O Fim
1 I
Notas iniciais
Embora seja suposto a história ser canon, eu tomei a liberdade de alterar alguns detalhes.
SETEMBRO
Lily observava a cama vazia do seu dormitório e tentava não sentir o que quer que fosse — não queria começar a chorar, principalmente com Mary a olhá-la da cama ao lado.
Marlene entrou no quarto em silêncio e deixou-se cair pesadamente ao lado de Mary.
— Como estão eles? — Mary perguntou. Lily observou-as falar sem se intrometer.
— Mal — Marlene respondeu com um tom pesado. — O James está a tentar parecer normal, mas eu conheço-o demasiado bem. O Sirius está com raiva.
— Conta-me uma novidade — Mary disse em voz baixa, sarcasticamente.
— Tu soubeste do que aconteceu, Lily? — Marlene perguntou, olhando para ela.
— Sei que alguém morreu.
— Foi o pai dele — Mary informou.
— O tio Fleamont foi dos melhores homens que eu já conheci. — Marlene sorriu tristemente. — Eu passei metade da minha infância em casa deles. Saber que ele morreu deixou-me… Bem, deixou-me de rastos. A mim e aos rapazes. — Lily conseguia ver lágrimas por chorar nos olhos de Marlene.
— Como é que ele morreu? — Lily perguntou.
— Doença — Marlene respondeu. — Ele tinha andado a piorar desde o início do ano. Todos sabíamos que era só uma questão de tempo.
Marlene calou-se e ninguém acrescentou nada.
Durante os dias que se seguiram, Lily pode ver o quanto a dinâmica dos Marauders tinha mudado. Black, como Marlene tinha informado, estava com raiva. Qualquer coisa era motivo para o fazer gritar ou abandonar o Sala Comum de repente. Tudo piorava sempre que ele avistava o irmão, e Lily tinha o pressentimento que não ia demorar muito até ele arranjar um duelo com ele.
Potter, por outro lado, estava apagado, embora tentasse manter a sua atitude normal. Ele ainda ria mais alto que qualquer outra pessoa, ainda estava obcecado com Quidditch e ainda respondia mal se lhe apetecesse, mas deixara de se meter com os outros alunos ou de os azarar só porque lhe apetecia. A mudança na sua atitude tornou-se ainda mais evidente para Lily devido a todas as noites que ela passava com ele a fazer rondas e outras atividades requeridas dos Monitores-Chefe. Na maior parte das vezes, Potter não dizia nada a noite toda.
Até Lupin e Pettigrew estavam diferentes. Lupin parecia ter o cuidado de andar sempre com Black, como se estivesse a vigiá-lo para ter a certeza que ele não explodia a qualquer momento. Pettigrew, por outro lado, passara andar mais vezes sozinho, sem a companhia de ninguém.
Não foi até meio do mês que Lily se apercebeu que ainda não tinha havido uma partida de “Bom regresso às aulas” e que Potter já quase não se metia com ela. Ele andava maioritariamente com Mary ou com Marlene, que pareciam fazer turnos para o acompanhar — Lily tinha-as ouvido falar, no início do ano, sobre como não o queriam deixar sozinho durante muito tempo seguido. A esta altura, ao ver todo o cuidado que ela estava a ter, Lily nem ficaria surpreendida se Mary e James reatassem.
Bem, se isso o tirasse do estado meio-morto em que ele estava, talvez isso até fosse bom.
Foi numa tarde no fim de setembro, quando Lily estava sentada à sombra de uma árvore perto do lago, que ela finalmente conversou com Black. Ela e ele não eram amigos — ela nunca iria ter com ele se precisasse de se rir, ou de chorar, ou de ir comprar algo em Hogsmeade —, mas algures durante o ano passado eles tinham começado a confiar um no outro aquilo que os seus amigos não iriam compreender. Por mais diferenças que tivessem, eles eram os que melhor sabiam o que era viver com pessoas que só os queriam ver pelas costas.
Ela observou-o atravessar o relvado para vir ter com ela e atirar-se para o chão à sua esquerda.
— Eu não sei o que fazer — ele confessou-lhe, atirando um seixo para o lago. Ele não esperou que ela reagisse para continuar: — Eu estou cansado de me sentir assim. Desde que o Mr. P. morreu que eu me sinto sempre zangado. Só me apetece gritar com toda a gente e fazê-las ver que já não é tempo para brincar e ser feliz. A Guerra consegue tirar-nos os nossos melhores guerreiros sem sequer os tocar diretamente. Se é assim, como é que nós vamos conseguir sobreviver a enfrentá-la? Como, Evans?
Ela não lhe respondeu — ela não sabia o que lhe dizer. Ela sempre pensou que os Marauders finalmente crescerem e se aperceberem de que havia uma guerra lá fora — que os seus dias de brincadeira estavam contados — seria um motivo de satisfação para ela. Na sua opinião, não parecia justo haver pessoas — pessoas como ela — a lutarem todos os dias por um lugar que naturalmente lhes pertencia, enquanto a vida dos idiotas que tinha como colegas de turma rodava à volta de brincadeiras e de Quidditch. Para ela, a atitude deles agora era a correta, aquela que eles deviam ter tido desde o início.
Ou, pelo menos, isso era o que ela devia sentir.
Ela não disse nada disto a Black. Ela observou-o deitar-se no relvado, a cabeça apoiada nos braços e os olhos trancados no céu, e respondeu:
— Não com essa atitude. — Ela considerou as suas palavras seguintes antes das falar: — Eu sinto-me fisicamente indisposta por estar a dizer isto, porque isto vai contra tudo o que eu sempre pensei — Black tinha aberto virado o olhar para ela e observava-a falar com o máximo de atenção —, mas eu acho que tu devias deixar essa raiva ir e, para a sanidade de todos nós, lutar para que este ano seja como os anteriores. Volta a ser o idiota que sempre foste e de quem eu nunca gostei, porque acho que os próximos anos vão ser cheios de tanta raiva, tristeza e solidão, que tu e os outros podem dar-se ao luxo de crescer só daqui a uns meses.
Ela soltou uma risada seca às suas palavras. Merlin, quem a ouviu e quem a ouve!
Black encarou-a seriamente durantes alguns momentos, antes do seu rosto se abrir no sorriso maroto que Lily não via desde o final do sexto ano.
— Merlin, Evans, nunca esperei ver o dia em que tu me imploravas para reerguer os Marauders! — Lily revirou os olhos ao seu tom, embora algo nela lhe dissesse que ela tinha sentido saudades dele. — Bem, o teu desejo será uma ordem.
Ela deixou-o levantar-se e sacudir o manto enquanto o observava com atenção. Ele não parecia feliz — Lily sabia que ele demoraria até estar completamente feliz outra vez —, mas parecia melhor.
— Eu vou arrepender-me de tudo o que disse, não vou? — perguntou.
Black sorriu-lhe.
— Ficarei desiludido se isso não acontecer.
Ele virou costas e começou a fazer o caminho de volta para o castelo, e Lily decidiu segui-lo. Foi então que viu Potter sair da sombra de uma das árvores mais próximas — próxima o suficiente para se conseguir ouvir toda a conversa dela e de Black — e teve que fazer um esforço consciente para se impedir de ficar zangada com ele.
Potter sorriu-lhe, meio embaraçado, e passou a mão pelos cabelos.
— Obrigado por isto — disse antes de começar a correr atrás de Black.
OUTUBRO
Mr. Baxter era o professor de Defesa Contra a Magia Negra em Hogwarts desde que Lily andava no quinto ano. Ela não gostava dele particularmente — o único professor de quem ela realmente gostava era a professora McGonagall —, mas ele era competente e ensinava bem.
Ele também tinha um amor imenso por trabalhos de grupo.
Lily perguntou-se que mal fez ao mundo quando o Mr. Baxter anunciou que ela faria parceria com Potter para o próximo trabalho de grupo, que “provavelmente duraria o mês todo, podendo arrastar-se para novembro”, em vez de ficar com uma das suas amigas. Já não bastava o tempo que ela passava com ele durantes as suas rondas?
Não era a primeira vez que ela ficava com Potter; isto já lhe tinha acontecido uma vez no ano passado, e ela também já tinha ficado, noutra ocasião, com Pettigrew.
James sorriu-lhe irritantemente do seu lugar e ela sorriu-lhe azedamente de volta.
Ao longo do final de setembro, o grupo de Potter tinha lentamente voltado ao normal. Ouvir os seus risos altos ou gritos tinha-se tornado normal outra vez em Hogwarts, e pequenas partidas no Salão Comum passaram a ser esperadas. Relatos de acidentes noturnos também tinham voltado a começar a correr. Porém, para sua surpresa, eles pareciam ter deixado de lado qualquer desavença pessoal que tinham nos anos anteriores — Snape —, e passado a tratar todos os Slytherin de igual modo: com nojo, piadas porcas e insultos. Por muito que quisesse, Lily não conseguia discordar deles totalmente.
Ela ouviu o professor emparelhar as restantes pessoas e explicar o trabalho que teriam que fazer, e não pôde deixar de ficar entusiasmada. Parecia difícil e complexo. Quer quisesse, quer não, Potter era um bom aluno e um bom feiticeiro e ela sabia que entre os dois eles poderiam ter um dos melhores trabalhos da turma. Por agora, focar-se-ia nisso.
Ela e Potter marcaram a primeira sessão de estudo para sábado do fim-de-semana seguinte, a seguir ao jantar, numa sala raramente usada do terceiro andar. Quando Lily entrou na sala, Potter já lá estava à sua espera, a acender velas. Ela entrou carregada de livros que achava que poderiam serem úteis e pousou-os na mesa mais próxima.
— Não era mais fácil trazeres a biblioteca toda? — Potter perguntou depois de a ajudar a pousar os livros, pegando-os para ler as capas.
— Isso era suposto ser uma piada? — ela perguntou secamente, puxando uma cadeira para se sentar.
— Tu sabes que o trabalho é prático, certo? A ideia é nós conseguirmos fazer os feitiços — Potter comentou quando ela começou a tirar pergaminho e material para escrever do saco que carregava com ela.
— E escrever cinquenta centímetros sobre como os conseguimos fazer e porque é que eles são tão complexos e importantes — Lily acrescentou, lançando-lhe um sorriso amarelo e um olhar irritado. — Para além disso, a esta altura já devias saber que toda a prática necessita de teoria.
— Isso é o que eles dizem — Potter retorquiu, mas sentou-se e começou a folhear os livros.
Eles trabalharam maioritariamente em silêncio, trocando apenas algumas ideias e insultos, tal como fizerem na semana seguinte.
E na seguinte.
Outubro já estava quase no fim quando Potter, durante um dos seus encontros, fechou um livro com força, deixou-se relaxar na cadeira e cruzou os braços. Lily olhou para cima para o encarar com uma sobrancelha elevada e Potter bufou:
— Estou farto. Estamos a fazer isto há três semanas. Já temos tudo de que podíamos possivelmente precisar. Podemos, por favor, passar à prática?
Lily revirou os olhos e respondeu, soando apenas um bocado irónica e muito irritada:
— Claro que podemos, génio, se tiveres alguma ideia de como começar.
Potter parecia surpreendido com o seu tom de voz e Lily fechou os olhos para poder respirar fundo antes de falar:
— Desculpa. É só que recebi uma carta de casa com informações que não esperava ter e descarreguei em ti. — A sua mãe tinha-a informado do futuro casamento de Petunia na carta que recebeu esta manhã.
Potter sorriu, parecendo, pela primeira vez, totalmente compreensivo:
— Sem problema. — Algo passou momentaneamente pelos seus olhos, tão rápido que ela quase pensou que foi um truque das sombras. — Está tudo bem?
— Sim. É só que a minha irmã me tira do sério.
Potter acenou em compreensão e levantou-se, começando a andar de um lado para o outro enquanto falava:
— Estive a pensar e acho que podemos começar com o Patronus. Acho que esse deverá ser o feitiço que irá levar mais tempo e é um feitiço muito pessoal. Eu já tenho umas ideias em mente, mas não sei se será suficiente. Enquanto vamos trabalhando no Patronus podíamos trabalhar nos outros feitiços de proteção, uma vez que eles são muito mais técnicos. Acho que seria bom intercalar. — Potter olhou-a, expectante. — O que dizes?
Lily tentou não mostrar a sua surpresa com um plano tão sólido. Era um ótimo plano, melhor do que aqueles que ela tinha tido. Havia, porém, algo que a estava a incomodar, e ela não o queria partilhar.
— Pode ser — ela concedeu, vendo Potter sorrir de contentamento. Ele deu um murro no ar para festejar. — Mas podemos começar para a semana? O Mr. Baxter alargou o prazo até ao final de novembro, por isso não devemos ter problemas. É só que eu estou com uma enorme dor de cabeça — mentiu. — Talvez até nos pudéssemos encontrar a meio da semana, para compensar? Lá para quarta ou quinta.
— Por mim, está ótimo — Potter respondeu, começando imediatamente a arrumar as suas coisas. A sua sntich voou no ar. Lily revirou os olhos. — Depois combinamos melhor o dia. As melhoras! — Potter desejou, já a sair da sala.
Lily deixou a porta fechar-se com um estrondo antes de relaxar na cadeira. Ela fechou os olhos e deixou a cabeça cair para trás, pensando naquilo que a tinha feito acabar com a sessão mais cedo.
Potter já tinha ideia das memórias que podiam fazer com que ele conseguisses produzir um Patronus. Ela não.
NOVEMBRO
Potter e ela combinaram encontrar-se no primeiro dia de novembro, uma quarta-feira, a seguir ao treino de Quidditch, mas antes do jantar. Quando Lily lhe questionou sobre como iam comer, ele disse que trataria disso. Ela não sabia o que estava à espera, mas certamente não esperava entrar na sala em que eles normalmente trabalhavam e encontrar uma das mesas cheia de comida.
— Eu sei que isto é um bocado demais — Potter disse do sítio onde ele estava a despir o manto de exterior. Tinha o cabelo molhado e os óculos embaciados —, mas tu sabes como são os elfos das cozinhas. Eles entusiasmam-se um bocado.
Lily não sabia como eram, na verdade. Ela nunca tinha ido às cozinhas e tinha estado com um elfo doméstico apenas duas vezes na sua vida, ambas na casa de Marlene e ambas com a mesma elfa, que era mais rabugenta que entusiasmada.
Ela não corrigiu Potter.
— Queres uma sandes? — ele perguntou, pegando em duas fatias de pão e começando a recheá-las com carne assada, queijo, ervas e molho.
— Pode ser — ela respondeu, começando finalmente a tirar o seu manto. — Obrigada.
Lily estava a planear comer rapidamente e em silêncio, mas Potter parecia ter outros planos. Assim que ele engoliu a dentada que tinha dado, começou a falar:
— Então, Evans? — Lily sentiu que não ia gostar do que ele ia dizer. — Achas que podemos considerar isto o nosso primeiro encontro?
Lily revirou os olhos. Embora ela tivesse que admitir, nem que fosse apenas na sua própria cabeça, que Potter pouco ou nada a tinha incomodado com aquele assunto desde que o ano começou — graças a Merlin, parece que deixar de lado desavenças pessoais se estendia a deixá-la de lado —, ela não devia esperar de Potter que ele, eventualmente, não trouxesse o assunto ao de cima.
— Queres mesmo que eu responda a isso? — ela perguntou-lhe. — Ou já me conheces bem o suficiente para saberes a minha resposta?
— Eu tenho sempre esperança de conhecer uma faceta tua que queira sair comigo — Potter respondeu-lhe. Ela teve a impressão que ele também lhe piscou o olho. — Falando a sério, agora, porque é que não me dás uma oportunidade? Uma só e eu prometo que te deixo em paz.
— Potter, honestamente, eu não acho que haja alguma faceta minha, mesmo aquelas que tu não conheces, que queira sair contigo — Lily disse-lhe com a maior sinceridade que conseguia, olhando-o seriamente e com os olhos bem abertos.
Ela tinha que admitir que Potter estava melhor este ano, que ele se tinha tornado alguém com quem ela não se importaria de passar algum tempo e que até podia vir a considerar um amigo. Isso, porém, não eliminava todos os anos anteriores: desde o quarto ano que Potter a considerava algo inalcançável, que nem ele conseguia encantar e, por isso, ele tinha que tentar, de todas as formas possíveis, atingi-la. Uma vez, quando ela explicou isto a Marlene e a Alice — após elas lhe perguntarem porque é que ela achava a atitude de Potter tão insuportável —, Marlene disse-lhe que não devia ler tanto naquilo, que nem Potter pensava excessivamente nisso. Mais tarde, contudo, Alice confidenciou-lhe que achava que ela tinha razão em não gostar e não suportar a pessoa que fazia questão de a irritar sempre que estavam no mesmo espaço só porque “lhe sabia bem”.
Potter observou-a atentamente durante alguns segundos, antes de suspirar e dar outra trinca na sua sandes.
— Mas posso contar contigo no jogo de sábado, certo? — ele perguntou, parecendo a Lily que ele estava algo amuado.
— Claro que sim.
Ela esperava que pudesse, agora, comer em silêncio, mas Potter voltou a preencher o espaço com a sua voz, a contar algo que aconteceu no treino de Quidditch que Lily não ouviu com a máxima atenção. Lily acabou de comer muito antes de ele acabar, e teve que o parar a meio do relato para lembrá-lo que eles estavam juntos por um motivo.
— Então, que ideias tens para o teu Patronus? — ela perguntou quando Potter acabou de comer e pegou na sua varinha.
— Várias, mas não estou confiante em nenhuma delas. — Ele fez uma pausa antes de continuar e toda a sua postura pareceu ficar mais séria de repente. — A maior parte são com os meus pais. Eu tive uma infância ótima, sabias? Os meus pais são as melhores pessoas que eu já conheci e eles estão em basicamente todas as minhas memórias. A Marlene e o resto dos McKinnon também, é claro. No entanto, eu sinto a basicamente a mesma coisa em todas elas, o que significa que elas não devem ser assim tão especiais, certo? — Lily acenou, de modo a indicar que o estava a ouvir. — Depois tenho algumas com os rapazes e de Quidditch, mas, novamente, o que sinto quando me lembro delas é basicamente a mesma coisa em todas. — Ele olhou para ela. — E tu? Que memórias pensas que poderão funcionar para ti?
Lily decidiu que a melhor estratégia era desconversar.
— Porque é que hoje não nos focamos em ti? Talvez não ajude nada, mas talvez estejas a precisar de falar, não? — ela perguntou, voltando a sentar-se.
Potter riu-se, meio embaraçado, e sentou-se também.
— Talvez. — Ele retirou a sua snitch do bolso. — Bem, há algumas memórias que se destacam. Tenho uma com a Marlene e com dois dos irmãos dela de quando nós éramos novos. Estávamos todos a jogar uma versão caseira de Quidditch no meu jardim. O meu pai estava lá a vigiar-nos e a jogar connosco. Eu estava a fazer de seeker, porque seeker era a minha posição preferida até eu perceber que eu sou muito melhor como chaser, e eu lembro-me de ver a snitch e de a ir tentar apanhar. Eu estava quase a apanhá-la e meio que me atirei da minha vassoura. Eu estava a cair, e lembro-me de ouvir o meu pai gritar por mim, mas de repente eu estava sentado numa árvore, completamente seguro. Essa foi a primeira vez que eu fiz magia. — Potter sorriu com a memória.
Parecia-lhe justo que a magia de Potter se tenha manifestado num jogo de Quidditch. Lily lembrava-se da primeira vez que fez magia como se fosse ontem, mas essa não era uma memória que ela considerava particularmente feliz, pois essa também foi a primeira vez que Petunia chamou a sua magia de “aberração”.
— Depois existe uma com a Mary, de quando nós estávamos a namorar, mas não me parece que queiras ouvir sobre isso. — Lily olhou-o com uma sobrancelha elevada e Potter revirou os olhos. — Não é nada disso! — Ele revirou os olhos. — Merlin, Evans, nós tínhamos treze anos na altura! — Lily riu-se com ele e Potter voltou a falar, parecendo perdido na palavras. — Eu sinto que, de certo modo, a minha memória mais feliz devia ser com o meu pai. Como que para o homenagear, sabes? Mas eu não consigo em pensar em nenhuma memória que eu ache que vá funcionar. Não é que elas não sejam todas felizes, muito pelo contrário, mas eu sinto que nenhuma delas é feliz o suficiente…
Potter parecia perdido em pensamento e Lily deixou-o pensar durante alguns momentos, antes de falar:
— Porque é que não tentas com as memórias que já tens? Talvez estejas a pensar demasiado e experimentar o feitiço te ajude a perceberes aquilo que ele requer.
— E se nada acontecer? — Potter perguntou.
— Então tentas outra vez — Lily respondeu.
Lily encontrou-se sozinha com Sirius na semana seguinte e só percebeu o quanto ela precisava de falar com ele naquele momento. Ela estava na Torre das Corujas a enviar uma carta para os pais — uma resposta à carta que eles lhe enviaram há duas semanas atrás —, quando ele entrou. Ela deixou-o enviar a sua carta antes de finalmente meter conversa.
— Já pensaste na memória que vais usar para o Patronus? — ela perguntou.
Ele olhou-a pelo canto do olho.
— Claro. Tu não? — Ele deu de ombros, não esperando por uma resposta, e virou-se. — Mas não é como se houvesse muito por onde pensar. Só tenho duas memórias possíveis.
— São sobre o quê? — ela perguntou, querendo realmente que ele respondesse.
Black pareceu considerar se lhe devia dizer, antes de dar de ombros e se encostar à janela.
— Uma delas é sobre todas as vezes que os Potter me chamam de filho deles ou me tratam como tal. — Ele sorriu carinhosamente. — Elas sempre me fizerem sentir o mais feliz que eu alguma vez estive. Nem sequer tinha que ser algo de grande, sabes? Bastava algo como quando eles davam algo novo ao Prongs só porque lhes apetecia, mas também me davam algo a mim, ou como eles nunca reclamaram quando eu ia ter com eles porque tinha pesadelos. Ou como quando me introduziam alguém a dizer “Estes são os nossos filhos, o James e o Sirius”. — O sorriso de Sirius cresceu. Ele parecia estar perdido numa memória. — Eles sempre fizeram questão de me cumprimentar ou de se despedirem de mim em King’s Cross, exatamente como fazem com o James. — Black parecia querer continuar a dizer-lhe todos os modos como os Potter o adotaram como parte da família, mas ele parecia estar à beira das lágrimas e incapaz de continuar.
Lily observou-o sem dizer nada, mesmo quando ele fungou duas vezes e passou a manga do manto pelos olhos.
— E a outra memória?
— Prefiro não falar sobre isso.
Black desencostou-se da parede e estava prestes a sair, mas Lily tinha que lhe perguntar uma coisa:
— Da maneira como tu falas, parece que não é a memória que interessa, mas sim o sentimento que ela desperta.
Black virou-se para a encarar, confuso:
— Não é essa ideia? Daquilo que eu li, tu tens que pensar na memória que te traz mais felicidade. Todas estas memórias me deixaram feliz de igual modo, e todas elas retratam a maior felicidade que eu alguma vez senti. Talvez não seja o suficiente, mas, se não for, então eu não sei o que será.
— O Mr. Baxter disse que havia pessoas que não iam conseguir e que podiam nunca vir a conseguir fazer um Patronus — Lily lembrou.
— Eu sei, mas não estou preocupado. — Ele encarou-a com um olhar desconfiado. — Qual é a tua memória, Evans?
Lily suspirou. Ela estava à espera desta pergunta desde que começou a conversa, mas tinha esperança que ele não a fizesse.
— Eu não tenho nenhuma — ela admitiu, incapaz de o olhar dos olhos.
— A sério? — Black perguntou, soando surpreso.
— Nenhuma que eu me lembre, pelo menos — ela disse para os seus sapatos.
Black agarrou-lhe uma mão e apertou-a.
— Podes não acreditar nisto, mas deves ter alguma. Tu tens que ter alguma. Pode não ser forte o suficiente, podes nunca vir a fazer o Patronus, mas eu acho que é mais importante saber que houve uma vez na nossa vida que fomos completamente felizes, do que conseguir fazer um feitiço que podemos até nunca vir a precisar. — Ela estava a olhar para Black e ele sorriu-lhe. — Para além disso, se provavelmente todas as cobras do nosso ano vão conseguir fazer um Patronus, um dos feitiços mais brancos que existe, como é que nós não conseguimos? — Lily sorriu e Black retribui-o. Ele apertou-lhe a mão uma última vez antes de lhe piscar o olho, tal como o Potter está sempre a fazer, e sair do Torre das Corujas.
Só ao entrar em Hogwarts é que Lily se apercebeu que, embora as palavras de Black possam não ter resolvido o seu problema, elas provavelmente resolveram o de Potter. Ela revirou os olhos quando se apercebeu disso. Claro que a resposta para o maior dilema de Potter estava com o melhor amigo, e claro que ele não o sabia.
Lily explicou aquilo que ouviu de Black a Potter na sessão de estudo de domingo — sábado tinha sido jogo de Quidditch; Gryffindor ganhou.
Potter não conseguiu conjurar um Patronus naquele dia, mas aquilo pareceu ter ajudado, pois Lily podia jurar que viu uma luz branca finíssima sair da varinha dele por um instante.
DEZEMBRO
A apresentação dos trabalhos de Defesa foi na primeira semana do mês.
No trabalho teórico, Potter e ela tiverem nota máxima, o que não foi surpresa para nenhum deles.
Na avaliação da parte prática, Potter conseguiu apenas conjurar um escudo branco, mas ele parecia bastante orgulhoso com o seu trabalho. Eles quase não tinham voltada a falar sobre a memória que ele estava a utilizar, mas se Lily fosse pela sua cara, diria que tinha algo a ver com o pai.
Contava-se com uma mão as pessoas que conseguiram um Patronus mais forte que o de Potter: o resultado de Black foi bastante próximo do de Potter, mas o Patronus mais forte foi, de longe, o de Alice, que que era quase sólido o suficiente para se distinguir qual animal ele viria a formar.
Lily não conseguiu conjurar nada, algo que ela já estava à espera. Potter sorriu-lhe solidariamente quando o Mr. Baxter se afastou após a avaliar. Ela sabia que ele estava curioso por saber que memórias é que ela estava a usar, mas ele tinha percebido rapidamente que ela não queria falar sobre isso da primeira vez que o assunto veio ao de cima, e desde aí que não perguntara mais nada.
Mesmo assim, Potter e ela tiverem uma das notas mais altas na parte prática, devido à solidez dos seus escudos e porque o Mr. Baxter adorou o duelo que eles usaram para a avaliação — ele estava totalmente ensaiado, mas ele não tinha que saber disso.
— Tenho que admitir que não só estou muito contente com os resultados deste trabalho, mas estou também bastante surpreendido — Mr. Baxter disse quando acabou de anunciar os resultados. — Não estava à espera de resultados tão bons no Patronus após tão pouco tempo de prática, mas ainda há muito para melhorar. Normalmente, é mais fácil conjurar um Patronus após ter contacto com Dementors, mas nós não vamos expor-vos a isso. Mais à frente, vocês poderão ter um desafio em que terão que usar o Patronus, por isso eu quero que o continuem a praticar. Eu sei que, com mais tempo, os resultados de muitos poderão vir a melhorar. Assim sendo, sempre que preci…
Lily deixou de prestar atenção ao Mr. Baxter nessa altura. Ela tinha andado o resto do mês de novembro a pensar nas palavras de Black, mas nem assim conseguiu arranjar algo remotamente próximo de fazer um Patronus. Potter tentara ajudar como conseguia, mas ela não queria a ajuda dele. Ela só queria uma memória, um sentimento, qualquer coisa que fosse forte o suficiente para conjurar um Patronus.
Ela, contudo, não se deixou preocupar com isso até ao fim do período. Os pais tinham-lhe voltado a mandar uma carta, desta vez não a pedir, mas a implorar que ela viesse a casa deles no Natal, a dizer que o noivado de Petunia não ia influenciar nada.
O noivado de Petunia, porém, era apenas parte do problema. Lily não queria, de todo, ir ao casamento da irmã — a irmã não a queria lá de qualquer maneira —, mas a sua mãe insistia que ela devia vir, pois Petunia só se casaria uma vez na vida e um casamento não é lugar para más intenções. Lily achava toda esta perspetiva dos pais bastante bonita, mas ela não achava que, depois de tantos anos de desavenças e palavras ditas unicamente para magoar, ela seria capaz de ir ao casamento da irmã e fingir que ela estava feliz por ela, principalmente estando ela a casar-se com um porco machista e egocêntrico. Nem ela desejava isso a alguém.
O seu verdadeiro problema era algo que vinha de antes de Petunia anunciar noivado. Desde que a Guerra começara, mas especialmente nos últimos meses, que Lily tinha medo que cada carta que enviava aos pais fosse a última que eles receberiam. Eles podiam morrer a qualquer altura e, se isso acontecesse, a culpa seria dela. Afinal, que outra razão teriam os Devoradores da Morte para matar os seus pais, para além do facto de ela ser uma feiticeira?
A sua parte racional dizia-lhe que os pais podiam morrer muito antes disso ou por causas nada relacionadas: podiam ter um acidente de carro, ou um incêndio, ou ficarem doentes. Para além disso, os Devoradores eram doidos, eram pessoas que matavam muggles só pelo prazer de o fazer e serem, ou não, os pais dela nada afetaria isso. Lily, porém, não conseguia ouvir a sua parte racional, e o medo de eles morrerem por causa dela persistia. Por isso, era melhor ela cortar qualquer relação com eles o mais cedo possível, do que depois se arrepender.
Ela voltou a responder aos pais que não iria a casa e assinou a folha de pessoas que ficariam em Hogwarts assim que a professora McGonagall a disponibilizou.
— É verdade que não vais a casa este Natal? O James disse que viu a tua assinatura na folha — Mary comentou assim que ela entrou no quarto nessa noite.
— Bem, se ele viu a assinatura, então isso deve servir-te de resposta, não? — Lily respondeu, irritada.
Mary revirou os olhos e voltou a focar-se na sua revista, naquele modo dela que dizia “não te vou dar importância”. Marlene entrou no quarto pouco depois, corada e com os lábios inchados, mas ficou séria assim que a viu.
— Escusas de perguntar — Mary disse antes que ela pudesse falar, quase sem tirar os olhos da revista. — A Lily está maldisposta.
Lily não respondeu a provocação e acabou de trançar o cabelo. Ela vestiu a capa mais quente que tinha por cima do uniforme e estava quase a sair quando Marlene a interrompeu.
— Onde vais?
— À reunião dos Monitores-Chefe com a professora McGonagall — ela respondeu.
— Ah, pois é! Tinha-me esquecido — Marlene disse. — Eu desço contigo.
Marlene foi ter com Black mal elas chegaram ao último degrau e Potter veio ter com ela. Eles fizeram o caminho até à sala da professora McGonagall em silêncio e Lily deixou-o ser a ele a bater à porta.
— Entrem!
Potter abriu a porta para ela e sorriu-lhe ao deixá-la passar. McGonagall indicou que se sentassem no lado oposto a ela na secretária. Lily despiu a capa que tinha acabado de vestir antes de se sentar à direita de Potter — a grande lareira da sala conseguia cortar o frio de Hogwarts no inverno.
McGonagall estendeu-lhes a sua lata de biscoitos e chávenas de chá antes de começar a discutir o período que se passou e as detenções que foram dadas ao longo do último mês.
Lily não se deixou pensar em nada mais durante a reunião e estava demasiado cansada para se preocupar com o que quer que fosse no seu final — McGonagall gostava de discutir todo e qualquer pormenor das funções dos Monitores-Chefes e a reuniões mensais facilmente duravam mais de duas horas.
— Ms. Evans, importa-se de ficar mais um momento? Tenho algo que preciso de discutir consigo — McGonagall informou quando ela fez menção de se levantar, a seguir a ela os ter dispensado.
Potter olhou-a, curioso, mas devia conhecer McGonagall bem o suficiente para saber que não se devia deixar ficar para trás e saiu rapidamente da sala.
— Está tudo bem, professora? — ela perguntou educadamente.
— Não é nada com que se deva preocupar. Eu não quero intrometer-me em algo pessoal, mas estou curiosa sobre os motivos que a levaram querer a ficar em Hogwarts este Natal. — Lily sentiu a sua postura perfeita abater assim que ouviu as palavras. — Pergunto apenas porque você nunca antes quis ficar cá.
Lily questionou-se apenas durante alguns segundos se devia contar a verdade, mas rapidamente decidiu que não.
— Nada de preocupante, professora. Apenas acho que nunca antes tive a oportunidade de experienciar o Natal em Hogwarts e os meus colegas sempre disseram maravilhas acerca dele. Assim sendo, mais vale aproveitar a minha última oportunidade enquanto ainda a tenho, não?
McGonagall acenou com a cabeça.
— Fico contente em ouvir isso — disse simplesmente. Pelo olhar dela, ela não tinha acreditado numa única palavra que Lily tinha dito, mas não parecia que a fosse pressionar.
— Posso ir agora, professora, ou tem mais alguma questão?
— Pode ir, Ms. Evans. — Lily sorriu-lhe educadamente e acenou-lhe antes de se levantar e voltar a vestir a capa. Ela estava quase na porta quando McGonagall voltou a falar: — Eu espero que, se houver algum problema, você informe alguém que a possa ajudar.
Lily sorriu e abriu a porta:
— Boa noite, professora McGonagall.
— Boa noite, Miss Evans.
Nesse sábado houve jogo de Slytherin contra Ravenclaw. Lily estava a planear ir ao jogo até ao último momento.
— Vocês vão indo, meninas. Eu esqueci-me de uma coisa no dormitório — ela mentiu a Mary e Alice.
Ela observou-as seguirem na direção do campo de Quidditch antes de seguir na direção contrária.
— Lily! — Hagrid exclamou, claramente feliz, assim que a viu. Lily sorriu-lhe abertamente. — ‘Tava ‘gora mesmo a ir para o jogo.
— Na verdade, vinha-te perguntar se não gostavas de beber um chá comigo? — ela perguntou.
Hagrid sorriu imediatamente.
— Claro que sim! Quem precisa de ver aquelas cobras jogar, afinal? — Ele abriu-lhe a porta da sua cabana e deixou-a passar. — Nã’ te vejo desde outubro, mas acredito que as coisas estejam complicadas, ‘né? É o último ano, tens que t’aplicar.
Lily deixou-o servir-lhe uma chávena de chá com três colheres de açúcar e oferecer-lhe uma fatia de bolo, mas não se atreveu a bebe-lo. Bem-intencionado ou não, Hagrid tinha zero dotes culinários em comida para humanos.
— ‘Tão? Como vai tudo no castelo? — Hagrid perguntou, sentando-se em frente a ela com o seu próprio barril de chá e três biscoitos.
Lily divertiu-o com algumas histórias sobre ela e as suas amigas, até se sentir corajosa o suficiente para revelar o verdadeiro objetivo da sua visita.
— Eu vim cá por um motivo, Hagrid — Lily contou-lhe no final da terceira história. — Eu preciso de um conselho.
Hagrid ouviu atentamente e sem interromper todo o dilema de Lily com os seus pais e Petunia.
— ‘Tás a ser ridícula — ele disse assim que ela acabou. Lily sentiu a sua sobrancelha mover-se de irritação. — Percebo que não queiras ir ao casamento da tua irmã, e nã’ te vou dizer pa’ ires. A tua irmã é uma pequena víbora. — Lily riu-se. — Mas devias ir a casa no Natal. Achas mesmo que, se eles morrerem, isso vai doer menos ou afetar-te menos só porque os ignoraste nos meses antes disso? Deixa-me dizer-te: nã’ vai acontecer. Se alguma coisa, vais sentir-te pior. Por nã’ teres aproveitado o tempo que tinhas.
— Achas mesmo? — Lily perguntou.
— Claro. Vai ter c’a professora McGonagall e diz-lhe que mudaste de ideias.
Eles mudaram de assunto a seguir e ficaram a conversar até começarem a ouvir as pessoas a regressarem do jogo.
— Obrigada — Lily sussurrou para a barriga de Hagrid quando o abraçou antes de ir embora.
O dia de Natal amanheceu frio e chuvoso. Lily desceu as escadas e entrou na cozinha, que cheirava a carne assada e doces de Natal, para tomar o pequeno-almoço, já bem depois das dez da manhã.
— A Petunia vem almoçar hoje — o seu pai informou-a assim que a viu. — O Vernon também vem, tal como os seus pais e a sua irmã.
Ela encarou-o com uma cara de insatisfação e não se impediu de comentar:
— Bem, lá se vai o espírito natalício.
O seu pai sorriu-lhe, algo compreensivo, e respondeu:
— Tenta comportar-te. Se não pela tua irmã, por mim. — Ele pousou a mão no seu ombro. — Eu sei que ele não é ideal, e se fosse por mim eles nem sequer estavam noivos, mas é isto que ela quer.
— E não te custa ter que aceitar que ela quer algo tão baixo? — Lily questionou, não compreendendo. Ela podia não se importar muito com Petunia, mas ela também não queria que a irmã fosse infeliz toda a sua vida.
— Deus sabe que me custa, Lily — ele suspirou. Lily viu-o olhar de relance para a porta, para ver se a sua mãe se estava a aproximar. — No entanto, acho que ela não me perdoaria se eu não a deixasse tentar. Nas palavras dela, “este é o seu momento”. — Ele apertou-lhe o ombro carinhosamente e dirigiu-se à saída da cozinha. — Uma carta chegou para ti esta manhã — ele disse-lhe antes de desaparecer.
Lily levantou-se, curiosa, e pegou na carta que o seu pai tinha deixado no balcão da cozinha. Estava endereçado a ela numa letra que ela reconhecia, mas não se conseguia lembrar de onde, e estava selada a cera com um brasão. Lily abriu a carta e revirou os olhos quando viu o autor.
“Querida Evans,
Eu chamar-te-ia Lily se achasse que tu me deixarias. Como, porém, esse não é o caso, Evans terá que servir.
Eu estou a questionar-me desde o início deste ano se te devia dizer isto cara a cara, ou se uma carta bastará. Embora todos os meus amigos me dissessem que a primeira opção é a melhor quando se trata de ti, eu decidi optar pela segunda. Espero não me vir a arrepender.
Durante as férias de verão que, surpreendentemente ou não, foram um grande período de reflexão para mim, eu comecei a questionar-me sobre ti e sobre mim — acho que, por agora, é ousado usar “sobre nós”. Eu questionei a Lene se ela sabia alguma coisa sobre quais eram as razões que te levavam a rejeitares-me tão fortemente, e embora ela tenha relatado uma conversa que teve contigo há tempos com grande sarcasmo (acredito que também tu estejas familiarizada com a opinião da Marlene neste assunto), eu não pude deixar de me aperceber de uma coisa: eu agi mal, Evans. Durante todos estes anos, eu agi muito mal. E por isso eu peço desculpas. Do fundo do meu coração, eu peço desculpas.
Eu tenho tentado, ao longo deste ano, não só ser diferente, como também ser melhor. Embora tu tenhas dito ao Sirius (não vamos fingir que não sabemos que eu ouvi tudo) que seria bom se nós não crescemos neste momento, eu acho que nós devemos. Não completamente (eu acho que ser Marauder está tatuado na minha alma), mas acho que está na altura de deixarmos para trás as pessoas que fomos em tempos não muito distantes. Foi por isso que eu deixei de pegar no Snivellus — ou melhor, Snape —, no irmão do Sirius, e em todas as outras pessoas de quem eu desgostava particularmente. No campo de batalha, estas rixas não nos ajudarão em nada e acho que está na altura de eu deixar de pensar só em mim e começar a pensar em todas as pessoas que eu espero vir a proteger. Eu sou um Gryffindor, eu sou um homem orgulhoso, e eu sou superior à pessoa que eu em tempos fui e que, espero, está a ficar para trás.
Eu não acho, porém, que virei a ser alguém superior enquanto eu não te pedir desculpas. Eu tenho vindo a perceber que existe uma linha que separa a brincadeira e os atos inocentes daqueles feitos de propósito e com um objetivo em mente, mesmo quando comparamos duas situações e dois atos semelhantes. Há muito tempo que as minhas cantadas e a minha “brincadeira” se tornaram perseguição, e eu fui idiota o suficiente para deixar que isso acontecesse e não me aperceber do parvo e do insensível que eu estava a ser.
O meu pai disse-me, numa das últimas conversas que tivemos, que eu estava a crescer e a tornar-me um grande homem, um homem honorável, do qual ele tinha muito orgulho. Ele não teria orgulho se soubesse a minha atitude para contigo, e eu não consigo aceitar as suas palavras como verdadeiras quando relacionadas há pessoa que eu era quando ele mas disse. Mas eu posso e eu estou a tentar, a cada dia que passa, torna-las mais verdadeiras e mais válidas. Eu quero poder olhar-me no espelho e ver o homem que o meu pai via. Eu também quero que tu consigas ver esse homem.
Espero que tenhas um feliz Natal, Evans, e estou ansioso por te ver em janeiro.
Aproveita o tempo com a tua família.
Com amor,
James N. Potter”
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