O Filho do Inventor

38 Capítulo 38 - Sheri


Eram 11h da manhã. O telefone tocava. Sheri não se sentia nem um pouco disposta a levantar e atendê-lo, porém, o telefone já a havia acordado e, por tocar repetidamente, Sheri imaginou que se falasse de uma vez com quem quer que a estivesse ligando, a pessoa pararia e ela poderia voltar a dormir. Porém, ao avistar de longe o número no visor do telefone, correu para atendê-lo.

– Quíron? — disse preocupada

– Olá, senhora Valentine.– disse Quíron, soando sério e profissional como sempre

– Está tudo bem?– perguntou, preocupada

Ele suspirou.

– Não. Não mesmo, senhora. – Quíron já não sabia o que dizer - Olha... A Luma...

– O que aconteceu com a minha filha?–Sheri gritava ao telefone

– Sheri? — gritou Bruce, do andar debaixo enquanto cozinhava o almoço

– Precisamos que você venha imediatamente ao South Nassau Communities Hospital, senhora. O estado dela é grave, mas fique calma, vai ficar tudo bem.

FICAR CALMA? Enquanto descia as escadas correndo em seu pijama, Sheri desejou nunca ter contado à filha ou à Bruce sobre a verdadeira origem dela. Deveria tê-la mantido em casa, segura com o colar encantado que Apolo deixara para protegê-la. Se culpava, enquanto dirigia loucamente de Connecticut à Manhattan, por o que quer que estivesse acontecendo com ela naquele momento. Luma é apenas uma criança, pensou, na altura de Stamford, Por que uma criança deveria lutar com monstros? Chegando ao Bronx, não enxergava praticamente nada através das lágrimas, o que não a fazia dirigir mais devagar. Mas se ela estava em estado grave pelo menos estava viva, não? Imaginou ao arrancar pela Ocean Avenue.

Chegou.

Correu quase tão rápido quanto se ainda estivesse no carro. As pessoas no caminho a olhavam como se fosse louca. Funcionários se perguntavam se deveriam ir atrás dela ou pará-la, mas ninguém o fez. Deviam estar apenas se perguntando por quê ela estava de pijamas. Subiu as escadas (tinha energia demais pra ficar parada no elevador) e quando correu pelo saguão a secretária levantou-se e a seguiu com o olhos, desconfiada. Apenas quando Sheri chegou ao corredor e percebeu que não sabia a sala, a mulher foi atrás dela.

– Precisa de ajuda, senhora? — disse, educada

– Eu não, mas a minha filha precisa! — soluçou, andando de um lado para o outro

– Qual o nome dela? — a secretária parecia ter se sensibilizado

– Luma. Luma Valentine.

A moça correu até o computador no saguão e procurou. Na tela, pulou a informação: Sala 142

– Obrigada, moça. — gritou Sheri, já correndo de volta pelo corredor

Quando achou a sala 142, irrompeu da porta, gritando:

– Luma!

Fez uma pausa, ainda na porta, para se recuperar do choque de ver sua filha deitada naquela cama, coberta de fios ligados à máquinas, cheia de arranhados nos braços e com um grave hematoma no pescoço, como uma coleira.

Quíron estava postado perto da janela, bebendo café. Os olhos cansados.

– Luma... — choramingou, indo até a filha mais devagar

De perto, viu as olheiras profundas nos olhos da filha. Passou a mão delicadamente no machucado em seu pescoço. A máquina apitava lentamente. tu...tu...tu...

Estava viva.

Por maior que fosse a dor de ver sua filha ali, também era grande a esperança e o alívio por saber que ao menos estava viva.

– O que aconteceu? — disse à Quíron, limpando as lágrimas que escorriam

– Não sabemos, Sheri. — lamentou — A encontramos hoje de manhã, jogada na grama, próxima ao lago e ao bosque. Quando achamos, estava morta. Um experiente curandeiro do Acampamento, Will Solace, cuidou dela até que chegássemos aqui. Chegamos à conclusão de que fora atacada, provavelmente não por um monstro. Os arranhados em seus braços são completamente humanos. Mas não tivemos tempo de investigar mais sobre, pois a trouxemos para cá o mais rápido que pudemos. Quando chegou, foi reanimada, mas ainda não acordou. Continua neste estado semiconsciente que está nos matando de preocupação e ansiedade.

Sheri não pareceu tão surpresa quanto estava. Alguém humano havia tentado matar sua filha. Bem, pelo menos metade humano. Quem poderia fazer uma coisa dessas? Luma era apenas uma criança. Aliás, não havia tentado, havia conseguido. Luma morreu e voltou.

O médico responsável pelo caso adentrou no quarto. Era alto, por volta de 1,90 metros. Tinha cabelo curto, grisalho e óculos de lentes estreitas. Os olhos azulados atrás das lentes contrastavam com sua pele quase negra. Nenhuma ruga adornava sua face, o que fazia Sheri acreditar que devia ter uns 30 anos. Era bem magro, pouco malhado atrás do comprido jaleco branco.

– Senhora. — cumprimentou, aproximando-se.

– Vai ficar tudo bem com ela, doutor? — perguntou, preocupada

– Bem, depende do que você considera bem.

– O que quer dizer?

– Luma está em coma. — seu tom era uma mistura de preocupação e casualidade

O mundo de Sheri desabou. Como isso poderia ter acontecido? Quem poderia ter matado sua filha? Deixado-a em coma. Se sentia impotente por não ter mais controle do destino e da segurança de sua filha. Não podia mais segurá-la em casa, embaixo de sua asa. Talvez tivesse de se acostumar com a situação.

– E tem alguma prevenção de quando Luma vai acordar? — perguntou Quíron

– Não. Mais temos certeza de que ela ficará bem no caminho. A não ser... Que a senhora não nos permita realizar uma cirurgia cerebral.

– O que?

– Quem quer que tenha tentado matá-la, o fez com muita eficiência. Talvez a pessoa não tivesse consciência disso, mas ao parar o oxigênio de Luma, enforcando-a — ele apontou para o pescoço dela com a caneta -, a pessoa bloqueou o ar e, possivelmente também o sangue, de chegar ao cérebro. — balançou a cabeça — Danificou uma parte importante. Sem a qual não seria nada legal acordar. Melhor continuar em coma que acordar sem movimentos, certo?

Sheri tentou sentar-se. Apoiou-se na cama, ao lado da filha. Quíron a conduziu até a poltrona mais próxima e deu-lhe um copo d'água. Não confiava nem um pouco em deixar o cérebro de sua filha nas mãos daqueles médicos que não conhecia. Porém era a única chance. Não queria que sua filha acordasse sem os movimentos e passasse a odiá-la por não ter permitido a cirurgia cerebral. Por outro lado, também não queria arriscar a vida da filha sabendo que acordaria de qualquer jeito, se não tivesse permitido a cirurgia.

– Tenho de pensar. — disse, olhando fixamente para a parede

– Sheri? — chamou Quíron, como se dissesse "você está louca, mulher?", mas era educado demais para isso

– Tudo bem, senhora. Mas apresse-se ou será tarde demais. — o médico sentou-se na mesa à frente das máquinas, anotando em sua prancheta a situação atual de Luma

– Sheri, você não está pensando em não fazer a cirurgia, certo? — Quíron ajoelhou-se a sua frente

– Não sei, Quíron. Digo, é um risco. — ela não o olhou

– Mas, Sheri, é sua única chance.

– Não, não é. — ela finalmente o olhou, era difícil lutar contra aqueles sábios olhos — O doutor disse que ela acordará de qualquer forma, mas a cirurgia é um risco.

– Tudo bem, Sheri. — aqueles antigos olhos castanhos diretamente dentro dos seus — Mas tenho certeza de que sua filha entenderia. Tenho certeza de que, indo para onde ela tivesse que ir, ela saberia que você fez o possível para que ela voltasse bem.

Quíron era bem convincente quando queria. Afinal, tivera milênios de sabedoria. Achou que poderia culpá-lo se algo desse errado.

– Doutor? — chamou

– Hum? — soou, desinteressado

– Eu aceito. Faça a cirurgia.

– Ótimo. — disse ele, levantando-se e indo em direção à porta — A cirurgia será realizada ainda hoje.

O médico retirou-se. E Quíron a olhou novamente, enquanto Sheri apoiava a cabeça nas mãos.

– É uma boa decisão, Sheri. Ela vai ficar bem.

– E aquele garoto? — perguntou, após segundos em silêncio

– Garoto?

– Will Solace. — ela o olhou

– Ainda está nos esperando, do lado de fora. Você gostaria de agradecê-lo?

– Sim.

– Vou chamá-lo.

Quíron também retirou-se. Agora só Sheri e Luma encontravam-se no quarto.

Sheri levantou-se e andou até a filha.

– Ah, Luma... — lamentou-se — É por isso que não queria contar de onde você veio.

tu... tu... tu...

Era tudo o que queria ouvir naquele momento.

– Espero que fique tudo bem, minha filha. Sei que você é forte, afinal, você reviveu. Isso não é pra qualquer um. Sei que vai dar tudo certo.

Ela se curvou e abraçou a filha.

A maçaneta virou, em suas costas. Sheri não virou-se, apenas deixou de abraçar a filha.

– Me chamou, senhora? — falou Will Solace

– Chamei sim. — Sheri virou-se e tentou recuperar o fôlego

Will pode ser descrito com o mesmo porte de surfista de Apolo. O cabelo loiro era bem aparado, arrepiado na parte de cima. Os olhos azuis refletiam a vista do mar, na janela. Tinha 1,83 metros e um corpo perfeitamente atlético.

Não, Sheri não quis dar em cima do garoto. Ela apenas perdeu o fôlego porque ele era muito parecido com Apolo, quem ela não via desde o nascimento de Luma, há mais de 15 anos.

– Senhora?

– D-desculpe, garoto. É... Obrigada por cuidar da minha filha.

– Imagine, senhora. Como curandeiro do Acampamento, é o meu trabalho. Espero que ela fique bem.

– É... Eu também. — virou-se novamente para a filha

– Ela vai... — suspirou — Olha só, eu sou apenas o curandeiro, ela não sobreviveu por causa de mim. Eu apenas fiquei de olho para o caso de ela acordar. Ela também não sobreviveu por causa dos médicos daqui ou dos desfibriladores. Ela sobreviveu porque é muito forte, senhora. Apolo cuida muito bem dela. Ela vai ficar bem.

– Obrigada, garoto. — Sheri sorriu, enquanto uma lágrima despencava de seus olhos.

Will deixou o quarto.

Notas finais
Não se esqueçam de comentar, pessoinhas lindas