O Filho do Inventor
18 Capítulo 18 - Adam
Fora difícil acordar naquela manhã.
Adam não tivera sonhos, a noite passou quieta e agoniante. Sua mente estava totalmente preta e suas costas doíam como se alguém o estivesse abrindo ao meio. De manhã, estava exausto. Suas costas formigavam e ele estava atordoado. Agonizava ao lembrar da dor. Olhou para sua foice, encostada na parede ao lado da cama. Lembrou-se do dia em que teve de lutar no meio da rua e mortais a confundiram com uma vassoura. Pois é, parecia que sua velha amiga, Skiá (σκιά) entraria em ação novamente. Gostava do fato de sua foice se chamar sombra em grego, era como se estivesse esperando por ele desde que fora forjada. Já que ele tinha esse apelido na escola — por estar sempre vestido de preto, o que mudou com a camiseta laranja do Acampamento Meio-Sangue — e, no Acampamento, era considerado o melhor manejador de sombras do chalé de Tânatos. Levantou, colocou a camiseta e a touca cinza de sempre. Passou a mão no colar de contas, lembrou-se de seu primeiro ano no Acampamento Meio-Sangue — o tempo que passara no chalé de Hermes sendo trollado… os primeiros golpes… quando se apaixonou pela filha de Zeus, que teve de partir… quando foi reclamado, então teve sua primeira missão… quando o declararam melhor manejador das sombras, quando conhecera Samantha alguns meses atrás e se confundiu com seus sentimentos novamente… Fazia tanto tempo que não saía em missão, e agora era chamado por essa garota, Luma, que acabara de conhecer, mas que com certeza o seduzira com aquele olhar intenso e dourado. Pensou em sua mãe. Cara, fazia anos que não a via.
Saiu meio tonto para o café da manhã. Quíron, estava em sua cadeira de rodas, numa mesa com Luma, Isis, Audrey e Jeff, tratando da missão. Adam sentou-se e comeu bacon. Tentou prestar atenção na conversa. Lembrava quando, em sua primeira missão, Quíron fez o mesmo. Sentou-se com ele e seus dois companheiros para dar instruções gerais, já que era a primeira vez de todos eles. Tudo o que ele sabia sobre essa missão é que três deusas brigavam e eles eram os encarregados de as separar. Não sabia o porquê de eles serem escolhidos, porquê elas estavam brigando, nada.
Quando o café acabou, foi preparar sua bagagem pra viagem. A maioria dos semideuses usava mochila, mas ele usava uma bolsa para guitarra, porque sua foice cabia magicamente nela — mesmo sendo bem maior — e ajudava a disfarçar, pois quando tirada na frente de mortais, eles enxergariam como uma guitarra preta. No lugar onde ficaria o corpo da guitarra, cabia seu estoque de ambrosia e néctar para emergências, seu MP3 e alguns dracmas de ouro. Enfiou alguma roupa ali também, porque sabia que ficaria um tempo sem banho e sem trocar de roupa.
Foi o primeiro a acabar de arrumar a bagagem. Ainda faltava uma hora para saírem, então foi para os estábulos. De todos os lugares do Acampamento, aquele era seu preferido. Adam nunca se sentira à vontade perto de outras pessoas, preferia estar com os cavalos, onde ninguém o julgava ou ria dele, eles não se incomodavam com sua presença e pareciam gostar do carinho. Naquele momento, ele só conseguia se culpar e repreender por ter pensado novamente em Thalia. Agora não conseguia tirá-la da cabeça.
Quando chegou ao Acampamento, a presença dela foi notável, era a única pessoa que ele conseguia ver, mesmo que estivesse em meio a uma multidão. Ele não se aproximava, pois sempre fora tímido, ainda mais sendo ela mais velha. Ela tinha 12, ele, apenas 6. Podia até ser cedo demais para ele se apaixonar, e podia não ter se apaixonado de fato, mas Thalia não saía de sua cabeça. Então ela saiu em missão. Quando voltou, defendendo seus amigos de um feroz ciclope, morreu. E seu pai, Zeus, a transformou em árvore, imortalizando-a. A Árvore de Thalia sempre fora um símbolo no Acampamento, mas para ele, só lembrava a dor de ter visto sua morte. Ele se tornou mais antissocial do que já era, e estava cansado de ficar no chalé de Hermes e ainda por cima, com Luke Castellan, um dos companheiros de Thalia naquela missão. Adam os culpava. Annabeth Chase, Luke Castellan e Grover Underwood, todos eles, culpados pela morte de Thalia. Recebeu sua primeira missão com 10 anos e fora nomeado o melhor manejador de sombras do Acampamento na volta. Seis anos depois da morte de Thalia, ele tinha 12 anos e os companheiros dela, 13, a não ser Luke, que tinha 17. O chalé de deuses menores como Tânatos foram construídos e, assim como ele, algumas pessoas saíram do chalé de Hermes, finalmente. Ele passava a maior parte do tempo nos estábulos, a não ser quando tinha de treinar, comer ou dormir. No fim do ano, Thalia reviveu, com a ajuda do velocino, pousado em sua árvore, que continuou lá, mesmo depois dela voltar. Ela estava exatamente como a garota de 12 anos que conhecera, apesar de ter, na verdade 17. Pareciam ter a mesma idade. O que o irritou na época foi que ele não conseguiu falar com ela novamente. Ela voltou a ser amiga dos idiotas que causaram sua morte e a levaram em outra missão logo, onde ela decidiu ser uma caçadora, e quase nunca mais voltou ao Acampamento. Ele teve de seguir em frente. Agora, Thalia tinha 21 anos, com cara de 16, como ele. Luke estava morto, mas todos os outros que acabaram com sua vida — literalmente — quando ela tinha apenas 12 anos, continuavam intactos, ganhando prêmios, títulos, ficando famosos por tudo que faziam, e Adam nunca recebera a chance de provar seu valor e ninguém se lembrava mais do fato de que ele era o melhor manejador de sombras do Acampamento. Teve de seguir em frente e esquecê-la, e achava ter conseguido. Conseguia não pensar nela quase que o tempo todo, mas quando se lembrava, como acontecera naquela manhã, ficava devastado. A raiva daqueles meios-sangues que partiram seu coração sumira, mas Adam sentia como se, se alguém remexesse isso dentro dele, era capaz de que a raiva voltasse.
Voltando de trás do estábulo, viu Luma chegando. Ela ainda não o tinha visto. Eles estavam a praticamente três metros de distância, e ela vinha olhando para a grama. Parecia distraída e tropeçou. Correndo, Adam conseguiu segurá-la na metade do caminho para o chão. Ela olhou para cima, para ele, surpresa e pela primeira vez naquele dia, Adam viu os olhos de Luma. Ele já havia visto antes, mas continuava se surpreendendo com aquele intenso olhar. Era tão dourado e brilhante. E ali, segurando-a pelo pulso, com a mão levemente pousada em sua cintura e a encarando nos olhos, perdeu o ar por alguns segundos, e a imagem de Thalia deixando o tronco da árvore tornou-se turva e sumiu de sua mente, dando lugar àquele rosto angelical.
Fale com o autor