O Florista de Star Hill
14 Os Suspeitos
Notas iniciais
Mais tarde, ao anoitecer, Afrodite entrou correndo pela porta da frente. Ignorou o sorriso de Kiki e foi direto até Aldebaran.
— O que houve? – o artesão indagou, percebendo certa urgência nas ações do companheiro.
— Tem um detetive que está à procura de Mu. – falou baixo e no ouvido do mais alto.
— Como...?
— Não sei. Só sei que ele veio falar comigo hoje, enquanto podava uma árvore. E ele tinha um caderno, ou algo assim, com desenhos do meu rosto e sabe-se mais o que.
Aldebaran respirou fundo e passou a mão nos cabelos, ajeitando-os para trás. Ficou pensando por alguns segundos e depois começou a falar.
— Sabe quem pode tê-lo mandado nos investigar?
— Não tenho ideia... – mas desconfiava. Olhou de soslaio para Kiki, que observava o casal de longe. – Tem mais uma coisa que preciso te dizer...
Entretanto, Afrodite não teve chances de começar a falar. Alguém bateu à porta e Aldebaran foi atender. Era o detetive.
— Posso ajudar? – o artesão perguntou de forma simpática.
— Sim, creio que pode. Vim falar com você e o senhor florista. – olhou para dentro da casa e viu o loiro um pouco mais no fundo da sala. – Posso? – e foi entrando.
Afrodite mostrou ao detetive aonde se sentar. Ofereceram-lhe chá, mas o homem recusou. Tinha um olhar atento e enxergava longe.
— Então... – ele começou. – O senhor disse que “mais tarde” poderia me ajudar. Acho que já é tarde o suficiente.
— É... sim. – ficou sem ação.
— O que tem a dizer que não pôde falar àquela hora?
Olhou para Aldebaran, que entendeu seu pedido de socorro.
— Quem o contratou? – perguntou ao detetive, deixando Afrodite com tempo para pensar.
— E isso importa?
— Importa para mim. Para nós.
O detetive sorriu e confessou.
— Um circense. Aquele que engole espadas...
O pisciano mordeu os lábios e coçou a cabeça como se tentasse disfarçar algo. Agora sentia-se culpado pela aproximação deste homem. Aldebaran pigarreou e quebrou o silêncio que se fez na sala.
— E por que ele fez isso?
— E porque não fazer? Uma pessoa some e ninguém dá por falta? Até onde sei, aquele garoto ali no fundo era parente do sumido.
Ele referia-se a Kiki, que virou a cabeça ao perceber que falavam dele. Sorriu e se aproximou mais dos adultos. Afrodite evitou contato visual com o garoto, olhando para a janela, como se algo na rua o interessasse. Radamanthys percebeu a mudança no comportamento dele, porém manteve isso só para si, como uma espécie de anotação mental.
Enquanto que Afrodite evitava o simples contato visual com Kiki, o menino sorria e se mostrava frágil, uma peça de porcelana nas mãos grossas dos dois homens ali. Ele entregou ao detetive um desenho de Mu. Embora aquilo parecesse apenas um desenho infantil, havia certas coisas que chamaram a atenção do detetive.
Pegou a folha das mãos do menino, mas sem tirar os olhos dele.
— É para ajudar a encontrar o Mu!
— Obrigado. – respondeu seco a ele.
Nervoso com a situação, Afrodite deu um leve cutucada em Aldebaran, que havia parado de falar apenas para assistir.
— É... O senhor dizia...
— Eu dizia... – fez uma pausa para pensar – Dizia que vim para fazer algumas perguntas ao jardineiro.
— Florista. Sou um florista.
— Tanto faz. Quero saber o que seu rosto faz neste diário.
— Ele não gostava de mim. – começou a falar – Ele veio nos visitar algumas vezes, mas deixava claro que não gostava de mim...
— E por que ele não gostava de você? Aliás, o que ele vinha fazer aqui?
Mordeu os lábios e começou a trançar seus dedos uns nos outros. Aquele pergunta poderia matá-lo, ou pelo menos expulsá-lo dali.
— Porque...
— Somos um casal! – Aldebaran interrompeu. – Como um casal de marido e mulher, mas somos dois homens. Não falamos isso a ninguém, por vários motivos... Então, por favor, não conte! Não nos entregue!
Os olhos de Radamanthys estavam arregalados. Os de Afrodite também. Mas Kiki permanecia estável. Seu sorriso ingênuo e angelical não fora abalado. Talvez algo nada anormal para uma criança que não vê mal em nada! Ou talvez...
Mas aquilo tudo foi interrompido pelo artesão, de novo.
— Por favor! Eu imploro que mantenha isso em segredo! Não sabe como é terrível gostar tanto de uma pessoa e não poder amá-la só porque são do mesmo sexo! Mu não gostava de Afrodite porque antes eu era o companheiro dele! Ele me trocou por outro! Passei anos solitários, até encontrar Afrodite... Não nos tire isso!
Pegou na mão do florista e a beijou com carinho algumas vezes. Teve seus cabelos acariciados por ele. Por mais que estivesse com medo, não negaria nada do que Aldebaran dizia. Já o detetive piscou algumas vezes aturdido pela confissão. Olhava para o casal de forma surpresa e um tanto assustada. Com medo de uma explosão da parte do detetive, Aldebaran fez o mais sensato.
— Kiki. Suba e fique no quarto.
O menino obedeceu Aldebaran sem nem perguntar o motivo. Afrodite olhou discretamente para o menino. O olhar que recebeu dele fez seu coração palpitar mais rápido, mas não se deixou abalar. Voltou seu foco no visitante e no companheiro.
— Vocês dois...? Como isso é possível? É...!
Claramente o detetive não tinha palavras.
— O senhor já gostou tanto de uma pessoa, mas não podia tê-la junto? – começou o florista, sua voz estava um pouco trêmula – É o que acontece conosco, só que tentamos não mostrar que nos gostamos assim. Eu não queria contar na rua, pois tive medo de ter muitos ouvidos por ali.
— Se o senhor é quem dá a segurança a esta cidade, nos ajude a ficar seguros também! – pediu Aldebaran.
A sala ficou em silêncio. O homem de uma única sobrancelha os fuzilava com os olhos.
— Não vou contar nada a ninguém. – disse, finalmente – Mas vou ficar de olho em vocês.
Sem dar chances de respostas a eles, se levantou e saiu da casa. Bateu a porta com força e deu alguns passos. De onde estava conseguia ver a silhueta do garoto na janela, a luz trêmula da vela deixava um pouco visível seu rosto sério e seu olhar penetrante.
—Vou ficar de olhos em todos os três. – comentou para si mesmo enquanto encarava a criança. Deu mais alguns passos e se viu fora da propriedade do casal nada convencional.
Dentro da casa permaneciam sentados, ainda em silêncio, Afrodite e Aldebaran. Estavam de mãos dadas.
— Por que fez aquilo? – Afrodite questionou.
— Eu tive que fazer! Eu precisava que ele soubesse de algo que nos tirasse de suas suspeitas. Não viu? Ele ficou tão perturbado que quase esqueceu porque veio aqui.
— Mas a que custo!
— É preferível que nos mudemos por sermos um casal de homens do que ser enforcados por matar outro homem.
A voz de Aldebaran era firme e imponente. Aquilo deu a Afrodite um pouco de coragem para prosseguir com o segredo.
— O que mais você tinha a me dizer? – lembrou Aldebaran.
O susto da confissão não tinha comparação ao medo que voltava a sondar sua mente agora. Mordeu o lábio, estalou os dedos e respirou fundo. O artesão reparou no nervosismo do companheiro. Aquilo estava se tornando comum. Não gostava nada daquilo.
— Vamos dar uma volta...
— Por que não pode contar aqui?
— Venha e te explicarei!
Olhou para Afrodite por um tempo, até ceder ao pedido dele. Agora na rua, de olho na janela de Kiki, totalmente apagada agora, Afrodite sussurrou:
— O menino... Ele não é tão inocente quanto aparenta.
— O quê? – disse Aldebaran, não entendendo aquilo.
— Ele me disse certas coisas, ele... Ele nos vigia enquanto dormimos!
— Nos vigia? Como sabe? Não está dormindo? – riu o gigante.
— Não tire sarro de mim, Aldebaran. Eu não tenho dormido muito, passo boa parte da noite acordado, por isso sei que o garoto faz isso. Ele mente, Aldebaran. Ele é dissimulado. Não é tão inocente quanto aparenta.
Embora achasse certo exagero de Afrodite, Aldebaran não lhe tirou mais a razão. Tentou se convencer de que o companheiro estava passando por um trauma muito grande. Mas em sua cabeça ainda martelava a conversa de Kiki com ele, sobre o que aconteceu com Mu.
Talvez o florista não estivesse tão insano assim. Manteria os dois olhos em Kiki.
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