Morte chegasse. E, mais uma vez, a Morte falhou o seu compromisso e Mochk continuou vivo, de olhos fechados, rodeado das mais temíveis criaturas. Abriu os olhos e viu que elas se tinham aproximado. A Criatura mais próxima dele parecia humana, não fossem os seus olhos completamente negros e a sua pele vermelha como o sangue fresco. Os dentes de tal criatura eram brancos como a neve que os rodeava e os seus cabelos da cor do musgo. Contou pelo menos vinte humanoides e três demónios que eram, sem sombra de dúvida, um cruzamento entre um cavalo e um homem. Mochk não proferiu nenhum som, petrificado com o que se erguia diante dele.
Foi quando as criaturas já estavam tão perto dele que Mochk sentia já o sopro das suas respirações asmáticas, que uma luz amarelada os iluminou. Podiam observar-se os contornos de uma moça, as suas curvas acentuadas e os seus cabelos que permaneciam estáticos apesar do forte vento gelado que se fazia sentir.
– Argn-nic. Al-ve ugj-zic. – disse ela, que significa “Eu cuido dele”, para as Bestas Inomináveis. Mochk não reconheceu o dialeto e pensou que se tratasse de uma língua que só as Bestas falavam.
– Id arsd vun Som. – “Como a Senhora quiser”, respondeu a Besta de pele vermelha, que desapareceu ao acabar de proferir aquelas palavras que soavam demoníacas aos ouvidos de Mochk, apesar de ele nunca ter, na sua curta vida, ouvido nada parecido a um demónio falar. Uma a uma, as Bestas foram desaparecendo, e só restou a Moça Iluminada.
– Quem és tu humano? – perguntou com o seu sotaque, que fazia com que algumas das vogais fossem pronunciadas num tom mais gutural.
– Mochk, Primeiro de Meu Nome, O Filho Pródigo, O Príncipe Perdido. – apesar de não saber se haveria de confiar naquela moça que ainda só era feita de luz, decidiu que o melhor seria contar-lhe a verdade sobre a sua identidade. Se morresse, ao menos alguém saberia que morrera como um príncipe e não como um plebeu anónimo.
– E o que faz o príncipe de Merrean tão longe de casa? – o sotaque dela desapareceu completamente, e Mochk apercebera-se do seu erro. Ela era uma bruxa, quem sabe uma das Sete, as criaturas das Terras Proibidas que atravessaram o Rio Prata para atormentar as gentes do Reino de Meere.
– Ele busca o caminho de retorno à sua real casa em Merrean. – a figura de luz aproximou-se dele e ele pode sentir o calor que dela emanava. Era um calor humano e ao mesmo tempo parecia-lhe divino, como se a criatura que tinha à sua frente fosse uma divindade que vinha em seu auxílio.
– E estará o Príncipe pronto para voltar a casa? Sabe ele o que lhe espera, depois de viver tanto tempo longe dos seus iguais? Depois de viver em Syl’t, o ponto mais distante do palácio e de todo o reino?
– O que quer insinuar? – Mochk agora estava arreliado com o que a luz lhe dizia. Ela tinha, certamente, toda a razão. Estivera afastado durante demasiado tempo, e Syl’t era um local remoto, onde as notícias chegavam com anos de atraso. E se tudo o que ele conhecera em Merrean tivesse desaparecido da face do mundo sem que ele se desse conta? E será que, se chegasse a Merrean e o deixassem entrar no Palácio, acreditariam os seus pais nele? Será que Mochk acreditava em si mesmo?
– Hyu-lax Al-va, será que o Príncipe não sabe? Em Syl’t não o avisaram? – a luz afastou-se enquanto gargalhava de forma jovial – O Reino está em perigo. – disse ela depois de se afastar, e Mochk conseguiu por fim ver os seus olhos da cor do fogo, que o olharam diretamente – Ainda ninguém sabe, nem mesmo quem o causará. Mas tu és a nossa única salvação. – a luz começou a desaparecer por entre os pinheiros, e Mochk perseguiu-a com o olhar – E é por isso que estamos perdidos. – sussurrou por fim a voz, de modo a que Mochk não a ouvisse, apesar de a ter ouvido.
Caindo por terra, sabendo-se demasiado cobarde para recaírem sobre si as esperanças do seu povo, Mochk sussurrou algo que só os Deuses, criaturas que ninguém sabe se existem realmente ou se só fazem parte do imaginário do comum homem, poderiam ouvir.
“Juro pela minha alma imortal; Juro pelo bom nome da minha família; Se o sol amanhã brilhar num céu azul desprovido de nuvens, irei até Merrean.”
A neve caía como Mochk já se tinha habituado: de forma constante e sem quebras de ritmo. A orquestra que é a Natureza tocava a melodia A Neve Cai, e a neve caía. Mochk adormeceu com os pedaços de gelo que se pareciam como farrapos a caírem sobre si, e sonhou que no dia seguinte tudo estaria igual, e ele acabaria por morrer ali.
Mas os Deuses são criaturas que ninguém compreende. Talvez por não serem Deuses realmente; Talvez por serem demasiado como nós, apesar de nós termos sido feitos à sua imagem. Os Deuses não brincam, e quando há preces que devem ser ouvidas, elas são-no.
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