Um ano atrás resolvi me mudar para uma cidade do interior do estado de Baviera, na Alemanha, não por meu bel querer, fui pelo trabalho. Era exaustivo ter que me deslocar tantos quilômetros para outra cidade para ter que trabalhar, enfim. Para a minha sorte, nessa cidade morava uma grande amiga, Lily, que me presenteou com um belo quarto em sua pousada.

– Que bom que veio Adam, há quanto tempo não nos vemos? – Disse ela.

Tinha muitas coisas para fazer no momento em que ela interessou-se em conversar comigo e colocar os assuntos em dia. Eu estava com total impaciência, mas ela me deu um quarto em sua pousada, literalmente, pois eu não precisava pagar por nada, como água, comida e etc., então, mesmo atrasado para a reunião, decidi atender-lhe o desejo. “Hoje não vai fazer diferença minha presença na reunião.” – afirmei a mim mesmo.

– Faz quase um ano, não é? Como estou feliz em vê-la. – Disse

Eu realmente estava muito feliz em vê-la, pois naqueles dias eu encarecia de amigos. Conversar com ela com certeza me faria recuperar o humor que a muito havia esvaído.

– E então, como vai sua vida? – Perguntei.

– Vai muito bem! Claro que todos têm problemas pendentes a resolver, mas com exceção disso, minha vida vai muito bem. – Afirmou ela.

– Então, poderia me contar mais sobre seus problemas? – Perguntei, com receio de que fosse parecer intrometido.

– Claro! – Respondeu.

Naquele momento, pareceu por um momento que ela estava sofrendo de alguma forma, pelo seu modo de falar. Então, para tentar ajudá-la com sinceridade, mesmo com receio, decidi tentar me aprofundar mais.

– Pode começar, garanto que irei ouvir. – Disse.

– Então Adam, há alguns meses perdi minha mãe em um acidente de carro, junto de minha irmã. Até agora não estou sabendo como reagir a esse acontecimento, pois como você sabe, eu era bastante apegada a elas. E a alguns meses, descobri que meu pai estava muito doente. Apesar de fazer muito tempo que não o vejo, senti um ligeiro aperto, pois mesmo que ele não fosse presente, era meu pai, antes de tudo. E estou pensando em ir visitá-lo no hospital em Munique, esse fim de semana.

Admito que senti um grande peso no coração no momento em que ela terminou de comentar sobre o acidente de sua mãe Layla e sua irmã Sophia. Apesar de não ter conhecido Sophia, conhecia muito bem Layla, minha segunda mãe, que várias vezes ofereceu-me abrigo quando não tinha pra onde ir nos momentos de briga em família na minha casa. Sophia, por sua vez, tinha apenas 9 meses de idade, o peso que senti foi indescritível, pois me veio a mente o momento do acidente, apenas imaginei. Quanto a seu pai, bem, eu não sabia o que comentar, pois realmente não gostava dele. Sentia muito por ele estar no estado que Lily havia dito que ele estava, mas devo admitir que não achei tão ruim que ele estivesse naquela situação. Eu não o considerava qualquer coisa para mim, pois quando criança presenciei várias vezes o ato de violência que ele cometia contra Lily, até parecia um estranho naquela casa para mim e, principalmente, para ela. Mas como era seu pai, procurei entender e me conter um pouco, para não deixá-la pior.

– Não consigo imaginar sua perda. Realmente é muito triste perder ela assim, praticamente minha segunda mãe. E sua irmã, então. Não há palavras de conforto, mas garanto estar aqui para lhe apoiar, afinal, acabei de chegar! – Afirmei, com plena certeza de que iria ajudá-la no que pudesse.

– Muito obrigada, Adam. Você sempre foi assim: atencioso e compreensivo. Conto com você. – Disse ela.

– Então, você disse que iria visitar aquele cara no hospital, não é? – Perguntei, notando que não tive a compaixão necessária.

– Vou sim. Gostaria de ir comigo? Sua presença irá me manter sã e calma quando estiver na presença dele.

Hesitei por um momento em responder aquela pergunta, pois a ultima pessoa que eu gostaria de ver era o Jean, pai de Lily. Mas eu não conseguia ler de maneira alguma seus pensamentos e seu coração.

– Lhe acompanho sim. – Respondi depois entender que o ela realmente precisava era alguém para mantê-la sob controle, para que ela não atravessasse a linha de raiva quando estivesse lá.

– Muito obrigada! – Respondeu, com um pequeno sorriso, que demonstrava na curva de seus lábios a dor que estava sentindo com toda aquela situação.

Depois de termos falado sobre tais acontecimentos e planos, houve silêncio por alguns minutos, percebi que ela estava passando por um oceano de pensamentos e, sem perceber, também afundei junto.

Vi-me pensando no passado, quando éramos crianças, brincando na frente da antiga casa de Lily. Ela era linda e, naturalmente, ficou mais. E, então, vislumbrei a sua postura de lado para mim, e notei que, naquele momento, havíamos retornado ao mesmo passado. Ela se virou, me olhou por uns instantes, e então me abraçou e disse: “Eu estava com tanta saudade.” Eu sabia que ela estava com saudades, eu também estava. Mas aquilo me pegou de surpresa, foi tão sincero, tão suave que, como consequência, lancei um sorriso tão sincero quanto sua própria face. Nesse momento, tive a certeza de que fiz a escolha certa ao me mudar pra essa cidade, no interior de Baviera.

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