O Filho do Inventor
21 Capítulo 21
Apolo não parecia nem um pouco feliz.
– Então é assim que vocês me agradecem? — disse ele andando em torno deles com as mãos nas costas, observando-os com mágoa
– Pai… Do que você está falando? — perguntou Luma, cautelosa
– A fênix é um dos meus símbolos de poder — ele afagou a fênix, que esfregou a cabeça em sua mão, pedindo carinho — Eu a convoquei para ajudá-los.
– Então… a fênix é a ajuda da profecia? — perguntou Adam
A expressão de Isis tornou-se insatisfeita.
– Então não precisamos dele? — ela olhou piedosa para Ângelo
– Aaaah — Apolo voltou-se para o rapaz — Quer dizer que te acharam, hum?
– Sim, senhor. Eles me tiraram do tédio que seria a minha vida naquele lugar.
– Adam! — o deus voltou-se de repente para ele, apontado-o a própria foice e ignorando completamente a resposta de Ângelo — O que estava pensando quando tentou ceifar a minha pequena Téfra? — ele agitava a foice no ar
– E-Eu peço perdão, senhor. Achei se tratar de uma ameaça.
– Tolice. Olhe para isso. — A fênix inclinava a cabeça. O que seria fofo em um cachorro, por exemplo, mas era assustador na ave gigante.
– Ela chegou destruindo tudo, destruiu minha loja de conveniência e berrava quando cheg… — argumentou Ângelo
– Calado! — ele apontou a foice para Ângelo — Vocês a assustaram. Eu achei que você fosse capaz de ouvi-la, Luma.
– Bem, eu não tentei, mas…
– Tanto faz. Agora eu vou aumentar a profecia de vocês. — mudou de assunto casualmente, como se aumentar a profecia não fosse nada demais
– Como assim? — perguntou Isis
– Na verdade a ajuda da profecia era esse rapaz, mas eu posso mudar isso. Eu posso fazer o que eu quiser, sou o deus das profecias! — Apolo disse para o céu, orgulhoso — Mas, não vou mudar por completo, vou apenas adicionar algumas frasezinhas, vocês nem vão sentir a diferença.
Apolo se afastou deles alguns passos, se concentrou e tentou parecer dramático:
– Vejamos… — murmurou para si mesmo — quatro heróis à aventura… ajuda… fora desejado… nas alturas… revelado… — o deus pigarreou e recitou: — A que antes fora útil, agora representa perigo
A dúvida entre o elmo e o alado
Faz a morte do herói esquecido
Fez-se silêncio.
– É isso. Cuidem bem de Téfra. — disse Apolo entregando a foice a Adam
O deus começou a brilhar e todos cobriram os olhos. Luma lembrou-se de que, se você visse um deus em sua forma natural seus olhos queimavam seguido por seu corpo inteiro, o que ela não desejava. O clarão diminuiu e eles voltaram a abrir os olhos.
Luma se aproximou da fênix, que os olhava desconfiada, mas assim que chegou perto, abaixou a cabeça. Luma conseguiu fazer carinho. O calor não a afetava, mas pelo jeito apenas ela poderia encostar na fênix. Se sentia mal por não conseguir ouvi-la. Talvez a fênix não quisesse falar com ela ainda, talvez ela não tivesse poder suficiente para isso.
– Para onde vamos agora? — perguntou Adam
– Nossa missão é encontrar as deusas e fazê-las desistir da briga, certo? — disse Jeff
– Sim. — responderam em coro Luma e Isis
– Mas como faremos para encontrá-las? — falou Audrey
– Olha, o que eu sei é que o Olimpo fica no 600º andar do Empire States. — lembrou-se Adam
– Então é para lá que seguimos. — disse Audrey
– É melhor irmos dormir e começarmos a viajem de manhã cedo. — propôs Luma
– Sinto uma clareira à nossa direita — disse Jeff
Eles pegaram suas armas e mochilas e foram em direção à clareira, a fênix os seguindo. Chegando lá, combinaram quem ficaria de vigia à noite. A primeira seria Audrey e a cada hora eles trocariam.
Todos deitaram-se e Audrey começou a andar em círculos. A fênix iluminava o local e esquentava os semideuses, que se deitaram perto dela como se fosse uma fogueira.
Adam estava tendo mais uma daquelas noites em que suas costas eram aparentemente separadas no meio. Sem sonho, mas sem conseguir acordar, se mover, levantar, se debater...
Audrey percebia cada sentido mais aguçado. Podia sentir cada mariposa que voava ali perto, ouvia o bater de suas asas com a audição de morcego. Então a noite era uma bagunça de sons e cheiros para ela. Sempre fora assim, mesmo antes de ser reclamada, mas ela achava que era normal, que todos eram assim. Só que agora sabia que não. E ela não estava com sono algum. Se sentia mais forte e mais capaz, mais confiante. Subiu em uma árvore. Nada parecia ameaçá-los. Uma hora se passou, mas ela deixou que os outros dormissem. Mais ou menos às 5 horas da manhã, Ângelo acordou. Audrey já havia percebido que ele estava meio inquieto a noite inteira. Ele se levantou e foi até ela.
– Ei, vá dormir. Eu fico aqui. Sem problemas. — disse Audrey
– Não consigo. — Ele subiu na árvore e se sentou ao lado dela
Por alguns minutos, o silêncio reinou.
– Ei, como você sabia que aquilo era uma fênix? — perguntou Audrey, finalmente
– Ah, eu sei bastante sobre mitologia.
– Mas você não deveria enxergar através da névoa, nem ser reconhecido por Apolo.
– Há mortais que conseguem, até mais que alguns semideuses. — Ângelo a olhou
– Bem… Eu não sabia.
Silêncio mais uma vez.
– Então você já está acostumado a este mundo?
– Sim, desde criança tive de aprender tudo rapidamente. Meu pai também era assim, sabe? Estudei muito.
– Ah, você é filho de semideus? — deduziu Audrey
Um galho quebrou na mata.
Ambos ficaram alertas. Silêncio. Audrey não detectou nenhum perigo.
– Puxa. Você sabe tanto quanto nós qual é o tamanho do desejo de uma vida normal, certo?
– Sim, você não faz nem ideia. — Ângelo pareceu melancólico — E sendo como sou é pior ainda. Não tenho poderes para me proteger, e também sou atacado.
– Não se preocupe, nós vamos lhe ajudar. — disse Audrey, solidária
Um segundo galho quebrou-se na mata.
– O que foi isso? — perguntou Ângelo assustado
Os sentidos de Audrey estavam parando de trabalhar, pois o dia vinha chegando. Fez esforço. Ela tinha a impressão de que suas orelhas se mexiam como as de um animal atento e que suas narinas tremiam. Ela pôde ver, era um monstro.
– Rápido, me ajuda a acordar os outros.
Eles desceram da árvore e começaram a acordar todos. Luma, Isis, Jeff e Adam levantaram-se num pulo e pegaram suas armas (com exceção de Luma que esquecera o arco e as flechas no Pagani). Formaram uma roda, voltados para fora, juntando ombro com ombro. O animal saiu da mata. Era um leão maior do que deveria ser. Tinha cascos de bode e no lugar da cauda uma cobra de 2 metros. A juba era respingada de sangue e, passando pela árvore que Audrey estava há minutos, a cobra cuspiu veneno e a fez corroer e quebrar.
– É uma quimera. — disse Ângelo
O sol saía lento, era o fim dos poderes de Audrey, mas os de Luma estavam tomando força. Ao ser atingida pela luz solar, ela se sentiu exatamente como Audrey se sentira, mais alerta, mais forte e confiante.
Isis atacou. Era ágil e rápida, quase pegou o bicho de surpresa. A cobra voltou-se para ela e Isis cortou sua cabeça em um nanossegundo. Ela lutava contra os enormes cascos de bode da quimera, que empinava e avançava enquanto Adam tentava atacar por traz. Luma se mantinha afastada, sem o arco se sentia inútil. Não o pegaria agora, era melhor ficar ali e acabar não servindo para nada do que sair e sua falta acabar sendo sentida. Tentou pensar. Meu pai é o Deus-sol, isso deve servir para alguma coisa. Tentou se concentrar no sol, na luz, mas era difícil concentrar-se com a melodia veloz e aguda da flauta de Jeff. Não estava surtindo efeito algum na quimera, mas ele continuava tentando. Estava ficando nervosa. Nervosa por não servir de nada, por não conseguir falar com Téfra, não conseguir usar seus poderes, por ser essa cabeça-de-vento e esquecer o arco e a aljava no carro, por ser mais inútil que um mortal abandonado num posto de gasolina…
Audrey tomou o lugar de Adam e este veio falar com Luma.
– Por que está parada?
– Esqueci meu arco no carro.
– Deixe que eu pego. — Adam foi em direção ao carro, mas Luma agarrou sua camisa e o puxou de volta
– Não, esqueça. Vou tentar outra coi… Ah, deuses, desculpa. — Luma olhou assustada para a camisa dele
Adam olhou para baixo. Em sua cintura, um buraco chamuscado exatamente onde Luma o havia puxado. Ele pegou a mão dela.
– Por Zeus, Luma, você está queimando! — ele afastou as mãos
– D-Desculpe, acontece quando fico nervosa.
– Está nervosa com o que?
– Tudo. Eu sou uma inútil!
– Não, Luma! — ele se aproximou dela. Tentou tocar seu braço, mas se afastou rápido pela temperatura da pele de Luma — Se fosse inútil não seria a líder desta missão! Não teria sido você a ter o sonho, você nem estaria aqui!
Luma fechou os olhos e cerrou os punhos. Sabia agora que aquela missão era apenas um teste estúpido de seu pai para saber o quanto valia. O jeito com que Apolo disse “Eu achei que você fosse capaz de ouvi-la, Luma”... Era tudo um teste, Apolo só queria saber se havia valido a pena cuidar dela, se precisava continuar, ou podia entregá-la aos monstros, sem bênção, sem dom, sem ajuda. Seu rosto ardia e respingava suor. Uma pressão atacou seu estômago, exatamente como acontecera quando deixou a garota da pré-escola surda, só que sem as vibrações na garganta. Alguns segundos depois, fogo rondava suas mãos. Ela as ergueu a frente de sua cabeça e depois lançou-as na direção da quimera. Bolas de fogo do tamanho de bolas de basquete a atingiram em alta velocidade. A quimera rugiu e olhou para Luma, os olhos cheios de ira. Correu em sua direção rosnando e Luma atirou novamente. A cada tiro, a quimera parava. A quinze metros do monstro, começou começou a se sentir fraca, o fogo sessou. Uma nuvem havia entrado na frente do sol. Ela estava ferrada. O bicho estava agora a cinco metros dela e a devoraria bem ali. Luma pediu ajuda em silêncio. Não sabia para quem, mas pediu. Como que em resposta, Téfra, a fênix lançou as garras na quimera, voando. Ela caiu, mas levantou-se rápido e as duas começaram a lutar. Audrey chegou correndo e convocou sombras. Do chão, subiram em redemoinho ao redor da quimera, sombras que a confundiam e atacavam, embora sem machucar. Adam juntou-se a ela, mas não com sombras. Do mesmo lugar, almas a rodeavam e gritavam ensurdecidamente, a irritando e agonizando profundamente. O bicho rugia e empinava enquanto a fênix atacava seus olhos. Isis veio correndo, cortou o resto da cauda/serpente e pulou nas costas da fera, cravando a espada em sua nuca. A quimera se desintegrou em uma chuva de areia dourada e cheiro de enxofre, como todos os monstros ao morrer. Isis caiu em pé como um gato.
Neste momento todos se olharam e perceberam a boa equipe que formavam. Os laços se tornaram mais fortes e eles mais unidos.
Começaram a guardar as coisas para partir. Seria uma longa caminhada até o Empire States Building.
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