“Será que o despistei?”

Esse era o pensamento de Daniel enquanto se esgueirava por entre as ruelas da cidade. Sua jaqueta de couro ajudava a proteger do frio daquela noite. Mas logo isso mudaria. A chuva, mesmo fina, cai insistente do céu noturno, deixando-o completamente encharcado. Mas Daniel continuou seguindo em frente, sem dar atenção a isso. Sua preocupação era outra.

Ele chegou ao final da rua mal iluminada, olhou de um lado a outro pela quina, e acreditando ser seguro, irrompeu para a direita, continuando a seguir seu caminho.

Quando passou por uma catedral fechada, e um relâmpago clareou o céu, ele sentiu uma sensação estranha. Automaticamente olhou para o alto, seus olhos mirando diretamente a torre do sino. Mesmo sem iluminação, pode notar uma sombra humanóide ao lado do objeto de aço, que tantas vezes anunciou missas e casamentos.

“Será que não podem me dar uma folga?”

Daniel apertou o passo. Na metade do caminho, dobrou a esquerda, entrando numa praça. Ela era ladeada por algumas arvores em ambos os lados e tinha em seu centro a figura de um Marechal sobre seu cavalo. O rapaz não prestou atenção em detalhes. A única coisa que queria era sair dali o quanto antes. Precisava chegar logo ao ponto das barcas. Já tinha problemas suficientes para aturar. Não queria ter que lidar com mais alguns, chamando a atenção de moradores de rua mal intencionados, àquela hora da noite.

Quando chegou a praça XV e ia passando por debaixo do extenso viaduto que a atravessa, a chuva desabou, chegando a dificultar a visão do rapaz. Ele parou e suspirou. Só então percebendo que vinha segurando a respiração.

─ Droga! ─ murmurou.

─ Parece que finalmente poderemos ter nossa conversa.

A voz veio de lugar nenhum e ao mesmo tempo de todos os cantos, mesmo tendo soado como um sussurro.

Daniel olhou para os lados, mantendo a prontidão.

─ Não fique assustado. Não ainda, Daniel.

─ Como sabe meu nome? Alias, por que está me seguindo? ─ apesar de alarmado, a voz do rapaz saiu tranqüila e firme.

Silêncio.

Por um momento que pareceu uma eternidade, apenas o barulho da chuva se fez ouvir. Mas de súbito e aparentemente misturado ao ruído dela, a voz ecoou novamente.

─ Venho te observando há algum tempo. Tenho um convite a lhe fazer.

─ E se eu não estiver interessado? ─ o coração de Daniel estava acelerado. Intrigado e desconfiado, ele ainda olhava de um lado a outro, na expectativa de focalizar seu interlocutor. Mas nada. Ainda via apenas a chuva forte, que caia impiedosamente.

─ Seria lamentável.

A voz parecia, a Daniel, desprovida de qualquer sentimento. O tom era neutro e impessoal. Mas nesse momento ele percebeu um resquício de maldade no tom da resposta.

Daniel podia ter apenas 16 anos, mas não era inocente. Tão pouco um tolo. Sentia a encrenca chegar antes mesmo de ela bater a porta. Mas sempre dava corda, para ver até onde as coisas podiam chegar.

─ Entendo. Então... vá enfrente, faça sua oferta. Ainda estou ouvindo.

A chuva diminuiu. E enquanto ela se dissipava, uma fria cortina de fumaça, ainda que fina, tomava seu lugar. De repente o ar tremulou e, a uns seis metros de distância de Daniel, uma figura vestindo sobretudo surgiu, como se tivesse sido formada pela própria névoa.

O rapaz olhou com espanto para o homem a sua frente. Ele não lhe era familiar, mas também não lhe era de todo estranho.

Alguma coisa estava errada.

Olhou o sujeito de cima a baixo e vice-versa. Mas continuava a não reconhecê-lo.

─ Alvor, esse é meu nome. ─ disse o homem. ─ E assim como você, não sou apenas mais um. Compartilhamos a mesma essência, apesar de sua linhagem não ser a mesma que a minha.

Agora o cara havia conseguido a atenção do rapaz.

─ Você é novo, mais tarde irá entender melhor isso. Por hora, precisa apenas saber que há lugar para você entre os outros. Basta fazer a escolha.

O homem, Alvor, fazia aquilo parecer simples. Será que ele tinha noção de que Daniel já havia ponderado a situação? Será que ele sabia que Daniel já tinha sua resposta? Não, provavelmente esse era apenas mais um líder interessado em suas peculiaridades. Com certeza estava atrás de vantagens ao fazer tal convite.

Mas Daniel não estava interessado em interagir e tão pouco em fazer parte de tudo aquilo. O que ele queria era poder viver sua vida medíocre em paz. Ir à escola, sair com os amigos, namorar e tudo o mais que sua puberdade pudesse oferecer. E manter-se longe de pessoas como Alvor.

Mas era evidente que isso estava fora de cogitação. Ele até poderia ter todas as outras coisas, mas jamais conseguiria manter gente como Alvor longe por muito tempo. Por isso, precisava ensinar a ele, a mesma lição que ensinou a outros que vieram antes dele. Pois duvida muito que ele fosse simplesmente ouvir um não, como resposta, e aceitar.

O problema, é que Alvor parecia ser diferente dos que vieram antes. E isso ficou claro quando Daniel praticamente se materializou diante do homem, pronto para acertá-lo com um soco, e o mesmo defendeu-se sem muito esforço.

─ Então, essa é sua resposta?! ─ Alvor disse, enquanto Daniel recuava. ─ É uma pena.

O homem ergueu o braço esquerdo em seguida e o céu clareou por um breve momento; para então deixar um raio cortar o ar caindo em direção a Daniel. Por muito pouco o rapaz não escapou. Foi no ultimo instante que ele conseguiu girar para o lado, rolando sobre as poças d’água no chão, deixadas pela chuva. O relâmpago atingiu o chão, e por algum motivo ao qual Daniel não se ateve, a energia que dissipou dele, não o atingiu em seguida.

─ É, dessa vez vai ser divertido. ─ apesar do susto com o ataque, Daniel estava ligeiramente animado com a situação. Não gostava do que podia fazer, mas a possibilidade de usar suas habilidades, em alguém a altura, o divertia.

O homem permaneceu imóvel enquanto Daniel se levantava. O rapaz não desviou o olhar dele em momento algum. Assim que estava completamente de pé, deixou o corpo interagir com a fina neblina que pairava no ar. E logo Daniel havia se transformado em múltiplos oponentes para Alvor. Era uma magia simples, uma habilidade de prisma que usava a luz para diluir a própria imagem em diversas. A expressão de surpresa do rosto do homem deixou Daniel satisfeito.

Sem esperar por qualquer reação da parte de Alvor, o rapaz lançou-se sobre o oponente novamente. Dessa vez, atacando por todas as direções. Cada imagem do rapaz agia a sua própria maneira. Enquanto uma chegava com um chute voador, outra surgia desferindo socos múltiplos. Mas Alvor, apesar da surpresa inicial, não pareceu se intimidar. Defendeu-se de cada ação como se estivesse sendo atacado por um único agressor. Quando o ataque cessou, ele ainda estava no mesmo lugar. Não havia se movido sequer um passo de onde estava.

Daniel, parado a uns oito metros de distância de Alvor, havia voltado a ser apenas um e o observava. De certa forma estava admirado pela postura de seu adversário ao mesmo tempo em que estava consideravelmente preocupado. Alvor definitivamente não era como os outros. Todos os anteriores haviam sido abatidos sem esforço. Nenhum deles havia oferecido desafio. E o homem sequer estava a arfar.

─ Por que alguém como você perde tempo comigo? ─ Daniel quis saber. Estava intrigado por alguém com aquele poder estar interessado em um que sequer sabia a que linhagem pertencia.

─ Como disse, você é jovem, e ainda tem muito que aprender. ─ o homem fez uma pausa. ─ Mas posso ajudar. Não sou inimigo. Se fosse, acho que você tem consciência de que já estaria estirado sobre o chão, sem respirar, desde o inicio de nosso embate.

Daniel ponderou o argumento de Alvor. Tá certo que não possuía a mesma experiência do homem, mas isso não significava que já teria perdido. Daniel mal havia começado, estava apenas aquecendo. Mas ainda assim se perguntava se valia apena ir adiante com aquele confronto sem sentido. Afinal, havia sido ele a iniciar o ataque, não Alvor. Talvez o homem estivesse de fato dizendo a verdade. E se fosse esse o caso, isso era bom. Daniel já estava há muito tempo se escondendo dos outros. E aquela altura dos acontecimentos, já havia ficado claro que precisava de ajuda. Assim como ele, muitos não estavam interessados em alianças e não entravam em confrontos com os desgarrados iguais. Mas existiam aqueles que viviam dos desafios e também aqueles que queriam o controle de outros como Daniel. Se bem que o rapaz já tinha percebido que seu poder não era necessariamente igual ao dos demais. Alguma coisa em suas habilidades era diferente. Será que Alvor saberia? Seria por isso que estava ali para oferecer ajuda?

Daniel limpou a garganta.

─ Ok. Digamos que eu aceite sua ajuda. Que eu acredite que é um “amigo”. Como pode me ajudar e por que o quer fazer? ─ Daniel olhava diretamente nos olhos de Alvor.

O homem respondeu sem hesitar. Diferente do que as duvidas na mente do rapaz incitava o homem não parecia ter nada para esconder.

─ Vamos tentar novamente ─ Começou. ─ Me chamo Alvor L’Acost. Sou atual líder da Casa do Alvorecer. Sei que seu nome é Daniel Garcia e que tem 16 anos. Seus pais morreram em um acidente quando você completou 15 anos e desde então você mora sozinho na zona oeste do Rio de Janeiro. Sei também que você não sabe a qual linhagem pertence. E que muito pouco sabe sobre suas habilidades. A não ser pelo fato de que consegue conjurar o que quer, sem precisar de treinamento ou de mantras de invocação. E é justamente por isso, que outros o querem fora. Acham que você é um erro do paradoxo. Que você é uma anomalia. ─ O homem fez uma pausa e Daniel continuou em silêncio, aguardando que ele continuasse. ─ Mas diferente dos outros, eu quero uma aliança com você. Quero oferecer a ajuda que ninguém ofereceu. Pertenço a Casa mais antiga e mais poderosa. Bom, uma das mais poderosas. Mas o que importa, é que somos guardiões. E vejo em você, uma possibilidade que só aconteceu uma vez, há muitos séculos atrás, quando o que somos, ainda era considerado heresia pelos seguidores do Cristo.

Daniel avaliou o argumento de Alvor. O homem realmente parecia saber quem ele era e a Casa a qual pertencia explicava a postura sóbria. Mas será que valeria apena aderir a uma das Casas? E o que ele queria dizer com essa tal possibilidade, que só havia acontecido há séculos atrás?

─ Mas e se você estiver errado e os outros certos? E se eu realmente for um erro do paradoxo?

O homem deixou as questões pairarem no ar. E Daniel pensou nas próprias palavras. Até ali, ele mesmo ainda não havia parado para pensar a respeito. O que faria se realmente fosse uma anomalia?

─ Acredite, você não é uma anomalia. Pelo menos não do tipo negativo ou da forma como os outros vêem ─ Alvor respondeu.

Daniel olhou desconfiado para o homem.

─ Então... você também acha que sou um erro! ─ apesar de a voz ter saindo quase um sussurro, o espanto era claro na afirmação do rapaz.

Alvor balançou a cabeça.

─ Veja bem, assim como o bem e o mal são uma questão de ponto de vista, mesmo a gente sabendo o que é humanamente errado ou perverso; da mesma forma, um erro também é uma questão de ponto de vista.

Daniel arqueou uma sobrancelha.

─ Continue.

─ Há séculos não nascia alguém como você. E na época, os últimos de sua linhagem nos trouxeram diversos problemas. Pessoas como você, possuem poucos limites. Mesmo a Mana de suas habilidades parece ilimitada. O que não é bem verdade ─ explicou Alvor. ─ A questão é que habilidades como a sua estão ligadas diretamente a alma e a força de vontade. E isso gera problema, por que vocês conseguem absorver poder de tudo. Pois tudo na existência possui Mana. E é justamente por isso que os outros o temem ─ Daniel ficou surpreso com a revelação. Mas continuou calado. De modo que Alvor continuou. ─ E para que eles parem de persegui-lo, você precisa estar sob a proteção de uma das Casas. Não que isso realmente vá impedi-los de querer a sua morte. Mas será um atenuante. Eles ficarão menos preocupados e mais inibidos para agir. E você terá uma oportunidade de aprender sobre si e de controlar suas habilidades, o que pode gerar um pouco de respeito e fazer com que realmente desistam de incomodá-lo. Acredito que seja uma opção melhor do que ficar fugindo o tempo todo.

Daniel sorriu de canto de boca. A idéia era boa e de fato não era uma má opção. E saber mais sobre si mesmo era algo de que ele realmente precisava. Já havia passado um ano que seus pais haviam morrido e aproximados seis meses que suas habilidades tinham despertado. Ele não tinha com quem conversar a respeito e nem sabia como controlar tudo aquilo. Tudo que tinha conseguido fazer até então, era por pura sorte. E se encontrasse outros experientes como Alvor, poderia não receber o mesmo tratamento e tão pouco a mesma oferta. Talvez o homem não estivesse falando a verdade por inteira, mas era alguma coisa; e pelo pouco que já havia pescado nos últimos meses, ele também não estava necessariamente mentindo.

─ Tudo bem. Vamos ver até onde isso vai. ─ disse.

Alvor pareceu aceitar o que ele disse como um sim e se aproximou.

─ Agora vamos confirmar se o medo dos outros possui fundamento ─ Alvor disse, enquanto avaliava Daniel dos pés a cabeça. ─ Feche os olhos.

Mesmo com um pouco de desconfiança ainda ruminando na mente, o rapaz obedeceu. No momento seguinte, sentiu o ar em torno aquecer, muito de leve e notou que o corpo ficara mais relaxado. Depois, ouviu novamente a voz de Alvor, que ecoava em um tom de sussurro. Porém não entendeu e nem compreendeu as palavras que saiam de sua boca. Aquilo pareceu durar uma eternidade. Enquanto isso, pode sentir sua própria alma navegando através do tempo espaço dentro de sua própria trajetória existencial. E quando vislumbrou uma luz branca e forte, seus olhos se abriram. E ele se viu novamente de frente para Alvor, em meio à fina neblina que ainda pairava no ar.

─ É, parece que outros têm motivo de sobra para temê-lo. ─ Alvor informou, deixando escapar um leve sorriso de canto de boca. ─ Eu, Alvor L’Acost, Filho do Vento, líder da Casa do Alvorecer, lhe dou as boas vindas, Daniel, Filho de Éter.

Notas finais
Esse foi um conto que escrevi para participar de um concurso literário. Que agora tenho o prazer de dividir com vocês, leitores.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!