O Fim
1 Capítulo Único
É triste. É triste pensar que uma pessoa que lhe jurou amor eterno já não esteja mais com você. Pensar que não a terá todas as noites, ao seu lado, segurando a sua mão. Lembrar de que não haverão mais passeios na praia, que você não a terá nunca mais. E tudo o que resta é você, somente você e mais ninguém. Estar sozinho, estar perdido. Voltar atrás é impossível, esquecer, também.
Os pensamentos são doloridos. Momentos invadem a sua cabeça de forma traiçoeira. Existem coisas que marcam sua vida pra sempre. Inevitável.
Chovia fortemente naquele final de tarde. Ela estava nervosa, triste. Chorava como nunca vi alguém chorar antes. Jenny, a garota com quem eu costumava compartilhar meu coração. Com seus minúsculos shorts jeans, suas camisetas largas e coloridas. Seu coque desarrumado no alto da cabeça, os cabelos aos olhos, um sorriso maroto estampado no rosto toda vez que me via. Não era mais ela, não a Jenny com quem sempre sonhei, a que eu sempre costumava ter ao meu lado. Erros acontecem e eu sou a prova disso. Um erro. Um pecador. Um idiota, talvez.
Lembro muito bem, aquela noite, oh, aquela noite. Tinha tudo para ser uma noite perfeita. Tudo, mesmo. Mas ela descobriu, descobriu aquilo que eu menos queria que ela soubesse. Um dia, talvez; eu contaria, claro. Mas tudo acabou da maneira mais dolorosa possível. Todos erramos, mas dessa vez a culpa foi toda minha. Traição. Não tiro razões dela, nunca perdoaria algo do tipo. O duro é enfrentar a realidade.
Mas existem coisas que machucam e nunca mais são esquecidas. Eu só queria poder ter Jenny de volta, segurar a sua mão e apertá-la fortemente. Dizer que tudo passaria e que nós iríamos ser felizes para sempre. Dizer que eu a amo, talvez mais do que qualquer coisa na vida. Olhar em seus olhos e perceber o brilho de seu olhar. Voltar a ver todas as manhãs o rosto dela enterrado no travesseiro, completamente amassado. Era só isso que eu queria, ter ela ali novamente.
O dia que nos reencontramos foi forte demais para mim. Ela estava sentada, de pernas cruzadas, tomando seu habitual café em uma xícara toda moderna. Ria junto com as amigas, em intervalos jogava o cabelo para trás e dava um gole em seu café. É óbvio que a encontraria ali, trabalhávamos na mesma gravadora e seria praticamente impossível não nos vermos mais. Mas o que mais me atingiu, foi ver que ela olhava para mim normalmente, não chorava, não sentia mais minha falta. Eu nunca mais a teria de volta, fato.
Ela levantou, foi até a bancada onde havia alguns potes enfeitados, cheios de biscoitos, café, chá e derivados. Pousou a xícara e me encarou. Sorriu. Eu, petrifiquei. Caminhou levemente, como se flutuasse, até chegar a mim.
- Olá, Joel — disse, mantendo distância, mas me encarando. Senti-me mal -. Como vai a vida?
- Hum, o-oi — gaguejei, ela me olhava profundamente -. Vou indo, e você?
- Estou ótima, obrigada — e sorriu, um sorriso verdadeiro, não era para me provocar. Ela estava realmente feliz e isso me incomodava.
Ou ela havia enlouquecido, ou eu. Ela falava normalmente comigo, como se fossemos amigos a séculos. Sorria, o tempo todo. Isso continuava me incomodando. Faziam três meses que havíamos brigado. Não sei como não tínhamos nos visto antes.
- Viajei, Joel — ela disse, sorrindo, esbanjava felicidade -. Precisava espairecer um pouco, sabe? Esquecer da vida, esquecer de tudo.
- Hum — indaguei, cabisbaixo.
- Estou grávida — gelei. Levantei a cabeça e a encarei, como? Ela estava grávida?
- Grávida? — falei, seguro. Sorrindo por dentro, estava explicado, ela não guardaria mais rancor por nós. Estava grávida. Borboletas voaram pelo meu estômago e eu me senti nas nuvens pela primeira vez desde a última vez que nos vimos.
- Sim — ela falava, sorrindo, passando a mão na barriga que ainda não apontava sinal nenhum de gravidez; estranhei -. Essas férias foram ótimas para mim.
Ela ficou olhando para o chão, sorrindo. Virou as costas e sentou-se novamente com as amigas no sofá. Não havia entendido direito.
Quatro da tarde, hora do meu café. Oh, meu café, era sempre bom para me reanimar. Jenny ainda estava sentada no sofá, com um pilha de papéis, um notebook e duas das amigas, conversando. Percebi um ser novo ao meio delas, um homem, um rapaz, jovem e bonito, conversando com Jenny alegremente. Possuidor de um sotaque irritante, francês.
- Ah, Joel — ela falou, acenando pra mim. Derramei um pouco de café sobre a bandeja, pousei-a novamente sobre a bancada e fitei Jenny por um instante.
- Sim? — sorri fraco, estava começando a entender a situação.
- Este é Louis — ela apontou o rapaz, que sorria para ela -, meu marido.
Ri. Ela me olhou estranho, continuei rindo e respondi para ela:
- Isso é piada, né?
- Não — ela disse, séria -. Nos conhecemos a dois meses e meio atrás. No Canadá. Fui passar minhas férias lá, como lhe disse. Nos casamos e bem, vamos ter um filho.
- Ah, que bom — sorri falsamente.
Peguei meu café, e bebi um grande gole. Aquilo pareceu queimar toda a minha garganta. Retirei-me do aposento. Peguei as chaves do meu BMW, em cima da mesa de meu escritório e fugi. Fugi para um lugar qualquer, acelerei o carro sem pensar. "Este é Louis, meu marido". Aquelas palavras atingiam meu cérebro como um tiro. Cada vez a voz de Jenny ficava mais forte em meus pensamentos, um eco se formava em minha cabeça. A estrada estava deserta, uma reta sem fim.
Era a isso que eu pertencia, era aonde eu deveria ir.
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