Na segunda das três noites que passara na enfermaria, Luma teve um sonho.

Viu-se com os amigos voltando ao fim da batalha contra os Pássaros da Estinfália. A visão deixou de focar-se nos semideuses e mostrou, ao longe, a sombra de uma grande ave de duas cabeças carregando sua presa.

Luma acordou ofegante e quase caiu da cama, mas Adam a segurou. Por algum motivo, estava ali, em pé ao seu lado. Seu coração desacelerou assim que ele a tocou, muito embora ele não estivesse calmo. Ele se assustara com o despertar repentino de Luma e a segurara instintamente com a mão que mais lhe convinha: a esquerda. Luma sentou-se na maca com dificuldade.

– Obrigada. — sua fala tomou um curso diferente ao notar a dor de Adam — Você está bem?

Ele se afastou, com a mão no braço esquerdo, dolorido.

– Você não deveria ter me ajudado!

Entre gemidos, respondeu:

– Imagine. Acabei te machucando também.

Era verdade. Ao tentar recompor-se, ferira mais a perna machucada, enquanto ele se ferira ao tentar levantá-la com a mão errada. Mas teria sido pior se ele não tivesse feito, e ela preferia que tivesse sido assim. Ele não teria se machucado. Melhor um do que dois.

Discutiram sobre o sonho. Podia ser um sinal do que estava por vir, mas era na verdade um vislumbre do passado. E, por parecer não ter sentido, ou motivo, deveria ser um sonho forçado, alguém contatara Luma durante a noite para mostrar-lhe aquilo. Só podia ser Isis. Era um sinal.

Após a terceira noite, tiveram alta. Saíram juntos da enfermaria enfaixados, Luma levando uma muleta.

Os amigos os esperavam do lado de fora.

– Como se sentem? — perguntou Audrey, sorrindo

Estava claramente exausta com os dias que passaram (a missão, a preocupação com Isis, Ângelo e Téfra, seguida da preocupação com Luma e Adam...). Seus olhos estavam fundos e escuros.

– Estamos bem. — disse Adam — Mas é melhor nos mantermos fora de confusão por algum tempo.

Os dois se olharam. Não haviam contado o ocorrido. Não havia motivo para explanar o acontecido entre Adam e Thalia no Parthenon e deixar que os boatos nascessem... Não. Era melhor que ficasse entre eles. Luma se sentia bem por estar compartilhando de algo exclusivo com ele, mesmo que não da forma que imaginava.

Foi ao chalé de Apolo para ouvir as histórias de Brian. Servindo-a de néctar, ele a contara que, após tantos planos, desistira de ouvir os conselhos dos outros. Fora até Lisa e contara diretamente o que sentia num tom de "é pegar ou largar". E ela pegou. Sorriu e o beijou, feliz. Disse que já sabia e correspondia, mas estava esperando por este tipo de atitude. Então os dois estavam felizes e juntos.

Luma se sentia extremamente feliz por eles. Ficava imaginando "Será que devo fazer o mesmo? Dizer a Adam tudo o que sinto?", mas não tinha certeza, sentia que era muito cedo para declarações. Não queria uma relação precoce, baseada em um sentimento mal formado, queria deixar o tempo trabalhar, trançando a história. Talvez este simples trançado ainda chegasse a ser um belo tapete, como os que adornavam o Olimpo.

Poderia ser mais difícil acompanhar a rotina de atividades naquele dia, para ambos os dois. Era segunda, e na hora da faxina do chalé, seus irmãos lhes deram um desconto por estarem machucados, principalmente os filhos de Tânatos, que não tinham tantos no chalé e, por isso, menos bagunça, já o chalé de Apolo era superlotado e bagunçado, então Luma só teve de arrumar a própria cama e ajudar os irmãos com pequenas tarefas. Após o almoço tiveram aulas, que fora a parte mais difícil do dia. Você já tentou praticar arco e flecha utilizando muletas? Acredite, é difícil. Para Adam não fora mais simples, já que tinha aula de grego antigo naquele horário, com Quíron. Canhoto, era difícil escrever com a mão direita, mas ele dava seu jeito, o problema não era esse. Por conta do ferimento, não podia encolher as asas, tinha de deixá-las visíveis, abertas para não danificar o curativo. Estava sempre esbarrando em alguém que o xingava, enquanto ele se contorcia de dor. Houve então o horário livre, quando, sentados no deque, Luma ouviu as explicações de Adam sobre o que ocorrera entre ele e Ártemis. Mesmo que ela o tivesse dito que já sabia o que havia acontecido, ele insistira em contar, afinal ela se arriscara por "uma completa besteira que fizera", como ele mesmo chamava. E, de verdade? Ela se sentia bem melhor assim. Agora tinha certeza de que ele gostava o bastante de Thalia para não apenas ajudá-la na queda como fizera com Luma, mas também chorar e beijá-la pelo medo que a quase perda o causara. Embora isso a entristecesse, agora poderia ser capaz de se conformar e esquecer, diferente do que aconteceria se ela continuasse não sabendo. Luma era uma garota curiosa e passaria meses imaginando o que havia acontecido de tão grave para que Ártemis fosse atrás dele e isso lentamente a mataria por dentro. Também tinha outra coisa sobre o que pensar agora: Por que ele achava que lhe devia explicações? Será que sabia que ela gostava dele? Ou só contou porque ela estava presente na situação e se arriscara por ele, como dissera? Com certeza, teria muito no que pensar.

Enfim, jantaram, fizeram suas preces à fogueira e foram dormir. Não foi tão difícil acomodar-se na cama sem que a perna doesse como Luma acreditava que seria. Porém, como é comum na vida de um semideus, teve um sonho.

Começou com a breve imagem de uma montanha enevoada, se focando e aproximando como uma daquelas filmagens de helicóptero. Luma não reconhecera o local. A montanha tinha o topo plano, que servia de teto para uma caverna, para onde o sonho seguiu.

– Pelos deuses! - podia ouvir uma voz muito familiar, porém muito abafada para ser reconhecida de cara — Isso é impossível!

Outro alguém soluçava no escuro.

– Por favor, deixe-me voltar! — aquela voz, sim, era inconfundível

Era Isis, e ela chorava, mesmo que levemente, sem desespero.

– Fique quieta um segundo! — disse o homem, nervoso - Se eu pelo menos conseguir terminar aqui...

Então à dois centímetros do ponto de vista do sonho, Téfra pousou dentro da caverna. O fogo de seu corpo iluminou o local, revelando a cena. Estranhamente, a caverna estava mobiliada com tudo que alguém pode precisar. Cama, mesa de jantar e cadeiras, e até um vaso sanitário — o que fez Luma pensar se cavernas no alto de montanhas tinham serviço de esgoto e encanamento -, tudo de madeira. Isis estava sentada de costas para Luma na mesa, apoiando a cabeça nas mãos e chorando. Luma quis ir até ela, sacar suas armas e defender a amiga de quem quer que fosse o sequestrador. Porém não conseguia se mexer, era como se estivesse grudada ao chão frio de rocha, mesmo que o ponto de vista do sonho mudasse, ela não se movia.

Téfra carregava, de ambos os lados de seu corpo, um recipiente metálico, parecido com um cesto, só que com tampa. Ela seguiu devagar até a parede direita da caverna. Ao chegar aonde queria, piou baixinho e abaixou a cabeça para um sujeito alto e loiro que parecia ocupado, trabalhando em uma escrivaninha. Na parede, as mais diversas armas penduradas. Ao perceber a presença de Téfra, o cara se levantou e virou, dizendo:

– Até que enfim! Comida!

Aquele era Ângelo, descabelado e desarrumado, porém sem nunca deixar de ser bonito. Parecia tão exausto quanto Audrey naquela manhã. Tinha olheiras profundas e barba por fazer. Seus olhos mostravam uma insanidade que Luma nunca reparara.

Num pulo, Luma acordou. Estava suada e chorava desesperadamente. Estava tremendo. O sol nem havia nascido ainda, devia ser umas 3 horas da madrugada, mas levantou-se e foi mancando, esquecendo-se da muleta, até o chalé de Tânatos.

A trajetória fora insuportavelmente dolorosa, porém, ela sabia que tudo o que precisava naquele momento era do Toque Gentil de Adam, e de como ele a fazia se sentir segura. Também queria contar-lhe o sonho, parar de guardar tudo aquilo para si. Entrou repentinamente no chalé, se ajoelhou ao seu lado e o chacoalhou.

– Adam. — sussurrou, soluçando

Devagar, ele acordou, mas assim que a viu ali, chorando desesperada, pulou da cama, parou a sua frente e disse:

– O que aconteceu, Luma? — temia algum tipo de ataque ao Acampamento, ou alguma morte

– Shh!! — sussurrou e o pegou pela mão.

O Toque Gentil não funcionava, ele estava nervoso demais para isso. Luma o levou para fora do chalé, onde ele não poderia acordar os pobres irmãos. Para a surpresa de Adam, tudo estava extremamente calmo lá fora.

– O que foi? — perguntou mais calmo

– Eu tive um sonho. — disse Luma, entre soluços

Os dois sentaram-se na grama e, envolvida por Adam, Luma lhe contou o sonho. A cada vez que soluçava, ele lhe abraçava mais forte, tentando com todas suas forças fazer com que o poder funcionasse bem. De fato, Luma se acalmara, mas ainda estava muito triste.

– Então Ângelo sequestrou-a?

– Eu não sei dizer... Ela parecia ter colaborado com isso. Se tivesse sido raptada, já teria dado um jeito de abater o sequestrador e fugir, mesmo que num lugar horrível daqueles. Porém, ela estava triste como se estivesse arrependida de algo. Ela escolheu ir com ele.

– Mas ele a está mantendo presa e isso é horrível!

– Eu sei! — ela afundou a cabeça no peito de Adam, enquanto outra lágrima escorria — O que faremos?

– Vamos falar com Quíron novamente pela manhã. — decidiu ele, com seu confiante tom de voz, o que a acalmou ainda mais — Não se preocupe, vamos convencê-lo!

Após alguns segundos para se acalmar mais, Luma disse, baixo:

– Obrigada, Adam, você é muito atencioso. — e lhe abraçou de volta

– Bom... — disse ele — É porque eu gosto de você, Luma. Não suporto te ver assim.

Vermelha, Luma finalmente sorriu naquela noite, e novamente, tudo pareceu ter esperança. Adam era sua caixa de Pandora. Todo o mal podia ter saído e inúmeros monstros podiam estar lhe atacando, mas ele ainda a acalmava e reparava as feridas.

Então eles se beijaram.

Tentou levantar-se e, ao sentir a dor na coxa, caiu da cama. Virou-se de barriga para cima, ainda meio grogue de sono, Brian gemeu, suspirou e após um segundo chamou:

– Luma?

Ele a olhou pela borda da cama.

– Ah, deuses... Está tudo bem? — disse, levantando-se para ajudá-la

– Eu esqueci dessa perna estúpida! — respondeu Luma, dando-lhe a mão

Ele a levantou e sentou-a novamente na cama. Ao dar-lhe suas muletas, perguntou:

– Sonhou com o que? — e sentou-se ao seu lado

– Adam. — revirou os olhos

– Não fica assim, Lu. — falou Brian, carinhoso — Vocês vão ficar bem, relaxa.

Por mais doloroso que fosse se dar conta de que o beijo não era real, Luma estava pensando em outra coisa: Adam tinha razão. Eles deviam falar com Quíron novamente.

Notas finais
Este provavelmente é o último de hoje, amores. Isso é tudo que estava salvo no meu computador, os próximos ainda tenho que escrever, então se for postar hoje ainda vai demorar. Obrigada, seus lindos (: Não se esqueçam de comentar.