Ele acordou durante a madrugada, como de costume, e foi tateando os móveis até a porta. O breu tomava conta de tudo, mas seus movimentos suaves o impediam de ter colisões desnecessárias, ou dolorosas. Por uma fresta podia ver um feixe da luz das estrelas. Aquilo era o suficiente para iluminar o pequeno casebre. Abriu a janela da entrada, apenas para checar suas rosas. A noite estava fria, mas suportável. Fitava suas flores com carinho, embora em seu rosto houvesse mais a expressão de pesar. Sentia-se mal cada vez que vendia uma rosa. Sentia como se uma parte de si estivesse sofrendo em mãos erradas. Saiu, ainda descalço, e foi para o jardim. Agachou-se começou a limpar as flores. Tirava uma lagarta ou outra que eventualmente aparecia ali, algumas folhas murchas e ajeitava a terra ao redor delas. Era grande demais seu carinho por elas. Afinal, só tinha a elas.

Recordou-se, então, ao olhar para o pequeno penhasco, do estrangeiro. Começou a resmungar algo para as rosas, algo que talvez nem elas entendessem se pudessem entender. Levantou-se irritado e, pisando duro, entrou em sua casinha. No minuto seguinte saiu do mesmo jeito e aproximou-se da borda do penhasco. Procurou com os olhos o que queria e, quando encontrou, desceu como um tiro. Àquela altura já perdera todo o sono. Pegara com as mãos o que queria e fez que jogaria, até algo o fazer mudar de idéia. Sentiu, em seus dedos delicados, um relevo. As estrelas iluminavam bem aquele local, mas não tanto quanto precisava. Subiu pelo mesmo caminho que descera e entrou em sua casa escura. Procurou a mesa com a mão e depositou o volume nelas. Depois, arregalando os olhos, na esperança de enxergar algo, ascendeu um lampião. A primeira luz o fez tapar os olhos com o braço e resmungar, mas voltou ao seu normal em seguida, levantando e colocando o objeto perto do que trouxera.

O que ele examinava era o vaso que Aldebaran deixara. No começo ficara com raiva. Achou uma afronta ele ter deixado o vaso. Sentiu-se pressionado. Não queria comprar nada. Não tinha dinheiro para comprar nada. Já estivera em situação melhor, muito melhor, mas a época era outra. Ninguém tinha nada. Entretanto, entendeu que aquilo era um presente. Não pelo gigante ter deixado ali, mas por ele ter gravado o que gravou. Várias rosas minúsculas. Ele não conseguia contar direito. Tanto pela quantidade, como pela luz tremeluzente. E, mais uma vez aquele sorrisinho simplório surgira em seu rosto.

Aldebaran acordara cedo. Sua janela deixava a luz do Sol recém-nascido entrar. Não demorou em sair da cama. Estava bem disposto e animado; arrumou-se e depois as suas coisas. Tinha uma meta para aquele dia: vender pelo menos um vaso daqueles que fizera.

Na praça dos comerciantes ele armou uma pequena barraca, arrumou seus vários vasos e se sentou para fazer mais. As pessoas, de inicio, olhavam de longe, intrigadas. Um, ou outro, parava e esticava o pescoço, mas ninguém comprava. Não havia nada ali que chamasse a atenção delas, além de desenhos delicados. Os tempos eram outros e todos queriam sair lucrando. Com o passar das horas seu ânimo foi murchando. Suas mãos já estavam cansadas de desenhar com o pequeno palito de metal naqueles vasos. Fez menção em se levantar e ir embora, mas algo o parou. Algo, não. Alguém.

Sua surpresa foi tamanha quando o viu colocando uma rosa dentro de seu vaso.

– Seus vasos são bonitos. – ele disse, um tanto encabulado. Estava agachado ao lado das mercadorias e as olhava com atenção. – Mas sozinhos não se vendem... Tão pouco minhas rosas...

– Se você não tem onde guardar a flor, não precisa comprar uma.

– O mesmo sobre seus vasos. Você precisa ter o que colocar dentro deles, senão serão apenas vasos.

Aldebaran entendera o que o florista quis dizer com aquilo. Balançou sua cabeça em aprovação.

– Se nos juntarmos, teremos o que vender. – sugeriu o simpático estrangeiro com um singelo sorriso no rosto.

O florista nada disse, apenas ficou pensando sobre o que ouvira. Soltou alguns suspiros e olhou em volta. Percebeu o quanto era ignorado, tanto ele como o outro. Como todos.

– Tanto faz...

Foi tudo o que ele disse. Depois, sentando-se ao lado de Aldebaran, foi colocando algumas rosas nos vasos. Aldebaran, sentindo o calor, colocou quase toda sua água nos vasos.

– Quer? Ainda tem um pouco... – ofereceu o estrangeiro. – Pode beber. Eu arrumo mais.

– Não, obrigado. – ele negara. Estava desconfortável com a parceria recente. Não sabia o que fazer, ou o que conversar. Sentia-se um pouco arrependido. Passara tanto tempo sozinho com suas flores e seus pensamentos, que interagir desta forma era esquisito e incômodo.

– Por favor... Não faça esta desfeita.

Ele olhou para a jarra de barro e, tímido, pegou-a, levando a mesma até a boca. O contato do jarro frio nos lábios o fez passar a língua entre eles. Sob a sombra quente da tenda improvisada, aquilo era delicioso. Bebeu um merecido gole da água fresca e devolveu ao dono.

– Quando quiser, sinta-se a vontade para pegar.

E, novamente, fez-se o silencio da parte dele.

– Eu quero este.

Aldebaran e o florista olharam ao mesmo tempo para cima. Um homem, meia-idade, olhava sério para eles, apontando para o vaso próximo aos dois. Naquele vaso havia três rosas, grandes e viçosas. Depois que pagou – e não pagou pouco – o homem voltou-se para o florista e perguntou:

– Você cultiva apenas rosas, ou tem outras flores também?

– Apenas rosas – respondeu seco.

– É uma pena. Se cultivasse outras, garanto que seriam tão belas quanto essas.

E saiu andando com seu vaso.

– A idéia é boa... – disse Aldebaran, vendo o homem se afastar.

O florista nada disse, apenas olhava suas flores.

– O que você tem?

– Nada...

Ele não queria admitir, mas ficara um tanto chateado com a idéia do comprador. Aldebaran percebera, mas não sabia o que dizer a ele. Não o conhecia direito, não conseguia decifrá-lo. Ele era um misto de beleza e melancolia.

Permaneceram com a tenda ali até anoitecer, ambos em silêncio. Apenas Aldebaran conversava com os clientes. Na hora de desmontar tudo, o florista o ajudou, mas ainda quieto. Ele aparentava desânimo. Durante o percurso para voltarem, o estrangeiro o olhava rapidamente. Queria puxar um assunto, mas não sabia qual. Então, ouvindo o tilintar em um saquinho de pano que carregava amarrado a sua cintura, surgiu um.

– Viu só como a nossa parceria valeu à pena? – disse ele sorridente.

O rosto do outro continuava imóvel.

– Você não é muito de falar, não é mesmo? Mas parece que gosta muito de escutar.

– Não leve a mal... Eu só não tenho muito assunto.

– Não precisa ter muitos assuntos. Fale apenas do que sabe.

– E se você não gostar do que eu sei?

– Eu aprendo a gostar.

O sorriso que Aldebaran esbanjava o fez sentir leve. Porém, ficou encabulado; desviou o olhar e mexeu em sua cesta, como se procurasse algo.

– Eu só sei falar de flores.

– Eu gosto de flores.

A voz do moreno mudara de repente. Parecia mais grave, só que ao mesmo tempo mais macia.

– A questão é que eu não quero conversar agora.

Ele saiu andando, mais rápido que o de costume, em direção a sua colina. Aldebaran percebera que errara naquele momento. Perdera a sutileza e o assustara. Fizera de novo.

Ele subia apressado a colina. Queria chegar logo a sua casa. Queria o sossego. Estava cansado, chateado e sentia-se emocionalmente acabado. Nem bem entrou e deu de cara com um espelho. Costumava ser mais bonito que aquilo, mais atraente; podia conquistar quem quisesse. De fato, ainda podia. Mas não com aquele espírito. Já não tinha vontade. Perdera a graça. Ter o mundo aos seus pés já deixara de ser uma prioridade em sua vida. Era como se sua natureza narcisista o houvesse deixado. Mas não o deixara, não completamente. Ele ainda sentia amor por aquilo que suas mãos tocavam. E só tocava em suas rosas. Sentia-se como Midas*, fazendo ouro, mas sem poder desfrutá-lo. Sentia mais coisa, além disso. Seu peito estava acelerado. Seu rosto pulsava e não pela pressa. Sabia que estava vermelho. E, que raios, eram culpa do bendito artesão. O mesmo artesão que batia a sua porta naquele exato momento, chamando-o por sua profissão. O mesmo artesão que tirara dele a coragem de abrir a porta e expulsá-lo dali, como fazia com os curiosos.

Limpou seu rosto, levemente suado, e abriu a porta. Estava visivelmente transtornado, mas tentou esconder atrás de uma máscara hipocritamente fria.

– Quem deu-lhe permissão para subir até aqui? – perguntou o florista.

– Ninguém... É que eu acabei ficando com sua parte guardada aqui. Eu só não queria que pensasse que sou um ladrão.

Ele estendeu a mão e entregou as moedas douradas do outro. Ele contou rapidamente e olhou de volta para ele.

– Obrigado...

– Não por isso! Bem... agora já vou indo. Você deve querer descansar.

Ele apenas balançou a cabeça, rapidamente, em aprovação. Quando o outro dera as costas e se aproximava da descida, ele resolvera falar:

– Afrodite...

– O quê? – disse Aldebaran, virando-se para ele.

– Meu nome. Me chamo Afrodite. Ao menos é disso que me chamavam.

– Quem chamava?

– Você já quer saber demais.

– É um belo nome, Afrodite.

Eles sorriram um para o outro, Aldebaran muito mais, e o florista, Afrodite, fechara a porta.

– Combina com você...

Infelizmente o que dissera por último não fora ouvido pelo florista.

Notas finais
*Midas; personagem mitológico que transformava em ouro o que tocava. Vide Wikipédia http://pt.wikipedia.org/wiki/Midas