O Fatal Preço Da Curiosidade
2 Guerra Civil
Notas iniciais
Boa Leitura!
Meu relógio desperta às 6:30 horas, mas, como sempre, estava acordada antes, acordo cedo desde os meus 3 anos, minha mãe disse que quando visitávamos a fazenda do meu avô eu me irritava com o canto do galo, por isso acordava antes do sol nascer para estapear o galo antes que ele cantasse (talvez por isso minha mãe nunca me chamou de anjinho). Minha escola, Tarsila do Amaral, é conhecida como local de marginais, tiroteios e drogas, mas dificilmente vemos isso, as pessoas dão essa má fama a escola por que ela fica em um bairro perigoso. Toda manhã chego cedo na escola, ela é bem próxima da minha casa, detesto ter que acordar minha mãe pra ocupar ela com a minha saída pra escola, ela trabalha muito, não preciso fazer ela se preocupar com mais isso.
Depois da minha merenda, comecei a ler “O Cão dos Baskerville” pela milionésima vez, eu simplesmente amo esse livro, fiquei surpresa ao ver uma menina alta, olhos pretos, a pele branca como um fantasma, usando uma blusa dos Ramones, um cabelo que parecia um ninho de urubu, cheio de mechas coloridas, usando uma maquiagem preta terrível (se ela usasse maquiagem branca, poderia se fantasiar facilmente de zumbi) era Zoe, minha melhor (se não única) amiga, mas naquela hora, ela nunca chegava cedo, vivia pulando o muro da escola, apesar de sermos bem diferentes umas das outras, nós éramos muito unidas, nós conhecíamos desde 2007, dificilmente havia alguém entre nós, exceto pra pedir cola nas provas onde as pessoas nos notavam e éramos consideradas importantes.
- Lendo o livro do “Homem de Ferro” de novo? – perguntou ela, com um olhar de nojo pro livro.
A ignorância dela era algo deprimente, o máximo que ela sabia de Sherlock Holmes era que ele tem um filme e Robert Downey Jr. interpretou ele, e a propósito ela não sabe o nome do ator, por isso chama ele de “Homem de Ferro”.
-Não é “Homem de Ferro”, é Tony Stark, e esse livro é do Sherlock Holmes.
-Tá legal, me rendo Wikipédia, nunca se cansa de corrigir os outros?
-Não, o que faz na escola esse horário?
-Felix arranhou o carro do vizinho ontem à noite, vim pra escola antes que o vizinho acordasse.
Felix era a peste do gato dela, ele achava que era um leão, arranjava briga até com os cachorros e, frequentemente, seguia Zoe até a escola e causava ataques aos nossos colegas, visto que a Zoe era rockeira gostavam de chamar Felix de “Felino do Diabo”, “Gato do Demônio”, “Cria do Capeta”. O preconceito que ela sofria por ser rockeira era grande, mas ela era nervosa e impaciente, arranjava muitas brigas e inventava planos bem maquiavélicos, ela já jogou Felix no banheiro masculino, os meninos que não foram atacados saíram correndo do jeito que estavam do banheiro, o que foi uma grande humilhação pros “Valentões” que pixaram a casa dela com “Diabo, Siga aqui” apontando pra janela dela.
-Aliás, hoje é seu grande dia, fim do 3° Bimestre, você passou de ano adiantada pelo 16° ano seguido, que dia feliz. – Ela dizia tudo isso com uma cara de tédio, forçando uma voz alegre, como sempre zoando comigo. — Ah, me esqueci, vai perder seu tempo na faculdade.
-Não é perder tempo, vou fazer algo que eu gosto. E você, vai fazer o quê quando acabar a escola? Deitar no Sofá e comer porcarias até explodir?
-Sim, só esqueceu de falar da Internet.
-Parabéns, quer ser mais uma adolescente sustentada pelos pais sem utilidade nenhuma pro mundo e que nem liga pra isso.
-Sei, eu vou fazer alguma coisa, eu nem sei o que eu quero ainda. Depois da escola eu vou ter tempo pra pensar nisso.
-Quero ver como vai conseguir abrir o portão da tua casa sem eu por perto.
-Talvez seja pior pra mim essa história de fim de escola e tudo mais. Quando acabar a escola, o que vai ser de mim? Todas minhas amigas vão embora. — Dava pra ver o desespero na voz dela.
-Zoe, eu sou a tua ÚNICA amiga.
-Viu, será que não dava pra fazer Física aqui perto, dentro desse estado pelo menos? E até o que eu saiba sou tua única amiga, a tua vida social também vai à ruína.
-Eu vou voltar nas férias, e que vida social eu tenho?
Isso é verdade, minhas maiores diversões são ficar na minha casa lendo livros, o que é legal, mas não pra Zoe.
-Então, vai perder a chance de ter uma. O tempo que a gente vai pra escola, podemos usar pra nos divertir. — Ela parecia ainda ter esperanças de me fazer desistir.
-Ou eu posso ir pra faculdade e me divertir lá.
-Tudo bem, divirta-se com a sua nova vida. — Ela abaixou a cabeça, ela parecia usar toda sua força pra não chorar, e quando ela começou a falar de novo, ela não conseguiu mais aguentar. – Sabe, eu não queria que fosse assim, eu detesto não ter objetivo nenhum na vida, mas parece que eu nunca encontro, a minha vida se resumiu a escola, e ela está chegando ao fim. Ter UMA amiga seria bom, mas ela tá indo embora.
-Eu sonho com isso há anos, e ainda temos três meses até acabar o ano.
-Lisa, ontem era Janeiro, amanhã é Dezembro. O tempo nunca está em nosso favor.
- Ainda temos tempo, seja otimista. — Que ridículo, eu dizer pros outros terem otimismo, sendo eu o pessimismo em pessoa. — Melhor a gente entrar, o portão já abriu.
Acabou, eu não aguento segurar meus sentimentos por tanto tempo, eu tenho que ser forte, não sei por que, mas tenho. Essa nossa conversa está se repetindo direto nos últimos meses, eu não demonstro, mas tenho medo de como vai ser minha vida na Universidade. Há dois meses fui chamada pra fazer Faculdade de Física em Oxford na Inglaterra. No momento do convite fiz de tudo pra convencer meus pais, eu estava em extrema felicidade, mas foi por pouco tempo, depois minhas noites se tornaram mais longas. Será que eu fiz o certo? Como vai ser a vida lá? E aqui? Como os meus pais e Zoe vão lidar com isso?
Minha mente girava a mil com tudo isso. Eu gostava de falar tanto sobre como no futuro eu vou ter importância, mas eu nem sabia se isso seria verdade algum dia, e hoje, nessa escola, eu não era nada, algo tinha que mudar, eu não iria querer passar minha vida inteira olhando pra minha ex-escola e ver que não tinha feito nada por ela.
A Lisa tímida, escondida, renegada não pode continuar, eu tenho que fazer algo que os outros vejam algo que possa dizer que eu estive aqui.
Mas como?
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