Notas iniciais
Não, eu não desisti desta fic... E tenho quase certeza de que revisei antes de postar...

Do outro lado da cidade o homem de cabelos escuros escutava os aplausos de dentro de sua tenda. Tirava sua roupa de apresentação e se vestia com seu melhor trapo. Suas mãos tremiam de ansiedade. O asiático prometera lhe ajudar, e estava certo de que ele não era de se atrasar. O tempo passava, o circo se esvaziava, e nada dele chegar. Decidiu ir ao seu encontro.

Claro que ninguém notaria sua ausência. Por mais que cada um cuidasse um do outro no circo, ainda assim eram nômades, e ninguém o impediria de ir aonde quisesse ir.

Após certo tempo andando, chegou ao seu destino. Chamou, chamou e chamou, porém, ninguém o atendeu. Achou aquilo estranho. Por mais que alguém tenha um sono tão pesado, seria capaz de ouvi-lo gritar. Decidiu-se: entrou, procurou, revirou atrás de alguém. Nada. Nem mesmo um bilhete. Entretanto, tudo ali parecia intacto, abandonado. Quem abandona uma casa tão aconchegante, apesar de modesta, ainda mais estando com uma criança?

Será que o gigante, que ele tanto queria, lhes fizera algo?

Esperava que não, porque se fosse, compraria tal briga.

Só que agora ele não queria fazer justiça. Queria apenas ver o rosto do florista.

Perguntava-se como seu irmão tivera tanta sorte em conhecê-lo. Que tipo de toque ele teria. Se xingou mentalmente por tal pensamento sujo. Ele não era só um corpo. Piscou várias vezes para afastar estes pensamentos. Não era hora, nem lugar para aquilo. Perguntou-se o que fazer... Iria agir sozinho para conseguir Afrodite, ou procuraria o asiático e o menino?

A noite seguinte fora um caos para o florista. Ele não parava de olhar pela janela do quarto o local em que Aldebaran dissera ter enterrado Mu. Sentia-se gelar de medo. O que fizera fora horrendo. E seu maior medo era de que alguém descobrisse. Esperava que não dessem por falta do asiático. Rezava por isso. Em sua mente também havia a preocupação sobre Kiki. Por mais que o artesão lhe dissesse que o menino não vira nada, lembrava-se perfeitamente do choro dele. O ruivo era uma criança, mas não era burro. Temia por isso, talvez, mais que tudo.

Os pássaros já cantavam alto, anunciando a chegada do novo dia. Aldebaran espreguiçou-se na cama e abriu os olhos. Não parecia muito abalado, mas seu companheiro, sim. Afrodite estava sentado em sua cama. Seus olhos pareciam cansados, suas olheiras estavam fundas e escuras. O gigante soltou um suspiro, se levantou e em seguida sentou-se na cama do outro. Uma de suas mãos acariciavam os cabelos do florista e a outra pegava as mãos tremulas do menor.

– Você não dormiu a noite toda, não é?

– E tem como dormir? Você não viu o olhar dele para mim, ou sentiu o olhar do menino sobre você no exato momento.

– Afrodite, pela última vez: ele não viu o que você fez! Preste atenção: Kiki é um garoto muito sensível, ele nunca se aproxima de alguém que ele viu fazer algum mal. Na certa, ele deve ter visto você, talvez, tentando ajudar Mu. Por favor, não seja tão duro consigo mesmo. Descanse um pouco.

Num outro quarto, Aldebaran acordava o pequeno Kiki. O menino sorria contente ao ver o gigante. O artesão o ajudou a se vestir, se arrumar e preparou o desjejum, mas, em nenhum momento ouviu o pequeno perguntar de seu tutor. Aquilo o fez pensar se Afrodite não tinha razão, entretanto, queria continuar a acreditar que sua versão ainda estava certa.

– Aonde vai? – perguntou Aldebaran, olhando o companheiro pegar sua pequena bolsa de moedas.

– Ao barbeiro. Preciso cortar isso aqui decentemente.

– Ah, certo.

O gigante parecia mais aliviado, mas não muito convencido. Esboçou um sorriso.

– Posso ir junto?

Kiki perguntara, ainda com um sorriso no rosto. Por alguns segundos, Afrodite não saoube bem o que responder.

– Pode.

Sem pestanejar, o menino saiu correndo da cadeira em que estava e correu em direção ao florista. Pegou em sua mão com entusiasmo.

Seguiram calma e silenciosamente o caminho até a barbearia. O florista tinha medo de perguntar o que queria saber. Olhou para o menino. Kiki se parecia muito com Mu.

– Pode perguntar o que quer saber. – disse o menino.

O Coração do florista começou a bater forte, muito acelerado. Seu rosto e suas orelhas coraram na hora. Por um breve momento, sentiu vontade de vomitar.

– Como... como assim?

– O senhor quer saber se vi o que fez com Mu, não é?

Agora o menino o encarava. Estavam parados no meio da rua e Afrodite se ajoelhou.

– Me perdoe, por favor!

– Não foi culpa sua. Eles nunca foram muito normais, mesmo. E eu vi quando ele lhe atacou.

Os olhos do menino pareciam dizer a verdade.

– Sei que deve ser estranho, dois homens que não são parentes, morando juntos...

– Não, não isso. Estranhos de outro jeito...

– Kiki... Por que você está me contando essas coisas aqui? Por que não quis falar em casa, com o Aldebaran junto? Tem a ver com o jeito estranho que você mencionou?

O menino ficou calado por longos segundos, até que abriu a boca para falar, mas ambos foram interrompidos.

– Olá!

Era Shura. Ele passara a noite andando pelas ruas da cidadezinha. Perguntava-se se o ferreiro não teria se embebedado e caído em algum canto. Estava mais do que explicito que ele não era muito são, portanto, ficar bêbado por aquilo era mais que normal Só que não encontrou nada. Nem ele, nem o menino. Até aquele momento.

– Ah... Oi... – respondeu Afrodite.

O circense olhava animado para o menino. Parecia, afinal, estar bem. Percebeu que pensara besteira e passara uma noite inteira andando a toa.

– Seus cabelos... – reparou.

– É, pois é. Tentei cortar sozinho, mas não consegui. Estávamos indo a um barbeiro agora, para consertar isso.

– Permita-me acompanhá-los.

Afrodite não gostou muito da ideia, e o menino também pareceu não gostar. Mas, como dizer não ao artista, já que ele estava sendo tão gentil com ambos? E, já estando ressabiado com tudo, o florista achou melhor aceitar, para não levantar suspeitas. Ao menos, era nisso que acreditava.

Dentro do pequeno estabelecimento, o loiro contou ao barbeiro a mesma história que havia contado ao artista. O homem, em pouco tempo deu um formato aos cabelos do jovem. Após pagar, eles saíram e foram andar pela cidade. Shura fazia Kiki rir com pouco. Os olhos do menino brilhavam ao vê-lo fazer truques só para ele. Ensinou alguns deles para o pequeno, claro, que exibiu ao florista.

– Diga-me, Afrodite... Onde está o... pai, ou irmão, deste garoto, seja lá o que for dele aquele asiático.

– Você quer dizer, Mu?

– Sim.

– Ele sofreu um acidente... está internado, em outra cidade.

– Quer tipo de acidente?

– Eu não sei dizer direito.

Sentiu certa relutância do florista enquanto ele contava. Entretanto, não perguntou mais nada.

– É melhor irmos embora. Aldebaran vai ficar preocupado se demorarmos.

– Eu os acompanho, novamente. – disse sorrindo.

– Não é preciso. – replicou Afrodite.

– Faço questão.

O loiro queria aproveitar o caminho de volta para conversar com Kiki sobre o que fora dito antes, mas pelo jeito, não seria possível.

Andaram mais rápido que o normal para o caminho de casa, causando suspeita no artista. Porém, de novo, o homem nada perguntou.

– Obrigado pela companhia, Shura – disse o florista, se despedindo dele. Nem mesmo esperou uma resposta dele e já se enfiou dentro da casa com o menino.

– Como foi no barbeiro? – perguntou Aldebaran, perto deles. Sua expressão era calma, mas Afrodite sentia algo estranho vindo dele.

– Bom, foi bom... Quero dizer, ele fez um bom trabalho.

O loiro mexeu em seus próprios cabelos para mostrar o resultado; o artesão apenas aquiesceu com a cabeça.

Ele estava calado, até demais.

Kiki se recolheu, aparentando ser aquele mesmo garoto de antes, quieto e bobo, que não vira nada.

Agora, Afrodite teria de arrumar outra forma de tirar o menino sozinho de casa para conversar com ele.