Tristan abriu os olhos num instante, e abriu um grande sorriso seguido de uma risadinha. Ele sabia reconhecer bem o que era um sonho e o que não era, e achava muito cômico ele não ter adivinhado que estava sonhando. Queria gargalhar, mas não podia. Afinal, iria acordar seus companheiros de chalé.

Estava escuro. Escuro até para enxergar a palma da mão. Tristan tentou alcançar o abajur para ligá-lo e conseguir enxergar pelo menos sua cama, mas não havia nenhum ali. Provavelmente tinha caído, mas Tristan tinha um péssimo pressentimento sobre isso. Percebeu em seguida que estava com a garganta seca, precisava de água. Levantou-se e viu que estava descalço sobre o chão frio, que estava mais frio que o normal. Diferente disso, o chão não era familiar, não era o chão do chalé.

– Terceira vez. – disse uma voz levemente familiar. Tristan não sabia de onde o som vinha, até que percebeu que ecoava sobre todo o cômodo, como se o som estivesse brincando de esconde-esconde com os seus ouvidos.

– Quem está aí? – disse Tristan – Acenda a luz, se existe uma... Eu...

Tristan sabia que não haveria resposta, então se interrompeu. Mas sua voz ecoava sobre o recinto assim como a outra. Era como se o lugar fosse enorme, e mesmo embaixo das cobertas, Tristan sentia o frio do local. Sentiu uma gota d’água real e fria cair sobre seu nariz, então ele percebeu que estava olhando pra cima. Ele definitivamente não estava em seu chalé, mas estava em sua cama, debaixo de seus cobertores.

Tristan encolheu-se em sua cama, pois o frio estava insuportável, e ele certamente estava com um pouco de medo. Um medo que se tornou desespero após ele sentir todo o conforto de seus cobertores se esvaindo de uma vez só, como se elas tivessem sumido. Ele tentou persegui-las com a mão e conseguiu agarrar a ponta do cobertor, mas sua mão escorregou e ele teve que soltá-lo.

O frio veio de repente e Tristan começou a soar, olhando para um lado, depois para o outro. A esquerda e a direita eram algo indeterminado devido a escuridão. Tristan pensou em se levantar dali e correr pela escuridão. Mas era impossível correr. Seu corpo não se mexia. Seu estômago se contorcia, e ele ainda ouvia sussurros juntamente com o barulho do cobertor balançando em volta dele. Então, Tristan sentiu de repente uma presença logo atrás dele, que cobriu sua boca com a mão e o forçou contra seu corpo. Podia sentir seus cabelos molhados caírem sobre seus olhos, então olhou para cima, e não viu nada mais que duas pequenas luzes verdes.

– Ninfa... – foi o máximo que Tristan conseguiu dizer, pois sua voz estava abafada pelas mãos de Ninfa. Era impossível sequer formatar uma explicação. Ninfa era um personagem gerado pelo cérebro de Tristan, não era real, e agora, ele estava no mundo real, com Ninfa o silenciando em uma suposta caverna escura.

Tristan tentou se livrar das mãos de Ninfa e conseguiu, ela o soltou assim que ele fez o movimento brusco. Tinha se esquecido como o corpo dela era fraco no último sonho.

– Eu preciso de uma explicação... – disse Tristan, sufocado – para tudo isso... Onde eu estou? Quem é você? E... E...

Apenas os olhos de Ninfa eram visíveis, como se proporcionassem um brilho. E proporcionavam, mas então, como se ela tivesse se dado conta, uma pura fonte de luz se formou após o aparecimento de tênues faíscas. Ninfa tinha acendido um fósforo, e Tristan conseguira ver que suas mãos estavam ensanguentadas, assim como as dele. O rosto de Ninfa também estava surrado, como se ela tivesse a face esfregada na terra e ficado alguns dias sem limpar aquela região. Então Tristan lembrou-se do último sonho, quando vira ele mesmo e Ninfa serem incinerados em fogo grego. Será que seus sonhos tinham alguma relação com a realidade? Não sabia. Não sabia nem sequer se estava na realidade. A explicação mais válida, é que ele ainda estaria sonhando. Então, sua mente brilhou, e ele decidiu fazer o teste dos dedos. Abriu as mãos sobre o fósforo aceso de Ninfa, e viu que havia exatamente cinco dedos em cada. Não funcionou.

– O que fez? – disse Ninfa – Você tinha esticado as mãos no último sonho também.

– É para identificar o sonho da realidade. Se eu tiver mais ou menos que cinco dedos na mão significa que estou sonhando.

– Ah... Isso é... Genial.

Ninfa entregou a caixa de fósforos para Tristan.

– Acho que você precisa de algumas informações – disse ela – não é? Bem, nem mesmo eu sei. Eu nasci naquela floresta e comecei a by Text-Enhance\">vagar por ela, com uma dor de cabeça dos infernos. Aí eu encontrei aquele lago e fiquei presa. Aí você apareceu. Depois aquele fogo verde... Me machucou... – Ninfa se interrompeu por alguns instantes. Se encolheu como se estivesse tendo péssimas lembranças, e depois continuou – E eu apaguei. Acordei aqui embaixo da sua cama e estava com frio, então roubei seu cobertor.

Tristan notara que ela estava encoberta pelo seu cobertor vermelho. E deu um leve suspiro. Lembrando-se que estava desesperado a toa. Mas ainda havia dúvidas em sua cabeça.

– É só isso que sabe? Isso é mesmo péssimo.

– Mas se você diz que tudo isso é um sonho... Quer dizer que eu... – Ninfa abriu a boca para terminar, mas a fechou novamente, relutante. Depois a abriu e voltou a falar – Eu não existo?

Tristan abriu um sorriso que nem mesmo ele conseguiu identificar o sentido. Talvez um sorriso de pura amargura, um sorriso sádico. Ou então um sorriso de dó. Dó daquela linda garota confusa e misteriosa, que estava usando seus cobertores.

– Não... Você é um personagem criado por meu psicológico. Quando eu acordar, não acho que vou sonhar com você novamente.

– Ah... – lamentou-se Ninfa – isso é uma pena.

– É... Mas eu... Eu tenho que acordar. Um beliscão sempre funciona.

Tristan moveu sua mão até seu braço, e contorceu sua pele, quando viu a luz se apagar, e o corpo frio de Ninfa contra o seu. Novamente, só os olhos verdes e brilhantes dela estavam visíveis.

– Eu não vou deixar! – gritou – Não vou deixar você acordar e me fazer desaparecer assim!

Tristan estava com os braços presos. Ninfa, que era uma presença indelicada, revelou suas forças e conseguiu prender o filho de Hipnos com seus braços.

– Eu tenho que acordar! – respondeu ele, irritado – Eu não posso ficar nesse mundo e você nem sequer existe! Por que eu teria pena de você?!

Tristan sentiu em seu rosto novamente uma gota d’água, mas era uma gota d’água diferente, não era tão fria. Era uma lágrima, lágrimas de Ninfa, ela estava chorando. Até que ele sentiu. Entre os pés dele e de Ninfa, havia algo escorregadio, que logo envolveu seus calcanhares. Tentou se livrar daquilo, mas apertava, e logo seus pés estavam completamente presos. Então ele sentiu outro líquido, dessa vez frio, pingar sobre seus pés. Era sangue.

– O que é isso? – gemeu Ninfa – Está... Está doendo!

– É uma cobra... – disse Tristan, quando sentiu a língua da cobra se mexer entre seus dedos,sentiu uma agonia estridente ao sentir aquela pequena tira úmida e gélida sobre seus dedos, que não conseguiam se mexer, uma agonia seguida de uma dor atordoante, quando sentiu os dentes da cobra cravando sua carne. Um grito foi sufocado por outro cilindro escorregadio que encobriu seu pescoço. Outra cobra, dessa vez, maior. Os dois brilhos verdes que eram os olhos de Ninfa estavam arregalados e com uma expressão assustadora, alternando para amarelo, verde e azul, até ficar num tom indiscutível e assustador de vermelho, que brilhava mais ainda, podendo revelar toda a face dela. Tristan arregalou os olhos, e teve outro grito abafado, quando viu que a mesma cobra que estava enrolada em seu pescoço, tinha entrado com a cabeça na boca aberta de Ninfa. O desespero de Ninfa buscando por ar se combinava com o da cobra, que tentava desesperadamente sair de lá de dentro, mas era impossível. Ficaria presa na garganta até ambas ficarem sem ar. A cena era desesperadora, e Tristan tentava gritar, buscar por fôlego, e se livrar daquele lugar. Mas estava preso à cama. Os vermelhos, neutros e brilhantes olhos de Ninfa tomavam conta da visão e mente de Tristan, e ele se forçou a fechar os olhos, e sentir os cilindros escorregadios tomarem conta de seu corpo. Percebera pela primeira vez que havia de fato, cobras por todo seu corpo. Abriu os olhos e viu que continuava escuro. Ninfa tinha provavelmente morrido. Fechado os olhos, única fonte de luz, e morrido. Tristan não sabia, mas deveria ter feito o mesmo.