Notas iniciais
Bom barraco pra vocês :3

Aldebaran olhava sem reação. Seu coração parou de bater por alguns segundos. Afrodite olhou de cabeça para baixo, devido a sua posição, e sentiu-se partir ao meio.

– Aldebaran! – disse, se desvencilhando do toque do trapezista. Rolou pela cama elástica até tocar o chão.

Teve de sair correndo, pois perdera muito tempo tentando sair de lá. Aldebaran andava rápido demais, como se suas passadas longas já não fossem suficientes para manter distancia de qualquer um.

– Espere!

– Pelo o quê? – gritou o gigante, virando-se para ele. – Para mais uma cena daquelas?

– Eu não fiz por querer. Eu jamais desejaria que você visse aquilo!

– Sim, a culpa é toda minha por ter te seguido para pedir desculpas por algo que eu nem tenho culpa!

O moreno gritava, fazendo o loiro arregalar os olhos. Pela primeira vez na vida, Afrodite sentiu medo de Aldebaran. A esta altura, todos os que assistiam também sentiam.

– Por favor, me perdoe! Não quis fazer aquilo! – implorou.

– Eu não quero saber! Realmente, não quero! Eu me senti tão culpado por aquilo... Mas assim é bom. Eu aprendo a não confiar num rosto bonito.

– Não pense isso de mim! Eu não sou assim! Você me conhece! Sabe como eu aprecio a lealdade de uma pessoa para outra.

– Se admira tanto, por que não coloca em prática?

Dito isso, saiu andando, retomando seu caminho.

O florista ficou parado naquele mesmo lugar. Suas lágrimas escorriam pelo rosto agora quente pela vergonha e abaixou levemente sua cabeça. Os olhares se concentravam nele, ele podia sentir, quase toca-lo. E foi um toque que o fez levantar sua cabeça.

– Não encoste em mim! –disse, empurrando o trapezista para trás.

– Fique calmo... Se você veio até aqui foi graças a algo que ele fez.

– Não... Eu que fiz. A culpa disso tudo é minha!

– Vamos, entre e eu vou fazer algo para você beber.

– Não quero nada, homem! Me deixe! – sua voz, geralmente grossa, estava mais rouca.

Saiu empurrando algumas pessoas que estavam no caminho assistindo.

Era doloroso para Afrodite trair Aldebaran daquela forma, ainda mais saber que ele viu. A porta da casa estava aberta e algumas crianças estavam desafiando umas as outras a entrar e descobrir o que havia lá dentro.

– Fora! Todos vocês! – disse o florista, fazendo todas elas correrem. Trancou a porta e começou sua procura pelo artesão.

Primeiro lugar que olhou foi em seu ateliê externo. Em seguida, correu até o escritório. Achou ter visto alguns livros desalinhados, mas estava confuso demais para prestar atenção naquilo.

Subiu as escadas e abriu a porta do quarto deles. Aldebaran estava sentado em sua cama e tinha os olhos vermelhos, assim como suas maçãs do rosto e seu nariz. Em suas mãos, algumas folhas amareladas pelo tempo. Afrodite sabia bem o que eram.

– Você... – começou, tomando fôlego – Você está lindo nestes desenhos.

Desatou a chorar.

– Eles são muito antigos, Aldebaran! – Afrodite foi se aproximando.

– Eu jamais imaginei que doeria tanto ser traído por você! Eu tinha noção de que uma hora isso aconteceria, afinal, você é o sonho de qualquer pessoa, mas...

– Achou que o trairia? Por que veio até mim, se pensava isso? Acha que deixo que qualquer um faça o que bem entende comigo?

O tom do florista era de puro choque.

– Foi exatamente isso que você deu a entender naquela tenda.

– Eu não sou assim!

O menor começava a soluçar. Era doloroso demais ouvir tais palavras da boca de Aldebaran. Sentou-se ao lado dele na cama. Foi esticando o braço na direção do artesão e puxou, delicadamente, os desenhos. Sorriu amargamente ao ver o primeiro.

– Eu era tão jovem aqui... – enxugou as lágrimas que desceram deliberadamente. – Tão simples... Eu só precisava estar junto dele... Não nos importávamos com nada. Se tivesse comida, comíamos, se não tivesse, paciência. As pessoas gostavam de nós. Ele não deixava ninguém se aproximar daquele vilarejo e eu ajudava a cultivar os alimentos e, vez ou outra, ele vendia alguns desenhos que fazia. Sempre davam um bom dinheiro pelos quadros e retratos que ele fazia.

Deu uma soluçada alta.

– Mas eu tenho que parar de viver no passado...

Logo que desabafou, Afrodite começou a torcer o papel em suas mãos e depois o rasgou.

– O que está fazendo? – indagou o artesão, vendo como o amante estava transtornado ao fazer tal coisa.

Mas Afrodite não respondeu. Chorava em silêncio. Seu rosto vermelho e seu corpo que balançava a cada soluço estavam deixando Aldebaran assustado.

– Afrodite...!

– Me perdoe! Não quis te magoar!

Mas não era para Aldebaran que ele dizia tais coisas. Seu choro, naquele instante, era por seu finado amante, que tanto amava. Ele sentiu os braços do artesão o envolver e, imediatamente, repousou sua cabeça em seu peito. Apertou as mãos dele com as suas.

Depois de certo tempo tendo os cabelos afagados, Afrodite caiu no sono. O gigante o esticara em sua e o cobriu com as mantas da cama dele, que ficava ao lado.

Quase gritou ao se virar; Mu estava parado na porta do quarto, encostado no batente, olhando para os dois.

– O que faz aqui? Quem o deixou entrar?

– Você me deixou entrar.

– Vá embora!

– Por quê?

– Porque estou mandando – mesmo em um tom de voz baixo, Aldebaran era extremamente imperativo, mas o lemuriano não se sentia ameaçado.

– Ele tem sérios problemas. Não sente medo de dormir sob o mesmo teto que ele? Afinal, ele pode matá-lo e nem se dar conta.

– Ora, cale-se!

Aldebaran o empurrou para trás. Mu só não rolou escada abaixo, pois se segurou no corrimão.

– É bom começar a me levar a sério, Mu. Fique longe de nós. Desde que você apareceu, está tudo desmoronando!

– Essa sua agressividade é por causa dele. Ele te fez ficar assim!

– Não, você me fez ficar assim. Eu me distanciei dele graças a você! E você fez isso apenas em questão de dias!

– Se isso aconteceu é porque sente algo por mim! Já se esqueceu de nossos bons momentos?

– Já passaram! Estão enterrados!

– Assim como o companheiro dele. Morto. E mesmo assim ele chora por ele, como se fosse uma criança!

– Afrodite perdeu alguém que amou. E isso dói mais que tudo.

– Você me perdeu, Aldebaran. Chorou assim?

– Não, porque quase não doeu. Apenas magoou.

Os olhos do lemuriano se estreitaram. Ele direcionou seu foco para o quarto em que estava o florista.

– Isso machucou muito. – disse o oriental pausadamente.

Ele caminhou até a porta dos fundos, a mesma por onde entrara. Seu rosto não demonstrava absolutamente nada, mas em sua cabeça, algo fervilhava.

–x-

Na arena aberta do circo os cochichos dominavam. Todos falavam em voz baixa e olhavam para a tenda dos gêmeos. Até que um deles chegou quieto por trás de todos.

– O que está havendo? – perguntou, preocupado e já imaginando o pior, já que olhavam para sua tenda.

– Pergunte ao seu irmão. – disse Camus, que tentava colocar todos de volta ao trabalho.

Kanon, o irmão gêmeo de Saga, seguiu em direção ao camarim deles. O mais velho, e responsável pelos comentários, estava quieto, fumando algo que eles conheciam bem.

– O que você fez, Saga?

– Uma besteira enorme... – ele admitiu. – Eu passei dos limites com uma pessoa, e acho que causei uma “tragédia familiar” – disse, fazendo as aspas com os dedos livres.

– Eu não acredito...

Havia algo peculiar entre eles. Fora o fato de serem gêmeos idênticos, e de trabalhar em circos desde sempre, Saga e Kanon pareciam esconder algo. Algo que se priorizava em Saga, o mais velho.

– Deixou ele atacar novamente?

– Sim... – deu mais um trago. A fumaça branca e densa encheu o pequeno espaço.

Kanon puxou o pequeno embrulho fino da mão de Saga e deu uma longa tragada. Foi soltando a fumaça aos poucos e sentindo seu corpo relaxar.

– Se eu não deixo isso faltar, é que para você fumar sempre. Não só quando dá vontade. Sabe como você fica quando não fuma.

– Kanon, não me amole!

O mais velho fechou os olhos e relaxou até dormir. O mais novo, por sua vez, resolveu arrumar a bagunça feita pelo outro.

–x-

Aldebaran estava sentado na sala, em silêncio. Tudo naquele lugar parecia triste e sem vida. Até que ouviu alguém bater na porta. Ignorou, pensando ser algum vendedor. Quando bateram mais forte, resolver atender. Se continuassem, poderiam acordar Afrodite.

– Não quero comprar nada hoj...

O artesão parou de falar quando viu o homem na porta. Ele o reconheceu da tenda. Era ele quem havia beijado Afrodite.

Não pensou duas vezes. Desferiu um soco no estomago do visitante.

– O que pensa que está fazendo aqui? Deve ser muito corajoso, ou muito estúpido em vir até aqui, depois do que fez. E, como descobriu que moramos aqui?

Kanon segurou o punho do artesão, o que não era nada fácil, e tossiu. Estava difícil de respirar depois daquilo.

– Eu... Eu fui perguntando. O pessoal do circo me falou quem ele era e eu vim atrás.

– Como assim, quem ele era?

– Não fui eu quem fiz isso, do beijo... Foi meu irmão! Por favor, deixe-me entrar para explicar.

Aldebaran olhou bem para ele. Por um breve momento esquecera-se que eles era gêmeos.

– Por que quer entrar? Vai tentar me beijar também?

– Para sua informação, meu caro, a única pessoa que beijo é meu irmão.

O artesão fez cara de nojo diante do que o outro dissera. Deixou que ele entrasse, e se certificou de que ninguém olhava para eles.

– Primeiramente, gostaria de me apresentar: Me chamo Kanon. Sou um dos gêmeos trapezistas.

– Prossiga!

– Muito bem. Meu irmão, Saga, fez uma coisa que lhe revoltou. Eu vim pedir desculpas sobre isso.

– Me revoltou? Tem idéia do problema que isso causou? Meu companheiro entrou em estado de choque graças ao seu irmão e eu quase matei uma pessoa que se intrometeu nisso!

– Ele tem alguns problemas mentais... Sabe... É o que chamariam de “possuído”. Saga não é má pessoa.

– Não deve ser mesmo. Persuadiu Afrodite a beijá-lo!

– Peço mil desculpas. Acredite: quando ele entra nesse transe, eu também saio perdendo. Saga é meu único irmão, só nós dois sabemos o que ele passa.

– Eu não quero ouvir mais nada... Não vou mais tocar neste assunto. Nem com vocês, nem com ele. Não quero que ele fique instável, novamente.

– Por mim, tudo bem. Gostaria de te pedir mais uma coisa.

– Diga. – Aldebaran cruzara os braços na frente do peito.

– Não deixe que ele retorne às apresentações de Saga. Quando ele foca numa coisa, nem seu remédio consegue segura-lo. Não é pessoal, é apenas precaução.

– Certo. Se for para o bem de todos, eu concordo.

Deram um aperto de mãos, selando o recente acordo e Kanon deixou o local.

–x-

Bem longe dali, o ferreiro procurava o metal precioso que guardara com tanto zelo. Quando sentiu seu dedo arder e sangrar ele sorriu. Encontrara.

– Agora, vamos organizar esse circo.

Kiki, que apenas observava, sentiu um frio percorrer sua espinha com tal ato de Mu.

Notas finais
Um trago pra quem adivinhar o que o Saga tava fumando!