O Filho da Terra
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Comentem o que acharam.
Eto sabia como apreciar as horas de tédio massacrante. Fora forçado a isso ao viver metade de sua vida contido pelas paredes de sua casa e pela paisagem sem fim dos campos de pastoreio de seu pai. Aprendera a relaxar com o burburinho do mastigado e dos balidos das ovelhas e a enxergar uma atividade prazerosa na reflexão filosófica. Apesar de ter apenas dezoito anos, sua mente oscilava entre a de um ancião com a experiência de cinco vidas e a de uma criança cuja infância fora negada.
Sentado e concentrado em um pequeno seixo do rio à sua frente, ele pensava em um milhão de coisas. Algumas banais, como o que usaria para o desjejum e outras complexas como quando se casaria, afinal estava quase na idade para isso, ou como o faria se seus pais não o deixavam sair de sua fazenda ou ainda se realmente precisaria se casar e dividir seu pequeno mundo com mais uma pessoa. Ele não organizava esses pensamentos e permanecia em um estado de calma caótica, sentado e concentrado.
Escutou passos às suas costas e o cheiro do pasto, grama e terra orvalhada, que ascendera à seu nariz indicava que seu pai trouxera os cachorros para levar as ovelhas de volta.
“Você sabe que pastorear as ovelhas envolve olhar para elas, não sabe!?”
“Desculpe-me, estava pensando em algo e fiquei distraído.” Explicou, levantando-se. E limpando a poeira das calças de linho. Seu pai vestia roupas leves e sandálias de couro, havia raspado o lado da cabeça em que estava sua atózia, as marcas de nascença que indicavam sua descendência troskyana, expô-la era obrigação de todo cidadão, homem ou mulher, não importava em que parte do corpo fosse. Ele já não raspava há um bom tempo, não havia problemas pois moravam em uma fazenda afastada da vila e os guardas da ordem real não andavam por aquelas terras, o fato de ter feito isso significava apenas uma coisa. “Vai viajar?”
“Sim. Eu vou.” Sua expressão vacilou, como se não gostasse da ideia. O vento soprou seu brincos de prata polida, eram sete no total com três centímetros de comprimento cada, outro costume troskyano. Cada um para cinco anos de vida, o fato de não ter o oitavo dizia que tinha entre trinta e cinco e quarenta anos. Eto tinha apenas três e ganharia o outro dentro de mais ou menos um ano. “Vamos para casa, sua mãe quer falar com você.” Ele se virou para subir a pequena encosta que levava ao pasto.
“Se isto for sobre aquele vaso que o Jot quebrou...”
“Que vaso?” Se virou, franzindo o cenho.
“Nada.” Eto desviou o olhar. “Eu quis dizer: Sim, vamos para casa!”
“Uau. Você é um mentiroso pior que eu.” Disse, dando de ombros.
“Não sei do que você está falando.”
Os cachorros já conduziam o rebanho de volta para o curral e seu pai os ajudou para depois trancar a porteira. Enquanto caminhava, Eto o achou estranhamente pensativo.
“Algo errado?” Perguntou finalmente, antes de subirem na carroça.
“Não, eu acho.” Uma resposta ainda mais estranha.
O caminho até em casa durava mais ou menos meia hora. Eto conhecia cada um dos cascalhos da estrada pois os encontrava todos os dias.
Sua rotina consistia basicamente em acordar antes de seus pais e seu irmão e traçar aquele curso para chegar ao pasto e deixar as ovelhas comerem e beberem da água do rio. Horas antes do meio-dia, após terminar as demais tarefas da fazenda, seu pai vinha buscá-lo e trazia os cachorros para ajudar a prender as ovelhas dispersas. Antigamente sua tarde era reservada para os estudos com sua mãe. Ela o ensinara as letras e os números, ler, escrever e contar, a história de seu reino e da guerra sem fim, por consequência, acabava por passar os costumes e regras da sociedade troskyana, o modo de sentar à mesa, a pronúncia correta das palavras, o respeito à família real e às divindades, etc. Mas Eto já aprendera e passara a trabalhar com o pai na expansão da horta e do pequeno pomar que tinham em frente à casa.
“Seu desjejum está na mesa, querido.” Sua mãe disse quando mal cruzara a porta e seus olhos ainda lutavam contra penumbra não ensolarada. Ela falou com uma voz um pouco mais fina que o normal, o que queria dizer que estava nervosa.
Eto viu uma fatia de pão com mel, meio cacho de uvas e um ovo cozido em um prato na mesa. Quando sentou-se para comer, sua mãe tomou o lugar a sua frente, encarando-o. Sua atósia marcava metade de seu antebraço o que a fizera diminuir todas as mangas de vestidos e blusas que tinha.
“Mãe?!”
“O que!?”
“A senhora está me fazendo pensar em todas as coisas erradas que já fiz na vida.”
“Desculpa.” Pediu, soltando uma risadinha. “Faz quanto tempo?” Perguntou, sem rodeios.
“Vai ter que ser um pouco mais específica.” Disse, franzindo o cenho.
“Desde que nós o pintamos.” Ela se levantou, e foi em direção a suas costas. Ela encostou os dedos na raiz de seus cabelos. “Estão quase totalmente brancos de novo.” Tinha razão, a última vez que pintara fora há dois anos. No aniversário de seu irmão, quando seus avós vieram visitá-lo.
“Sim, estão. Por que está perguntando!?”
Ela voltou e sentou-se à sua frente de novo. “Seu pai e eu decidimos que deixaríamos você ir à aldeia.” Revelou, sorrindo.
“O quê!?” Perguntou, surpreso. “Porque!?” Foi a segunda pergunta que pensou. Não saia da fazenda há mais de cinco anos e só o fizera duas vezes. Uma para a migração obrigatória de varões de treze anos ao centro religioso do reino e outra aos cinco para a cerimônia de recebimento do primeiro brinco. Em ambas as ocasiões, tudo fora feito com muito cuidado e hesitação.
Sua mãe conta que desde o momento que viu a cor de seus cabelos, quando nasceu, e que ele não possuía uma atósia, nem uma única mancha sequer, soube que ele era especial, que as pessoas procurariam por ele, tentariam machuca-lo. Por essa razão, ficara escondido por toda a vida. Eto nunca aceitou realmente aquela explicação, mas seus pais nunca respondiam à suas perguntas e estas se tornaram mais escassas com o passar do tempo. Fora pouco a pouco aceitando sua realidade. É claro que gostaria de sair e ver o mundo lá fora, mas a raridade da oportunidade o fazia hesitar.
“Bem...” Sua mãe começou, trazendo-o de volta para a realidade que lhe fora tomada por pensamentos simultâneos. “Nós pensamos nisso como um presente, quero dizer, não como o presente em si.” Ela gesticulava com pressa e descompassadamente. “Mas que você poderia escolher seu pres...” Ela foi interrompida pela surpresa do abraço repentino. “Uow!” Ela riu quando ele a ergueu no ar e a girou, sorrindo e obviamente empolgado com a ideia.
“Estou vendo que você contou para ele.” Seu pai entrou na casa, trazendo um meio sorriso hesitante e uma pequena bacia com um amontoado de ervas que quando misturadas à betume e água fervente podiam ser usadas para tingir seu cabelo.
“Ela contou.” Eto se apressou em abraça-lo também. “Obrigado.”
“De nada.” Ele respondeu. “Mas teremos de ser cuidadosos.”
“Eu serei.” Eto assegurou, dividindo o olhar entre os dois, ansioso.
“Agora, termine de comer e tome banho para cuidarmos disso aqui.” Pediu seu pai, apontando para seus cabelos brancos. “Quero sair cedo para chegarmos antes do anoitecer de manhã, não gosto da ideia de deixar sua mãe e seu irmão sozinhos.” Eto sentou-se e terminou sua refeição às pressas, deixando-os e indo em direção à casa de banho.
Chegando lá, retirou suas roupas, apressado. Era alto por natureza e o trabalho pesado da fazenda lhe dera músculos, não deixando gorduras se acumularem. Apesar de ser passar várias horas exposto ao sol, sua pele era pálida como leite.
Quando chegasse à aldeia, sabia que tinha que fingir ser doente, era a única explicação para sua palidez e por seus pais não o deixarem sair da fazenda. Tinha certeza que essa fora a explicação à que os aldeões deviam ter chegado.
Enquanto se esfregava com a esponja áspera, pensou mais à respeito sobre o real motivo de seus pais o deixarem sair da aldeia, teria de ser algo mais que seu presente de aniversário. Em uma semana, completaria dezenove anos e no ano seguinte, receberia seu quarto brinco. Eto arregalou os olhos ao perceber o real motivo da viagem.
O produto da mistura de ervas pinicava em demasia enquanto era aplicado sobre o couro cabeludo, usaram a mesma mistura para realçar sua falsa atósia na perna direita. Após um pequeno intervalo, ele lavou os cabelos com água fria e recebeu a pequena mochila que sua mãe arrumara. Ela e seu irmão estavam na porta de casa quando saíram na carroça, seu irmão tinha dois brincos e em três meses faria treze anos. Eto o viu balançar o braço alegremente enquanto se afastavam. Teve um mal pressentimento, mas o guardou para si, não queria preocupar seu pai mais do que ele já estava.
A viajem durou mais de cinco horas. Eles pararam para comer uma vez e retomaram a estrada. Eto estava com as pernas e ancas doloridas devido aos solavancos da carroça, ficou grato quando seu pai disse que estavam chegando. O sol já ameaçava abandoná-los ao ocidente mas ainda os banhava com um pouco de luz.
“Temos que procurar algum lugar para passar a noite.” Seu pai disse. Parecia cauteloso. Fazia sentido esperar pela manhã seguinte, à esta hora, as mercadorias já estavam muito escolhidas e ele sabia que sua mãe gostava de produtos frescos.
Eto mal o escutara, já adentravam as primeiras casas da aldeia e ele se perdeu no novo universo à sua frente. Havia tantas pessoas e tantos locais diferentes. Pararam em frente a uma pequena pensão e ele desceu da carroça, ansioso e alerta. Pingos de lama respingaram em sua perna exposta e lhe deram um calafrio.
Havia uma padaria, ou pelo menos assim deduzira ao sentir o cheiro de pão que vinha de um prédio com uma chaminé alta, e uma ferraria em frente à pensão. Escutou os batidos do martelo dobrando o aço sobre si mesmo e viu dois homens suados e sujos de cinzas.
“Ele parece legal.” Afirmou seu pai, enquanto amarrava os cavalos. “Devia falar com ele.”
Eto tentou entender o que ele dizia e olhou na direção que ele apontou com a cabeça. Um dos ferreiros tirou a máscara de pano que usava. Devia ter quase a mesma idade que a sua, mesmo de longe, podia ver três brincos de prata. Ele o mirava, meio admirado e curioso. ‘Eu sabia’, Pensou Eto. Essa era a intenção da viagem, encontrar um pretendente.
Casamentos na sociedade troskyana eram cerimônias sagradas, vinte anos era a idade mais comum, alguns casavam mais cedo, mas nunca mais tarde, não sem nenhum motivo. Sempre que acontecia, as pessoas comentavam. Seus pais não queriam chamar atenção para si, por isso deviam estar tentando fazê-lo encontrar uma pessoa. Outra característica das uniões era a própria liberdade de escolha, homens e mulheres, homens e homens, mulheres e mulheres, todas as uniões eram aceitas sobre a promessa de amor eterno.
Eto teve de sorrir e o rapaz desviou o olhar envergonhado para depois procura-lo de novo, sorrindo de volta. “Talvez eu o faça.” Respondeu, tentando não frustrar as esperanças de seu pai.
“Amanhã.” Ele disse indicando a porta da pensão.
“Amanhã.” Repetiu adentrando o recinto e sendo abraçado pela penumbra.
Notas finais
Mas vocês sabem... Preciso evitar a fadiga ^^
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