O Filho do Diabo e a Santa
1 O Primeiro Pecado

C A P Í T U L O I:
O Primeiro Pecado
Dizem que todo pecado começa pequeno, quase inocente, como um olhar que dura um segundo a mais do que deveria.A arena estava tomada pela poeira dourada do fim de tarde. O sol, ainda quente e ardente na pele, refletia nos chapéus de palha e nas fivelas reluzentes, enquanto a lua, tímida, começava a desenhar-se no céu alaranjado. O cheiro de terra batida misturava-se com couro curtido, suor de animal e cerveja derramada.
A arquibancada improvisada de madeira rangia sob o peso da multidão. Crianças se equilibravam nas cercas, penduradas como passarinhos curiosos; mulheres abanavam os rostos com leques improvisados e homens gritavam apostas, batendo as botas no chão. No curral, o touro preto bufava — enorme, musculoso, com os flancos tremendo.
Ao lado da porteira, estava Gaara no Sabaku. De presença silenciosa e pele muito clara, seus olhos verdes eram intensos, quase felinos. Vestia colete marrom sobre a camisa bege, com a postura firme de quem segura a responsabilidade quando o melhor amigo resolve correr atrás do mundo.
— Ocê se segura, peão — disse ele, observando Naruto ajeitar a fivela e calçar as luvas. — Esse daí é tinhoso.
— Mais tinhoso do que eu? — respondeu Naruto com um sorriso debochado, exibindo os dentes brancos e alinhados.
Naruto Uzumaki era a imagem da liberdade. Loiro, de pele bronzeada e traços firmes, possuía cicatrizes nos braços que narravam quedas antigas e dias duros no campo. Seus olhos azuis, vivos e atentos, buscavam sempre o risco. Vestia uma camisa branca colada ao corpo pelo calor e jeans surrados.
— Mais tinhoso que ocê tá pra nascer. Não vamo facilitar — insistiu Gaara.
O narrador anunciou no alto-falante:
— E agora… o filho do demo!
A plateia explodiu.
— Sossega, peão. Se eu cair, levo o couro dele comigo. — Naruto piscou para o amigo.
A porteira abriu e o touro disparou como um trovão. O corpo do rapaz movia-se em perfeita sincronia com cada investida bruta do animal. Os olhos de Gaara alternavam entre o cronômetro e o amigo. Foram os oito segundos mais longos da tarde. Quando o tempo estourou e Naruto ainda estava montado, a arena rugiu.
— VENCEU O FILHO DO DIABO!
Gaara entrou na arena com um sorriso discreto:
— Ocê pode não ser o filho do demo… mas que tem parte com ele, ah, isso tem.
Naruto riu alto, a alma lavada.
No dia seguinte, o sol nasceu impiedoso. A terra vermelha subia em nuvens a cada trote dos cavalos, agitados pelo vento seco de Konoha. A boiada avançava como uma massa viva, mugindo como um trovão distante. Naruto montava à frente, olhar atento sob a aba do chapéu.
— Ô peão, ocê não sente falta de Kumogakure? Dos prédio, da capitá? — perguntou Shikamaru Nara, com seu eterno olhar preguiçoso e o cabelo preso num rabo baixo.
— Saudade eu tinha era disso aqui — respondeu Naruto, passando a mão pelos cabelos suados enquanto admirava os campos abertos.
— Difícil largar um trem bom desse — concordou Chouji, robusto e leal, montado logo atrás. — Mas tua mãe não deve tá nada feliz, ocê tocando boiada por essas estrada com tanto pasto pra cuidar lá na fazenda.
Naruto ajeitou as rédeas, firme:
— Eu nasci com o pé na estrada e vou morrer com o pé na estrada, peão. Domando boi brabo e burro chucro. Essa é a vida que eu escolhi.
— Ele precisa é de um rabo de saia pra botar cabresto nele — brincou Gaara, provocando risos no grupo.
— Até parece! — Naruto rebateu, rindo. — Eu sou o filho do diabo, não preciso de cabresto não.
[...]
A Fazenda Uzumaki era a maior propriedade rural de Konoha, estendendo-se por mais de quarenta alqueires. Ali, a agricultura e a pecuária caminhavam juntas: milharais extensos e arrozais organizados dividiam espaço com pastagens vastas, onde o gado se espalhava como manchas vivas na paisagem.
No centro da propriedade, erguia-se a casa grande de madeira clara, com uma varanda larga que contornava toda a fachada. As janelas altas viviam abertas para deixar o vento circular, enquanto mangueiras antigas projetavam sombras generosas sobre o terreiro. Ao fundo, viam-se os estábulos, currais sólidos e galpões de ferramentas. Era uma fazenda de prosperidade construída com suor, sem luxos exagerados, mas com a fartura de quem conhece a terra.
Hiruzen Sarutobi, o padre da vila, caminhava pelo terreiro com as mãos cruzadas nas costas. Homem de barba grisalha e olhar sereno, usava uma batina simples e chapéu para se proteger do sol.
— Por onde anda vosso filho, dona Kushina? — perguntou ele, ao avistar a proprietária.
Kushina Uzumaki, aos seus quase cinquenta anos, mantinha uma beleza vibrante. Os longos cabelos ruivos estavam presos por um lenço verde-musgo, e as sardas delicadas nas bochechas ganhavam destaque sob o sol. Vestia um vestido de algodão grosso, prático para o dia a dia na fazenda.
— Não viu e nem vai ver, padre. Aquele ali não tem parada — respondeu ela, com a voz firme, mas deixando escapar um leve sorriso de orgulho.
— Como não tem parada?
— Diacho do moleque resolveu ser que nem o pai. Montou uma comitiva pra buscar uma boiada num sei onde... Chegou num dia e ganhou o trecho no outro — explicou.
— Pensei que, depois de formado, ele ajudaria a senhora por aqui.
— Era a ideia. Mas o moleque é mais arredio que potro chucro, padre. Num aceita cabresto de jeito nenhum.
O padre suspirou, olhando para o horizonte.
— Faz jus à fama…
Kushina estreitou os olhos, cruzando os braços.
— Que fama, padre?
Hiruzen pigarreou, ajeitando o chapéu para disfarçar.
— De ser... muito bom na montaria, dona Kushina. Apenas isso.
[...]
A Fazenda dos Hyuuga era mais austera. De longe, viam-se as cercas de madeira envelhecida rangendo à menor pressão do vento seco. A madeira, esbranquiçada pelo sol constante e rachada em vários pontos, parecia sustentar-se mais por costume do que por força.
Os terreiros eram cobertos por uma poeira vermelha, fina como farinha, que se erguia em pequenos redemoinhos a cada passo. Na varanda, o cenário mudava: o chão era varrido com um capricho quase obsessivo e exalava o cheiro de madeira quente misturado a sabão rústico. Por dentro, imagens religiosas vigiavam todos os cantos: santos em molduras antigas e terços pendurados até nas maçanetas.
Hiashi Hyuuga era uma figura rígida. De altura mediana, aos cinquenta e seis anos a seriedade constante e as linhas marcadas no rosto faziam-no aparentar mais idade. Seus olhos perolados estavam em constante vigilância, e as sobrancelhas arqueadas davam a impressão de que avaliava o mundo como quem mede pecados invisíveis. Vestia uma camisa branca impecavelmente passada e calça social preta, sempre com a Bíblia à mão.
— Padre Hiruzen passou agorinha na estrada, a caminho da fazenda do fio do demo — anunciou Hiashi. — Diz que quando esse menino chegou, fez uma barulheira danada com berrante e sumiu no pasto sem deixar rastro. Vai ver foi encontrar o pai dele, o Demônio.
— Ara, tio! Larga de falar bobagem. O moço voltou da capitá formado doutor veterinário — rebateu Neji Hyuuga.
Neji, seu sobrinho de trinta anos, era formado em agronomia pela Universidade Federal de Suna. Possuía traços harmoniosos e olhos perolados mais tranquilos que os do tio. Esguio, vestia jeans de lavagem escura e camisa polo preta, movendo-se com uma firmeza sem rigidez. Ele era o apoio daquela casa; conhecia a prima melhor do que ninguém — não a “Santa” que o povo via, mas a mulher de carne e coração.
— Isso não quer dizer nada. Continua sendo filho do tinhoso do mesmo jeito — resmungou Hiashi.
— O senhor vai ser condenado no inferno por causa dessa sua língua.
— Deus me livre! Eu só tô repetindo o que o povo fala, oxi. A minha fia é Santa. Nasceu santa. Se ela deixou de fazer milagre, algum pecado eu cometi.
Neji suspirou, passando a mão no rosto.
— Ai… tava demorando.
— A culpa é sua! Ocê não acredita na santidade da sua prima. É pior que São Tomé… antes dele virar santo! — sentenciou o velho, saindo com passos duros que ecoavam no piso de madeira.
Neji murmurou:
— Prima, seu pai tá ficando cada dia mais maluco.
Hinata Hyuuga, uma moça de vinte e quatro anos, estava sentada perto da janela. Seus cabelos lisos e negros, com reflexos azulados sob a luz, caíam pesados pelas costas. Tinha o rosto redondo e delicado, de traços suaves, e olhos perolados quase translúcidos que mantinham um brilho profundo. Estava contida, com as mãos próximas ao peito, como se segurasse algo invisível dentro de si.
— Deixa ele, primo.
— Diacho! Não quero te ver trancada num convento.
— Se esse for meu caminho?
O vento levantava partículas de pó dourado que brilhavam ao redor dela como faíscas. De longe, parecia algo sobrenatural; de perto, era apenas uma jovem mulher tentando entender por que o mundo a olhava como um milagre.
— Santinha! Santinha! — a voz de Dona Masuda rompeu o silêncio. A mulher surgiu aos prantos, lágrimas escorrendo pelo rosto queimado de sol. — Meu menino tá morrendo! Só a senhora pode salvá ele!
— Me desculpa… mas eu não posso fazer nada — Hinata sentiu o aperto desesperado nos dedos.
— Por favor, vá lá ver ele!
Hiashi apareceu na varanda:
— A Santinha vai até lá rezar por ele, Masuda. Se for da vontade de Deus, ela há de salvar sua criança.
Quando a mulher saiu, a serenidade de Hinata quebrou.
— Ô pai! O senhor ficou louco?! Eu não posso salvar ninguém!
— Você não pode perder sua fé, minha fia.
— Pai, eu não sou santa!
— Ocê é sim. Num sei o que aquelas freira falaram pra ocê perder tanto sua fé.
— Fé é diferente de santidade, pai! O senhor precisa entender isso!
Hiashi ergueu o queixo, inflexível:
— Ocê trata de pegar sua bíblia, o terço e o véu. Nós vamo lá rezar. E não discute comigo, Hinata!
Ela fechou os olhos por um segundo. Depois, foi.
[...]
A cozinha da Fazenda Uzumaki era o verdadeiro coração da casa. Grande e arejada, tinha paredes caiadas de branco já levemente amareladas pelo tempo. O fogão a lenha estalava baixo, espalhando um cheiro reconfortante de brasa e tempero fresco. Sobre a mesa de madeira maciça, marcada por anos de uso, repousavam panelas de ferro e uma garrafa de café recém-passado que perfumava o ar.
Do lado de fora, o vento levantava a poeira vermelha do terreiro, e o ranger distante das cercas misturava-se ao canto de um galo atrasado. Sentados à mesa estavam Padre Hiruzen, Kushina, Ino e Shizune.
A senhora Uzumaki servia o arroz com uma concha firme, num movimento automático de quem alimentou muita gente a vida inteira. Seus cabelos ruivos estavam presos num coque alto, com alguns fios escapando pela testa suada. Havia força nos seus braços e um cansaço antigo, quase invisível, nos olhos azuis profundos.
Ao lado dela, a jovem Ino Yamanaka exibia a vivacidade de quem aprendeu cedo que a vida não espera por ninguém. Com os cabelos loiros num rabo de cavalo alto e um olhar inquieto, ela era o braço direito de Kushina. Ino crescera ali após perder o pai na mesma tragédia que levara Minato; chamava Kushina de madrinha por respeito, mas no fundo, sabia que ali estava sua mãe.
Do outro lado, Shizune, irmã mais nova de Minato, mantinha seu jeito sereno. De cabelos castanhos presos num coque baixo e vestido simples, ela era a calmaria daquela cozinha, sempre organizando algo com as mãos — fosse um guardanapo ou os próprios pensamentos.
— Ô padre, é verdade que meu vizinho tem uma filha santa? — perguntou Kushina, quebrando o silêncio. — A moça fez mermo um milagre como o povo diz?
Hiruzen ergueu as sobrancelhas por cima da xícara de café, mas antes que falasse, a Yamanaka o cortou:
— Só se for santa do pau oco!
— Ino! — Shizune repreendeu-a com carinho. — Quem disse que a menina não faz milagre?
— Ocê já viu algum? — a loira retrucou, apoiando os cotovelos na mesa.
Kushina bateu levemente a concha na panela, impondo ordem:
— Ceis duas querem parar com a conversa fiada e deixar o padre falar?
— Desculpa, madrinha — murmurou a jovem, com respeito verdadeiro.
Padre Hiruzen limpou a garganta.
— Bem… a moça carrega esse fardo há anos. Que Deus me perdoe, mas foi um castigo que seu Hiashi impingiu a ela.
— Impi… o quê? — Shizune franziu a testa.
— Impingiu, Shizune. O padre deu de falar difícil! — riu a Uzumaki.
— Impingir é como enfiar goela abaixo — explicou Hiruzen, paciente, arrancando risos de todos.
O padre retomou o tom sério:
— A verdade é que a família nunca mais teve sossego. Hiashi carregava a menina pra todo lado, sempre de véu. Começou quando ela tinha cinco anos; um homem com febre melhorou depois que ela rezou. Depois, foi uma vaca que sarou, uma plantação que resistiu à seca… Pequenas coincidências que o povo tomou por milagre.
— O povo gosta de acreditar no que dá esperança — murmurou Shizune.
— Pois é. Chamaram a coitada de "Santa de Konoha" no jornal. Cresceu vigiada, sem brincar, obrigada a rezar em latim — continuou o padre.
— Latim? — Ino fez uma careta. — Eu mal dou conta do português!
Kushina reprimiu um sorriso, mas Hiruzen concluiu com um olhar penetrante:
— Ela é tão santa quanto seu filho é do diabo, dona Kushina.
Um silêncio breve caiu sobre a mesa. Kushina soltou uma risada nasal.
— Padre…
— Dona Kushina — o padre sorriu malicioso —, pode me contar a história da sua raposa demoníaca?
— Ah, conta! Eu gosto dessa parte! — Ino inclinou-se, curiosa.
Kushina apoiou os cotovelos na mesa, e o sorriso desapareceu aos poucos de seu rosto.
— O senhor vai desculpar, padre… mas vou deixar esse causo pra outro dia.
— Tá certo. Também já está na minha hora — Hiruzen levantou-se com simplicidade. — Agradeço a hospitalidade. Dê um abraço no seu menino.
O vento bateu mais forte na janela. Naquela cozinha quente, parecia que todos carregavam fantasmas demais para uma única tarde. A fumaça do fogão subia lenta, como a memória do dia 10 de outubro, quando Minato Uzumaki morreu e Naruto nasceu sob uma tempestade de areia.
Diziam que Minato e Inoichi tinham pactos. Diziam que Kushina só sobreviveu ao parto porque negociou com a Kurama, a raposa de nove caudas, oferecendo o próprio filho em troca da vida. Kushina nunca confirmou, mas também nunca negou.
[...]
O sol ainda castigava o chão vermelho. A poeira subia a cada passo, grudando na barra do vestido claro de Hinata, que caminhava alguns metros atrás do pai. Ela segurava a Bíblia contra o peito como se carregasse um fardo de chumbo, com o véu cobrindo parcialmente os cabelos escuros.
Nas portas das casas, o povo cochichava. Alguns faziam o sinal da cruz; outros murmuravam com reverência: "Lá vai a Santinha...".
— Ocê levanta a cabeça e responda as pessoa, Santinha — ordenou Hiashi, sem olhar para trás.
— Para de me chamar assim, pai — a voz dela era um súplica cansada.
— Já falei: ocê é Santa! Nasceu santa e isso num vai mudar. Esse povo acredita no poder que Deus lhe deu.
— Crendice, pai! Crendice que o senhor alimenta!
— Ocê acreditava na sua santidade até estudar naquele bendito colégio na capitá — rebateu ele, ríspido.
Hinata parou por um segundo, os olhos perolados brilhando de indignação.
— Eu sou tão santa quanto esse tal de Naruto Uzumaki é filho do diabo!
Hiashi parou bruscamente e fez o sinal da cruz.
— Deus que me livre e guarde! Ocê num me faça comparação abominável como essa nem de brincadeira!
— Faço! Porque tanto a minha história quanto a dele é invenção desse povo que num entende nada de ciência!
— A mãe dele cria uma raposa demoníaca dentro de uma garrafa, Hinata! Diz que ela só num morreu no parto porque fez pacto com o demo e deu o filho como oferenda. O marido morreu porque o demo veio cobrar a dívida!
Hinata respirou fundo, sentindo um nó na garganta
. — O senhor não devia espalhar essas coisas. É pecado, sabia?
Hiashi não respondeu; a casa de Masuda já estava à vista. A mulher correu para fora com a criança nos braços. O menino estava vermelho, suado e mole demais.
— Salva meu fio, minha Santa! — suplicou, entregando o pequeno a Hinata.
As mãos de Hinata tremiam. A pele da criança queimava sob seus dedos e o hálito era quente e seco. Os olhos castanhos, fundos demais, piscavam com dificuldade enquanto manchas rosadas espalhavam-se pelo peito miúdo. Hinata sabia: aquilo era médico e remédio que faltavam. Mas todos ali esperavam o milagre.
Ela fechou os olhos e começou a rezar em latim. A voz falhava. Lágrimas involuntárias escorriam pelo rosto, molhando o véu. O menino tentou puxar o ar, e seus dedos pequenos fecharam-se no vestido rosa-claro de renda de Hinata. Apertaram com uma força surpreendente, um último pedido de socorro.
Depois... relaxaram.
Hinata abriu os olhos devagar. Sentiu a vida esvair-se entre seus braços. O quarto tornou-se distante, as vozes, ecos. Dona Masuda explodiu em prantos. Hiashi começou a rezar mais alto, tentando preencher o silêncio da morte, mas Hinata permanecia imóvel, segurando o corpo agora leve demais. Pela primeira vez, não havia fé suficiente no mundo para sustentá-la.
— Espera, fia! — gritou Hiashi quando ela saiu em disparada.
— Me deixa, pai!
Hinata correu pelo terreiro, a poeira levantando atrás de si. Subiu a varanda da fazenda tropeçando nos próprios pés. Neji, que estava sentado na cadeira de descanso, levantou-se num salto ao ver o rosto inchado da prima e o vestido amarrotado. Logo atrás, Hiashi subia as escadas com uma calma aterradora.
— O que aconteceu? — perguntou Neji, a voz carregada de preocupação.
— O filho da dona Masuda — respondeu Hiashi, frio. — A criança morreu nos braços da nossa Santinha.
Hinata sentiu um asco profundo. "Nossa Santinha".
Ela entrou no quarto e bateu a porta. Diante da imagem de Nossa Senhora na penteadeira, caiu de joelhos.
— A Senhora não devia ter feito isso comigo... Maldita hora! — A voz saiu quebrada.
Num acesso de fúria e dor, ela agarrou a Bíblia e a arremessou contra o chão. O baque seco ecoou pelas paredes. Jogou o terço pela janela e derrubou um vaso, que se estraçalhou.
— EU PEDI! EU REZEI! EU FIZ TUDO CERTO!
Ela ergueu a imagem da santa, pronta para lançá-la contra a parede, quando a porta abriu-se abruptamente.
— Ocê perdeu o juízo?! — Hiashi avançou, arrancando a imagem das mãos dela com um zelo fanático.
— Sai daqui, pai!
— Ocê se acalma! Ninguém pode mudar a vontade de Deus! Nem memo uma santa como ocê!
— EU JÁ FALEI UM MILHÃO DE VEZES! EU NÃO SOU SANTA! — o grito dela estremeceu a casa.
Neji apareceu na porta, o rosto sombrio.
— Tio... é melhor o senhor sair. Ela precisa se acalmar.
Hiashi respirou fundo, indignado, mas saiu.
Neji fechou a porta e ajoelhou-se ao lado da prima, abraçando-a com força enquanto ela desabava.
— Ele morreu nos meus braços, Neji... nos meus braços...
[...]
— Shizune! É o Naruto! — gritou Ino da cozinha, largando a cadeira e correndo em direção à entrada da fazenda.
A poeira do terreiro ainda subia quando dois cavalos estancaram diante da casa grande. Ino não esperou: pulou nos braços de Naruto como fazia desde menina.
— Que saudade do ocê, maninha! — Naruto riu, girando a loira no ar antes de beijar-lhe a testa.
O riso dela era solto, alto e vivo. O cabelo loiro escapou do rabo de cavalo e caiu pelas costas como ouro espalhado sob o sol. Foi nesse instante que Gaara a viu. Ele ainda estava montado, mas ficou imóvel. O mundo pareceu diminuir ao redor; a poeira suspensa brilhava em torno daquela moça como se ela fosse o próprio centro do dia. Gaara desceu do cavalo... mas demorou meio segundo a mais do que o normal. Os dedos apertaram a sela com força antes de soltar.
Naruto, percebendo o silêncio do amigo, sorriu de canto:
— Deixa eu te apresentar, Gaara! Essa aqui é minha irmãzinha, a Ino.
Quando Ino virou o rosto para ele, foi como se alguém tivesse puxado o ar do peito do ruivo. Os olhos verdes de Gaara, normalmente firmes e frios, perderam o foco por um instante. Percorreram o rosto dela rápido demais para parecer descarado, mas lento demais para ser indiferente. Ele simplesmente esqueceu de falar.
— Ei, homem, acorda! — Naruto riu, dando um tapa no ombro do amigo. — Eu tô te apresentando minha irmã, ocê não vai falar nada?
Gaara piscou, voltando de algum lugar distante.
— Eu ouvi, diacho — a voz saiu um pouco mais grave que o habitual. Ele limpou discretamente a palma da mão na calça antes de estendê-la. — Gaara no Sabaku.
Ino segurou a mão dele com firmeza. No toque, Gaara sentiu o calor da pele dela e segurou um segundo a mais do que o necessário. Soltou devagar, quase a contragosto.
— Ino Yamanaka. Prazer — disse ela, inclinando a cabeça e avaliando o ruivo com curiosidade.
Kushina surgiu na porta, interrompendo o momento:
— Inté que enfim ocê vortou, meu fio!
Naruto atravessou o terreiro e a abraçou com força.
— Ô, minha mãezinha... eu trouxe uns boizinhos pra engordar no seu pasto.
A Uzumaki segurou o rosto do filho entre as mãos, olhando-o como se contasse cada traço, sempre com aquele medo silencioso de perder mais um pedaço de sua vida. Após as apresentações e os abraços de Shizune, o grupo se reuniu na cozinha. Naruto, já puxando uma cadeira e sentindo o cheiro da comida, mudou o tom:
— Mãezinha, a tia tava me contando que morreu um menininho no vizinho. Ele morreu de quê?
— Sarampo. Parece que deu uma complicação no coração — respondeu Kushina, servindo o prato do filho.
O loiro franziu a testa, indignado.
— Ué, não deram vacina pra ele?
— Até parece, meu fio. Esse povo num acredita nessas coisa não.
— Mas com tanta campanha do governo, isso é um desleixo — insistiu Naruto. — A senhora e a tia tratem de checar as carteira de vacinação da colônia aqui. Num quero ver essa criançada amanhecendo doente.
Ino, com sua língua ferina, não se conteve:
— Se tivessem chamado um médico em vez da "Santinha"...
— Que Santinha? — Naruto ergueu o olhar.
— A fia do nosso vizinho. O padre mesmo falou hoje que nem ele acredita nisso. Aliás... dizem que ela é tão santa quanto a raposa na garrafa da madrinha.
Um silêncio súbito caiu sobre a mesa. Gaara inclinou-se, curioso:
— Então quer dizer que essa história é verdade, dona Kushina? Esse é o "diabinho" que dizem que é seu pai, peão?
Naruto abriu um sorriso torto, tentando quebrar a tensão:
— Esse mesmo! A raposa de nove caudas que me trouxe ao mundo montado num touro brabo!
Todos riram, mas Kushina demorou um segundo a mais para acompanhar. Por um instante, seus olhos ficaram distantes. Ela lembrava do sangue, da dor e do grito de Minato que parecia ecoar no vento junto com o choro do recém-nascido. Houve quem jurasse ter visto uma sombra de nove caudas na janela naquela noite.
Mas ela piscou, afastando o fantasma, e deu um tapa leve na cabeça do filho.
— Ocê nasceu foi chorando mais alto que qualquer boi dessa fazenda. Isso sim!
[...]
A notícia não demorou nem duas horas para atravessar Konoha. Na venda de seu Tetsu, entre sacos de farinha e querosene, a conversa começou baixa, carregada de segundas intenções.
— Cê soube? — sussurrou um homem, debruçado no balcão.
— Soube... O fio da dona Masuda morreu. — Nos braços da Santinha — completou outro, em tom de mistério.
Logo, o primeiro sussurro venenoso cortou o ar:
— Uai... mas santa num salva? — A mulher do padeiro fez imediatamente o sinal da cruz, escandalizada.
— Num fala isso não, mulher! Pode ser provação.
— Ou pode ser que ela perdeu o dom... — retrucou uma vizinha.
— Eu sempre achei estranho esse negócio de santidade. Depois que vortou daquele colégio lá da capitá, nunca mais foi a mesma. Diz que lá ensinaram coisa de ciência.
— Ciência nada! — exclamou o dono da venda. — Isso é coisa do coisa ruim pra tirar a fé do povo!
Na bica d’água, as lavadeiras falavam ainda mais alto, entre o bater das roupas nas pedras:
— Mas ocê viu? O menino morreu quietinho...
— Diz que até sorriu antes de ir. Morrer no colo de uma santa é benção grande, minha fia.
— Benção coisa nenhuma! Se ela fosse santa mermo, tinha era curado o coitado!
E assim a vila se dividia. Hiashi ouviu as fofocas e endureceu ainda mais o semblante. Para ele, o julgamento do povo era o julgamento de Deus.
— Isso é provação — repetia para si mesmo. — Deus testa os escolhidos.
A Hyuuga não saía do quarto, mas as paredes da Fazenda Hyuuga tinham ouvidos. Ela escutava o cochicho das criadas no corredor: "Tão dizendo lá na venda que ela perdeu os poder...", "Mas dona Masuda falou que foi milagre o menino ter partido no colo dela...".
Hinata fechava os olhos, sentindo o peito oprimir. Não importava a versão; em ambas, ela não era vista como pessoa. Ou era uma santa falha, ou um instrumento divino. Nunca Hinata. Nunca apenas uma moça que tentou ajudar e não pôde.
— Tio — disse Neji mais tarde, na sala, com a voz firme. — Minha prima é bonita, estudada, inteligente... Tá na hora de casar.
— Ela vai ser freira! — cortou Hiashi, sem hesitar.
— Vai ser freira como? As própria freira do convento falaram que ela num tem vocação.
Hiashi apertou o terço entre os dedos até as juntas ficarem brancas.
— Quem traçou o destino dela foi Nossa Senhora, quando salvou a vida dela da tuberculose. Foi a promessa que a Keiko fez. Ninguém pode mudar isso, meu sobrinho.
Neji apenas encarou o tio, o silêncio gritando sua discordância. Horas depois, Hinata desceu as escadas. Com o rosto lavado, mas ainda inchado, entrou na cozinha para buscar água. O silêncio na casa era pesado, quase sólido.
— Você tá bem, prima? — perguntou Neji, aproximando-se. Ela demorou para responder, os olhos fixos na caneca de alumínio.
— Não consigo parar de pensar naquela criança...
— O seu pai estava contando aqui que a dona Masuda e o marido estão conformados — Neji disse com cautela.
— Sabe por quê? Porque o fio deles morreu no colo de uma santa.
Hinata virou-se lentamente para o pai, que permanecia sentado à cabeceira da mesa.
— Pai... — a voz dela estava calma, mas era a calma que precede a tempestade. Ele levantou os olhos perolados. — O senhor nunca mais vai me ver rezando por ninguém.
Uma pausa longa e tensa se seguiu. Hinata manteve o olhar firme, sem desviar.
— Com sua benção — completou ela, por puro hábito.
Hiashi demorou alguns segundos, processando o desafio oculto naquelas palavras. Por fim, fez o sinal da cruz no ar, de forma automática.
— A benção, minha fia.
E, naquela noite, algo dentro de Hinata morreu junto com o filho de Masuda. Não foi a fé, mas a submissão.
[...]
O fim de tarde tinge o céu de tons alaranjados. A poeira da estrada sobe suave com o vento seco. É por essa estrada que dois cavalos baio-amarilhos avançam em desabalada carreira.
À frente está Naruto Uzumaki.
Montado com confiança, ele inclina o corpo para frente enquanto o cavalo galopa firme. O cabelo loiro dança ao vento, e os olhos azuis brilham com aquela energia inquieta. Ele ergue o berrante. Os chifres de boi reluzem sob o sol poente, e o som ecoa forte pela estrada de terra, atravessa cercas, passa pelas casas simples e invade as janelas abertas.
Ao seu lado cavalga Gaara, postura ereta, olhar atento. Diferente da impulsividade de Naruto, o Sabaku mantém a calma até no galope acelerado. Seus olhos verdes observam tudo — a estrada, o céu, o movimento à frente. Silencioso, mas presente.
No sentido oposto, surge uma charrete bem conservada, conduzida com firmeza por Hiashi Hyuuga. Seus olhos perolados estão hipervigilantes. Ao lado dele, está sua única filha.
Hinata mantém as mãos delicadamente unidas sobre o colo. O vestido amarelo-claro balança com o movimento, e um véu branco leve repousa sobre seus cabelos escuros. Ela carrega no rosto o peso das horas anteriores; o luto pela criança que partiu em seus braços ainda nubla seu semblante, tornando sua expressão mais etérea e triste do que o habitual.
Quando Hiashi avista, ao longe, os dois jovens galopando na direção deles, sua expressão se transforma. Ele enrijece.
— O véu! Bota o véu, minha fia! — ele grita, num tom desesperado, como se a simples visão masculina pudesse macular a santidade da filha. Há algo de exagerado na forma como o Senhor Hyuuga se agita.
Hinata hesita por um instante. Os dedos tocam o tecido, mas antes que consiga se esconder completamente, o som dos cascos se intensifica. O vento levanta a poeira entre os dois caminhos que agora se cruzam.
E então acontece. Os olhares se encontram.
Naruto reduz levemente o ritmo do cavalo, quase por instinto. Seus olhos, que antes miravam apenas a estrada, encontram os dela. O tempo parece se alongar. A poeira suspensa no ar cria uma espécie de véu dourado entre eles.
O peão sente algo diferente do entusiasmo habitual. Seu sorriso diminui, substituído por uma surpresa sincera. Ele capta, naqueles olhos perolados, uma tristeza profunda e recente que o desarma. Não é apenas beleza que ele encontra; é um reconhecimento doloroso, como se no meio daquela poeira ele tivesse avistado um ponto fixo de humanidade. Seus pensamentos, sempre práticos, vacilam. O mundo simples da vida bruta parece pequeno diante daquele instante.
A jovem, por sua vez, esquece por um segundo os gritos do pai. Ao mergulhar no azul vivo dos olhos do peão, ela esquece o luto que a sufocava, esquece a vigilância e a imagem de pureza intocável que precisa sustentar. O véu permanece entreaberto.
Seus olhos encontram os dele com uma intensidade inesperada, um chamado silencioso. Dentro dela, algo desperta: aquele rapaz barulhento, coberto de poeira e transbordando liberdade, representa tudo o que ela nunca ousou desejar.
Hiashi observa o berrante nas mãos de Naruto e o reconhece. Ele continua murmurando orações apressadas, ajeitando o véu sobre a cabeça da filha como se pudesse apagar o que já aconteceu.
— Abaixe o olhar, Hinata — a palavra cai como sentença.
Ela finalmente baixa os olhos, mas já é tarde. Porque naquele breve instante, algo foi selado sem palavras.
Naruto retoma o galope, mas agora seu coração bate em outro compasso. Gaara observa de relance, percebendo que algo mudou no amigo. A charrete continua seu caminho e a poeira baixa lentamente, mas o encontro deixou uma marca profunda. Mesmo separados pela distância, Naruto e Hinata já sabem que algo foi iniciado ali.
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