O Fim - As Crônicas dos Sete
1 Prólogo
Nuvens de fumaça cobriam grande parte do céu em que se dava para olhar, aquilo causava uma tosse que doía a garganta, a deixava mais seca a cada passo, mesmo tampando com a camisa, ainda era sufocante. O céu era um cinza sombrio, as nuvens de verdade eram quase negras como se uma tempestade estivesse prestes a cair, mas aquilo eram nuvens de outono, um outono que prometia ser o último. As roupas estavam todas sujas, com rasgos e coçava muito. Toda noite tinha medo de que um ataque surpresa pudesse acontecer, era um pesadelo constante não saber de nada do que acontecia depois da batalha de dias atrás, não se lembrava direito dos acontecimentos dos dias da batalha, apenas que uma sombra negra em seus pensamentos, pessoas gritando, outros urrando por sangue, o gosto de terra úmida na boca depois que se perdeu da sua família. Parecia que naquele grupo de pessoas que sobraram, nada mais restava além de medo e dor, a grande maioria estava calada com sede e fome, os outros e principalmente os guerreiros estavam se preparando para um ataque, mas eles diziam que precisavam chegar a Grande Fortaleza de Lianus. Uma fortaleza que se tornou famosa por ser o refúgio do planeta, pelo menos daqueles que sobraram desde o início do Apocalipse, ou era pelos menos assim que os mais velhos chamavam, os mais velhos tinham várias hipóteses do que seria esse tal de Apocalipse, mas eu sempre tive minhas dúvidas.
Uma coisa éramos ficar sem esperança, mas sem água e comida era o pior de tudo, nossas esperanças talvez poderiam ser recuperadas com um pouco de alimento e água, e quem sabe um teto sob nossas cabeças, mas sempre que nos aproximamos de uma cidade destruída temos que ir com todo cuidado possível, as criaturas que se escondiam pelo mundo, eram do tipo que nunca o homem conheceu. Tanto faz se era dia ou noite, elas nos caçavam muito facilmente e em muitas vezes mais de dez pessoas desapareciam por dia, para onde e por que, não sabíamos, mas nosso líder de batalha queria saber o porquê de tudo isso. Há muito tempo atrás, antes de eu ter nascido foi quando começou esta guerra, dizem algumas anciãs que foi de repente que começou a guerra, vinha do mar, do ar, da própria terra e por incrível que pareça do nada aparecia algumas daquelas criaturas hediondas. Alguns contam que começou tudo com um vírus que devastou país por país, alguns outros dizem que foi o próprio homem que começou a guerra contra si mesmo e libertou o mal, mas ninguém tinha idéia da verdadeira história, a história que meu pai me contou. Meu pai disse que tudo começou por amor, por corações partidos e essas coisas que eu não entendo, que é uma coisa que nunca consegui entender direito o que seria esse tal de amor, papai sempre disse que o amor poderia servir tanto para o bem-estar de duas pessoas como para o mal de várias, mas ele disse que há diferentes tipos de amor, mas o único amor que eu entendo é aquele que sinto pelo meu pai, e pela minha mãe mesmo não a tendo conhecido. Minha tia disse que meu pai nunca mais foi o mesmo desde que ela morrerá, que aconteceu tudo quando eu tinha uns quatro anos de idade, mas a verdade é que não me lembro dela, tenho apenas uma foto dela, que sempre carrego comigo, pois papai sempre disse que seria muito importante eu saber como ela era, como eles eram quando nada de ruim no mundo tinha acontecido. Ela era linda pelo o que mostra esta foto. Está papai e mamãe juntos no alto de uma colina, sentados debaixo de uma árvore olhando os outros montes ao longe, quem tirou a foto foi meu tio, quando todos eles viajaram, minha tia também foi, a melhor amigada minha mãe. Papai disse que tinha outras fotos, mas com tudo acontecendo tão rápido não teve como guardar mais fotos para mim, mas na verdade ele queria essas fotos também, meu tio me disse que mamãe foi a única mulher que meu pai amou de verdade, que ele a protegeu de tudo e de todos, mas no fim, ela morreu e ele se culpa até hoje por isso. É triste vê-lo assim, meu tio disse que ele antes do apocalipse sempre estava sorrindo de bem com todos, sempre fazendo os outros rirem, mas hoje em dia ele esta sempre de cabeça baixa, não fala com quase ninguém além de mim e alguns guerreiros do Rei, algumas raras vezes em noites que podemos nos instalar melhor e dormir com mais tranquilidade, ele conta histórias para mim antes de dormir, como uma história sobre um bruxo que era do bem e tinha um castelo tão grande como aquele em que íamos, e outra história sobre um elfos e ogros e as algumas histórias sobre a justiça que existia em lendas do nosso povo, que é a que eu mais preciso aprender sobre fazer tudo que for preciso para salvar quem eu amo ou matar quem mais eu odeio. Papai me disse que devo aprender mais sobre esta última história do que as outras, pois será logo que terei que tomar decisões extremas e que podem afetar muitas pessoas, e logo os mais novos deverão lutar por aqueles que morreram em batalha. Que terei de ser a razão em pessoa, na verdade não sei o que isso significa, mas sei que terei de pensar muito em ganhar esta guerra, fazendo o que for necessário para ganhá-la. Será uma longa viagem até onde todas as pessoas do meu grupo querem ir, lá na Fortaleza Lianus, eu nunca fui para lá, mas papai já foi algumas vezes antes de eu nascer, parece que ele ajudou a construir essa fortaleza, não sei direito como funciona as coisas lá, mas sei que se papai quer que eu vá para lá, é por que é um local seguro, longe de tudo de ruim no mundo de hoje.
Meu pai estava entre os companheiros de guerra do rei, fazia tempos que ele andava conversando com eles. Desde a última batalha que aconteceu no sul, perderam vários guerreiros, civis, suprimentos que já eram escassos tinham perdido mais ainda, meu pai ficava mais confinado ainda em seus pensamentos e os compartilhava com os guerreiros restantes, podia ser nova demais para alguns, mas eu já tinha consciência e percepção suficiente para ver que meu pai sabia de algo, mas não queria que ninguém soubesse além dele. Como ele já havia dito que mesmo que eles matassem o líder das sombras, a guerra continuaria, eu por algum motivo achava que a guerra acabaria assim que o coração do líder parasse de bater, e iria para casa com meu pai. Como havia sido nos meus primeiros anos de vida ou assim eu me lembrava de ter uma voz bem fininha, usando camisa de manga curta azul escura, uma calça de moletom rosa, e tênis preto. Meio desajeitada, sim, eu era e não havia mudado muito, talvez pela pouca idade que tenho, pelas poucas memórias que tenho, pela falta de segurança no mundo, nas pessoas, nos lugares onde eu tinha que passar as noites, mas meu pai estava ali para me proteger de qualquer coisa que viesse a tentar me amedrontar. Mesmo sabendo que ele estaria ali para me proteger, eu ainda sinto medo e não sei se tem como passar esse medo.
Agora o castelo já era bem visível e todos começaram a apressar o passo, meus pés estavam praticamente descalços, meus sapatos eram bem velhos, nunca tive sapatos novos, mas tudo bem, papai luta para cuidar de mim, me protegia do frio, as vezes tirando o próprio casaco para me aquecer. Pra mim ele é o melhor pai de todos. Meu grande sonho era de ver minha mãe junto ao meu pai e sermos uma família normal, mas esse sonho já era impossível.
Quando chegávamos próximo ao portão, um grande estrondo veio da floresta de onde viemos, meu pai me pegou pela mão e mandou que eu fosse com a tia Niuk. Não queria deixá-lo, mas minha tia me puxou forte e me levou embora para longe de meu pai. Foi a última vez em que o vi.
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