O Fim - A última Esperança.
3 Uma triste história
Notas iniciais
“Venha, por aqui!”
Uma voz estranha de um homem me chama, não me lembro de quem é, mas parece que já a conheço. À minha frente, há uma estrada escura pela qual eu atravesso enquanto corro. A única luz que me guia é a luz da lua, e quando reparo nela, percebo o céu estrelado que há a minha volta. Realmente, é muito belo, com tantas constelações que me fazem até esquecer este sentimento estranho de pressa que estou sentindo; tanto que nem sequer me questiono sobre a situação em que estou, apenas sigo em frente, correndo, olhando para o céu.
Isto se dá por alguns minutos, até que percebo à minha frente, o mesmo rapaz que tinha visto antes. Loiro, olhos castanhos, com uma armadura de ferro, para alguns segundos depois na minha frente. Agora estamos a mais ou menos uns 300 metros de uma floresta escura, ao nosso lado, tem um paredão de pedra bastante alto, vejo uma árvore daqui de baixo, ela parece minúscula daqui.
–Espera aí, chegamos.- Diz, e em seguida, vira-se para a pedra gigante à nossa frente, eu espero para ver ele tocar na pedra e arrastar o seu dedo levemente em algumas direções. Depois de alguns movimentos o seu toque começa a deixar rastros azuis brilhantes na pedra conforme seu dedo passa, e quando para a parede fica inerte por alguns segundos, até que um brilho circular azul do tamanho de sua mão surge no local onde ele tocou. Então abre-se à nossa frente, aquele paredão, um buraco que revela uma entrada.
–Entre.- Ele diz apenas isto.
Passo por ele entrando na escuridão, apenas observo a saída se fechar e me deixar junto com ele no breu completo. Uma forte luz ascende, me cegando por uns segundos, ela vem do fogo que flui da espada que o jovem desembainhou, iluminando o local; estreito, úmido, e com uma escada pela qual nós dois subimos.
A subida demora alguns minutos, até que encontramos o final em um alçapão de madeira velha que deixa a luz fraca do luar passar. Abrimos e subimos. Estamos numa espécie de pátio no topo do paredão. A luz da lua é tão incidente aqui que posso ver claramente o chão de rocha detalhado com pedras azuis que brilham fracamente pela lua.
–Pronto- Diz o garoto, sua voz parece aliviada, mas sinto que há tristeza também. — é por aqui que você fica…- suas últimas palavras afetam meu eu que o observa e retruca.
–Não, por favor, eu não quero isto.- Falo, indo em direção a ele, seguro seu ombro para que ele vire para mim ao invés do alçapão.
–Ei! Eu já disse que precisa ser assim, você precisa ficar aqui, e eu vou lá ajudá-los.- ele fala de modo mais reconfortante. Tento contestar, mas antes que eu possa falar ele continua. -Toma isso aqui, pra se lembrar de mim quando sentir falta.- Fala me dando o colar que ele tirou de seu pescoço. Uma pequena esfera branca envolta por três pontas de metal. E dá em minha mão com um breve sorriso.
Eu observo o objeto apenas a tempo de minha visão começar a ser puxada por um branco imenso, cada vez mais rápido até que há apenas branco, e em seguida fios negros tomam pouco a pouco o lugar, me trazendo novamente as últimas imagens em minha mente. A floresta, a fogueira, os monstros e a cachoeira.
Repentinamente eu acordo com um grito, como se ainda estivesse caindo da cachoeira, fazendo meu corpo dar um salto e cair de novo na cama onde estou. Minha respiração é rápida, e eu apenas olho em direção ao cobertor que me cobre até a cintura, mas minha cabeça só está tentando assimilar as coisas.
–Que susto! Mas o que foi isso? Você está bem?- Uma voz fala num canto do quarto em que estou, mas não me viro para ver, apenas respondo.
–A-acho que sim, eu acho que… foi só um pesadelo, sonhei que tinha caído de uma… uma cachoeira.- Falo de modo mais tranquilo, mas só então me dou conta, eu não conheço esta voz.
Viro a cabeça imediatamente, olho em direção a voz que falou comigo para ver um homem no fundo do quarto, sentado num banco, me olhando de um jeito tão curioso quanto eu devo estar. Parece ter uns 45 a 50 anos. Logo noto, pelas suas roupas compridas, e pelo seu grande nariz, que ele deve ser um aldeão das vilas, eles são uma raça que diverge dos humanos, mas tem várias diferenças. Estou muito confuso.
–Quem é você?- Pergunto hesitante.
–Eu sou Hatsa, o letrado da vila, e você quem é? — ele responde do mesmo jeito que eu, me observando. — Como você…?
–Bem, eu sou Steve…- Me esforço para lembrar alguma coisa para dizer, mas é em vão.- É acho que é só isto…… Espera aí, por que eu estou numa vila? Como é que eu vim parar numa vila?
–Ãããhn… como eu posso te falar garoto… mas eu acho que você deve ter caído mesmo de uma cachoeira…- suas palavras me deixam calado. — E acho que não foi só isto que te aconteceu não é?- ele diz apontando para outro lado do quarto, onde minha camiseta azul-esverdeado está pendurada. Ela está um pouco surrada, e também tem as marcas das flechas dos esqueletos vivos. Há um balcão ao meu lado, e nele tem as duas flechas que me acertaram ontem. Olho para meu peito para ver os curativos que alguém fez onde deveriam estar as marcas das flechas. Também tem curativos no meu braço.
–Então quer dizer que aquilo tudo aconteceu mesmo…?- Olho envolta, parece ser de manhã ainda pela luz do sol que vem da janela. -Eu caí de uma cachoeira, com duas flechas no peito, eu devia ter morrido. Como eu sobrevivi?- Pergunto espantado para mim mesmo.
–Também queria saber… nós te achamos boiando ontem bem cedo no rio e te pegamos. Não acreditamos quando te vimos respirar.- Ele fala.- Como você pode estar vivo?-
Olho para ele sem uma expressão clara no rosto, está sendo um pouco difícil entender.
–Ah… não sei, mas tenho certeza que vocês é que me salvaram- finalmente falo, virando o rosto para a janela.
–Na verdade… não é bem esta a minha d- — ele acaba não falando porque eu o interrompo. De repente lembrei dos monstros que tentaram me matar.
–Ah, porque eu ainda não perguntei isso antes- dou um tapa na testa rápido virando para ele. — Ei! O que eram aqueles monstros lá fora? Tinham pessoas que eram para estar mortas andando no meio da floresta, sem falar naqueles monstros verdes que explodiam, de onde veio aquilo?- pergunto aflito.
–Ah, os monstros? Eles aparecem toda noite, você não sabia?- Aquele olhar de dúvida aparece de novo em seu rosto.
–Desde quando? Eu nunca tinha visto nada igual- respondo.
–Espere, você se lembra de como foi a sua última noite antes daquela?- Ele se levanta, ainda me olhando, vai até a parede paralela à da cama em que estou, então estica o braço mexendo em uma estante de livros que está no alto da parede, está procurando um livro, mas fica atento a mim.
–Bem…- Acabo me acalmando um pouco para tentar lembrar. — Agora que você falou, eu não me lembro mesmo…- as memórias do sonho que tive aparecem em minha mente quando falo e vem uma dor tão forte na minha cabeça que tenho que segurar para não gritar- ai!…
–Está tudo bem?- ele se assusta.
–Tá sim, estou legal, eu acho… só tive um pouco de dor na cabeça, além dos meus ferimentos. Mas realmente, não consigo me lembrar de nada antes de ter acordado ontem de manhã.
–Fazem dois dias que você apareceu..-
–Nossa!- Fica um silêncio por alguns segundos -Ei, qual é o nome desta vila? Eu nunca saí da minha cidade, por isso não conheço muito as coisas fora dela, ontem eu estava, na verdade, tentando voltar para lá.- falo enquanto me levanto devagar por causa da dor na minha perna. Olho na estante e pego a flecha que me acertou. “Nossa, eu sobrevivi… meu pai vai ficar feliz de saber que eu consegui vencer um desafio que nem esses. Espera, será que eles sabem que existem todas estas coisas? Caramba, preciso falar logo com eles”
Meus pensamentos são interrompidos por Hatsa com o que ele me diz. Me olhando com uma expressão de tristeza e surpresa.
–Steve, acho que entendi a sua situação… não sei como posso te dizer isso mas… a minha surpresa não por é você estar vivo com aquela queda, mas por você ser um humano e estar vivo.
–Como assim?- eu o olho intrigado, o que ele quer dizer?
–Steve, você é o último humano que nós vimos em mais de um século, entende o que eu digo?- Suas palavras me paralisam no tempo, fico parado e a flecha cai de minha mão.
–Aquelas pessoas mortas são a última lembrança que temos dos humanos, para lembrarmos de como todos eles foram exterminados.- Seus olhos se enchem de lágrimas, mas ele vira o rosto para baixo, endurecendo suas feições para segurar o choro.
–C-co-como assim? O que você quer dizer com isto?
–Meu jovem, meus avós me contaram esta história. De que há um século, surgiu o predador deste mundo.
Meus sentimentos estão colidindo conforme ele me fala, estou desorientado enquanto vou compreendendo o que ele está me dizendo.
–Você está brincando comigo não é?! Me diga logo onde é a cidade de Ortus que eu vou agora mesmo para casa. Não tenho tempo para perder com todos estes monstros à solta!- Vou pegando minha camiseta furada para vestir.
–Olhe pela janela! Está vendo este horizonte à sua frente? Há cem anos, era exatamente aí que ficava a sua cidade, garoto!- Ele fala alto, e não consegue conter a lágrima em seu olho.
O horizonte ali fora me assombra com o que ele disse. E eu me viro para Hatsa.
–Não pode ser… Mas e o que aconteceu com a cidade? E com aquelas pessoas? O que aconteceu com o mundo?- pergunto inconformado, nem noto, mas meus punhos estão cerrados com muita força.-Quem fez tudo isso?
–Este, como eu disse, foi o predador deste mundo, nosso pesadelo, e provavelmente nossa queda. Primeiro ele levou os Homens-porco, depois os Humanos, os últimos que sobraram fomos nós, os aldeões. É uma história muito complicada meu jovem, e você e eu precisamos nos acalmar para que eu te conte.
–T-tudo bem…- Não está nada bem, mas eu compreendo que preciso ficar calmo para ele falar.
Então eu me sento na cama, nos acalmamos, e a história dele começa
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No lado oeste da vila, há uma pequena colina, que está entre a vila e o sol que se põe, eu estou no seu topo, e posso ver o sol lentamente baixando, iluminando a cadeia de montanhas que se estende à minha direita, que é de onde eu acho que vim. As lágrimas caem, uma a uma na minha frente enquanto o vento, balança um casaco longo que Hatsa me emprestou.
Não consigo conter a emoção ao lembrar da história que Hatsa me contou a uma hora.
“ Há cento e quinze anos atrás, um homem chegou a este mundo. Ele ofereceu muito poder e riqueza aos principais impérios do mundo, e demonstrou conhecimentos científicos e possibilidades que estavam muito além da ordem natural deste mundo. Este homem convenceu os governantes a aliarem-se todos em prol de uma nova causa, a descoberta de um novo mundo do qual ele falava coisas incríveis. Assim, todos os homens entraram em longos meses de busca por uma sala, que poderia levá-los ao novo mundo.
Porém, encantados com todo o poder e a riqueza que fora prometida, os homens sequer pensaram no que poderia acontecer de ruim, e no final, foi difícil encontrar algo de bom que sobrou. Aquele homem, invés de levar o homem ao progresso e a novas descobertas, trouxe a desgraça para este mundo. Um planeta inteiro de homens como ele invadiu o nosso mundo, atacando, os nossos seres, e levando a matéria-prima que há aqui. O s exércitos tentaram resistir, mas eles eram muito poderosos, e, uma vez que a porta para o outro mundo foi aberta, os homens do outro mondo, chamados por nós de Endermans, podiam ir e vir de lá como bem quisessem. Eles eram maiores, mais fortes, e podiam cortar completamente a distância entre o espaço, e logo derrotaram todos os reinos, com uma técnica invencível, que era chamada Warp, cidades inteiras eram engolidas por um buraco negro no ar. Eles trouxeram monstros de algum lugar do inferno, e então fecharam as portas do mesmo, para que nenhuma alma pudesse entrar lá de volta. Porém, os Pigmans, mesmo sendo transformados em zumbis, lutavam com todas as suas forças conscientemente contra os Endermans, que decidiram trancá-los no inferno de uma vez. Relatos dos que resistiram por mais tempo, dizem que aquele mundo, que nunca foi adentrado, precisava de outro para consumir, e continuar vivo. Nós, os Aldeões, não somos grandes guerreiros, mas tivemos tempo de construir máquinas, que lutam por sentimento, e que nos protegeram dos Endermans e da extinção, e o Warp foi evitado contra nós, por alguém que eu não conheço. Porém, os nossos robôs, os golens, precisam de matéria-prima, e combustível, que só pode ser obtido através de um minério, e todas as minas estão recheadas de monstros, então eu acho que não nos resta muito tempo aqui neste mundo…. Apenas não entendo… porque você sobreviveu?”
E aqui estou eu agora, sem conseguir conter as lágrimas ao pensar no mundo que eu conhecia. Minha família, minha cidade, amigos, tudo. Tudo que eu conhecia foi embora, e eu nem tive tempo de fazer nada. Agora mais do que nunca estou me sentindo perdido, mais do que quando eu acordei no meio da floresta, mais do que naqueles sonhos que eu tive. O que eu vou fazer? Não há pra onde ir, não há como voltar atrás nesta história que nem como observador eu pude participar.
Enxugo meus olhos mais uma vez, e quando abro o olho, então eu percebo, está anoitecendo. Fico mais alguns minutos parados, e Hatsa me chama para ir para dentro. Eu o ignoro. Ao longe, posso ver, saindo debaixo de algumas árvores, alguns daqueles monstros parecidos com os que lutei ontem, a luz do sol os impede de vir aqui pelo que sei, então eu apenas observo. Mas algo muito maior me atrai. Acima de uma árvore, lá está ele, meio agachado, observando o chão atentamente; grande, magro e completamente sombrio, um Enderman. Fico o observando, até que ele magicamente me nota, seus olhos roxos brilhantes parecem confusos. Na hora meu sangue esquenta, cerro os punhos. Não tenho certeza de para onde vou ir, o que vou fazer com minha vida daqui para frente, mas sei o que fazer neste exato momento.
Vou acabar com ele.
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