O Filho do Mar e o Menino-Que-Sobreviveu
1 Depois da Luz Verde
Notas iniciais
Harry se recusava a dormir.
Lily já havia tentado o colo, a cantiga, o cobertor preferido e uma explicação bastante séria sobre como pessoas de quinze meses precisavam respeitar horários razoáveis. Harry ouvira tudo com os olhos verdes muito abertos, uma mão agarrada à gola do pijama dela e a expressão solene de quem considerava os argumentos maternos profundamente inadequados.
— Você sabe que não precisa vencer todas as discussões, não sabe?
Harry respondeu encostando dois dedos no nariz dela.
Da poltrona ao lado da janela, James soltou uma risada curta.
— Isso foi um não — ele disse.
Lily olhou para o marido.
— Você não está ajudando.
— Estou fazendo uma análise imparcial.
— Você nunca fez uma análise imparcial na vida.
— Calúnia.
James estava descalço, com as mangas da camisa dobradas até os cotovelos e os óculos um pouco tortos. Havia deixado a varinha sobre a mesa baixa ao lado de duas canecas vazias, um exemplar do Profeta Diário dobrado e um brinquedo de madeira que Harry passara a tarde inteira atirando no chão para descobrir se continuaria fazendo o mesmo barulho.
À primeira vista, parecia uma noite doméstica comum.
Era quase possível acreditar nisso.
Do lado de fora, Godric’s Hollow desaparecia aos poucos sob a escuridão de fim de outubro. O vento passava pelas árvores e fazia as folhas mortas correrem pela rua. Dentro da casa, as cortinas estavam fechadas, as luzes baixas e os encantamentos colocados sobre portas, janelas e paredes permaneciam onde deveriam permanecer.
Lily sabia disso porque já os verificara três vezes.
James verificara quatro.
Nenhum dos dois mencionara o fato.
Era assim que a guerra entrava numa casa: primeiro nas conversas, depois nos hábitos, depois em coisas tão pequenas que deixavam de parecer estranhas. Uma varinha sempre ao alcance. Um olhar pela janela antes de apagar a luz. Uma pausa instintiva diante de qualquer ruído inesperado. Nomes que não eram ditos quando Harry estava acordado, embora ele fosse pequeno demais para entender.
Ainda assim, havia noites em que conseguiam fingir.
Harry bocejou, e Lily ergueu uma sobrancelha.
— Ah. Então acontece.
— Ele está fingindo — disse James.
Harry apoiou a cabeça no ombro da mãe.
— Claramente — ela disse.
James se levantou e se aproximou. Beijou os cabelos do filho antes de passar um braço pela cintura de Lily.
Por um instante, os três ficaram apertados naquele espaço pequeno entre a poltrona e a mesa, Harry sonolento entre eles.
Lily fechou os olhos.
Era ridículo sentir tanta gratidão por alguma coisa tão simples.
Casa. James. Harry. Uma noite em que ninguém estava sangrando. Uma noite em que nenhuma coruja chegara trazendo notícia de mais um desaparecimento. Uma noite em que os encantamentos permaneciam intactos e o mundo, por algumas horas, podia caber inteiro numa sala.
James encostou a testa na dela.
— Vou declarar vitória — ele disse.
— Ele ainda está acordado.
— Vitória parcial.
— Potter.
— Evans.
Ela abriu os olhos.
— Potter — disse Lily.
— Tecnicamente, você também é...
O som foi pequeno.
Tão pequeno que, em outra vida, Lily talvez não o tivesse notado.
Um estalo seco veio de algum ponto da casa.
James parou de falar, e Harry levantou a cabeça.
O vento ainda soprava lá fora. Uma tábua do piso poderia ter cedido. Madeira antiga fazia barulhos. Canos faziam barulhos.
Encantamentos, não.
Lily sentiu a mudança um instante depois.
Não foi uma explosão de magia. Não houve clarão nem alarme. Foi pior justamente por ser sutil: uma pressão invisível que sempre existira ao redor da casa deixou de existir.
Como uma porta destrancada num quarto escuro.
James olhou para ela. Toda a leveza desapareceu de seu rosto.
— Lily.
Ela já estava se movendo.
O trinco da porta da frente girou.
Isso era impossível.
James empurrou Harry para os braços dela.
— Pega ele. Sobe.
Lily não perguntou quem. Não precisou.
Tinham visto aquele homem antes. Tinham lutado contra gente que o servia, fugido de armadilhas feitas em seu nome, assistido a amigos serem enterrados porque um homem decidira que certas vidas valiam menos do que outras.
E três vezes haviam estado perto o bastante do próprio Voldemort para saber o que significava sua presença.
O medo de Lily não nasceu do desconhecido.
Nasceu do reconhecimento.
— James, sua varinha...
Ela olhou para a mesa. Tarde demais.
Passos soaram no corredor de entrada.
James viu a varinha ao mesmo tempo que ela. A distância até a mesa era pequena em qualquer outra circunstância. Naquela noite, era enorme.
— Vai!
Lily correu, e Harry começou a chorar.
Ela atravessou o corredor e alcançou a escada quando ouviu a porta da frente se abrir atrás deles. O coração batia tão violentamente que parecia empurrá-la degrau por degrau.
— James!
Ele não respondeu, ou talvez tivesse respondido e ela não tivesse ouvido.
Houve movimento embaixo. Uma voz.
James gritou alguma coisa.
Lily apertou Harry contra o peito e continuou subindo, então uma luz verde iluminou o corredor atrás dela.
O som que veio depois não foi alto. Foi apenas o baque de um corpo contra o chão.
Lily tropeçou. Por um segundo, todo o corpo dela tentou se virar.
James.
Não havia tempo, tal pensamento foi tão cruel que quase a derrubou.
Não havia tempo.
Ela chegou ao quarto de Harry, entrou, bateu a porta e ergueu a varinha. Encantamentos vieram um atrás do outro, rápidos demais para que respirasse entre eles. A fechadura brilhou. A madeira endureceu. O ar pareceu ficar mais espesso diante da entrada.
Harry chorava atrás dela.
— Está tudo bem — disse Lily, e a própria voz parecia vir de outra pessoa. — Está tudo bem, meu amor.
Era mentira, ela sabia.
A maçaneta se moveu, e o primeiro encantamento se partiu. Lily recuou um passo, e o segundo cedeu.
Ela pensou em James lá embaixo. Não, ela não podia pensar nisso.
Harry. Só Harry.
A porta se abriu, e Voldemort entrou.
Não havia espanto no reconhecimento de Lily. Somente uma espécie de terror frio, concentrado, diferente do pânico. Ela o conhecia. Conhecia aquele rosto desumano, aquela voz, a varinha erguida com a segurança de alguém que jamais considerava a possibilidade de ser desobedecido.
Lily se colocou entre ele e o berço.
— Não.
Os olhos vermelhos passaram por ela até Harry.
— Afaste-se.
Lily ergueu a varinha. Sua mão tremia, mas ela não.
— Não.
O rosto dele não mudou.
— Você ainda pode viver.
Por um instante absurdo, Lily entendeu exatamente o que estava sendo oferecido. Não havia truque na frase que ela pudesse enxergar. Não havia saída secreta. A escolha estava ali, nua e monstruosamente simples.
Dar um passo, sair do caminho, e viver.
Atrás dela, Harry soluçou.
Lily pensou no peso dele adormecido sobre seu peito. No modo como agarrava os cabelos de James. Na primeira vez que sorrira para ela. No som de sua risada. Na pequena cicatriz que fizera no próprio joelho tentando andar depressa demais pelo jardim semanas antes. Pensou em todas as manhãs que ele ainda não vivera.
A mão que segurava a varinha parou de tremer.
— Então vai ter que passar por mim.
Voldemort ergueu a varinha.
Lily não saiu do lugar.
A luz verde encheu o quarto.
E, no último instante que lhe pertenceu, Harry ainda estava atrás dela.
A casa ficou em silêncio.
Depois, uma segunda luz verde rasgou o andar superior.
O impacto sacudiu as paredes. Vidro explodiu, madeira cedeu, e parte do teto desabou numa nuvem de poeira, fuligem e fragmentos.
Então veio o silêncio outra vez.
No centro dele, muito baixo, começou o choro de uma criança.
***
Quando Sirius Black chegou a Godric’s Hollow, o mundo ainda existia.
Esse foi, por alguns segundos, o detalhe mais insuportável.
As casas vizinhas continuavam de pé. Havia luz atrás de algumas janelas. Folhas ainda corriam pela rua. O motor da motocicleta rugiu sob ele até Sirius pousar de maneira brusca demais diante do que restara da casa dos Potter.
O farol iluminou uma parede quebrada.
Sirius desligou o motor, mas não conseguiu descer imediatamente.
A parte superior da casa estava aberta para a noite.
Não.
Seu corpo se moveu antes de o pensamento terminar.
Ele quase deixou a motocicleta cair ao saltar. Correu até a entrada. Não chamou por James. Ainda não. Enquanto não chamasse, havia um espaço estreito no qual a resposta continuava podendo ser qualquer coisa.
A porta estava aberta, e Sirius entrou.
O cheiro foi o primeiro golpe: madeira queimada, poeira, magia descarregada, alguma coisa metálica por baixo de tudo.
Então viu James. Ele estava no corredor.
Por um instante, Sirius simplesmente não compreendeu a posição do corpo. James estava no chão de um jeito errado, os óculos longe do rosto, uma das mãos estendida na direção da sala.
— Pontas? — a palavra saiu baixa, e Sirius caiu de joelhos ao lado dele. — James.
Pôs dois dedos no pescoço do amigo.
Nada.
Tentou outra vez, como se tivesse errado.
— James.
Nada.
Sirius segurou o ombro dele e o virou um pouco.
— Vamos. Não faz isso.
A cabeça de James tombou.
Alguma coisa dentro de Sirius se recusou a acompanhar o movimento.
Ele ficou ali por tempo demais, talvez fossem segundos, talvez fossem anos.
Um ruído veio do andar de cima.
Sirius ergueu a cabeça.
Choro.
Levantou-se tão rápido que bateu no corrimão.
— Harry.
Subiu os degraus quase tropeçando.
O quarto estava destruído. A parede externa desaparecera em parte. Poeira cobria os móveis. Madeira quebrada cercava o berço, e Lily estava no chão.
Sirius parou.
Não precisou tocá-la para saber, mas mesmo assim, tocou, porque fizera isso com James. Porque alguma parte estúpida e desesperada dele ainda exigia prova.
Os cabelos vermelhos estavam espalhados sobre o piso coberto de pó.
— Lily…
O choro veio outra vez.
Sirius se virou.
Harry estava vivo.
A criança estava sentada em meio aos destroços do berço, com o rosto molhado de lágrimas e sangue descendo por sua testa. Havia uma marca vermelha perto da linha do cabelo.
Mas estava vivo.
Sirius atravessou o quarto e o tirou dali. Harry agarrou sua roupa no mesmo instante.
— Ei. Ei, eu peguei você — a voz de Sirius quebrou.
Ele apertou o menino contra o peito.
— Eu peguei você.
Harry chorava com toda a força de um bebê assustado e ferido, sem saber que havia duas pessoas naquele quarto que nunca mais o pegariam no colo.
Sirius fechou os olhos. James no corredor, Lily no chão e Harry respirando contra seu pescoço. Alívio e horror se chocaram dentro dele até que se tornassem indistinguíveis.
— Está tudo bem — murmurou, sabendo que era a segunda mentira dita àquela criança naquela noite. — Eu estou aqui.
Desceu com Harry nos braços.
Não olhou novamente para James até chegar ao fim da escada.
Então olhou, e quase não conseguiu continuar.
Sentou-se no degrau mais baixo, Harry apertado contra o peito, e ficou ali.
A decisão não chegou como decisão. Era simplesmente um fato, Harry ficaria com ele.
James o escolhera como padrinho. James confiara nele. James era seu irmão muito antes de qualquer papel, cerimônia ou palavra oficial ser necessária.
Harry ficaria com ele.
Sirius baixou o rosto para os cabelos negros da criança.
— Nós vamos embora daqui.
Passos pesados soaram do lado de fora, e Sirius ergueu a varinha antes mesmo que a silhueta enorme aparecesse na entrada quebrada.
— Sirius!
Hagrid precisou abaixar a cabeça para passar. Seu casaco estava desalinhado e seu rosto, já pálido, perdeu ainda mais cor quando viu o interior da casa. Depois viu Harry.
— Graças aos céus.
Hagrid avançou um passo.
Sirius apontou a varinha para ele, e Hagrid parou.
— Não.
— Sirius...
— Ele fica comigo.
Hagrid olhou para James. A expressão dele se desfez.
— Ah, não…
— Não toca nele.
— Não vim fazer mal ao Harry.
— Eu sei — a resposta saiu feroz demais.
Hagrid respirou com dificuldade.
— Dumbledore me mandou buscar o menino.
— Não.
— Deu ordem direta.
— Eu não me importo.
Harry choramingou contra o ombro de Sirius. Sirius imediatamente baixou a voz, ajeitando-o com uma mão.
Hagrid viu o gesto.
— Sirius, escuta...
— Eu sou padrinho dele.
— Eu sei.
— Então acabou.
— Não acabou.
A frase fez Sirius encará-lo, mas Hagrid não recuou.
— Dumbledore disse que eu precisava tirar Harry daqui e levar ele pra um lugar seguro. Foi específico.
— E eu estou dizendo que ele está seguro comigo.
— Esta casa acabou de ser atacada.
Sirius abriu a boca, mas nenhuma resposta saiu.
Seus olhos correram pelo corredor destruído, a porta, as proteções.
James.
Alguma coisa dentro dele, soterrada sob o choque, começou finalmente a se mover.
A casa não devia ter sido encontrada, não daquela maneira, não por ele. As proteções não tinham simplesmente falhado.
O segredo.
Sirius ficou muito quieto, e Hagrid percebeu.
— O quê?
Sirius não respondeu. Um nome surgiu com tanta violência que pareceu uma palavra gritada dentro de sua cabeça.
Peter.
Harry se mexeu em seus braços.
Sirius olhou para ele.
Ficar, era o que devia fazer. Levar Harry embora, fechar todas as portas do mundo entre aquela criança e qualquer pessoa que pudesse machucá-la.
Mas Peter.
Se Peter desaparecesse agora... se ainda pudesse...
Sirius apertou os dentes.
— Preciso encontrar alguém.
— Agora?
— Agora.
— Sirius, olha em volta!
— Eu estou olhando!
A voz ecoou pela casa, e Harry começou a chorar outra vez.
Sirius fechou os olhos, e quando tornou a abri-los, Hagrid ainda estava diante dele, esperando.
Sirius olhou para Harry por um longo instante.
Depois atravessou a distância entre os dois.
A entrega doeu fisicamente. Harry agarrou sua camisa quando Hagrid tentou pegá-lo, e Sirius precisou soltar os dedos minúsculos um por um.
— Cuida dele.
Hagrid recebeu a criança com uma delicadeza quase absurda para mãos tão grandes.
— Vou cuidar.
Sirius olhou para Harry.
Talvez pudesse ter dito alguma coisa memorável, talvez devesse, mas não conseguiu.
Passou o polegar pelo cabelo do menino, com cuidado para não tocar o ferimento.
— Eu volto.
Então se afastou.
Hagrid olhou para a motocicleta lá fora.
— E você?
— Fica com ela.
— Sirius...
— Leva Harry.
Hagrid hesitou.
Sirius já estava se virando.
— Pra onde você vai?
Ele parou apenas o bastante para responder.
— Atrás de Peter.
Quando o motor da motocicleta tornou a rugir alguns minutos depois, Sirius estava na rua.
Harry estava nos braços de Hagrid.
Sirius acompanhou a motocicleta subir na escuridão até a luz traseira desaparecer.
Só então correu.
***
Encontrar Peter levou tempo suficiente para a dor mudar de forma.
Quando Sirius finalmente o viu, havia trouxas por perto, gente demais, em uma rua iluminada.
Pessoas voltando para casa, conversando, carregando sacolas, vivendo vidas comuns a poucos metros de dois homens cujo mundo terminara horas antes.
Peter viu Sirius.
Seu rosto mudou.
— Você.
Sirius avançou.
— Não corre.
Algumas pessoas se afastaram instintivamente. Peter recuou um passo.
— Como você pôde?
Sirius parou, mas não pela pergunta, e sim pelo volume. Peter não estava falando com ele. Estava falando para todos ouvirem.
— O quê?
— James e Lily! — gritou Peter.
Cabeças se viraram, e Sirius sentiu o estômago gelar.
— Cala a boca.
— Eles confiavam em você!
— Peter.
— Você matou os dois!
Por um instante, Sirius apenas o encarou. A acusação era tão absurda que demorou a adquirir sentido, e então compreendeu o que Peter estava fazendo. Ou parte disso.
— Seu desgraçado.
Puxou a varinha, e gritos explodiram ao redor.
Peter ergueu a própria mão.
— Sirius, não!
O chão se iluminou, a explosão veio de baixo, e o mundo desapareceu num rugido.
Sirius foi lançado para trás.
Bateu contra alguma coisa. Pedra, talvez. O ar abandonou seus pulmões. Por alguns segundos houve apenas um apito agudo nos ouvidos e poeira suficiente para apagar a rua.
Quando conseguiu erguer a cabeça, havia uma cratera onde pessoas tinham estado.
Gritos, fogo e corpos.
Sirius tentou ficar de pé.
— Peter!
Nada.
— PETER!
Tropeçou entre os destroços, mas não encontrou o homem. Encontrou sangue, encontrou um dedo, e encontrou olhos. Dezenas deles.
Trouxas cobertos de poeira olhavam para Sirius, para a varinha em sua mão, para a cratera, para os mortos.
Uma mulher começou a chorar, e alguém apontou para ele.
Passos de Aparatação estalaram ao redor.
Bruxos, vários, com varinhas erguidas.
— Largue a varinha!
Sirius olhou para eles, depois para o dedo no chão, e depois para a cratera.
James estava morto, Lily estava morta, Harry estava com Hagrid, Peter tinha desaparecido, e, de algum modo, Sirius estava no centro de tudo.
Um som escapou dele.
No início não soube o que era. Outro veio. Seu peito doeu. Era riso, mas não porque houvesse qualquer coisa engraçada. Era o contrário.
A realidade tinha ultrapassado algum limite para o qual ele não possuía resposta.
— Largue a varinha!
Sirius riu outra vez, e tentou falar.
— Peter…
Ninguém pareceu ouvir, ou ninguém quis.
— Foi ele.
A frase soou pequena até para seus próprios ouvidos.
Uma mão arrancou a varinha de seus dedos, e Sirius não resistiu.
Olhou para o pedaço de dedo no chão e começou a rir outra vez, quebrado demais para conseguir parar.
***
Hagrid pousou a motocicleta com muito mais cuidado do que Sirius teria considerado necessário.
Harry havia chorado durante boa parte do trajeto e adormecido apenas perto do fim, envolto no casaco grande demais que Hagrid colocara ao redor dele.
O ponto combinado era pequeno, silencioso e protegido de olhares. Dumbledore já esperava.
Hagrid desligou o motor, e o silêncio pareceu ainda maior.
Dumbledore aproximou-se sem dizer nada e olhou para Harry. Seu rosto permaneceu imóvel por alguns segundos. Então estendeu os braços.
Hagrid entregou a criança.
— James e Lily… — começou, mas a voz falhou.
Dumbledore esperou.
Hagrid limpou o rosto com uma das mãos.
— Os dois.
Dumbledore baixou os olhos para Harry.
A criança dormia mal, estremecendo de vez em quando. Sangue seco marcava parte da testa. Entre os cabelos negros havia agora uma cicatriz fina e irregular. Dumbledore afastou alguns fios com cuidado, mas não explicou o que via.
— E Sirius? — perguntou.
— Chegou antes de mim. Tava com Harry quando eu entrei. Queria ficar com ele.
Dumbledore ergueu os olhos.
— Queria?
— Disse que era padrinho. Não queria entregar de jeito nenhum. Eu falei que era ordem sua. Aí… mudou.
— Mudou como?
Hagrid franziu a testa, tentando reconstruir.
— Ficou parado. Como se tivesse entendido alguma coisa. Falou que precisava encontrar Peter.
Dumbledore não respondeu.
— Deixou a moto — continuou Hagrid. — Mandou levar Harry. Disse que ia atrás dele.
O silêncio se estendeu.
Hagrid olhou para o bebê nos braços de Dumbledore.
— Professor… como é que ele tá vivo?
Dumbledore demorou a responder.
— Ainda há coisas que precisamos compreender.
Hagrid assentiu, insatisfeito e cansado demais para insistir.
Dumbledore tornou a observar Harry. A ponta de sua varinha passou a alguma distância da criança. Por um instante, traços tênues de luz apareceram sobre o cobertor e desapareceram quase imediatamente.
Ele guardou a varinha.
— Harry não pode permanecer aqui.
Hagrid piscou.
— Na Grã-Bretanha?
— Não.
— Mas pra onde ele vai?
Dumbledore olhou para a criança adormecida.
Quando respondeu, disse apenas:
— Para Sally Jackson.
***
Alguém bateu à porta do apartamento pouco depois de Percy finalmente dormir.
Sally ficou imóvel, pois não esperava ninguém.
A cozinha ainda guardava sinais do fim de um dia cansativo: uma caneca na pia, um pano sobre o encosto de uma cadeira, um prato pequeno que Percy decidira que seria muito mais interessante no chão do que sobre a mesa.
A batida veio outra vez, em três toques.
Sally pegou a varinha antes de se aproximar.
— Quem é?
— Albus Dumbledore.
Ela parou.
O nome sozinho foi suficiente para fazer o cansaço desaparecer.
Sally destrancou a porta.
Dumbledore estava no corredor, e trazia uma criança nos braços.
Por um instante, Sally olhou apenas para o rosto dele, mas depois viu os cabelos negros. Os óculos não estavam ali, claro. Harry era pequeno demais. Mas ela conhecia aquele cabelo. Conhecia aquele rosto. Conhecia o pijama, e o principal: conhecia a criança.
— Harry?
Dumbledore não respondeu depressa o bastante, pois Sally abriu a porta completamente.
— Onde está Lily?
Foi então que viu o ferimento na testa de Harry, e o ar pareceu deixar o corredor.
— Onde está Lily?
Dumbledore entrou quando ela se afastou, e Sally fechou a porta, mas não guardou a varinha.
— Professor.
Ele virou-se para ela.
— Sally...
— Não.
A palavra saiu antes que ele continuasse. Ela balançou a cabeça.
— Não diga desse jeito.
Dumbledore permaneceu em silêncio, e Sally olhou para Harry. Estava dormindo, vivo, nos braços de outra pessoa. Sem Lily, sem James.
Ela soube. Não todos os detalhes, mas soube o bastante.
— Os dois?
Dumbledore inclinou a cabeça.
— Sim — o bruxo confirmou.
Sally apertou a varinha com tanta força que os dedos doeram, mas não chorou imediatamente, e aquilo quase a irritou.
Lily estava morta.
Lily, que dividira dormitórios, livros, segredos, brigas, férias e anos inteiros com ela. Lily, que abrira uma porta quando Sally precisava de uma. Lily, que tinha insistido que irmã era uma palavra grande demais para depender apenas de sangue.
James também.
James, que primeiro fora apenas o namorado impossível de Lily, depois o marido, depois uma presença tão constante que Sally não sabia exatamente quando começara a tratá-lo como família.
Os dois.
— Como?
— Houve um ataque em Godric’s Hollow.
— Ele?
Dumbledore não precisou perguntar quem.
— Sim.
Sally olhou outra vez para Harry.
— E Harry?
— Sobreviveu.
— Eu consigo ver isso.
A dureza da resposta se quebrou no fim.
Ela atravessou a sala até Dumbledore e tocou a bochecha da criança. Harry fez um ruído baixo, mas não acordou.
Sally sentiu o rosto se contrair.
— Como?
Dumbledore a observou por cima dos óculos.
— Eu não tenho todas as respostas que gostaria de ter.
Ela ergueu os olhos.
— Essa não é uma resposta.
— Não.
— Ele entrou naquela casa, matou James e Lily e Harry sobreviveu.
— Sim.
— Como?
Dumbledore permaneceu em silêncio tempo suficiente para tornar evidente que não responderia.
Sally afastou a mão do rosto de Harry.
— Você atravessou o Atlântico no meio da noite carregando o filho da minha irmã. Então imagino que não tenha vindo apenas me dar a notícia.
— Não — foi uma palavra simples, quase gentil.
E Sally odiou-a.
— Então fala.
Dumbledore ajustou Harry nos braços.
— Antes, há outra coisa que você precisa saber.
Alguma coisa no tom dele fez Sally se preparar para mais uma morte.
— Sirius esteve em Godric’s Hollow depois do ataque.
O nome atingiu um lugar completamente diferente, e Sally não se moveu.
— Sirius?
— Hagrid o encontrou lá. Com Harry.
Ela olhou para a criança.
— Ele estava vivo quando Sirius chegou?
— Sim.
— E Sirius?
Dumbledore escolheu as palavras com cuidado.
— Entregou Harry a Hagrid e saiu à procura de Peter Pettigrew.
Sally sentiu um frio subir pelos braços.
— Por quê?
— Ainda estamos reconstruindo o que aconteceu.
— Professor.
— Houve um confronto mais tarde.
Sally esperou.
— Peter está desaparecido. Há mortos. Testemunhas afirmam que Sirius o confrontou. As evidências contra ele são… graves.
Por alguns segundos, Sally não teve reação alguma que conseguisse reconhecer.
Sirius.
Ela vira de novo, com clareza ofensiva, um rosto mais jovem, um sorriso que sempre chegava rápido demais, mãos inquietas, uma motocicleta, uma discussão que terminara porque amar alguém não bastava para convencê-lo a querer sobreviver às próprias escolhas.
Depois James no chão, Lily morta e Harry ferido.
— Ele matou Peter?
— Não sabemos com certeza o que ocorreu em todos os detalhes.
— Mas prenderam Sirius.
— Sim.
Sally desviou o rosto. Não disse que acreditava nele, não disse que não acreditava. Não tinha onde colocar nenhuma das duas coisas.
— Por que Harry está aqui?
Dumbledore olhou para o menino.
— Porque ele precisa de um lar.
Sally tornou a encará-lo.
— Ele tem um.
— Sally...
— Se você está prestes a me explicar que Lily morreu e por isso o filho dela precisa de algum lugar onde dormir, pode economizar o discurso.
— Não estou falando apenas desta noite.
Ela ficou imóvel.
— O que quer dizer?
— Harry precisa de um lar permanente. Um lugar que seja dele. Não uma solução temporária enquanto decidimos o que fazer.
A palavra permanente ocupou a sala inteira.
No quarto ao lado, Percy soltou um pequeno som durante o sono. Sally olhou instintivamente na direção da porta, depois para Harry.
Dois meninos, quase da mesma idade. Duas vidas que já se haviam encontrado algumas vezes sem saber que os adultos ao redor estavam construindo memórias para elas.
— Existem circunstâncias mágicas — continuou Dumbledore — que tornam possível proteger Harry aqui.
Sally estreitou os olhos.
— Aqui.
— Sim.
— Em Manhattan.
— Neste lar.
Não foi a mesma resposta, e Sally percebeu.
— Por quê?
Dumbledore demorou um instante.
— Porque há magia envolvida que ainda precisa ser compreendida por completo.
— Outra não resposta.
— Receio que sim.
— E o que você quer de mim?
— Consentimento.
Ela franziu a testa.
— Para quê?
— Para que as proteções possam ser estabelecidas. Para que Harry pertença a este lar não apenas por necessidade, mas porque você o aceita aqui.
Sally olhou para ele por alguns segundos, e então riu uma vez. Não havia humor algum no som.
— Você realmente veio até Nova York para me perguntar se eu aceito o filho de Lily?
— Preciso saber que compreende o que está aceitando.
— Uma criança.
Dumbledore ficou em silêncio.
— Não uma proteção. Não um problema da guerra. Não alguma coisa que vocês vão buscar quando for conveniente.
Ela apontou para Harry.
— Ele.
Dumbledore a observou, e Sally continuou, a voz cada vez mais firme.
— Se Harry ficar comigo, ele não fica até vocês resolverem isso. Não fica até alguém decidir que existe uma opção melhor. Não fica até a guerra terminar.
— Eu compreendo.
— Não. Quero que fique claro.
Ela se aproximou.
— Percy é meu filho. Harry é filho de Lily e James. Isso não vai mudar. Mas se ele entrar nesta casa desse jeito, sem os dois, e você está me perguntando se eu vou criá-lo…
A voz falhou. Sally parou, e respirou.
— Então ele é meu filho também.
Dumbledore não respondeu imediatamente.
Harry se mexeu nos braços dele, Sally estendeu as mãos, e desta vez, Dumbledore lhe entregou a criança.
O peso era conhecido. Ela já segurara Harry antes.
Havia uma fotografia em algum lugar do apartamento — Lily com Percy nos braços, Sally segurando Harry, James sorrindo ao lado delas e Sirius perto demais da câmera — de uma época que, naquela noite, parecia pertencer a outra vida.
Mas aquele peso agora significava outra coisa.
Harry encostou o rosto no ombro dela sem acordar.
Sally fechou os olhos.
Quando os tornou a abrir, Dumbledore ainda estava ali.
— Faça o que precisar fazer para protegê-lo.
— Farei.
— E se descobrir por que exatamente minha casa serve para isso…
Dumbledore sustentou o olhar dela.
— Conversaremos.
Não era uma promessa de que contaria tudo, Sally percebeu.. Mas, naquela noite, não tinha forças para travar essa batalha também.
— Certo.
Dumbledore caminhou até a porta.
Parou com a mão na maçaneta.
— Sally.
Ela olhou para ele.
— Sinto muito.
Dessa vez, não havia explicação escondida na frase.
Só luto.
Sally assentiu.
Dumbledore foi embora.
A porta se fechou.
E ela ficou sozinha com duas crianças.
***
O apartamento parecia exatamente igual.
Essa foi a primeira coisa que Sally odiou nele.
A caneca continuava na pia, o pano continuava sobre a cadeira. Uma das meias de Percy continuava debaixo da mesa porque ele aprendera naquela semana que tirar uma meia sozinho era uma conquista maravilhosa e aparentemente impossível de repetir com a segunda.
Tudo estava no mesmo lugar.
Lily estava morta, James estava morto, Sirius estava preso, Harry dormia nos braços dela, e o apartamento ousava continuar igual.
Sally encostou as costas na porta, e por alguns segundos, não fez nada.
Depois Harry se mexeu. Abriu os olhos. Verdes.
Lily. O pensamento veio tão depressa que Sally precisou morder o lábio.
— Oi — sussurrou.
Harry a observou, confuso e exausto. Seu rosto se enrugou, e Sally o apertou um pouco mais.
— Eu sei.
Não sabia o que mais dizer.
Passos pequenos soaram no corredor. Sally ergueu a cabeça.
Percy apareceu à porta do quarto, os cabelos escuros amassados de sono, uma mão apoiada na parede para manter o equilíbrio. Tinha conseguido escapar da cama e agora piscava para a luz da sala com a expressão ofendida de alguém que descobrira que acontecimentos importantes estavam ocorrendo sem sua autorização.
— Percy.
Ele a ignorou, pois seus olhos estavam em Harry. Percy ficou parado. Harry também olhou para ele.
Por um momento, Sally preparou-se para choro, estranhamento ou a curiosidade desajeitada de duas crianças pequenas demais para entender qualquer coisa.
Percy deu dois passos inseguros, e parou diante dela. Olhou para Harry de novo, e então apontou.
— Ha-y.
Sally deixou de respirar.
Não havia milagre naquilo, nenhum presságio.
Percy já conhecia Harry. Já brincara perto dele, puxara brinquedos de suas mãos, recebera beijos de Lily enquanto Sally embalava o filho dela. Para Percy, talvez aquela noite não contivesse a morte de uma família, uma guerra ou escolhas impossíveis.
Talvez contivesse apenas uma pessoa conhecida aparecendo em sua casa.
— É — conseguiu dizer Sally. — É o Harry.
Harry piscou para Percy. Pareceu estudar aquele rosto por alguns segundos, e então estendeu uma mão para fora do cobertor.
— Pe-cy.
Percy sorriu, foi pequeno e imediato. Aproximou-se mais e segurou dois dedos de Harry.
Sally fechou os olhos, e dessa vez, as lágrimas vieram.
Silenciosas primeiro, depois não.
Ela desceu devagar até sentar no chão, ainda segurando Harry. Percy, entendendo apenas que sua mãe estava sentada e que aquilo significava oportunidade, encostou-se nela.
Sally passou um braço ao redor dele.
Ficou ali, entre os dois. Harry com sangue seco ainda perto da testa, Percy com uma única meia.
Duas crianças separadas por dezoito dias e por mundos que nenhuma delas conhecia.
Sally não fazia ideia de como criaria as duas, não sabia o que diria quando Harry perguntasse por Lily, não sabia o que faria com o nome de Sirius e não sabia que proteção Dumbledore pretendia colocar sobre aquela casa, nem por que estava tão convencido de que aquele apartamento podia oferecer algo que nenhum outro lugar oferecia.
Não sabia como pagaria todas as contas, como dormiria, como trabalharia, como sobreviveria ao próprio luto enquanto duas crianças dependiam dela para coisas tão banais quanto comida, banho e colo.
Não sabia como faria.
Percy apertou os dedos de Harry.
— Ha-y.
Harry, quase dormindo outra vez, respondeu:
— Pe-cy.
Sally beijou primeiro a cabeça de Percy, depois a de Harry.
Naquela noite, uma família havia terminado numa casa destruída do outro lado do oceano.
Ali, no chão de um apartamento em Manhattan, entre dois meninos pequenos demais para compreender o que fora perdido, outra começava.
E Sally, sem saber como, ficou.
Fale com o autor