O Filho Da Neve
2 Chihuahuas são perigosos.
POV Yuki
Era sete horas, pela luz que atravessava a cortina eu diria que estava sol, o que me desanimou no mesmo instante. Por que? Eu me sentia desconfortável no calor, como se um peixe marinho fosse pra água doce. Estava torcendo para o meu velho não subir ao meu quarto, não queria sair naquele sol de matar.
– Levanta Yuki!! – gritou meu pai. Imediatamente me virei para o lado e fingi estar dormindo, o que não deu muito certo quando ele entrou no meu quarto. Como estava de olhos fechados só senti algo me acertando.
– Pô pai, me dá um desconto, ta muito quente lá fora. Isso não convenceu muito, aqueles olhos puxados e seu olhar sério davam medo quando queriam.
Não me levem a mal, meu pai, Kazuya Yuki, era bem legal quando queria, mas vamos dizer que aquele velho beirando os 40 anos não estava num dia bom.
– Ta bom velho. O que não foi uma boa opção, pois meu travesseiro aprendeu a voar, e seu destino era meu rosto.
Depois que ele saiu do quarto, me levantei e fui fazer minha higiene matinal. Me olhei no espelho e vi meu reflexo (N/A: A VÁ); um garoto branco como um boneco de neve, com um cabelo repicado e preto e olhos azuis, que quando refletiam ao sol pareciam geleiras.
Coloquei uma calça jeans simples, um all star listrado e uma camiseta gola V preta, o que me fazia parecer um gótico. Fui até a cozinha, peguei duas torradas que estavam em cima da mesa e corri pra fora com a bolsa nas costas. Lá de dentro meu pai gritou:
– Sem desvios.
– Ok velho – como resposta recebi palavras nada legais sobre juventude e respeito, mas não prestei atenção. Saí correndo para a casa do meu melhor amigo, ele provavelmente devia estar dormindo ainda , porque sempre chegava atrasado. Quando cheguei, a primeira coisa que fiz foi gritar :
–Tia Liz!!!
–Entre, Yuki.
Passei pelo portão cinza e pelo pequeno jardim que se estendia a frente da casa. Apesar de ser pequena, era muito aconchegante. Passei pela sala com moveis rústicos e entrei num quarto típico de um adolescente revoltado. Na porta, se notava as palavras “Keep Out” em vermelho sangue, que Lucas ( o nome do meu amigo) insistia em dizer que era sangue de verdade.
Entrei e vi uma montanha de roupas em cima de uma cama, e entre elas provavelmente estava meu amigo, sonhando com pôneis e arco-íris (não falem isso pra ele, se quiserem o meu couro intacto e meu sangue dentro de mim).
–Acorda Lucas. – como resposta, recebi um segundo travesseiro voador no meu rosto. Como podem imaginar, meu lindo corpitcho foi ter um encontro com o chão. A notícia boa era que ele levantou, a ruim era que ele estava quase chorando de tanto rir ¬¬.
– Depois dessa eu até vou pra escola sorrindo. – Ele disse depois da cena trágica que aconteceu comigo (Sentiram o drama?). Depois disso eu desci e fui cumprimentar a tia Liz.
– Tia Liz, quanto tempo!!! – Na verdade ela se chamava Elizabeth, mas sempre achei o nome dela comprido demais, então abreviei para tia Liz (Obs¹: ela não é minha tia mesmo ta)(Obs²: tenho que parar de falar entre parênteses). Ela tinha a mesma idade que o meu pai, porém, sempre foi mais calma, e seus olhos castanhos sempre demonstravam carinho e compaixão.
– Culpa sua, você não vem mais aqui – Disse ela num falso tom de mágoa. Geralmente ela nunca ficava brava ou magoada, exceto quando mexiam em suas flores, aí podia se dizer que ela dava medo até em Hades.
–Culpa minha nada, se for culpar alguém culpe esse calor que faz aqui nessa cidade.
–Sei.... Vai querer tomar café?
–Não, muito obrigado. – Sentei no sofá e fiquei esperando a Barbie (lê-se Lucas), se produzir (lê-se arrumar). Depois de quinze minutos ele apareceu no corredor da sala com uma bolsa nas costas. Ele estava com uma calça jeans escura e o uniforme escolar branco. Seus cabelos castanhos estavam desalinhados e seus olhos negros pareciam refletir o seu pior medo, lembro que a primeira vez que eu o vi ele tentou fugir de mim porque tinha achado que eu era Jack Frost com o cabelo negro, e que o mundo da ficção tinha se unido ao mundo real.
–Estou indo mãe. – Disse ele.
–Tudo bem, tchau.
Saímos da casa dele e seguimos pelas ruas, até nos depararmos com um chihuahua, que estava farejando o ar a procura de algo. Ele possuía coleira, o que me fez pensar, automaticamente, que o dono estava procurando. Lucas viu ele e foi automaticamente tentar fazer carinho no pequeno cão.
–O totó, vem cá, vem. – Ele falava e assobiava (lê-se tentava), enquanto se aproximava do cão. Estranhamente, ele começou a latir furiosamente para nós.
–Lucas, deixa este cachorrinho quieto.
–Larga de ser medroso, é só um cachorrinho. – Mal ele terminou de falar e o “cãozinho” começou a crescer. Quando as pessoas pensam em “Arrancada de crescimento”, não acho que eles imaginam um chihuahua começar a crescer e ficar do tamanho de uma camionete. Agora o “chihuahua” tinha a cabeça de leão. Sua juba cheia de sangue. Seu corpo e suas patas eram a de um bode gigante e sua cauda era uma serpente. Minha primeira reação foi:
–É só um cachorrinho agora?
Sua coleira cresceu junto com ele, e agora dava pra ler o que estava escrito no pingente (que no momento tinha o tamanho de um prato): Quimera – Raivosa, Hálito de fogo, Venenosa – Se encontrada, favor, ligar para o Tártaro – Ramal 954. Naquele momento, eu acho que Lucas disse a coisa mais inteligente que ele poderia ter dito:
–COOOOOORREEEEEEE!!!!!!!
Corremos pelas ruas e becos sem olhar para trás. Pelos leves “tremores” que ocorriam, pude deduzir (feel like a Sherlock Holmes), que o “pequeno chihuahua” corria logo atrás de nós. Depois de alguns segundos chegamos a um beco sem saída, o que me levou a dois pensamentos:
1°; FUDEU
2°; “[...]uma dupla de garotos foi encontrada morta esta manhã em um beco. Acredita-se que foram mortos por um monstro mitológico que atende pelo nome de Quimera, voltamos com mais notícias após os comercias.”
A Quimera estava prestes a atacar Lucas quando ele se virou. O que aconteceu em seguida foi muito estranho. Lucas se virou e olhou firmemente nos olhos dela. Ela automaticamente parou e começou a se afastar, como se estivesse com medo dele.
Eu não podia ser o cara mais inteligente do mundo, mas tive a leve impressão de que a Quimera tinha olhado pra mim com um leve desejo de me ver numa bandeja com molho de soja e tempero. Ela começou a se aproximar de mim. Olhei para o lado e vi Lucas estático, como se não soubesse o que fazer. A Quimera, nesse momento, pulou pra cima de mim.
– YUKIII!!! – Lucas gritou. Eu fechei os olhos e senti algo pousando em cima de mim. Abri os olhos e vi aquele casco de cabra em cima de mim. Pela dor que sentia, poderia dizer que quebrei uma costela. Aquele pensamento me deixou com muita raiva, quem aquele bicho era pra me atacar do nada? Coloquei minha mão no casco dela e uma coisa estranha aconteceu: o monstro, a partir de onde eu tinha tocado, começou a se congelar. Ele saiu de cima de mim e começou a rugir em agonia, mas o congelamento não parava. Depois de segundos de muitos rugidos, sobrou apenas eu, Lucas e uma estátua de gelo.
–O que aconteceu aqui?? – Perguntou Lucas
–Eu não sei, e não quero saber. – Respondi
–Chihuahuas são perigosos – Ele falou. Dei risada e respondi:
–Com certeza são, vamos embora.
Pegamos nossas bolsas e fomos em direção a escola.
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