O Fim - The End
2 Capítulo 1: A enfermeira
Notas iniciais
Eu acordo com dificuldade, esfregando os olhos, aos berros da instrutora acordando todos os quartos daquele reformatório pútrido. O cheiro, era de café com leite azedo, e de esgoto. Pulei de cima da beliche, e fui ao vestiário, onde havia muitas outras presidiárias. Passei quase que despercebida, com meus péssimos 1,55. Isso era uma grande desvantagem na maioria das vezes, principalmente no ringue de luta. Noventa por cento das garotas aqui, são corpulentas, grandes e musculosas.
Depois de pegar e vestir meu uniforme verde desbotado, passo pelo corredor onde fica as prisões, e desço a escada em direção a cantina. Quando coloquei o pé naquele lugar, já pude sentir o cheiro fumegante de café com leite azedo, e pão mofado. Nos primeiros dias, esse cheiro me causou ânsia de vômito, agora ele simplesmente se tornou familiar. Pego uma bandeja com um copo, e vou para a enorme fila de mulheres uniformizadas e taxadas de delinquentes pelo governo. Nesse enorme e fedorento cubículo de Manhattan, estão contidas todas as presas do Estado. Desde pequenos delitos, até os piores delitos de que se possa imaginar. As pequenas deliquentes estão no primeiro andar, as deliquentes medianas estão no segundo andar, e as piores de Manhattan estão no terceiro e último andar. Bem, eu estou no último andar. Eu não me lembro de nada do que fiz antes dos meus 16 anos. Todos disseram pra mim que apagaram nossas mentes, para o bem, para que não possamos sentir falta da antiga vida como delinquente. Lembro-me apenas de acordar nesse lugar, com um número (1, 5, 365) pregado no meu braço, e lembro de meu nome. Zoe Evans. Mais nada. Nem de ter irmãos, nem de aniversários, nem de amigos, nem de farras, talvez... O nome do meu pai.. É algo que começa com B... Levo um cutucão no ombro e olho assustada para trás. Alguém estava lendo meus pensamentos?
– Ei, sua lerda! Presta atenção na fila! – berrou uma garota gigante, com cabelo de palha, bafo terrível de enxofre, e dizendo isso ela me empurra forte. Eu tropeço nos meus próprios pés e caio de cara no chão. Ouço o copo estilhaçando na minha frente, ouço o som de risadas e uma guarda sacode o meu corpo.
– Levante agora! Agora! – falou a guarda, analisando minha face com uma expressão dura. – Você! Vai pagar 100 no chão! Agora! – berrou a guarda, para a brutamonte que me derrubou. Nesse momento, sinto algo quente e escorrendo de minhas narinas. Toco-me com os dedos no nariz, e olho. Sangue. Escuro e espesso. Gotas caem no chão, de forma que os pingos se misturam com os cacos de vidro. A guarda passa o braço em volta dos meus ombros, e me ajuda a levantar e me encaminha até a enfermaria. Que é um lugar bem agradável, tirando o fato de que estava muito frio, e eu começava a ficar zonza, me nariz fez um rastro de sangue até lá Sinto náuseas.
– Tome, beba isto. – diz a enfermeira. É a primeira enfermeira que vejo, que está repleta de piercings no ouvido, na sobrancelha, e no nariz. O copo que ela me entrega, é pequeno, de plástico e contém um líquido amarelo dentro, com cheiro de esmalte. O que eu estou pensando? Nunca passei esmalte.. Não que eu me lembre. Pego o copo de sua mão, e tomo tudo de uma vez. O gosto é péssimo. Faço uma careta. Ela sorri pra mim, como se tivesse achado graça da minha reação.
– Acho que você não devia fazer essa cara, poucas as deliquentes tem direito à remédio. – diz a enfermeira.
– Sei disso, só que o gosto é péssimo. – falo, fazendo outra careta. A enfermeira ri.
– É, acho que remédio não tem jeito de ser bom.
– Tem muito tempo que você trabalha aqui? – pergunto, a enfermeira não aparentava ter mais que 19 anos.
– Na verdade não. Tem pouco tempo..
– E porque decidiu trabalhar aqui? Digo, em um reformatório? Parece ser tão ruim...
– Eu não decidi... – ela diz, fechando a cara e contorcendo a boca, como se tivesse provado algo amargo.
– Como assim? Pensei que quando você faz faculdade, você tem a opção de escolher o trabalho.
– Bom, as coisas eram assim. Agora não são mais. – diz a enfermeira, com um olhar penetrante e vazio. Seus olhos eram cor de folha seca no outono, seus cabelos eram lisos e loiros cortados como de um homem, havia uma longa franja e lhe caía até seus grossos lábios. Ela me puxa para mais a dentro da enfermaria, até chegarmos uma salinha, onde só havia uma cadeira reclinável.
– Se você realmente quiser saber disso, precisa me jurar, que você não irá contar pra ninguém. Nunca. – ela disse, olhando severamente nos meus olhos. Um formigamento estranho passou pela minha barriga, como se aquilo fosse totalmente errado, e eu devesse sair correndo de lá imediatamente. Ou talvez fosse só fome, já que eu não tinha comido nada. Eu balanço a cabeça para cima e para baixo, confirmando que eu queria muito saber. E além do mais, não conheço ninguém aqui, além de Kayla, uma garota com que conversava poucas vezes às terças-feiras, nos dias de luta.
– Já faz um tempo, em que o mundo começou a desabar. Especificamente dizendo, o mundo lá fora está em guerra. Eu não sei o que a Síria quer, mas parece ter cismado que há alguma coisa de errado com o governo de Nova Iorque. Desde então, houve explosões, mortes, e.... – ela para, olha pros lados como se alguém nos tivesse espionando. – E... Houve sumiços... Muito. Estranhos. – ela diz, sussurrando de forma pausada.
– Sumiços? – repito, sussurrando também. – Que tipo de sumiços?
– Muitos jovens, que demonstravam inclinação para a rebeldia, sumiram. Filhos de pessoas importantes, como policiais, juízes, e por aí vai... Até que Allan Laugher, o filho do governador, sumiu. Ninguém sabe como, nem o porquê, o filho dele sumiu. Isso causou uma enorme confusão. Agora, muitos jovens estão sendo encaminhados para trabalhar para o governo como soldado, cozinheiros, e enfermeiros. Ninguém quer agravar a situação. Nova Iorque lá fora está um caos, pode não parecer, mas lá fora, faz parecer que aqui é o paraíso. – diz ela, como se tivesse tirado um peso do peito. Eu ia fazer uma pergunta, quando de repente, um flash. Um som de uma explosão. Outro flash. Outro som de explosão. A enfermeira arregala os olhos pra mim, eu olho confusa para os lados, como se precisasse sair correndo dali. Mas aí é soado um alarme. Três vezes, repetidamente.
– CORRA! VAMOS! – grita a enfermeira pra mim, correndo em direção à porta. Corro atrás dela.
– O que essa sirene significa?! – pergunto, enquanto corro.
– Uma sirene, alguém fugiu. Duas sirenes, incêndio. Três sirenes... – ela para de falar para tomar fôlego, corre mais rápido. – Três sirenes... Estamos sendo atacados.
– Atacados...? – eu falo, e o desespero toma conta do meu corpo. – Atacados por quem..?
– Por eles. – diz a enfermeira, que vira o corredor, e damos de cara com dois terroristas.
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