Notas iniciais
Boa leitura.

O Salão de refeições principal era grande e alto. Comportava um exército inteiro, caso fosse nescessário. Mas o Salão privado do rei era menor. Comportava apenas duzentas pessoas. A mesa principal era de ébano, com um lobo e um morcego esculpidos em seu centro. Nela se sentavam os mais nobres: O rei no centro e os duques ao seu lado. No entanto, esses ascentos estavam vazios. Também havia lugar para o general da guarda, Esford, junto de seus capitães, entre eles Glyce Raizor. Também estava lá o chefe dos arcos, Aron Deepwood, quem cuidava do tesouro real. O mestre das masmorras também estava lá.

Nas mesas mais afastadas, ricos comerciantes e pessoas da aristocracia se sentavam, conversando.

— Elysa, senhora, sente-se aqui. — Disse Aron Deepwood. — Será um prazer que se sente aqui.

Elysa aceitou e se sentou ao lado do homem.

— Sabe dizer por quê Hugo decidiu fazer esta reunião?

— Não senhora. Ele não me conta, sou só um tesoureiro. — Havia tristeza nos olhos velhos dele. — Ele quer me substituir também. Diz que já estou velho.

— Perdoem a minha intromissão... — Disse o mestre das masmorras. — Mas eu soube que a senhora Rhalya vem para cá...

— Rhalya? A irmã de Hugo? — Elysa estava perdida. — Por quê?

— Para que o pai tome conta de Hugo, talvez. — Respondeu o tesoureiro. — Dizem que Rhalya é os olhos e ouvidos de Morgan Aleny. Senhora Comandante-Mor da guarda dos lobos. Segundo o que se fala, ela é ainda mais cruel que o pai...

— O que o senhor seu pai tinha na cabeça para nomear Aleny como Duque dos Lobos?

— Acredite, Senhor, também busco essa resposta.

Silêncio recaiu sobre o salão quando as portas se abriram. Quem entrou foi o assumido rei: Hugo "Vlad VIII" Aleny, o rei que tomou o trono, como ficara conhecido pelos burgueses.

— Perdoem-me pela demora, mas tive de ir recepcionar adequadamente e pessoalmente a minha irmã. — Ele parou a meio caminho da mesa principal. — Por favor, entre, irmã.

Primeiro, uma guarda especial entrou. Usavam os símbolos reais e do Duque dos Lobos: a lua sangrenta e a garra do lobo.

Depois, quem entrou foi uma mulher de seus vinte e tantos anos, não muito mais velha que Hugo. Seu rosto era duro, mas belo, e seu corpo esguio passava a sensação de ela estar pronta para qualquer coisa. Usava grossas roupas de couro e mais parecia uma soldado do que a irmã de um rei. No entanto, conforme andava, os soldados a observavam, virando sua cabeça. O único homem que não a observava era Aron.

— Não a vê como os outros. Por quê? — Perguntou Elysa.

— Minha cara, estou velho demais para isso. — Ele sorriu. — Além disso, não podemos esquecer nossos inimigos. Nunca.

Quando a mulher chegou à mesa principal, deu uma rápida olhada para Elysa e se voltou para frente, olhando à todos.

— Sou Rhalya Visy Aleny Rancar. Filha de Morgan Aleny Rancar, o Duque dos Lobos. Sou Comandante-Mor da frota de Aleny. Sou Comandante-Mor da vigésima divisão de Aleny. Sou uma Lycan por natureza, irmã de Hugo. Vim para cá pois meu irmão assumiu, erroneamente, o trono. Meu pai não o deixaria no comando por muito tempo, ou ele acabaria por destruir o império lycano-vampiro.

Hugo, de repente, enrusbesceu. Era óbvio que ele estava furioso. — Irmã, pode repetir essa parte de novo. Não entendi muito bem...

— Pois é claro. — A outra o cortou. — Eu te explico, irmão, afinal, inteligência nunca foi teu forte. Eu, Rhalya, fui enviada por nosso pai para assumir, como rainha regente, o trono dos imortais...

— Pois eu digo que não assumirá! Eu sou o imperador.... — Os dois guardas mais próximos sacaram as espadas e as colocaram no pescoço de Hugo, que se calou.

— Hugo, você não está em condições de exigir nada. Sente-se aqui e almoce. É o melhor que faz. — Ela se virou para as empregadas. — Tragam o almoço. Meus homens têm fome. A viagem foi longa. — E depois para um dos que colocava a espada no pescoço de Hugo. — Capitão, meu irmão irá se comportar, garanto. Sente-se com os demais capitãos. Me retirarei aos aposentos reais. — Olhou uma última vez para Elysa. — Quando acabar, garota, vá ao quarto do rei. Quero falar contigo.... — E se retirou, sem esperar resposta.

*****

Elysa bateu na porta dos aposentos reais levemente. Usava os melhores vestidos que possuía. Escolhera-os por terem cor parecida com os que a mulher usava: a cor de couro.

O castelo estava meio desorganizado. Em meio às ordens de Rhalya, Hugo tentava exercer algum controle sobre os homens, mas acabava frustrado.

A porta se abriu e Elysa deu de cara com a mesma mulher de mais cedo. Bem, talvez fosse, mas não parecia a mesma. Seu semblante estava menos rígido, e já não andava ereta como antes. Talvez andasse meio curva. Seus cabelos não estava alinhados, mas sim presos por uma fita de pano. Usava roupas mais finas, um belo vestido verde-água, com anéis e pulseiras de ouro. E lá se ia a tentativa de Elysa de usar roupas de mesma cor.

— Entre, por favor. — Disse a mulher num tom não desprovido de cortesia.

O quarto do rei... Fora o quarto de seu pai um dia. Fora de Hugo e agora era de Rhalya.

Era grande e cheio de móveis. Uma imensa cama pairava bem no meio do quarto e foi lá que Rhalya se sentou.

— Sente-se, querida. — Ela disse. Elysa sentou-se.

— A senhora disse que queria me ver...

— Exato. Creio que me apresentei de forma...bruta, mais cedo. — Ela suspirou. — Sou uma comandante e preciso parecer assim ante meus soldados. Mas acredite, não sou assim o tempo todo. Enfim. Sou Rhalya, filha de Morgan Aleny. Aliás, creio que você deva nutrir um profundo ódio por Hugo e meu pai.

Elysa estranhou o comentário, mas nada respondeu.

— Meu pai me mandou para cá para que Hugo não fizesse nada estúpido, como se isso não fosse da natureza dele. Saiba, menina, que gosto tanto de meu irmão quanto você.

— Não senhora, ele me tomou muita coisa....

— Meu irmão tem esse dom. Ele destrói a vida dos outros em busca de dar sentido à própria vida. Ele é só mais um egocêntrico.

Elysa esperou.

— Aceita vinho, Elysa?

— Não bebo.

A mulher se levantou e andou até uma outra sala que acoplava com o quarto. Depois, retornou com uma garrafa de vinho.

— Hum...1789. Foi um bom ano. Éramos governados por Golbrard, um lobisomem. Era melhor nessa época...

— Fala como se tivesse vivido essa época.

— Mas vivi. — Ela despejou o vinho em uma taça e logo se sentou de novo na cama. — Vivo desde a época de Lirianne, a rainha louca. Outro bom ano, 1698. Nasceu "o pacífico", em Abril, e a guerra civil inglesa acontecia. Tinha quinze anos. Depois, a louca caiu e os reis lycanos acabaram, e quem assumiu foi Reylan, o primeiro dos lobisomens a ser rei. Logo, seriam oito em ordem. Por fim, um vampiro assumiria o trono e os duques surgiriam: um lobo e um lycano para governar as terras junto do imperador. E, hoje, quase trezentos e vinte anos depois, meu pai seria um duque, meu irmão um imperador e eu uma rainha regente. — Um suspiro. Um gole na taça. — Perode-me. Por vezes divago na minha mente. Mas, querida, te chamei aqui para conversar.

Ela pegou uma pequena caixa de madeira e tirou de lá um punhal. Era de ouro, com lâmina de aço.

— Este punhal é um punhal....grego. Aço grego. — Elysa se surpreendeu. A outra apenas confirmou com um aceno de cabeça.

— Este punhal foi criado para matar meu irmão. Hugo é um vampiro puro-sangue, lâminas normais não o afetam, você sabe. O punhal grego destrói a alma dos seres vivos, e isso é o que o faz mortal aos puro- sangues. Preciso que você o crave no peito de Hugo. Sabe que sua faca não funcionaria.

Elysa gelou. — Como sabe da faca?

— Se sentou de modo desconfortável demais, como se algo a espetasse na barriga. — A mulher riu, os cabelos negros caiam sobre seu rosto. — Devo te contar que menti mais cedo. Não vim à mando de meu pai. Aliás, nem falei com ele nas últimas semanas. Vim à mando de Lorde Glorian, o Duque das Feras.

— Glorian? — Elysa tentou, mas não se recordava do rosto do Duque. Era pequena quando este viera ao palácio. — Ele não era amigo de meu pai?

— Sim. Glorian tinha uma relação bem próxima com Rickard Vlad. No entanto, querida, preciso lhe dizer uma verdade. Hugo crê que seja bom manter você na esperança de ver seu pai. Mas, na verdade, seu pai está... — Ela suspirou. — Morto. Foi morto ontem à noite por Hugo.

Secretente, Elysa sabia disso, mas uma lágrima escorreu de seus olhos.

— O que eu devo fazer? Me diga, Rhalya, por favor. Estou perdida. Não sei por que isto tudo aconteceu. Eu...eu não sei o que fazer.

— Calma, menina, calma. — Disse a mulher, acolhendo a menina em um abraço. — Glorian me pediu para te levar até ele, e farei isso. Mas, antes, é nescessário que Hugo morra. Ele jamais te deixará ir embora. Não sem lutar. Faça isso por mim, e eu te ajudo a fugir.

Rhalya mostrou o punhal à Elysa, esta que, com trêmulas mãos, o pegou e o analisou.

— Tem algo inscrito aqui. Mas, está em grego.

— Sim. "Viva o vinho e o sangue." Sem vinho não lutaríamos, e sem luta não comemoraríamos com o vinho. — Ela disse. — Significa que tudo que vai, ora ou outra volta. E já passou da hora das ações de Hugo voltarem contra ele. — Disse a mulher, rindo, com um olhar assassino.