O Filho da Lua

3 III - O Aniversário.


Notas iniciais
"O Coração tem razões que a própria razão desconhece"

–Você é um meio tritão como eu ou é totalmente? – perguntou Matheus a Guilherme na manhã do sábado que seria seu aniversário de treze anos.

–Meio, meu pai é irmão de sua mãe, ele se apaixonou por uma humana e desistiu da cauda, mas algo aconteceu e eu nasci com ela, então sua mãe cuidou de mim até meus dez anos que foi quando eu tive a capacidade de ganhar pernas ao sair da água! – explicou Guilherme.

–Pera, você nasceu com cauda? – perguntou Matheus confuso.

–A magia da nossa família é muito forte, o universo não ia deixar se perder, acho que por isso eu nasci com cauda, pra garantir que eu teria o nosso genes – explicou Guilherme. – Por isso sua mãe não veio pra terra com sue pai, ela estava cuidando de mim, e tinha medo de você nascer com cauda, então seriamos nós dois sozinhos no mar.

–Mas é comum bebes nascerem com cauda? – perguntou Matheus.

–Na verdade, sou o primeiro caso desde três décadas atrás, é muito raro! – respondeu Guilherme.

–De qualquer jeito, seriamos do mar? – perguntou Matheus.

–Sim, somos do mar! – respondeu Guilherme.

–Hoje as coisas vão acontecer? – perguntou Matheus – as escamas?

–Não, só amanhã! – respondeu Guilherme – Não se preocupe, vai ser rápido, no maximo duas semanas e no mínimo quatro dias pra a cauda aparecer e você ir pro mar.

Guilherme havia dormido num colchão de ar ao lado da cama de Matheus. Os dois tinham acordado cedo naquela manhã de sábado e estavam coversando olhando pro teto.

–Tenho que convidar uma pessoa pra festa. – comentou Matheus.

–A festa é hoje de noite, acha que dá tempo de convidar em cima da hora? – perguntou Guilherme.

–Você realmente não é de Salvador! – respondeu Matheus – nem do Brasil – acrescentou ao pensar melhor – aliais, você não é da superfície.

–Aqui as festas são marcadas de ultima hora o tempo todo? – perguntou ele – achei que eram nas series!

–Existem todos tipos de festas, e uma de aniversário, sempre tem convidados de ultima hora! – justificou Matheus se levantando da cama.

–Vou nadar, tou com saudade da água, volto em algumas horas! – informou Guilherme se levantando do colchão.

Matheus se levantou da cama e ambos foram escovar os dentes, Matheus tomou banho mas Guilherme foi direto pra praia que era realmente bem perto da casa. Depois que tomou o café da manhã Matheus saiu de casa e andou até a casa de Luna.

–Outra vez? – perguntou ela depois que atendeu a porta.

–Vim te convidar pra meu aniversário – justificou ele.

–Acha mesmo que eu vou? – perguntou ele em tom de zombaria – Seus seguidores idiotas vão estar lá.

–Mas eles não vão mexer com você! – garantiu olhando nos olhos dela.”Nenhuma garota em sã consciência resiste aos meus olhos” pensou.

–Que horas?

–19:00 – respondeu – vai ser estilo boate!

–Estarei lá! – disse fechando a porta.

Matheus caminhou de volta pra casa, mas antes olhou pra praia a sua frente, estava muito cheia, afinal era sábado e o dia estava lindo. Guilherme tinha mergulhado, como ele iria sair sem ninguém vê-lo? Como ele mergulhou afinal? Provavelmente pulou do pier. Era pier o nome daquilo? Não tinha barcos ancorados, mas era como se fosse. O celular dele tocou e ele atendeu sem reconhecer o numero.

–Sou eu! – exclamou a voz de Guilherme.

–Onde você está? – perguntou Matheus.

–Nesse momento? Flutuando no meio do mar! – respondeu – A tecnologia de Atlântida é mais avançada esqueceu? Olhe eu vou precisar sair da água lá no Humaitá, tem como me encontrar lá em três horas? É que eu não sei como chegar na sua casa por terra.

–Tem sim, pode deixar! – respondeu Matheus.

Matheus seguiu pra casa e foi falar com o pai que estava na cozinha. Rafael Simon estava preparando algum prato que levava camarão. O estomago de Matheus roncou só de olhar os camarões enormes que iam pra panela depois de serem todos descascados. Matheus adorava camarão, seria ótimo almoçar isso em seu aniversário.

–Oba, moqueca de camarão? – perguntou animado.

–Isso mesmo, é bom que você goste, embaixo d’água só vai ter pratos como esse! – respondeu Sr. Simon colocando algumas coisas na panela.

–Serio? – perguntou animado.

–Sim, hei, achei que o Gui estava com você! Onde ele está? – perguntou.

–Nadando, depois vou buscar ele no Humaitá! – respondeu Matheus.

Traga-o em tempo do almoço – pediu Sr. Simon – quero ver se sou aprovado como cozinheiro pelos seres do mar.

–Eu aprovo! – respondeu Matheus pegando um biscoito no armário e indo pra sala assistir televisão.

No horário combinado Matheus estava esperando Guilherme, mas de onde o tritão iria surgir? O Humaitá tinha água pra todos os lados, mas Guilherme ligou mais uma vez pra Matheus falando que estava do lado direito, onde tinha aquela escada que mais parecia uma ladeira.

–Não podia ter saído na parte da areia? Como vai sair dai? O limo é escorregadio e não vai conseguir se secar!

–Eu não quero me sujar de areia, se não eu tinha saído na da sua casa mesmo! – respondeu Guilherme que estava apoiado na ladeira escada ou sei lá o que.

–Vão ver sua cauda! – argumentou Matheus.

–O véu tá me escondendo, e não se preocupe, não preciso secar, só preciso sair da água! – respondeu Guilherme.

Uma descrição básica pra aqueles que não sabem como é o Humaitá. Só tem uma entrada, vindo da boa viagem. À sua direita água, nem com a maré baixa dava pra ver a areia daquele lado, e o mesmo se valia pra frente, à sua esquerda algumas casas, mas se você andar mais, encontra uma entrada pra uma praia e um muro em volta do farol. Muitos preferiam pular de algum dos vários lugares do lado direito, e pra voltar pra terra você escolhe entre nadar dando uma volta imensa, e cansativa (o que ninguém em sã consciência escolhe), ou subir por onde Guilherme estava tentando ir.

Uma escada íngreme como uma ladeira, que levava até uma parte plana de pedra. Matheus desceu até a tal parte plana, a água não passava muito da sua panturrilha, então sua bermuda ficou intacta, e segurou a mão de Guilherme puxando-o pra ajuda-lo a tirar a cauda dá água. Assim que a cauda saiu, as penas apareceram e o garoto tritão saiu andando com o primo.

–É! Foi bem revigorante! – exclamou Guilherme.

–Guilherme... – começou Matheus.

–Para com isso, me chame de Gui! – pediu – Falar Guilherme o tempo todo? Quanta idiotice! – comentou.

–Ok, Gui, não precisa secar pra cauda sumir? – perguntou Matheus.

–Não, basta só sair da água! – respondeu – e olha, não é qualquer gota que transforma a pessoa em tritão, tem que ser uma quantidade considerável, mais ou menos um copo, e no pé, não nas pernas, nem nos braços, mas no pé. Porem nós temos nossas escamas dos braços, você reparou não foi? Nas barbatanas?

Matheus puxou a memória e lembrou de Gui no banheiro, e de alguns segundos atrás segurando-o, tinha realmente barbatanas no antibraço dele na direção do dedo mindinho, e várias escamas por quase todo o braço.

–Aparecem quando molhamos o braço né? – perguntou Matheus.

–Com o tempo você vai aprender a fazer elas aparecerem apenas junto com a cauda, mas por enquanto, sim. – respondeu Gui. – Se uma gota de água cair na suas pernas, braços, ou pés, só vão nascer algumas escamas, e vai ser fácil de esconder, mas se for muita água, vai ser o conjunto todo!

–Valeu, vou me lembrar! – respondeu Matheus.

–Trouxe uma camisa? – perguntou Gui.

Matheus reparou que o primo usava apenas a bermuda vermelha que estava antes de ir nadar, e um cinto. Cinto bem bonito e trabalhado, era prateado e brilhante mas mesmo assim era tão discreto que Matheus só reparou agora, e na fivela estava um símbolo de três pontas. Um tridente.

–É o que usamos quando precisamos de bolsos! – justificou Gui ao notar o olhar do primo – Discretos, e enfeitiçados! – ele enfiou mão numa abertura no cinto e retirou um celular de dentro, não tinha como aquele celular caber ali e não fazer nenhum volume. – Antes, há uns três séculos, eram cintos enormes com muitos bolsos, mas graças aos bruxos e feiticeiros que nos ajudam e nos patrocinam, agora são assim!

–Você estava com isso o tempo todo? – perguntou Matheus.

–Sim! – respondeu Gui – E essa fivela em forma de tridente é meu... – ele parou de falar e seu olhar seguiu o andar de um cara sem camisa que acabara de pular – Nossa! – exclamou.

–Você é gay? – perguntou Matheus.

–O que? – perguntou Gui confuso – não eu estava olhando pra tatuagem em forma de tridente... Mas já que tocou no assunto, eu sou sim, na verdade eu não sou eu sou meio gay, e meio hétero. Bi. Não gosto muito de usar rótulos, são horríveis, sem falar que sempre que alguém na superfície diz que é bi, os outros acham eu ele é um gay indeciso.

–Então...

–Hum, e mais um ponto, eu sei que você não foi preconceituoso, você me viu olhar pra um cara e quis saber, ok, mas em Atlântida o preconceito foi banido, todos somos diferentes, e as diferenças nos tornam únicos, então não quero saber do senhor julgando ninguém nem lá nem aqui. Estamos entendidos?

–Sim, eu não tenho preconceito! – garantiu Matheus.

–Só contra Wiccas? – perguntou Gui.

–Isso já passou.... como você soube? – perguntou confuso.

–Theteu, achou que sua mãe ia deixar você aqui sem informantes? – perguntou Gui – Vamos, me leve ao seu líder terráqueo.

Os dois foram pra casa e almoçaram a moqueca do Sr. Simon. Gui comentou sobre umas algas parecidas com arroz que são usadas em Atlântida, e admitiu preferir o bom arroz da terra, porem gostava mais do macarrão, isso não tinha lá em baixo. Gui e Matheus ficaram conversando, estavam se tornando amigos, Gui disse que no dia seguinte levaria Matheus pra conhecer um refugiu aquático de sereianos e Matheus ficou bem animado.

As 18:00 a casa estava toda decorada, vários moveis tinham saído do lugar pra ter espaço pra dançar, e os doces e saldados estavam espalhados pela mesa. A grande garagem também estava decorada e tinha os auto falantes pra ajudar no som. Seria uma grande festa.

Incrível, mas todos chegaram pontualmente as sete e começaram a dançar e festejar, depois é claro de cumprimentarem Matheus e entregarem os presentes. Todos chegaram, menos uma. Luna ainda não tinha chegado, ele até pegou umas duas meninas mas depois parou e ficou ansioso pela chegada dela.

Foi as 19:45 que ela chegou. Usava uma mini saia jeans num tom escuro de azul com um bordado em forma de uma flor vermelha, e uma camisa azul do mesmo tom, de manga comprida, com um decote pequeno mas que mesmo assim destacava seus seios, e uns detalhes verdes. Seus cabelos negros estavam presos e ela trazia uma grande bolsa vermelha.

–Que bom, você veio! – exclamou ele indo recebê-la.

–É né, eu disse que vinha! – respondeu ela.

–Ih, olha só, a esquisitinha veio! – exclamou Diogo, o amigo de Matheus.

–Diogo para! – pediu Matheus – eu a convidei.

–Uma diversão pra festa entendi! – exclamou ele sem fazer questão de falar baixo – O palhaço faltou não foi?

–Você é um idiota! – exclamou Guilherme ficando entre Diogo e Luna e puxando a garota dali.

–Não implique mais com ela! – mandou Matheus assim que Guilherme e Luna se afastaram – Está me ouvindo?

–Por que está defendendo-a? – perguntou Diogo em tom de zombaria.

–Porque todos somos diferentes, todos viemos de todos os jeitos e tamanhos, todos temos nossos pensamentos e nossas religiões,e não é certo implicar com alguém por ser diferente, ou por ser fora do comum. Ser diferente é o que nos torna especial! – respondeu Matheus sem nem acreditar no que tinha dito, e ficando vermelho ao reparar que a musica tinha parado e que todos tinham ouvido.

Por que a musica parou? Guilherme voltou sozinho e começou a falar:

–Bem, meu primo está crescendo – ele estava com um microfone – e Esse é meu presente pra ele.

A musica recomeçou a tocar e todos voltaram sua atenção pro garoto:

–Como puede ser verdad!? – começou ele – Last night I dreamt of san pedro. Just like I'd never gone, i knew the song. A young girl with eyes like the desert It all seemslike yesterday, not far away.

–Tropical the island breeze – Luna entrou cantando com Guilherme – All of nature wild and free This is where I long to be La isla bonita And when the samba played The sun would set so high Ring through my ears and sting my eyes Your spanish lullaby.

Ela era ótima. Os dois continuaram a cantar “La isla Bonita” dançando no “caliente” ritmo latino. Matheus não conseguiu parar de olhar pra Luna. Claro, Guilherme cantava bem e estava dando um show, mas Luna cantava e dançava de um jeito único, aqueles movimentos eram tão soltou e tão livres. Matheus não pode deixar de pensar, que só conseguiria ser livre assim, na água, já ela, estava simplesmente dançando como se nada mais importasse.

Quando a musica acabou todos aplaudiram gritando e soltando vivas. Matheus correu até Luna e a puxou pra dentro da casa, ela pegou a bolsa dela e os dois subiram as escadas e foram pro quarto dele. Não foi maldade, é que era o único lugar que tinham pra conversar.

–Você foi fantástica! – exclamou.

–Ello es caliente, yo soy caliente – Exclamou ela.

–Tu eres muy – concordou ele.

–Bem, seu presente – ela pegou um livro de couro marrom dentro da bolsa vermelha – Esse é meu livro das sombras, está na minha família desde minha vó, ela foi a primeira Wicca, anotou um monte de coisas aqui, e ela até conseguiu controlar muito bem a magia. Meu tio fez uma copia pra família dele, mas esse vai continuar na minha, e bem, olhe isso – ela abriu na pagina marcada, que tinha o desenho de um colar, um amuleto.

–O que é isso?

–Amuleto de contensão! – respondeu ela. – minha avó e uma amiga dela fizeram e testaram em várias espécies mágicas de vários modos, um lobisomem não se transformou na lua cheia, e depois não voltou a forma humana, um vampiro que ficou humano por mais que tentasse se transformar, e depois em gárgulas, gárgulas são estatuas durante o dia e estatuas durante a noite, primeiro eles não ganharam vida,e depois não viraram pedra. Eu liguei pra a amiga da minha avó, e soube que ela testou em um gárgula que em 2005 por razões que não vem ao caso, fez um feitiço pra ao invés de pedra virar humano durante o dia, e o colar também conteu ambas das formas.

–Acha que pode me conter em uma das formas? – perguntou Matheus interessado.

–Pode – respondeu animada – eu perguntei e ela falou que ia testar, por isso cheguei atrasada, estava esperando a ligação dela, e ela me disse que chamou uma amiga sereia, a cauda dela não apareceu por mais que ela nadasse pro fundo, e depois a cauda dela não sumiu mesmo quando estava completamente seca.

–Eu vou poder ter uma vida normal quando voltar de Atlântida? – perguntou Matheus sem conseguir acreditar.

–Sim, vai poder surfar e nadar em publico! – respondeu ela – O colar está no rio, mas eu já fiz o pedido, ela vai me enviar o quanto antes, você só vai ficar um ano lá né? Vai estar aqui quando você chegar!

–Obrigado! – exclamou ele – Tem uma coisa, que eu já quero fazer há muito tempo, mas se tudo isso não tivesse acontecido comigo, eu nunca teria coragem.

–O que? – perguntou ela.

Ele a beijou. Ele já se imaginara beijando-a, mas antes ele achava errado a simples ideia de ficar perto de uma Wicca, mas agora ele via que não tinha nada demais, que as diferenças é o que nos torna especiais. Os lábios deles se tocaram, ele segurava o rosto dela com as duas mãos e ela o pescoço dele, as mãos dele foram descendo do rosto pro pescoço, do pescoço pra cintura, e da cintura pra.

–Só tenho doze anos! – interrompeu ela.

–Desculpa! – pediu ele.

Os dois ficaram em silencio por uns segundos depois voltaram a se beijar.

–Então, quer ser humano?! – perguntou uma voz familiar que surgira de repente e interrompeu o beijo dos dois.

A figura que aparecera no quarto de Matheus, era aquele senhor que ele havia encontrado no dia anterior.

–Posso providenciar isso! – exclamou Otavio Coral.

Notas finais
No próximo capitulo: TIO! – exclamou Guilherme ao entrar no quarto e se deparar com Otavio. O grito não era de alguém que se sentira feliz ao ver o tio, mas de alguém que parecia realmente surpreso, e talvez até... Assustado. Guilherme tirou o tridente do meio da fivela em forma de circulo de seu sinto, e este aumentou vinte vezes de tamanho virando um tridente prateado de verdade.