Notas iniciais
Sendo bem sincero, gostei desse personagem. É um dos mais promissores. Boa leitura.

O salão estava em pé de guerra. Discussões estouravam por todos os lados.

— Mas como podemos ter perdido a espada? — Perguntava um dos comandantes da guarda.

— Eu devia ter ido! Fomos confiar nos desígnos de Viktor e acabamos prejudicados! — disse outro.

— O que vamos fazer agora?

— Me expliquem!

Viktor se encontrava sentado no trono, com raiva nos olhos.

— Calem-se! Calem-se! — Gritava Cryzaon, mas de nada adiantava. Igor nada fazia para ajudá-lo. Estava sentado em sua cadeira do Conselho, distraidamente limpando suas unhas com uma faca. A Dançarina, Kharine, estava quieta, mas adorava ouvir aquelas zombarias de Viktor. E adoraria que elas continuassem. Ramírez não tinha chegado ainda.

— Se acalmem! Se acalmem e explicarei a história. — Mas, quanto mais ele pedia, mais agitadas as pessoas ficavam.

Até que Viktor se cansou. — Calados! — Ele gritou, e sua voz pareceu ter efeito por sobre os comandantes e capitães. Todos se calaram. — Prossiga com a história, Lorde Cryzaon. — Havia fúria em sua voz. Havia amargura. Havia dúvida. E havia medo. Mas esse último ele escondia por sob todos os outros.

— Sim, Lorde. Continuando, eu e minha tripulação pegamos a espada em Ponte das Fadas. Mas, enquanto retornávamos para cá, fomos atacados. E afundaram dois navios nossos. Entre eles, o meu belo Urso do Mar. — Cryzaon parou.

— Sim, mas quem os atacou? — Perguntou um capitão.

— O Fúria Escarlate. — Ele disse. — Aqueles malditos Irmãos de Fumaça. Eles afundaram meu navio. Mas eles também perderam a espada. Enquanto nos atacavam, foram atacados pela frota de Morgan Aleny, o Duque dos Vampiros. Aproveitamos e fugimos.

— Mas que bela história. — Disse Ramírez, entrando na sala. — Perdoe-me, Lorde Cryzaon, se não chorar agora. Estou cansado demais. — O sarcasmo era evidente. Ele se sentou no seu trono.

— Lorde Ramírez, creio que esteja atrasado. — Viktor dirigiu-lhe, com censura na voz.

— Ah, sim, Lorde Viktor. Trato já de me explicar. — Ele disse, se espreguiçando na cadeira. — Bem, estive fora por bons motivos. Apesar de ter retornado depois de Cryzaon, creio que Vossa Senhoria já sabe o que trouxe comigo. — Ramírez era o único lorde que tratava Viktor com o respeito que ele merecia. — Entrem!

Ao comando dele, vinte homens entraram no salão. Arrastavam uma enorme estátua. Esta era feita de mármore devia ter mais de cinco metros.

— Diferente de Lorde Cryzaon...- Ele disse, olhando bem para o outro. -...eu cumpro minhas missões. Aqui está. A estátua pedida.

Todos olhavam, espantados. Era a estátua de um homem. Alto e forte, em armadura de ouro. Era esculpida de forma que poderia ser de verdade, caso não fosse de mármore.

— E que estátua é essa? — Perguntou Igor, levantando os olhos de suas unhas pela primeira vez desde aquela reunião.

— Ares. Deus da guerra grego. — Disse Ramírez. — Mas esse não é qualquer Ares. É a representação de "Ares Sanguinário".

— E qual é seu relatório? — Perguntou Kharine.

— Não preciso dizê-lo, Lady. Já o passei à Lorde Viktor.

Nesse momento o rosto de Kharine se passou à um misto de indignação e revolta.

Ela se ergueu da cadeira e se virou para Viktor. — Se me permite, preciso chamar aqui uma pessoa.

Viktor sabia o que ela faria e já estava pronto. — Pois que o faça.

Kharine se retirou do salão, deixando à todos curiosos. Até que, alguns momentos depois, reentrou. Mas já não estava sozinha. Estava acompanhada de uma mulher que contrastava com ela. Enquanto Kharine era loira e de pele branca como neve, a mulher ao seu lado tinha cabelos negros e pele morena como carvalho. Era tão bela como a Lady e possui algo de feroz nela.

— Senhoras e senhores deste conselho. — Disse a Dançarina Branca. — Eu, Kharine, trago à vós esta bela moça. — Disse, demonstrando a mulher ao seu lado. — Esta é Ranyra, a rainha das Amazonas.

Ranyra usava armadura de batalha, feita de couro. Usava muitas jóias e um enorme cinturão resplandecia em sua cintura.

— E o que essa mulher têm a ver com nossa reunião? — Perguntou um homem, expressando o sentimento de todos ali na sala.

— Ora. Ranyra e suas quinze guerreiras passarão à ficar em nosso castelo. Cederei cinco mil homens à elas para travarem suas batalhas e, em compensação, nos darão suas forças em momentoa de combate.

Sim. Esse era o golpe fatal dela. Isso não havia sido permitido por Viktor, mas caso ele dissesse isso, sua moral cairia ainda mais. Aguardou em silêncio.

— Ora, mas ela até que é bela. — Disse um homem, a observando como se fosse um pedaço de carne. — Não tanto quanto Kharine, mas é. — Ele ergueu a mão e tentou tocar na mulher, mas esta lhe puxou e o jogou no chão. Após isso, puxou seu braço para trás de sua cabeça e o girou, fazendo com que ele quebrasse. Todos ficaram calados.

— Eu sou uma guerreira. Não uma mulher de se deitar em camas. Ainda mais em camas de gente como você.

— Perdoe-me. Perdoe-me, senhora. Me largue.

A Dançarina colocou sua mão sobre o ombro da guerreira, e esta soltou o braço do homem, que caiu chorando de dor.

*****

A reunião prosseguiu por mais uma hora. Os capitães deram as informações à respeito de suas tropas. Ordens foram dadas. Homens foram julgados.

E logo caiu a noite. E Viktor decidiu se encontrar com a Dama que Arde. O que Eleni haveria de estar fazendo naquela biblioteca?

Andou pelos corredores apressadamente. Seus cabelos negros estavam embaraçados e não trocara de roupa. Iria fazê-lo quando chegasse em seu quarto. Passou pela primeira torre, apelidada de Rei das Alturas, pois era a torre do Rei e, ao mesmo tempo, a mais alta. Ao lado havia a torre dos lordes. Nela três lordes dormiam: Viktor, Kharine e Cryzaon. Ramírez preferia dormir em outra torre, mais ao sul. Já Igor, este dormia nas masmorras por opção própria. E a Dama que Arde preferia se isolar na Torre em Chamas, a torre mais à leste do castelo. Tinha esse nome pois, segundo lendas, os dragões haviam emprestado seu fogo para criá-la. Verdade ou não, durante todos os incêndios que já haviam atormentado o castelo, a única parte que não pegara fogo em nenhuma vez fora a Torre de Chamas.

Lá em cima, no último andar, estava a biblioteca.

Sua porta era de ébano, grande e pesada. Sua maçaneta era de ouro polido. Suas dobras eram de prata pintada com um leve dourado. Esculpido na porta estava ele, Drakon, o primeiro dos dragões. Era a cena da luta de Drakon contra Hullyr, O Justo. Mas Hullyr não era maior que o dedo mindinho de Viktor, enquanto o dragão cobria a porta.

Quando a porta foi aberta pelos homens, uma enorme biblioteca surgiu. Eram centenas e centenas de livros, dispostos em quatro andares internos da sala. Escadas levavam à esses andares, mas o meio da sala era oco, dando para ver os demais andares. E, bem no meio da sala, estava uma enorme mesa circular. E sentada à mesa estava ela. A bela mulher mexia em suas mechas com sua mão esquerda enquanto a direita corria o dedo indicador pelas palavras do livro que lia. Ela não o percebeu até que Viktor colocou suas mãos sobre seus ombros.

— Boa noite, Eleni. — Ele disse.

— Boa noite, Viktor. — Ela sorriu e se ergueu. Viktor deixou-se ser abraçado por ela. Até que abraçou também. Seu cabelo cheirava à jasmim. Ela, de súbito, se soltou dele, como se lembrasse de algo, e corou. — Perdoe-me. Não queria fazer isso.

Viktor riu. Uma doce risada para Eleni. — Não há problema, Dama. — Viktor era sempre tão duro que às vezes a amiga se esquecia que ele ainda tinha coração mole por dentro daquela armadura de pedra que ele tentava manter.

— Você...você queria ver o que faço aqui há tantos dias. — Ela disse, secamente, rapidamente mudando o assunto. — Olhe. — Ela apontou para um caderno que estava ao lado de uma pilha de livros. Ele estava escrito com uma bela letra florida, obviamente obra da Dama que Arde.

— Hum..vejamos. — Ele pegou e o leu. Havia muita coisa anotada. Coisas antigas. Coisas de lendas e mitos. Mas que Viktor sabia que eram verdadeiras. — Sobre o que exatamente é esse caderno? — Ele perguntou, folheando o caderno.

Ela riu. — Opções. Você tem uma missão à cumprir. E eu, como Lady e conselheira particular do líder do clã, devo dar-te opções. Caso falhemos, temos tudo isso aí.

Ele continuou folheando e lendo. Gnomos, rituais, demônios, raptores, goblins, gigantes, ogros, até que seus olhos se fixaram em uma "opção": Elfos Negros.

— Risque esse. — Ele disse. — Essa opção não existe e nem deve existir.

— Hum...pensei em deixá-lo em último plano. Se todos falharem, talvez. — Mas ele negava com a cabeça.

— Essa opção é errada demais. É arriscada demais.

— Somos magos. Quer o quê? Solução pacífica?

— Não! — Ele insistiu. — Isso foge até ao nosso conceito. Amanhã mandarei Cryzaon. Ele levará um dia para chegar lá. Não mais. Se quiser, acione uma de suas "opções". Mas garanto que não vamos precisar.

Ela riu. Se aproximou dele e sentou ao seu lado. — Não sei se quer saber, mas A Dançarina. Ela quer tomar seu lugar...

— Não me diga. Nem reparei. — Ele respondeu, com ironia.

— Deixe-me terminar. Ela já começou o processo. Não confie em Ramírez. Não confie em Cryzaon. Não confie em Igor. Não confie em nenhum capitão e nem em nenhum soldado.

— Como saberei se posso confiar em você? — Ele deixou a pergunta pairar no ar.

— Não confie. — Ela disse, finalmente. — De todos, eu sou quem você deve menos confiar. — E se aproximou ainda mais dele. Até que roubou-lhe um beijo. Rápido e simples. E nesse momento, Viktor odiou e a amou. Ela se ergueu apressadamente. — Boa noite. Irei me retirar para meus aposentos, Lorde Viktor. Com sua licença. — E fez uma reverência, o deixando ali, parado, atônito, sem nenhuma reação à não ser pensar naquela mulher