Ambos sentavam na mesma poltrona. Ambos observavam o crepitar da lareira. Ambos eram o mesmo corpo. Quase a mesma pessoa. Os olhos do corpo brilharam, amarelos e a voz metálica tomou conta.

– O filho de Hades cooperará?

A voz muda. E o brilho amarelado se apaga.

– Estamos fazendo o possível.

A voz muda, o brilho retorna.

– Não é o suficiente, um filho dos três grandes é essencial — parecia estressado.

A voz volta.

– De um jeito ou de outro ele irá cooperar

O som metálico volta.

– Que assim seja

O brilho apaga, a voz volta, mas não fala nada, o único som é o crepitar das chamas.

●●●

O novo quarto de Nico era bem melhor que a cela. Continha uma cama confortável, um criado-mudo, um armário e mais algumas poucas coisas. 14:30 – quase na hora do pesado treinamento com Luke.

Apesar de tudo os treinamentos vêm trazendo resultado. Seus músculos estão bem definidos, e já nocauteara alguns semideuses que nunca pensara que o podia fazer. Antes de se preparar para fazer o treinamento, decidiu colocar pra dentro algumas barrinhas de cereal. Não era muita coisa, mas teria que dar. Pegou sua espada negra de ferro estígio e uma roupa qualquer no armário e esperou. Luke nunca iria feri-lo, já que se tornou uma espécie de favorito de Luke.

O chão era acarpetado e macio, parecia impossível querer tirar os pés deles. Respirou de um modo um tanto teatral e tomou coragem para calçar um coturno. Depois de algumas semanas no iate já sabia zanzar livremente e sem se perder pelo iate, como na vez em que uma moça devorava o coração de um homem á pleno sol, no quarto de Nico. Mas na verdade não era o quarto de Nico. Confundira com o de alguém, correu de lá. Uma das pessoas que mais simpatizou no iate era Ethan Nakamura. Já estava alcançando seu tamanho, o que não era muita coisa, mas já era o suficiente.

A verdade era que se sentia deslocado no iate, se agarrara à promessa de Luke para continuar. Matar Percy Jackson. Aquilo lhe soava prazeroso, de um modo cruel. Luke lhe esperava na amurada da proa. A ideia de que poderia encontrar Cronos ali, ao invés de Luke parecia assustadora.

– Chegou cedo – a voz era de Luke, não a distorcida metálica de Cronos. Nico suspirou de alivio.

– Só estou animado para começar- Nico, receoso. Aquilo pareceu deixar Luke bem feliz, ou o máximo que aquele ser poderia chegar perto de felicidade.

– Já que quer tanto...

E começaram, depois de alguns golpes e nocautes, Nico conseguiu o que queria. Um nocaute capaz de incapacitar Luke. Um baque no chão branco e uma cara de insatisfação foi tudo que obteve de Luke. O vento marítimo lhe parecia cair mal. Mas substituiu por orgulho e não coube mais dentro de si.

– É assim que quero quando matar o Jackson, meu garoto — disse Luke por fim e o libera para a tarde livre.

Ao chegar ao quarto encontra, novamente, um embrulho prata em sua cama. Já era o terceiro presente de Luke na semana. Pensou como aquilo chegou ao iate, ou melhor, por que recebera tanta bajulação? Mas abre assim mesmo. Um livro que gostava, mas há muito não o lia. Como Luke sabia? Enfim. O guarda na estante de mogno, leria depois, mas agora iria descansar. Merecido. E apaga.

Sem sonhos, um milagre. Relaxado e profundo, como um sono deveria ser. Depois que chegara ao iate estabelecera uma espécie de rotina, mas o dia foi incomum, um pouco mais preguiçoso, talvez.

Acorda mais tarde com uma batida na porta. Jantar. Responde de modo automático um “pode entrar” indecifrável, mas ao que parece o empregado zumbi (porque eram controlados por Cronos) entendera e deixa a bandeja na cômoda. Na porta, ao sair, tropeça e cai de cara, roncando. Cronos não anda administrando muito bem, pensou. Veio-lhe á cabeça que estivesse fraco, mas deixou isso pra lá.

Depois de mais uma semana Luke passou á ficar mais fácil de nocautear, ou Nico ficara mais experiente, ou Luke o vem deixando ganhar. Desde que estivera no iate vira poucas vezes Cronos em Luke, o que o deixou bastante tranquilo. Às vezes Nico se pergunta por que estava aquilo, o iate, Cronos, tudo. Mas aí se lembra. Percy Jackson, e é revigorado com um espírito vingativo. Outro toque na porta o retorna á realidade. Nem ao menos balbucia um “pode entrar” e Ethan Nakamura entra brusco.

– Uma reunião com os semideuses mais importantes vai ter inicio. Fomos convocados — ele respira fundo – para falar com... ele.

Rápido de mais. Como um soco não planejado. Nico sabia que “ele” significava “Cronos”. Medo tomou conta. Nico era medo. Respirava medo. Via medo. Irradiava medo. Para controlar o tremor nas mãos, as colocou no bolso da calça. E juntos, Nico e Ethan, caminharam até a sala principal de Cronos. Cada detalhe parecia importante para Nico. Como se fossem os últimos. “Talvez sejam mesmo” pensa. Ao caminhar pensa no queria tão importante que o próprio Cronos decidira anunciar?

Quando chega á sala de Cronos vê que realmente só convocara os melhores semideuses. Em torno de quatro semideuses além dele mesmo e Ethan. Que para esconder o medo ajeita o tapa-olho, tentando parecer descontraído.

– Ótimo, os últimos chegaram — disse um semideus alto e corpulento. Ao que parecia só Nico e Ethan não sabiam da reunião.

Sem muitos rodeios, Cronos/Luke começa com a voz metálica:

– O acampamento está agindo! Mandaram o Jackson e seus amigos atrás do labirinto. O labirinto de Dédalo. Alguma dúvida? – ninguém se opõe – Como sabem, nossa missão é frustrar a missão do acampamento, mas não só isso. Tem algo de valor inestimável envolvido. – pausa – A entrada para o acampamento dos meios sangues. Poderíamos burlar a barreira do pinheiro – isso causa tremor em Luke, não Cronos – e introduzir um exército inteiro. E tomar o segundo lugar mais importante para os olimpianos. Depois de derrotar os semideuses nada nos impedirá de tomar o Olimpo.

Cronos no comando de tudo? Isso era terrível, só Nico via isso? Luke, com seu carisma, conseguira cegar á todos ali. Por isso Luke era tão importante para Cronos, ele conseguia convencer qualquer um, um pouco menos inteligente. Menos um. Esse ele não cegaria. Nico.

Os treinos relaxaram até pararem de vez. A postura de Nico havia mudado das costas curvada e inofensiva para uma postura enrijecida e confiante. Cabeça erguida. Braços balançando, confiantes. Não só passava confiança para si mesmo, mas para todos os outros tripulantes do iate. Já até viu alguns semideuses lhe baterem continência. Mal sabiam do plano do garoto. Fugir de Cronos no labirinto. Como iria se guiar por lá ele pensaria mais tarde.

Lorde Cronos começara com seu plano. Semideuses já começavam á guardar armas. Filhos de Hefesto e ciclopes forjavam espadas e escudos. Os monstros carregavam caixas e por aí vai. Por alguma razão, que Nico não sabia, ele não fora chamado para trabalhar, ninguém nem lhe olhava torto quando o via passar. Então tinha tempo livre de sobra para zanzar por aí. Ir á lugares não utilizados do iate, explorar cantos. Ler...

Era tarde, o sol se punha. O garoto decidiu ir á um lugar escuro qualquer. O aparato metálico na nuca havia sido retirado á algumas semanas então ninguém iria lhe localizar.

Achou alguns minutos depois, um depósito vazio. Com uma janelinha redonda. Depois de umas voltas no local achou um cobertor macio. Catou e se embrulhou nele. Desde que fora para o iate tivera pouco tempo de prazer como esse, aproveitou a oportunidade e saboreou cada detalhe do delicioso momento. A sensação de paz e escuridão. Lembrava-lhe Bianca. Focou tudo em Bianca. Como os cabelos negros lhe caíam bem, como o tom claro do rosto se destacava. Lembrou-se da promessa de Luke. Não seria cumprida. Ele ia fugir. Percy Jackson teria de esperar para morrer. Era mesmo necessário matá-lo? Talvez. Terminou a noite no depósito. Ali parecia seu pequeno paraíso.

Nos dias seguintes voltara para o depósito vazio. Descobriu que tinha uma chave na porta e teve a liberdade de surrupiá-la e guardar no seu bolso. Explorou, também, outros lugares. Achou uma sala vazia, as celas (que agora mantinham alguns semideuses) que lhe imploraram para soltá-los, e ficou tentado á o fazer mesmo. Mas se desculpou e saiu dali. Pensou no que estavam fazendo com os coitados para fazê-los implorar daquele jeito. Talvez torturas. Deixou para lá e voltou para o depósito.

As pessoas já lhe olhavam estranho, não tinha nada de interessante para o lado do depósito, mas Nico era livre para ir aonde bem queria. Passava no lugar, lendo, pensando. Imaginava que pessoas solitárias pensavam mais, deve ser verdade. Gostava de achar que era assim, como se ele fosse superior ao resto por pensar mais, não era bem por aí as coisas e ele sabia. Mas gostava de daquilo e achava fundamental para a sua sanidade, ser bom, em algo, pra variar.

A missão para o labirinto seria no dia seguinte, tudo estava pronto. Aportariam em uma cidade perto, onde localizaram em algum lugar a entrada do labirinto. Na verdade podia ser em qualquer lugar, bastava ter a marca de Dédalo, um Δ que se aperta aparece a entrada para o labirinto.

Nico empacotara tudo para fugir. Uma mochila com algumas barrinhas de cereal, tirinhas de carne seca, néctar e ambrosia, e algumas coisas como fita isolante, água e pequenas armas.

Mais tarde, no depósito, sentado, tomando coragem para fugir. Era tarde ainda. O sol ia se pôr mas era luz suficiente para ver um Δ entalhado na parede rente á janelinha, nunca reparara no depósito. Iluminou-se. Uma saída. Provavelmente era o único que sabia daquilo.

Voltou no quarto pegou a mochila e acrescentou uma lanterna com pilhas extras (como se esqueceu da lanterna?).

Como o depósito ficava no caminho para onde guardavam os pertences para a missão, não era nem um pouco suspeito seguir aquela direção com uma mochila nas costas, mas decidiu tomar precauções. Desceu correndo o lance de escadas para o depósito, mas antes da porta tinha alguém. Um semideus. O brilho da lua batia fraco no olho. Um olho. Não um olho enorme e nomeio da testa como um ciclope. Um olho pequeno e na parte direita na cabeça. Ethan Nakamura.

– Aonde vai? Pergunta Ethan

– Isso não importa. Como sabe que... – se calou. Ethan não podia saber do depósito

– Que você costuma frequentar aqui? Eu te segui, todos acham estranho, mas ninguém fez nada. Ninguém pode. – Ethan nunca tinha medo de soltar as coisas, mas pareceu receoso ao dizer isso.

–O que quis dizer com isso?

–Nico... – Ethan não terminou, pois Nico o golpeou na cabeça, seu corpo caiu desmaiado. Nico correu culpado por fazer aquilo com Ethan.

Abriu a porta e trancou. A marca de Dédalo estava lá (claro). Pressionou a pequena. Uma luz azul, cegante, tomou conta. Será que seria forte de mais? Nico esperava que não. A luz baixou. Uma cavidade abriu na parede. Nico sacou a lanterna e a espada e adentrou.

Adentrou no labirinto de Dédalo.

Notas finais
Falei que ia postar mais vezes, agora é sério, já to escrevendo o próximo capítulo e ele sai o mais rápido possível, sei que faltou ação nesse mas foi essencial.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.