O Estranho que Apareceu na Minha Vida

7 O loiro que não é tão valentão assim


Notas iniciais
Pessoal, vcs devem estar querendo me matar, neh? Tive um bloqueio criativo! Nunca demorei tanto pra atualizar uma história! Mas não me estrangulem, por favor, pelo menos leiam o cap. antes.

POV. Bianca

As coisas se acalmaram depois. Voltamos à lanchonete, todos já morrendo de fome, e almoçamos. Um fato que notei naquele dia foi minha capacidade de atuar. Nunca pensei que poderia fingir felicidade tão bem como durante o almoço. Ri bastante das piadas idiotas que eles faziam, e da aparentemente mal sucedida guerra de batata frita.

Ninguém perguntou nada sobre o que Gaby dissera. Não sei se tinham medo de perguntar pelo teor da questão, ou se não queriam me desanimar. Talvez não quisessem me incomodar somente.

Depois do almoço fomos para a pista de skate. Eu já tinha ouvido falar do lugar muitas vezes antes, porém nunca me senti a vontade para ir ali. Katie não andava de skate e os guris de lá pareciam um bando de maloqueiros (não que eu não fosse), mas também eram do tipo que assediavam as meninas que passavam ou então roubavam os pedestres distraídos, tomando suas coisas e derrubando qualquer coisa que estivessem segurando.

Quando cheguei acabei por me animar mais. Era um lugar bem legal. O pessoal de lá praticava skate e bicicleta, treinando as manobras mais difíceis nos obstáculos de canos e rampas. Haviam até uns garotos fazendo giros sob as rodas de patinetes. Fiquei triste por não ter trazido meu skate.

–Bi, você sabe andar? -perguntou Amber, tirando o seu da mochila grande.

–Sei. Mas não trouxe o meu.

Olhares se voltaram para mim.

–Você não é nada do que parece, guria. -comentou Gabe, surpreso.

Mostrei-lhe a língua.

–Você estuda num colégio de playboyzinhos e vem me dizer isso? -sorri, mostrando a provocação evidente.

–É que você tem cara de patricinha. -ele deu de ombros.

–Tenho? -fingi uma expressão horrorizada, olhando para todos.

Por mais incrível que pareça todo mundo concordou! Cara, preciso voltar a fazer minhas mechas azuis pra parar de ser confundida assim.

Amber me emprestou o skate enquanto descansava e aproveitei para dar umas voltas. Todos pareciam estar falando das mesmas bobagens, isso me deixava feliz, penso. Mas nunca o suficiente.

Quando devolveu o skate para Amber ela foi, um pouco hesitante e o ofereceu para Gabe, já que o dele tinha sido detonado pelo tal de Diego. O rapaz lhe dera um sorriso malandro e agradeceu, saindo.

Gabe andava de skate muito bem. Girava sob os canos e fazia flips no ar, parecia quase natural em quatro rodas.

Naquele momento, enquanto todos estavam distraídos, fui para trás da rampa de skate, querendo ficar um pouco sozinha. Sentei no chão, abraçando os joelhos e me encolhendo.

Antes que eu percebesse, lágrimas embaçaram minha vista. Gaby tinha estragado tudo. Eu houvera passado dias me preparando psicológicamente para começar uma vida nova. Tinha feito de tudo pra não cometer erros com ninguém, não fazer inimigos. E ali, depois de tudo, ela estragou isso também.

Pensei que talvez fosse bom me afastar daquela escola, mas ela nunca ia me deixar em paz. Nossa richa era antiga. Gaby abusava das garotas novas toda vez que entravam no colégio e, três anos atrás, eu era caloura. Sofri humilhações imperdoáveis nas mãos dela antes de começar a reagir. Depois isso se transformou em ódio puro. E então comecei a ter problemas em casa, com os remédios da minha mãe e suas alterações de humor. As crises dela começaram nesse período. Ora tinha ataque de choros convulsivos, ora estava feliz como uma menininha de 7 anos, estranha, alegre demais, superativa, anormal.

Tudo foi como uma bomba. No dia em que cheguei no meu limite fui suspensa por duas semanas. Espanquei três garotas da laia dela, suas amiguinhas, até elas desmaiarem. Foram precisos dois garotos do segundo ano pra me segurar. Logo após esse dia as coisas pioraram. Eu apanhava na escola dos namorados das garotas que me importunavam, inclusive Kyle, mas também batia neles e nas meninas que me provocavam.

Depois que minha mãe morreu tudo saiu mesmo de controle. Só não fui expulsa porque a maior parte dos confrontos acontecia fora da escola. Katie viajou por dois meses, ela era minha única amiga e consequentemente a única pessoa capaz de me acalmar.

Fazia muito tempo que eu me sentia sozinha. Desde sempre, creio. Acho que sempre estive lutando sozinha. E não somente conra Gaby, estive lutando contra o mundo, contra toda a realidade assustadora que me oprimia.

Passei as mãos pelos olhos, secando-os. Não podia me deixar levar agora.

Levantei o olhar ao ver um movimento estranho na pista.

Eu não devia estar aqui. Pensei É perigoso.

Outra coisa que me recordo de ouvir sobre esse bairro era o fato de que a maioria dos grupos de drogados e gente do pior tipo se reunia aqui. Era tarde demais quando notei isso. Um garoto se aproximou de mim, pelos olhos vermelhos pude notar que estava alterado. Ele agarrou meu braço com força.

–Me larga! -debati-me, irritadiça.

Eu ainda estava abalada por causa das lágrimas, mas levantei o punho e enterrei-o na testa dele. O rapaz caiu, chocado por um momento, agarrei-lhe a gola da camisa.

–O que você queria fazer comigo?! -perguntei em tom mais alto- Acha que vai sair assim?

Dei-lhe um chute no peito que o fez ir ao chão.

–Sorte sua que não estou com vontade de te dar uma surra. -resmunguei.

Quando me virei dei de cara com Gabe. Ele estava com aquele sorriso de delinquente no rosto e as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta.

–Eu ia ajudar.

Dei risada.

–Jura?

Ele fez cara feia.

–Não é isso o que um cavalheiro deveria fazer quando uma dama está em perigo? -indagou, brincando.

–Estou bem longe de ser uma dama. -mostrei-lhe o punho fechado, onde meus dedos ainda estavam machucados com a pressão dos socos que dera em Gaby e no estranho- E você também... não é um cavalheiro.

Acho que soou mais melancólico do que foi a intenção. A expressão sarcástica dele se desfez, ficou sério por um segundo. Abaixei a cabeça, engolindo a tristeza, então levantei os olhos com um sorriso de desculpas.

–Foi mal. Não pretendia cortar o clima.

–Não faça isso. -pediu ele, então pousou uma mão no meu ombro- Se quiser chorar, chore. Sorrir por cima de dor nunca fez ninguém feliz.

Fiquei em silêncio, atônita. Não esperava isso dele.

–O que ela disse, sobre sua mãe... é verdade, não é?

Minhas mãos começaram a tremer, olhei para o chão.

–É.

–A culpa não é sua. -falou, tirando a mão do meu ombro.

–Eu sei. -murmurei.

–Não parece. -notou.

–E o que você tem a ver com isso? -cortei-o, ficando irritada.

Ele deu um sorriso surpreso.

–Eu? Absolutamente nada. Sou só um poço de bom vontade em tentar animar minha companheira de briga.

–Sinto muito. -disse, tendo certeza que tinha sido rude.

–Não sinta. -ele segurou meu braço e começou a caminhar ao meu lado- Vamos?

–Aonde?

–Pra casa. Você e eu moramos perto.

Franzi o cenho.

–Como sabe?

Ele deu um sorriso de canto.

–Te vi no ônibus hoje de manhã. E no caminho da escola.

Não argumentei contra isso, porém também não me lembrava de tê-lo visto.

–E os outros? -quando me virei para encará-lo Gabe segurava o celular.

–Eles já estavam indo mesmo. Vou só mandar uma mensagem pra avisar que vamos na frente.

Suspirei, minha tristeza parecia funda, como um poço. Não chorei, acho que teria me recriminado muito se o fizesse.

–Bianca. -chamou Gabe.

Levantei a cabeça, ciente de que a primeira vez que ele me chamava pelo nome.

–Você não é a única que tem problemas com pais. -contou, sem olhar pra mim- Eu... fui um filho bem ruim, sabe? Acho que as coisas simplesmente não saíram como eu queria.

–O que aconteceu? -perguntei, subitamente distraída pelos dizeres inesperados.

–Minha mãe. -começou- Ela me odiou desde o momento que nasci, creio. Por minha causa teve que desistir do sonho de ser modelo e mudar de cidade. Me largou na porta do meu pai e foi embora. Meu pai me detesta também, bom, fazer o quê? Sou o filho bastardo que ele teve com a amante. Minha madrasta me odeia. Acho que foi por isso que sou assim. Torto.

Ele jogou a cabeça para trás, dando de ombros.

–Eles que se ferrem, viu? Tomara que morram todos. É o que eu penso.

–Você... é mais complicado do que parece. -comentei, olhando-o surpresa.

–Sério? Diga isso ao professor de matemática, ele acha que sou a criatura mais primária dessa face da Terra. -ele riu- Quer um refri? Tô morrendo de sede!

Gabe parou em uma lanchonete e comprou duas latinhas de refrigerante para nós. Sentamos os dois no banco do ponto de ônibus.

–O que acontece com você? -perguntou no fim- Qual é a sua história deprimente?

–Quer mesmo ouvir?

–Por que não?

–Sei lá. Por que é deprimente? -sorri sem humor.

Ele deu outra risada descontraída.

–A vida é deprimente. Tudo em geral é excessivamente deprimente. E acho que não vou morrer por ouvir sobre isso, né?

Eu tive que concordar com ele naquela hora. Então lhe contei minha história. Gabe não disse uma palavra até eu terminar; sua expressão nada mostrava. Acho que pensava.

–É isso. -concluí, avaliando-o bem.

–É uma história deprimente mesmo.

–É. Acho que sim.

Ele se virou para mim com uma cara obtusa.

–Por que não queria que os outros soubessem?

Hesitei em responder.

–Quem quer ser amigo de uma guria problemática? -perguntei, rindo.

–Eu.

A resposta me surpreendeu. Gabe me deu uma daqueles sorrisos que confundiam.

O ônibus chegou logo em seguida. Embarcamos e passamos a conversas sobre coisas mais agradáveis. Gabe gostava de andar de skate e de tocar guitarra. Perguntei se ele fazia parte de uma banda, mas o mesmo respondeu que não tocava fazia tempos, passando mais tempo fora de casa do que dentro.

Era um garoto bem diferente do que eu imaginava. E, sinceramente, gostei da pessoa que ele demonstrava ser. Não só um idiota qualquer que gostava de brigar, mas uma pessoa bem impulsiva e infantil, que ao mesmo tempo tinha pensamentos profundos e pavio curto.

Paramos na esquina do hotel.

–Nos vemos amanhã? -perguntei.

–Claro que não. Vou estar te esperando ainda hoje mais tarde na festa.

–Festa? -questionei, sorrindo.

–É. Todo mundo vai. Topa?

Dei de ombros, eu não ia a um lugar divertido fazia tempos.

–Por que não? Onde vai ser?

–Conhece a balada do Harlow? É duas ruas depois dessa. O pessoal pediu par convidar.

–Sei onde é. -ajeitei a mochila nos ombros- Que horas?

–Às onze. Acho que vai rolar até amanhecer. Mas se a patricinha não tem horário para dormir... então tá tudo bem.

Dei-lhe um empurrão fraco no ombro.

–Estarei lá.

Ele piscou pra mim, sorriu, e foi.

Voltei para o hotel com um misto de felicidade e tristeza. Feliz por ter feito amigos, triste porque... porque sou assim. Talvez fosse por Gaby, ou talvez pela simples depressão em si.

Não contei isso para Gabe. Nem da minha doença nem dos cortes. Acho que vou ligar para Katie. Essa noite ainda me promete muitas coisas.