O Eterno Equinócio
1 Notas da Casa da Estrada

Chuva... Sim, já havia passado uma semana inteira chovendo, era tão óbvio que não ia dar certo uma viagem à praia, mas todos eles teimaram tanto, com um único argumento de que estava fazendo sol nessa manhã... E como se não bastasse ter que abandonar todos os planos e voltar no meio do caminho, o carro simplesmente mergulha em uma enorme poça de lama – até hoje ele está lá – e todos nós somos obrigados a ficar parados, em pé, do lado de fora, no meio de uma estrada totalmente deserta e tomando banho de graça.
– “Então Vini, vamos à praia!”, eles disseram. “Não vai chover, olha o sol que tá fazendo.”, eles disseram. – Vinícius reclamava com um tom de ironia
– Não sei se você lembra, mas você não discordou em nenhum momento. – Lembrou Haeska, levemente irritada.
– Tanto faz, quero saber o que a gente faz agora. Vamos ficar parados até morrer de tuberculose?
– Sem sinal. – Leonardo tentava ligar para nossos pais pelo celular.
– A gente poderia procurar algum lugar aqui perto pra ficar. – Sugeriu Nicklaus.
– Klaus, a gente tá no meio do nada, não tem nada aqui. – Haeska mostrava o local em volta. – O máximo que a gente pode encontrar é... nada.
– Vamos esperar alguém passar então. – Sugeriu Leonardo. – Ou isso ou o que o Klaus disse.
– Pra mim qualquer coisa serve. – Eu disse, nem tínhamos muitas opções mesmo.
– Eu posso ficar aqui enquanto vocês procuram algo. – Disse Ys. – Se passar um carro eu grito por vocês.
– Até parece que a gente vai escutar.
– Vamos todos juntos logo, não vai passar ninguém aqui nessa chuva. – Klaus já estava saindo dali, ele olhou mais uma vez para nós. – Se não vierem, eu vou sozinho.
– Ok, vamos. Vocês vem, né? – Perguntou Haeska indo em direção a ele.
– Eu já falei que posso ficar aqui.
– Não, Ys, você vem também. – Falou Leonardo a puxando pelo braço. – A gente não quer se responsabilizar se você sumir.
– Seus chatos, eu não vou sumir.
– Eu acho que isso vai dar merda. – Disse Vinícius. – Só acho...
E a conversa finalizou com isso, todos ignoramos o comentário negativo e seguimos em frente, Klaus estava bem a frente, o Vini demorou um tempo pra passar a seguir a gente, mas ele acabou cedendo. Caminhamos pela borda da estrada e nada, nem mesmo algum posto de gasolina, a floresta era muito densa e com certeza não teria algo por ali, mas estava todo mundo com frio e as árvores poderiam muito bem nos proteger da chuva, então foi para lá que fomos.
– Isso é uma droga. – Reclamou Klaus.
– Essa chuva vai acabar me matando. – Eu falei sentando embaixo de uma das árvores. – E eu tô morrendo de fome também.
– Tem chocolate no carro. – Leonardo estava de costas para mim, mas eu sabia que ele estava com um sorriso bem provocativo.
– Pensando bem, dá pra aguentar.
– Tem algo ali. – Ys apontava para o fundo da floresta.
Eu me curvava para conseguir ver o que ela estava mostrando, era difícil ver em meio àquela escuridão, mas com um pouco de esforço a imagem de uma casa ia se formando por detrás das árvores. Ela era bem grande, uma vitoriana isolada em meio a uma flora densa, tão difícil de encontrar, tão longe da cidade... Quem moraria em um lugar como esse? Ninguém, certamente. Porém eu não poderia negar que era bem bonita, mesmo estando velha e mal cuidada.
– Que linda. – Eu falei admirado.
– É uma casa velha. – Disse Vinícius. – Não tem nada de bonito nela.
– Deve morar uma família emo gótica bem século 19 lá. – Klaus parecia animado.
– Não Klaus, não deve morar ninguém lá. – Ys ia caminhando em direção a casa. – Então, vocês não queriam um lugar pra ficar? Provavelmente não mora ninguém lá, mas caso more, melhor.
Então a seguimos, a casa era bem mais longe do que parecia, a estrada ia se afastando cada vez mais até sumir entre as árvores, me pergunto como a Ys conseguiu ver essa casa tão rápido. Assim que chegamos na entrada, tocamos a campainha inúmeras vezes e simplesmente ninguém apareceu, felizmente a casa tinha um toldo acima da porta, o que impossibilitava que nos molhássemos.
– A gente podia entrar. – Disse Klaus, tocando a maçaneta.
– Klaus, você é burro? E se morar alguém ai e a pessoa simplesmente saiu pra fazer compras? – Haah o advertiu.
– É óbvio que não tem ninguém ai, essa casa tá caindo aos pedaços e fica no meio do nada ainda. – Vini apontava para uns pedaços de vidro no chão, provavelmente das janelas.
– Então vamos entrar. – Klaus tentou abrir a porta, mas ela estava trancada. – Droga!
– Você é burro, Klaus. – Disse Haah.
– Bem, se tem vidro no chão, quer dizer que as janelas estão “abertas”. Se quiserem entrar, seria uma alternativa... – Ys analisava os cacos de vidro.
– E essa pá? – Klaus disse apontando para o objeto que estava próximo aos cacos de vidro.
– É pra acertar sua cabeça. – Disse Leko.
– Então vamos, se eu continuar aqui fora eu vou começar a ficar sem ar. – Falei procurando uma janela qualquer e entrando na primeira que encontrei aberta.
O interior da casa não era diferente de como eu imaginava. Eu estava em um quarto, não havia nenhum eletrônico e os móveis pareciam os que tinham na casa da minha avó. Os outros vinham pela mesma janela. Leonardo foi o primeiro a entrar, logo depois vieram o Klaus, o Vini e a Ys.
– Cadê a Haah? – Eu perguntava indo em direção à janela. – Não vai entrar?
– Nessa casa velha? Nem morta, deve ser assombrada. Olha aquilo... – Ela apontava pra uma lápide que tinha no jardim.
– Não existe essas coisas. – Eu ri. – Mesmo se existisse, estamos todos aqui, ninguém vai abandonar ninguém. – Eu estendi a mão para ela. – Agora vem e para de frescura, se não morrer aqui dentro, vai morrer ai fora com essa chuva.
– Tá.
Então logo estávamos todos dentro da casa, eu com certeza não estaria ali se não fosse a chuva, a Haah estava certa quando falou sobre o dono da casa ter saido, porém no momento eu nem estava mais ligando pra isso, considerando que as probabilidades de eu morrer lá fora eram maiores do que as de alguém morar naquele lugar.
Com exceção da Ys, que estava sentada na cadeira da escrivaninha, todos optaram em sentar na cama de casal que ficava no meio do quarto, eu por outro lado sentei no chão ao lado do guarda-roupa.
– Você não tem medo de sair algo dai de dentro, Queijo? – Perguntou Haah.
– O Klaus já tá ai na cama.
– Nossa, se não fosse por mim a gente estaria lá fora na chuva, ok? – Klaus parecia ofendido com a piada, mas eu sabia que ele estava só brincando.
– Não fica se achando porque foi curioso, você não queria sair da chuva e sim ver como era aqui dentro.
– Tanto faz, poderíamos ver o resto da casa, não?
– Não. – Ys negou imediatamente. – Vamos ficar só aqui.
– Eu tô morrendo de fome. – Falei. – Seria bom se a gente tivesse entrado pela janela da cozinha.
– Bem, a gente pode procurar uma cozinha todos juntos. – Sugeriu Klaus.
– Você tá mais curioso do que o normal.
– Me deixa.
– Tenho que admitir que também tô com fome, e gordos são vocês, nem vem. – Disse Leonardo. – Enfim, se não morar ninguém aqui, obviamente não vai ter comida.
– Não custa tentar, não é? Com a fome que eu tô, como até o que tiver mofado. – Falei saindo do quarto.
Todos se levantaram e vieram logo atrás, era bem fácil de perceber que não morava ninguém lá na verdade, olhando os móveis empoeirados, os quadros tortos, papel de parede gasto, teias de aranha, baratas passando pelo chão. A medida que a gente andava pela casa, ficávamos mais próximos um dos outros e eu admito que, assim como eles, eu também estava com medo. Medo que alguém ainda morasse lá e simplesmente não aceitasse bem nossa presença na casa. Quem moraria em um lugar tão isolado? Um assassino de aluguel? Um psicopata antiquado? Uma pequena máfia local? Bem, pelo menos os quadros eram bonitos...
– Bem, acho que isso é a cozinha. – Avisou Ys.
– Não tem geladeira aqui. Tem fogão, fósforos, pratos, copos e sal. – Eu disse enquanto procurava por alguma comida pelo cômodo. – Porém... Nenhuma comida.
– É, vamos passar fome. – Leonardo falou com um tom de decepção.
– Agora eu estou sentindo fome também, culpa de vocês. – Reclamou Haah.
– Cadê o Klaus? – Perguntou Vini, olhando em volta. – Aquela borboleta deve ter entrado em algum cômodo no meio do caminho.
– Ótimo, vamos ter que procurar ele agora? – Uma pergunta retórica de Ys. – Por que ele tem que ser tão curioso?
– Ele não chega a ser assim normalmente, não sei o que deu nele. – Haah saia da cozinha. – Vamos.
Então todos saiam do recinto, fomos todos juntos atrás dele, mas não o encontrávamos em lugar algum da casa. Até mesmo procuramos do lado de fora e ele não estava por lá.
– Eu não queria dar essa ideia, porque sempre dá merda, mas... A gente podia se separar. – Eu disse bem chateado comigo mesmo.
– E se nos perdermos um dos outros? – Perguntou Haah.
– A gente pode se encontrar em algum lugar. – Sugeriu Leonardo. – Aquele quarto por onde entramos seria um bom lugar.
– Bem, então vai ser isso? – Perguntei.
– Vai ficar todo mundo sozinho? Eu não acho uma boa ideia, não é melhor irmos em grupos? – Vini não parecia seguro.
– Então, a Ys vai com a Haah, você com o Leko e eu vou sozinho.
– Por que você vai sozinho?
– Porque se irmos em 2 grupos não vai fazer muita diferença, quanto mais pessoas dispersas melhor.
– E se acontecer alguma coisa contigo? Não vai ter ninguém pra avisar o resto e vamos ter que te procurar assim como estamos procurando o Klaus agora e eu quero ir pra casa logo.
– Velho... Vai ser assim e fim, ok? Agora vamos. – Ele calou. Pela expressão do seu rosto, poderia dizer que ele estava me xingando mentalmente. Mas bem, eu não queria brigar...
Então nos separamos... Aquela casa mais parecia um labirinto, havia entradas que saiam em lugares que eu nem esperava, fora que só agora que eu estava sozinho percebia o quão macabros eram aqueles quadros e que a casa estava extremamente escura – não sei se é porque estava perto de anoitecer, mas sei que eu mal conseguia ver aonde eu estava indo – com sorte alguns relâmpagos iluminavam o caminho. Um barulho começa a ecoar na minha mente, eu fico parado por um tempo e percebo que ele vem diretamente da porta que ficava logo atrás de mim, eu havia passado por lá, mas não havia percebido que ela estava entreaberta, eu sou tão lerdo assim? Eu fui até lá, tentei ver se havia algo pela brecha que estava aberta, mas não conseguia ver absolutamente nada, então empurrei a porta lentamente. Uma figura, aparentemente humana, estava sentada ao chão de costas pra mim, fazendo barulhos com suas mãos, ela estava segurando algo? Sua cabeça estava virando bem devagar, ela estava pronta pra me encarar, meu coração começa a acelerar, meu olhar cruza com os olhos daquela criatura bizarra, seu rosto era totalmente desfigurado, seu nariz enorme e...
– PORRA, KLAUS, VOCÊ QUASE ME MATA DE SUSTO.
– Oi Lipe, olha o que eu achei! – Ele mostrava um livro pra mim.
– Um livro? – Fui andando até ele e peguei o livro das suas mãos. — “Penumbra”, belo nome.
– Cadê os outros? – Ele parecia estar a procura de alguém atrás de mim.
– Te procurando, a gente se separou pra te encontrar.
– Ah... Desculpa ter sumido, é que eu vi essa porta aberta e tive que entrar.
– E o livro? Do que se trata? – Eu perguntava enquanto folheava.
– Lendas, mitos e folclores. Tem até unicórnios ai. – Ele parecia entusiasmado enquanto falava. – Eu tava lendo, é bem legal.
– “Lendas seladas em ócio, esta é a chave que vos liberta para o eterno equinócio.” – Assim que eu terminei de ler em voz alta a contra-capa do livro uma escuridão tomou conta, então vento surgia dele, algo que eu nunca tinha visto antes em toda minha vida, as letras brilhavam e incrivelmente saiam das folhas, pareciam voar em sincronia com o vento — que estava bem violento – e formavam uma tempestade no quarto. Se escutavam vozes diferentes para cada palavra que saia do livro, vozes altas que dificultavam que escutasse qualquer outra coisa. Klaus estava abaixado e se segurava ao chão, enquanto eu não soltava o livro de jeito nenhum, mesmo que eu estivesse com vontade de joga-lo longe no momento.
– O QUE É ISSO? – Klaus gritava assustado.
– NÃO SEI, EU SÓ LI A CONTRA-CAPA.
– FAZ ISSO PARAR, LIPE.
– EU NÃO SEI COMO.
– FECHA O LIVRO.
– NÃO CONSIGO.
– O QUE TÁ ACONTECENDO AQUI? – Era a voz de Haah.
– HAAH, SAI DAQUI, ESSE LIVRO É DO DEMÔNIO. – Klaus tentava se levantar, mas caia ao chão de novo por causa do vento.
– QUE LIVRO? POR QUE TÁ VENTANDO TANTO?
Então o livro finalmente se fechava, a luz voltava e já havia parado de ventar. Ys, Leko e Vini apareceram assim que tudo parou. Eu joguei o livro pra longe e cai sentado no chão, coloquei a mão na testa — estava com dor de cabeça por causa das vozes que ecoavam tão alto no meu ouvido durante toda aquela bagunça — e permaneci parado lá, sem mais nenhuma reação, eu não estava bem.
– O... que... foi... isso...? – Klaus estava extremamente assustado.
– EU QUE PERGUNTO. – Haeska ainda estava nervosa com o que aconteceu.
– Não, eu que pergunto, o que aconteceu? – Ys cruzava os braços e esperava uma resposta.
– Parecia que tava ventando, mas nem tem janela nesse quarto. – Disse Leko. – E vocês não paravam de gritar, conseguem ser menos histéricos? Obrigado.
– Se você tivesse visto o que aconteceu, saberia o motivo da gente estar gritando. – Falei. – Eu sinceramente não entendi nada e nem quero entender, agora eu quero deitar.
– A gente vai dormir aqui mesmo então? Já vai anoitecer. – Perguntou Vini ignorando totalmente o que aconteceu. – Eu não queria, mas também não quero ficar na estrada no escuro, fora que ainda tá chovendo.
– Pra mim tanto faz, eu só quero deitar no momento. – Eu cambaleava indo até a saída do cômodo e caminhando em direção ao quarto. – Se precisarem de algo comigo, eu estou no quarto descansando.
Então eu os deixei lá e fui direto para o quarto, deitei na cama e fiquei olhando para o teto. O barulho da chuva agora estava me acalmando, ela parecia mais fraca do que antes, talvez finalmente fosse parar. Fiquei pensando no que havia acontecido até agora, pensando que amanhã a gente finalmente conseguisse sair daquele lugar, eu já estava quase dormindo... Quando o abajur que ficava na mesa de canto simplesmente resolveu voar na parede sozinho, quebrando-se em vários pedaços. Eu me levantei imediatamente para ver o que aconteceu, fui até o que restou do objeto para ver se o que eu pensava realmente tinha acontecido, voltei para a mesa e não havia nada que pudesse ter empurrado, a janela nem mesmo ficava em um lugar que o vento o lançasse para aquela direção.
– Ok, chega disso, não aguento mais. – Sai do quarto e fui procurar pelos outros.
Já havia anoitecido, ainda bem que algumas luzes da casa ainda funcionavam, porém eram muito poucas, haviam lugares que ainda estavam totalmente escuros. Andando pelos corredores eu comecei a perceber que os quadros pareciam se mexer agora, talvez o vento de alguma forma estivesse conseguindo fazer isso, mas depois do que aconteceu com o abajur eu imaginava que pudesse ser qualquer coisa.
– Queijo! – Era o Leko correndo na minha direção. – Você passou na cozinha?
– Não, eu tava no quarto. – Ficamos nos encarando por um tempo.
– Só poderia ter sido você que fez isso, as cadeiras da sala... – Ele saiu correndo imediatamente. – Vem ver!
Comecei a segui-lo, estava curioso pra saber o que havia acontecido, pela sua expressão parecia ser algo de outro mundo. Estávamos cada vez mais próximos, ja se via as luzes da cozinha e quando finalmente chegamos lá as cadeiras estavam todas posicionadas uma em cima da outra, era algo que só uma pessoa poderia fazer, isso não poderia acontecer sozinho em nenhuma circustância, era... Parecia... Impossível... Todos estavam lá também, tão surpresos quanto eu.
– Vocês não estão brincando comigo, não é?
– Estávamos todos juntos e quando chegamos aqui simplesmente estava assim. – Disse Leonardo.
– Queijo, você disse que a casa não era assombrada, mas primeiro acontece aquela ventania e agora as cadeiras ficam assim do nada. – Haah parecia assustada. – Eu quero sair daqui, tá tudo dando errado hoje.
– Pode ter alguém nessa casa brincando com a gente. – Ys falava enquanto colocava as cadeiras no lugar.
– Eu sei que isso só vai piorar a situação de vocês, mas... Quando eu tava no quarto o abajur sem mais nem menos voou na parede e quebrou em pedaços. – Avisei. – E não foi o vento, pois não tinha como ele soprar naquela direção.
– Eu falei que ia dar merda, mas não... “Vamos passar a noite em uma casa isolada em uma floresta”. — Vini reclamava.
– Foi você que sugeriu isso.
– Foi? Tanto faz...
– Lipe, vem aqui. – Klaus me chamava para uma roda que ele, Ys e Haah tinham feito. – O livro... As páginas estão em branco.
– Como assim? Tinha uma lenda em cada página. – Eu pegava o livro e folheava. – Não pode ter sumido assim, é impossível.
– Se é impossível, por que aconteceu? – Ys parecia confusa.
Assim que ela terminou de falar, um trovão bem grave e forte ecoou por toda a casa assustando a todos e logo depois os armários da cozinha abriram. — todos, sem exceção – e os copos, talheres e pratos que tinham dentro deles começaram a voar pelo cômodo sem motivo algum aparente. Todos corriam e gritavam sem saber o que realmente estava acontecendo.
– VENHAM PRA CÁ. – Leonardo chamava todos para baixo da mesa e logo estávamos todos juntos ali.
– QUEIJO, A CASA É ASSOMBRADA. – Haah estava quase chorando, me sacudindo, pareceria uma bronca se ela não estivesse tão desesperada. – VOCÊ DISSE QUE ELA NÃO ERA.
– EU TAVA ERRADO, TÁ? Agora precisamos sair daqui de algum jeito.
– Alguém pega uma cadeira e quebra a janela. – Sugeriu Klaus.
– É muito arriscado, alguém pode se machucar enquanto estivermos passando. – Eu alertei. – Vamos fazer assim, vou contar até três e a gente corre em direção à saída da cozinha.
– Eu conto. – Disse Haah. – Um... TRÊS! – E correu em direção à saida, fomos todos logo atrás.
Como se não bastasse as portas dos corredores não paravam de abrir e fechar também, os quadros estavam saindo das paredes e sendo lançados em direção a nós, as luzes que ainda estavam acesas piscavam sem parar. Tínhamos que ser rápidos e atentos, ou seriamos atingidos por todos aqueles objetos. Corriamos o mais rápido que podíamos para não morrermos.
– SOCORRO. – Era a voz de Ys, um espelho quase cai em sua cabeça, haviam pedaços de vidro espalhados por todo o chão.
– VOCÊ TÁ DE TÊNIS, SÓ PASSA POR CIMA. – Gritou Vini.
– Gente, o quarto tá logo ali. – Klaus apontava para a porta que estava aberta, e um relógio carrilhão caia na sua frente. Se ele tivesse dado mais um passo teria sido esmagado... – QUASE.
– Agora o relógio tá no meio do caminho. – Falei.
– EMPURRA ISSO. – Gritava Haeska.
– CALMA. – Eu tentava empurra-lo, mas era muito pesado. Todos vieram me ajudar a empurrar e conseguimos abrir caminho.
Corremos em direção ao quarto, porém ao chegarmos lá os móveis estavam todos amontoados em frente à janela, impedindo nossa passagem. Todos nos olhamos assustados, teríamos que procurar outra saida da casa ou morrer lá.
– Isso deve ter alguma coisa a ver com o livro. – Disse Ys, tomando o livro da minha mão. – Você disse que ele tinha lendas em cada página, certo?
– Sim. – Respondi.
– Vocês vão resolver isso enquanto estamos sendo bombardeados por móveis? – Perguntou Vini apontando para o corredor, que estava uma bagunça. – Se ficarmos parados aqui resolvendo isso vamos morrer, temos que procurar uma saída.
– Seja lá o que esteja fazendo isso, conhece muito bem a casa e com certeza sabe onde estão todas as saídas e nos impedirá de sair, assim como fez agora.
– O que tá escrito na contra-capa do livro parece um feitiço de libertação. – Ys analisava o objeto.
– Feitiço? – Leko parecia desconfiado.
– Nesse momento eu acredito em qualquer coisa. – Falei.
– Pode me emprestar o livro, Ys?
– Sim. – Leko pegou o livro das mãos dela e leu os versos que ficavam na contra-capa.
– Seja lá o que libertamos, deve ter algum jeito de aprisiona-lo aqui novamente, não?
–Talvez.
– E se a gente lançar o livro tipo uma pokebola? – Perguntou Haah. – Não sei, a gente podia tentar né?
– Admito que eu pensei nisso também. – Disse Klaus.
– Então se o livro tinham lendas aprisionadas nele e isso está acontecendo porque você as libertou, Queijo... Então o que está causando tudo isso é uma lenda. – Ys formava uma teoria enquanto pegava o livro das mãos do Leko.
– Provavelmente, mas qual?
– Com certeza é algum espírito. – Disse Haah, ela não parecia muito confortável. – Mas parece tão vago...
– Sim, é bem vago ser apenas espírito.
– As cadeiras na cozinha... Poltergeist. – Disse Leko. – Aquele filme.
– Faz sentido. – Klaus concordava. – Só o que vimos até agora foram móveis se movendo, portas abrindo e fechando e luzes piscando, nada além disso.
– Então não é uma pessoa que tá fazendo isso... É a casa. – No momento que Ys terminou de falar isso, o candelabro que tinha no quarto caiu, quebrando e tornando-se pedaços. – ISSO QUASE ME ACERTOU.
– Mas gente, como vamos capturar? Ainda tá aberta a opção de jogar o livro? – Perguntou Haah.
– Se tivesse pelo menos algo escrito poderíamos pensar em algo. – Eu disse. – E se o enfraquecermos?
– Como fazemos isso? – Perguntou Leko.
– GENTE, UM CANDELABRO QUASE ME MATOU, A GENTE VAI FICAR AQUI MESMO? – Ys estava assustada.
– Finalmente alguém concorda comigo. – Vini já estava saindo do quarto, quando um quadro foi lançado na parede bem do seu lado. – Pensando bem, vou ficar aqui mesmo...
– Eu já li que sal enfraquece espíritos. – Disse Klaus. – E no caso de poltergeist, a gente pode jogar sal em seus restos e queimar.
– Mas como vamos achar o cadáver disso? – Vini já estava cedendo e cooperando com a gente.
– A lápide. – Haah corria em direção aos móveis que estavam em frente à janela. – Tem uma lápide no jardim. – Ela apontava.
– É mesmo, você me mostrou mais cedo. – Eu disse. – Então no final de tudo temos que encontrar uma saída de qualquer forma...
– EU DISSE. – Vini estava com uma felicidade muito bizarra. – MAS VOCÊS NUNCA ME ESCUTAM. – Ele saia do quarto, sem hesitar dessa vez.
– Ok, vamos procurar uma saída então. – Leko o seguia.
– Espera, temos que pegar os fósforos e o sal que eu vi na cozinha. – Eu disse.
– Gente, estamos capturando um fantasma, vocês tem noção de como isso é legal? – Klaus parecia animado.
– Não Klaus, isso não é legal. – Disse Haah. – A gente pode morrer, sabia?
– Eu sei. – Ele sorria.
– POR QUE VOCE TÁ SORRINDO, SUA ANTA?
Então voltávamos para a cozinha, as luzes ainda piscavam, mas os móveis já não estavam mais sendo lançados, o que nos deixava mais tranquilos, porém não podíamos baixar a guarda por isso, estávamos sempre olhando em volta. Quando finalmente chegamos, encontramos todos aqueles pedaços de vidro e talheres no chão, foi difícil chegar até onde estavam os fósforos e o sal, mas eu consegui.
– Agora temos que achar um saída. – Disse Vinícius.
– Sim, vocês já foram no andar de cima? – Perguntei.
– Eu e a Ys passamos por lá quando estávamos procurando o Klaus. – Respondeu Haah.
– ISSO, TEM UMA VARANDA LÁ. – Ys saiu correndo de repente. – Venham logo!
A seguimos, ela nos levou até a entrada da casa, aonde estavam as escadas no meio do enorme salão. Enquanto subíamos, parecia que os degraus eram infinitos e quando estávamos na metade...
– Que barulho é esse? – Haah perguntou.
– Parece que tem algo rolando... – Disse Leko. – E não é o Queijo. – Assim que ele falou isso um sofá gigante vinha rolando lá de cima pelas escadas.
– CORRE. – Gritei.
Descíamos as escadas correndo, não olhei para trás em nenhum momento para não acabar caindo. Todos começaram a pular da escada pelas laterais até que sobrou só eu e quando eu já estava próximo do primeiro degrau... Eu tropecei... Fui rolando e parei no fim das escadas, o sofá vinha logo atrás, porém ele quicou no final e voou por cima de mim, quebrando a porta da entrada, junto à parede.
– SAÍDA. – Vini corria lá pra fora. Haah e Leko me levantavam.
– Você tá bem, Queijo? – Haah perguntou.
– Tô, agora temos uma saída. – Eu disse caminhando até lá fora. – E não para de chover.
– Ainda temos que aprisionar o espírito, não é? – Ys perguntou.
– Se quisermos passar a noite aqui, sim.
– Eu só quero ir pra casa. – Vini choramingava.
– Haah, me mostra onde você viu a lápide. – Ela afirmou com a cabeça.
Então todos a seguimos, não tinha percebido antes como aquele jardim parecia muito um cemitério, apenas julgando pela aparência, pois mortos só havia um. Talvez a noite nos faça ver as coisas de um jeito diferente... Ainda mais depois de tudo que aconteceu.
– Aqui. – Ela disse apontando para o que tanto procurávamos.
– Certo, agora precisamos cavar isso, não é? – Perguntou Klaus, segurando uma pá. Ficamos todos o encarando por um tempo.
– Aonde diabos você achou isso? – Perguntei.
– Ali. – Ele apontou para o chão, um pouco abaixo da janela que entramos.
– Tá, me dá isso ai. – Eu peguei a pá da sua mão.
– E isso era pra ser um passeio à praia... – Lembrou Leko. – E agora estamos desenterrando um cadáver...
– Trágico. – Haah suspirava.
Então eu comecei a cavar, era difícil fazer esforço naquela chuva, acabei cedendo no meio e deixando o trabalho para o Leko que cavou todo o resto até conseguirmos espaço para abrir o caixão. Aquele fedor de coisa morta era insuportável e agora que o corpo estava exposto à chuva, ele se molhava inteiro e a situação piorava.
– Credo, isso fede. – Vini se afastava imediatamente.
– Não vamos conseguir crema-lo só com esses fósforos. – Eu disse.
– Eu tenho gasolina no carro, posso ir buscar. – Disse Leko.
– Vai lá. – Então ele foi correndo em direção à estrada.
– Como vamos colocar fogo nele com essa chuva? – Perguntou Ys.
– Tem razão.
– Vamos levar ele lá pra dentro. – Sugeriu Klaus.
Todos ficamos nos olhando, era o melhor que poderíamos fazer, realmente era impossível ele queimar com toda aquela água... Então foi o que fizemos, todos tiramos o caixão da cova e o arrastamos até a casa, o deixando em frente às escadas.
– Agora falta só o Leko com a gasolina.
– GENTE. – Era a voz do Leko que entrava na casa correndo. – Uma van parou pra mim na estrada e aceitou dar carona pra gente até a cidade.
– Então por que trouxe a gasolina? – Perguntou Vini. – Agora não precisamos mais queimar isso.
– Gasolina? – Ele perguntou, até perceber que estava segurando um galão em uma de suas mãos. – Nossa, eu acabei esquecendo de colocar de volta no carro.
– Então vamos aproveitar e queimar tudo, não é? – Perguntou Klaus.
– Por que não? – Eu peguei o galão das mãos de Leko e banhei o cadáver em gasolina.
Então joguei sal, acendi um dos fósforos, olhei uma última vez e joguei, cremando todo o corpo. Todas as luzes da casa que ainda estavam acesas apagaram de vez e o livro, que estava com a Ys, abriu imediatamente em uma das páginas que agora estava completa. Era a de número 53, de título “Poltergeist”.
– Então o capturamos? – Perguntou Ys confusa, enquanto olhava a página. – É uma página pra cada lenda mesmo? Temos mais sessenta e uma páginas pra colecionar, que legal...
– Bem... Pelo menos temos uma, não é? – Tentei olhar pelo lado bom.
– Não teríamos nenhuma se o Klaus não tivesse achado esse livro e você lido a contra-capa em voz alta. – Disse Vini.
– Então... Vamos pra casa agora. – Leko saia da casa.
Todos pareciam felizes agora, apesar de tudo, finalmente iríamos voltar para casa. Fomos até a estrada e nos encontramos com o cara que ia nos dar carona. Ele parecia estar nos seus vinte anos, ele tinha um topete ruivo, uma barba mal feita e um sorriso idiota, se vestia como um roadie guitarrista de banda de rock, suas calças eram rasgadas e seus braços cobertos de tatuagem. Entramos na van, que por sinal tinha sacos de salgadinhos e latas de refrigerantes vazias espalhadas. Leko ainda foi pegar nossas coisas no carro e quando finalmente estava tudo pronto, nós partimos. A chuva ainda estava forte, eu pensava enquanto olhava pela janela até quando ia continuar esse clima.
– Estavam na casa dos Köller? – Perguntou o rapaz que dirigia a van.
– Aquela mansão no meio do nada? – Perguntou Leko.
– Sim. – Ele ria. – Eu os conhecia na infância, inclusive conheço a Ada até hoje.
– Bem... Tinha um morto lá. – Disse Haah normalmente, até perceber que não havia soado muito bem e tentar corrigir. – Tipo, uma lápide, não que a gente tenha desenterrado ele, ninguém faz isso, né?
– Era o marido da Ada, um grande amigo meu. Aquela casa... A gente sempre passava lá quando estávamos a caminho da praia. Meu irmão mais velho que nos levava, então ele sempre deixava a gente passar por lá. Eles acabaram se casando quando cresceram e se mudaram para aquele lugar, afinal, tínhamos grandes lembranças...
– Onde mora essa Ada agora? – Ela perguntou.
– Na cidade, ela encontrou um apartamento só pra ela, não aguentava morar nessa casa com a ausência do seu falecido marido.
– Sinto muito por ela.
– Queijo. – Ys me chamava. – Eu posso ficar com o livro por uns dias?
– Claro.
– Obrigada. – Percebi que o rapaz da van nos olhava pelo retrovisor interno.
– Eu posso passar o endereço da Ada depois... – Ele disse.
– Por que? – Perguntou Leko.
– Vocês vão precisar, tenho certeza. – Eu conseguia ver seu sorriso pelo espelho...
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