Fazia tempo que Luma não se sentia daquele jeito.

Se fosse qualquer outro menino que ela gostasse, poderia comparar aquele momento com quando Jeremy tocou seu braço para elogiar seu tiro. Mas, sendo Adam o menino, poderia comparar até com quando beijava Jeremy. Basicamente, a meio caminho do chão, Adam segurou seu pulso, a levantou e pousou a outra mão em sua cintura. Eles ficaram próximos, mas, ao contrário do que aconteceria com Jeremy, ela estava extremamente calma. Adam tinha um toque delicado e sutil que a acalmou por inteiro. Enquanto caía, sua expressão era de susto, seu coração acelerava, seus pensamentos eram tão agitados que eram quase nulos. Quando Adam a tocou, tudo ficou em câmera lenta, sua expressão suavizou, seu coração voltou ao normal e seus pensamentos tornaram-se claros e calmos. Por um momento, enquanto olhava nos olhos negros dele, Luma derretia. Então lembrou-se de que aquele era um dos poderes dos filhos de Tânatos, o toque gentil, que acalma instantaneamente qualquer ser, inclusive semideuses — que não sejam filhos de Ares ou qualquer deus muito explosivo, o que não era o caso de Apolo. Claro que ele não é calmo, mas está valendo. E como…

Após alguns segundos para recuperar o ar, Luma se afastou e agradeceu. Seguiram juntos até o celeiro e começaram a escovar cavalos. Permaneceram em silêncio até que o cavalo castanho que Adam escovava deu uma rabada na cara dele. Luma não segurou o riso e eles gargalharam juntos. Passaram a conversar e tornaram-se mais próximos.

Era chegada a hora de partir. Luma, Isis, Audrey, Jeff e Adam entraram na van estacionada na entrada do Acampamento para levá-los até o fim da estrada. Dali em diante, o caminho era deles.

Entraram e, no banco do motorista, um homem alto e musculoso, vestido como um surfista esperava. Ele tinha cabelos loiros e molhados até os ombros e era bronzeado, como se estivesse nadando o dia todo. Detalhe: ele tinha olhos pelo corpo todo. Sem exageros, todo seu corpo era coberto por olhos das mais diferente cores. Dezenas de olhos estavam fechados, principalmente aqueles que estavam encostados ou muito próximos de algo. Os que restavam eram o bastante para assustar Luma. Piscavam aleatoriamente e viravam um pra cada direção.

Isabel entrou na van com suas pernas falsas e, sorrindo, disse:

– Este é Argos, segurança do Acampamento Meio-Sangue. Não precisam ter medo. Ele é tímido, é raro que responda alguém, mas está do nosso lado, certo, Argos?

Os olhos de Argos piscaram todos juntos e se direcionaram para Isabel por alguns segundos, depois voltaram-se cada um para uma direção novamente.

– Ok. — Isabel pareceu desanimada por não ter recebido resposta, mas logo pareceu ansiosa de novo — Vamos?

Ela bateu palmas quando o motor roncou, após a mão coberta de olhos de Argos puxar a marcha da van. Isabel estava tão ansiosa com a missão que Luma chegou a se sentir ofendida. Ela estava sempre tão feliz e Luma invejava isso, aliás, ela era toda confusa por ser semideusa, mas Isabel tinha um pai ainda pior. Cronos, o Senhor do Tempo, o velho vilão, o titã que liderou a batalha contra os deuses. Com certeza estaria pior se este fosse seu pai, e não um adorável, simpático e cantante deus.

A van seguiu por alguns quilômetros, parou perto de um bosque e os deixou lá.

Eles se viram perdidos. Faziam ideia de onde estavam, mas não de onde iriam. Andaram por mais alguns quilômetros, o sol começava a se pôr e Adam decidiu:

– Convenhamos, estamos perdidos e seria ainda pior andar mais, a gente nem sabe onde está indo.

– Verdade. — concordou Isis — Melhor pararmos.

– É assim mesmo, gente. O que vocês esperavam? — disse Audrey com desdém — Que algum tipo de força divina viesse e nos indicasse o caminho?

– É… tipo isso. – Adam fez que sim com a cabeça.

Audrey revirou os olhos.

– E, na verdade… — disse Jeff, farejando o ar — Pressinto que esta força está chegando.

– Como assim, Jeff? — perguntou Isis

– Espera, silêncio. — pediu ele, agitando a mão.

Fizeram silêncio, sem entender. Luma teve a impressão de que suas orelhas mexiam, como um animal alerta, para frente e para trás.

De repente, os olhos dele brilharam.

– O que foi? — perguntou Audrey, preocupada

– É ela. — ele vibrava — É ela!

Jeff se ajoelhou e as meninas trocaram um olhar interrogativo. Deram de ombros. Então uma mulher surgiu da mata e fez com que Jeff e Adam perdessem o fôlego. Ao olhá-la, Luma também teve de respirar fundo, em surpresa. Ela era linda, tinha uns 19 anos, era morena, praticamente ruiva e bronzeada. Eram os olhos, porém, que arrancavam o ar de quem a olhava, eram brancos, prateados, quase amarelos, como a Lua. Ela usava saia e top estilo Pocahontas, só que prateados e uma sandália grega de couro marrom. Carregava arco e aljava, era musculosa e suas feições eram fortes, dignas de uma guerreira.

– Psst! — Jeff sussurrou — curvem-se.

Adam, Luma, Isis e Audrey se ajoelharam ao lado dele.

– Esta é Ártemis, deusa da caça e das damas. É irmã gêmea de seu pai, Luma. Ela é a Lua. — disse ele, encantado.

– Meninas, — Ártemis enfatizou a palavra, deixando claro que era só com elas — levantem-se. Você são da minha espécie.

Ela pronunciou a última palavra com nojo, direcionando-a aos meninos ajoelhados.

Adam não podia acreditar que estava cara a cara com aquela que tirou Thalia dele, pela segunda vez. Não podia se manter calmo, além de tirá-la dele, ainda praticamente a proibiu de manter contato com homens. Thalia foi levada para a caça.

– Caçadoras, — anunciou a deusa — levantar acampamento.

Adam podia ver uma dúzia de garotas de todas as idades e aparências — porém todas bonitas — surgirem da mata e montarem seis barracas em menos de cinco minutos. Isso chegava a impressioná-lo, mas nenhuma daquelas meninas era Thalia.

– Venham comigo, garotas. — chamou Ártemis — Quero ter uma conversa com vocês.

Ela as levou para a maior barraca. Adam não conseguia pensar na chance de perder as amigas também. Não podia deixar que Ártemis acabasse com a vida delas antes mesmo que tivessem escolha. Um turbilhão de ódio e mágoa surgiu em sua cabeça. Seus olhos encheram-se de lágrimas e ferviam de ressentimento. Todas as vezes que vira Thalia partir passaram por seus pensamentos e isso o impulsionou a correr. Correu para os bosques à procura de Thalia. Gritou seu nome diversas vezes. Chorava de desespero. Por que Thalia não estava ali? Ela era uma caçadora, afinal! Se aquela deusa presta pra algo, pensava Adam, que tenha mantido Thalia em segurança.... Minha Thalia.

Será que acontecera alguma coisa? Ele não podia suportar estes pensamentos. Já a vira morrer uma vez, não deixaria acontecer de novo. Alguém tinha de pagar! Thalia não merecia aquilo. Ele continuava gritando seu nome e correndo entre as árvores. Um galho cortou seu rosto. Nenhuma dor era maior do que a possível perda definitiva de Thalia. Um espinho rasgou sua camiseta, tirou sangue de seu braço. Ele tropeçava e se machucava, por conta dos olhos embaçados, cheios de lágrimas. Por fim acabou em uma clareira e caiu no chão, de joelhos, exausto. Cabisbaixo, sussurrou para si:

– Thalia…

E pôs-se a chorar.

De repente um cheiro de enxofre inundou suas narinas. Era cheiro de morte de monstros. Levantou o olhar. 100 metros à frente, uma garota tinha acabado de matar um monstro grande como um rinoceronte com uma única flecha. Ela se recompôs da luta, limpou o sangue da flecha caída e colocou-a de volta à aljava, o arco de volta ao ombro e o escudo — com o horrendo rosto de Medusa gravado — em sua mão se fechou em espiral até que se transformasse em um bracelete de prata. Era Aegis, o escudo de Thalia.

Queria levantar e correr até ela, dar-lhe um abraço, mas não foi preciso, ela já vinha em sua direção. Baixou os olhos novamente.

– Ei, você está bem? — sua voz era como um trovão, chegava de repente, lhe pegava de surpresa. Era forte e estrondosa.

Tudo que podia ver eram os velhos coturnos pretos dela. Seus olhos acompanharam a calça jeans clara e rasgada nos joelhos, a camiseta prateada, por baixo do arco e da aljava, o bracelete em seu pulso, seu rosto, brincalhão — como se ela pudesse ser gentil e te dar um pontapé ao mesmo tempo — e o cabelo comprido, o que chocou Adam. Ela sempre teve o cabelo curto e repicado, arrepiado com mechas azuis. Tudo que restava eram as mechas azuis. A lateral estava raspada.

– T-Thalia! — disse, realizado.

– Espera. — ela sorriu surpresa — Adam McCain!

– Você… Se lembra de mim? — ele se levantou.

– Sim. Sabe…quando me disseram que aquele pivete perdido do chalé de Hermes era o melhor manejador das sombras do chalé de Tânatos, mal pude acreditar.

– Na verdade, me tornei o melhor manejador das sombras de todo o acampamento. — disse casual, tentando esconder o orgulho

– Hum… Humilde você, hã? — ela riu, era raro vê-la sorrir. Adam estava feliz em vê-la de bom humor, pelo jeito a Caça fizera bem à ela — Filho de Tânatos, então? Hm, legal.

– É…

– Quer dizer que se tornou melhor até mesmo que Nico Di Angelo?

– Puxa, eu me lembro vagamente dele.

– Eu me lembro vagamente de você. Já treinamos esgrima juntos algumas vezes. — ela riu — Você sempre perdia, pirralho!

Ele corou. Era verdade.

– Uau, é incrível te ver assim, mais velho. — ele tinha 16, e ela parecia ter o mesmo, no máximo, embora tivesse 21.

Thalia tocou seu cabelo.

– Eu nunca achei que você se lembraria de mim.

– Eu me lembro! E você se tornou um lindo homem — ela piscou e lhe deu uma cotovelada, ele sorriu — Que Ártemis não me ouça.

Ele tornou-se sério.

– Então… O que faz aqui?

– Estou em missão.

– hum-hum… Sozinho? — ela desconfiava

– Não, meus amigos estão com Ártemis.

– O que você faz aqui, então?

Ele respirou fundo

– Ok, Thalia, é o seguinte: eu sempre fui apaixonado por você.

Ele pensou em segurar a mão dela para dar a notícia, mas lembrou-se de que ela era uma Caçadora, e mesmo que não fosse, provavelmente riria e acharia que ele estava brincando. E foi o que fez.

– Ok, Adam, você tem que fazer melhor pra eu cair nessa.

– Não, Thalia, é sério. Talvez você não se importe, e assim vai ser melhor, mas eu sempre, desde que te vi pela primeira vez, aos seis anos de idade, sempre fui apaixonado por você. Sofri por muito tempo pela sua morte, e sofri ainda mais quando você voltou a ser amiga dos… culpados. — seus olhos se encheram de lágrimas novamente — E eles te trouxeram até aqui. Eu te perdi duas vezes, Thalia, e eu me culpo por isso.

Ela tornou-se séria. Talvez continuasse achando que era uma brincadeira, talvez fosse pular nele e lhe dar uma chave de braço, ou talvez gostasse de saber. Mas foi diferente. Ela deu um passo à frente, pegou as mãos dele, olhou em seus olhos e disse:

– Adam, nenhum deles é culpado pela minha morte. Eu sou. Só eu. E não me arrependo do que fiz, mesmo que não pudesse voltar. E outra, você não é culpado de nada. Quer dizer… Certamente podia ter me dito dez anos atrás — ela sorriu -, mas você sempre foi seis anos mais novo que eu e eu sinto muito te dizer isso, mas acho que nunca teria aceitado.

Por um momento ele desanimou. Por outro, animou ainda mais, era melhor ter a resposta definitiva assim, do que ficar imaginando, criando expectativas e nunca saber a verdade. Finalmente teve sua resposta. Então abraçou Thalia. Ela deixou, mas não o abraçou. Ele não conseguia acreditar que ela tinha 21 anos por dentro. Após cinco segundos, se afastou.

– Desculpa, eu… Esqueci.

– Tudo bem, eu falo com ela. Agora vamos voltar pra lá.

Thalia o acompanhou até a clareira e se juntou às outras caçadoras.