Notas iniciais
Demorei bastante! Foi mals, mesmo, mas consegui terminar esse. Aproveitem!

POV. Bianca

2 semanas depois...

Estou mudando de escola.

É, foi chocante pra mim. O fato é que não tive muita escolha. Minha responsável legal (quem chamo de Tia Diana) estava preocupada com o aumento da violência nos arredores do meu colégio e decidiu que seria melhor ir para outro, um colégio de playboys e patricinhas no centro da cidade. Tivemos várias discusões sobre o assunto, porém acabei sendo obrigada a ir de qualquer jeito. Tia Diana era uma solteirona de seus trinta quase quarenta anos. Fumava, bebia e não se importava muito com o que eu fazia da minha vida ou minhas notas na escola.

–Desde que você não me apareça grávida ou morta vai estar tudo bem. -dissera no funeral da minha mãe, dois meses atrás- Não vou cuidar de criança nem de funeral.

Foi assim que apareci nesse hotel. Eu tinha uma casa e uma mãe pra tomar conta de mim. Isso antes do incêncio.

Eu não estava lá quando aconteceu. Minha mãe estava na casa, eu na escola. Quando voltei a pé pra casa estava ansiosa para mostrar pra ela minha melhora nas notas, tinha recebido o boletim e estava feliz com ele. Mas quando cheguei em casa tudo estava queimado, em cinzas, e carros da polícia, dos bombeiros, ambuláncias e veículos funerários se acumulavam na frente da rua. Uma multidão de curiosos ainda estava ali, demorei a perceber que a casa era a minha. Corri até os policias com lágrimas começando se formas nos olhos e gritei por minha mãe. Acho que nunca vou esquecer o olhar que me foi dirigido por aquele homem de farda.

–Aconteceu um acidente. -falou apenas.

A ficha caiu. Minha mãe estava morta. O lugar cheirava a carne queimada.

Depois disso fui para muitos lugares. A delegacia, a assistência social, o tribunal, o funeral, o enterro, o hotel. O caso foi arquivado como suícidio.

Eu não deveria estar tão chocada com isso. Minha mãe sempre teve depressão crônca, tomava remédios e mais remédios pra conseguir levantar da cama toda manhã. Aquelas pílulas contumavam deixar ela esquisita. Feliz demais, entorpecida demais, animada demais. Depois ela dizia que já não precisava de tratamento psiquiátrico e largava os remédios. Então vinham os choros, as crises, a carência, os surtos, as internações. Sempre foi assim. Acho que foi por isso que meu pai a abandonou antes de que nascer. Minha mãe dizia que ele nunca soube que ela estava grávida, mas isso tanto melhor. É tudo a mesma coisa.

Porém, apesar de tudo, ela sempre se esforçou muito pra me criar. Fazia de tudo a seu alcance por mim. Ainda que tivesse de surportar tudo aquilo o mundo ainda tinha sentido, sabe? Eu seria forte por ela. Mas agora nada mais parecia ter cor ou significado. Ela estava morta.

Lembro do meu estado quando cheguei no hotel com aquelas palavras da minha tia. As pessoas da minha família sempre foram muitos distantes, cada um com sua infelicidade espalhados pelos cantos do mundo. Minha tia, Diana, era a que morava mais perto, consequentemente, vim parar aqui, sozinha. Naquela noite depois do funeral, quando fui dormir pela primeira vez naquele quarto, recordo-me de chorar muito. Mesmo que não soubesse naquele momento, mas minha vida se resumiria a choros por muito tempo.

Dias depois as pessoas do meu colégio descobriram sobre minha mãe. Alguns tentaram me consolar, outros não disseram nada. Não sei qual dos dois era pior. Foi também esse o momento que a garota que mais me odiava, Gabi, começou a me humilhar na escola. Falava da minha mãe como se fosse louca e dizia que ela deveria ter pôsto fogo na casa comigo dentro. Depois que ela disse isso voltei para casa e cortei os pulsos pela primeira vez. Foi a primeira vez apenas.

Não falei para minha tia por dois motivos. 1) Ela não se importava. 2) Eu tinha amigas naquela escola, não queria perder isso. Entretanto isso não foi o suficiente para convencê-la.

–Eu já disse. Não quero mais mortes, dá muito trabalho. Só vá logo. -cuspiu com aquele cigarro na boca.

E eu estava indo.

Geralmente eu mal falava com minha tia. Dormíamos em andares separados e eu recebia uma mesada boa o suficiente para me manter por mês e comprar algumas coisas que eu queria então visitá-la não era necessário. E nem agradável. Por isso me sentia melhor quando estava sozinha. Melhor... sozinha.

*****

Era primeiro dia de aula. Acordei com sono. Tinha passado a noite sem conseguir dormir direito, levantei arrastando os pés e esfregando os olhos, apática. Tomei um banho quente, sentindo-me acordar melhor, porém também senti o peso das olheiras ao redor dos olhos.

Saí da banheiro com fumaça saindo da pele e comecei a me vestir. Como naquela escola não tinha uniforme (graças a deus) pus uma blusa de yin e yang preta e branca larga com o ombro caído e uma calça jeans preta cor de nanquim com os joelhos rasgados. Meus cabelos loiros estavam cheios de nós e, depois de muitas brigas com a escova, consegui fazer parecer cabelo de gente. Quando olhie no relógio vi que não teria tempo de comer. Então só calcei meus coturnos pretos e enfiei o gorro cinza na cabeça, agarrando minha mochila surrada pela alça e saindo.

Peguei um ônibus pra chegar lá, fora isso ainda tive de andar um bocado. Fiz uma careta quando cheguei no endereço.

Fui colocada numa escola de patricinhas?

Fiquei de boca aberta, tendo a sensação de que ia me dar muito mal ali.

Não que eu fosse uma rebelde rockeira ou alguma coisa do gênero. Minhas roupas não eram só pretas e até tinha coisa rosa lá no meio, mas detesto gente esnobe e, é claro, o sentimento é mútuo. Como eu não estava com vontade de ficar ali parada com cara de idiota decidi entrar.

O prédio era enorme. Fiquei perdida nos primeiros corredores. O sino soou e eu ainda não tinha conseguido achar minha sala. Fiquei tentada a simplesmente ficar ali até o intervalo e ver no que dava, foi quando senti um toque no eu ombro. Me virei para encarar uma garota. Acho que ela tinha a minha idade. Os cabelos castanhos estavam trançados em uma trança lateral, os olhos eram verdes e no rosto ela tinha um sorrisinho falso.

–Oi, meu nome é Amy e sou sua colega de classe. -ela pronunciou as últimas palavras em um tom meloso desagradável- Venha que eu te mostro sua sala, novata.

Não gostei dela logo de cara. Era exatamente o tipo de pessoa que adorava me intimidar, o problema é que eu não conseguia aceitar ofensas de cabeça baixa. Era desse jeito que as coisas acabavam em brigas, socos, detenções, suspensões, hematomas e tudo o que se pode imaginar. Amy não parecia ser do tipo que partia pra violência, por isso me acalmei em relação a isso.

–É aqui. -ela apontou para uma porta em que estava escrito Sala 15C.

Amy entrou na minha frente, andando como uma supermodelo, vestida com uma blusinha rosa e uma mini saia preta, nos pés uma sandália também cor de rosa. A garota fez questão de chamar toda a atenção, abrindo a porta de supetão, atraindo todos os olhares. Ela deu aquele sorriso espalhafatoso, fazendo a professora parar a aula.

–Não seja tímida! -Amy agarrou meu braço e me puxou para o meio da sala.

–Essa é a aluna nova, pessoal! Vamos dar boas vindas pra Beatriz!

Fiz uma careta, ouvindo alguns risos do fundo da sala.

–Hum, é Bianca. -corrigi-a baixinho.

–Tanto faz, novata. -ela deu uma risada aguda.

Eu estava prestes a me sentar quando um garoto olhou para mim. Ele não estava prestando atenção no que acontecia a princípio, mas quando me olhou ficou atônito.

Mesmo que eu só o tivesse vista duas vezes na vida conseguiria o reconhecê-lo em qualquer lugar. Seus olhos verdes claros se arregalaram, o cabelo castanho desfiado caía no rosto embaixo do gorro azul. Acho que minha cara não estava muito melhor. Afinal eu estava tendo uma visão do meu pesadelo de uma noite.

William.

Notas finais
E aí? Está ficando bom? Algum comentário ou crítica?