O Estranho que Apareceu na Minha Vida

11 As sombras de um passado conturbado


Notas iniciais
Oiii, pessoal! Ok, eu sei que demorei, mas nessa última semana mal tive tempo de respirar, quanto mais de escrever, então acabou que só consegui concluir hoje *-*, mas vou fazer o possível para que o próximo saia mais rápido. Espero que gostem.

POV. Amber

Não consegui me concentrar direito nas aulas. Na verdade não estava sequer processando o que os professores diziam, não conseguia. Eram pensamentos demais dentro de uma cabeça só.

Pude me distrair antes, enquanto conversava com Bianca, porém no meio das aulas era difícil ter alguma coisa para desviar o foco do meu pensamento. Tudo, absolutamente tudo ao meu redor, parecia gritar para que minha mente voltasse a remoer aquele maldito assunto. E realmente era uma conspiração contra mim, justo numa terça-feira.

Com um suspiro derrotado deixei que meus olhos vagassem pela sala sem procurar nada específico. Queria apenas esvaziar a mente, deixar aquilo de lado para que nunca mais voltasse a meus pensamentos. Mas sabia que era inútil. Passei os últimos seis meses tentando esquecer isso, e não era agora que conseguiria tirar aquele tempo da cabeça.

O por que?

Porque eu ainda o sentia. Ainda o vivia. Não conseguia, simplesmente não podia, deixar aqueles meses para trás. Talvez seja algo meu, porém a culpa nunca parecera tão vívida quanto agora. Mais presente do que parecia estar naquela época. Um período negro para mim. Minha idade das trevas particular.

Era como se tudo houvesse mudado ao meu redor, e eu me apegava teimosamente a um passado que desejava esquecer. Mas não posso fazer nada. Toda vez que algum flashback daqueles meses me cruza à mente volta aquele gosto amargo na boca. A culpa, a raiva, a auto recriminação, o medo e tudo o que alguma vez pareceu ter mudado em minha vida parece remeter a aquele tempo. Forçando-me a reviver os mesmos dias em um loop interminável. Era uma tortura sem fim.

E já completavam nove meses desde que tudo virou de ponta cabeça. Acho que nunca serei completamente capaz de entender o quanto mudei depois de tudo. E quanto mais o tempo passa mais sinto o medo me suprimir. Achei que tinha tempo, que tinha muito dele, antes que o passado voltasse a me assombrar. Porém agora mal me restam semanas. Achei que a essa altura já teria conseguido me reerguer completamente. Doce ilusão.

As coisas que não consigo esquecer parecem me caçar novamente.

Entretanto, alheios a tudo, meus amigos riam e discutiam sobre os novos professores, sobre a viagem, sobre os assuntos mais frívolos imagináveis. É claro, a primeira aula já acabara e eu nem percebera.

*****

–Você vem comer com a gente, né? -perguntou Isa, olhando para Bianca que rabiscava algo em seu caderno.

A loira levantou ligeiramente a cabeça, estava estranhamente quieta desde o terceiro período.

–Ah, claro. Por que não? -ela sorriu e fechou o caderno rapidamente.

Começamos a caminhar pelos corredores nos perguntando como é que conseguiam dar trabalhos para os alunos no segundo dia de aula. Cortesia da nossa mais que agradável professora de Geografia.

O recreio era o período mais movimentado na escola, e tínhamos sorte pela cantina ser grande para acomodar a todos, caso contrário certamente estaríamos uns andando em cima dos outros. O corredor comum de todos os anos era mais largo, e longo também, todavia logo chegamos à área das mesas.

O colégio oferecia de tudo o que se pode imaginar nos lanches e almoços, tanto que muitos alunos passavam o dia sem sair daqui, estudando de manhã, almoçando ao meio dia e participando de atividades extracurriculares à tarde. Yury, por exemplo, era um dos membros do time de rúgbi que representava o colégio nos jogos. Artie preferia futebol e Gabe, bom, Gabe era Gabe, ele não fazia nada de útil. Will, contrariando as expectativas alheias, entrara facilmente no time de natação. E eles eram bons em esportes (acho que para compensar as notas horríveis da maioria).

Isa era ótima em corrida. Na verdade era a mais rápida entre as corredoras dos primeiros e segundos anos. E eu? Bom, essa é uma questão meio complicada. Já fiz um pouco de tudo, mas nada que gostasse ou me adaptasse realmente. E quando digo tudo quero dizer tudo mesmo, desde artesanato e artes manuais ao time de beisebol e clubes de luta. Nada que eu conseguisse realmente fazer. Acho que não posso falar muito do Gabe, já que não sou boa em absolutamente nada.

Sentamos a mesma mesa de sempre, perto da enorme janela que dava para o pátio e arquibancada. Nunca descobri exatamente o motivo pelo qual nosso grupo sempre se reunia ali, mas tenho a leve impressão que foi ideia de Marcos para dar uma espiada no treino das líderes de torcida do terceiro ano. Sendo sincera? Não me surpreenderia.

–Ah, como é bom comer comida de verdade! -exclamou Isa quando fomos pegar nossos pratos- Ter de cozinhar para si mesma é muito deprimente.

–Mais deprimente ainda é sua habilidade inata de tirar todo o gosto da comida. -retruquei, lembrando da última vez que comera algo feito por ela.

Ainda sentia arrepios quando me lembrava disso.

Isa fechou a cara, fingindo-se de magoada.

–Que escolha eu tenho? Não sou lá uma cozinheira impecável, mas não é tão ruim assim, é? -ela ficou me olhando, esperando que eu concordasse, mas apenas dei de ombros- O Artie gosta da minha comida.

–Você deve obrigá-lo a comer. Coitado dele... -comentei, segurando o riso.

Ela mostrou a língua para mim, o que me fez revirar os olhos. Isa era uma criançona.

–Ei, vocês, nem pra esperar, né? -reclamou um vulto moreno surgindo no corredor.

–Até parece que eu ia ficar esperando! A comida me chamava. -lambi os lábios encarando o lindo cupcake de chocolate decorado na minha bandeja.

Parece tão bom! Sorri para mim mesma, qualquer coisa com chocolate era bom.

Foi quando Yury tomou o bolinho da minha mão num gesto rápido e deu um mordida, parecendo surpreso.

–Hum, está bom. -falou ainda de boca cheia, vendo meu rosto avermelhar-se de raiva.

–Meu bolinho! -levantei da cadeira, tentando alcançar o cupcake de suas mãos miseravelmente- Devolve, caralho!

Ele riu, suspendendo-o para cima. Por que Yury tinha de ser anormalmente grande?! Ou talvez eu fosse anormalmente pequena...?

–Ei, estou te ajudando! Se ficar comendo essas coisas vai ficar mais gorda do que já... -acertei-lhe um belo chute num lugar onde ele realmente não queria ser chutado, conseguindo reaver meu precioso lanche e fazendo-o se contorcer de dor.

–Me chame de gorda outra vez! Vamos! -o desafiei, ouvindo-o grunhir.

–Isso... é golpe baixo... Literalmente. -ele conseguiu formar um sorriso, referindo-se a minha altura 'diminuta'.

–Não enche. -resmunguei, voltando a sentar-me.

Isa e Bianca que assistiam à cena riam tanto que lágrimas se formavam no canto de seus olhos. Bianca mesmo parecia surpresa com nossas reações, assim como aparentava não ser muito acostumada a rir.

Depois de se recuperar do golpe, Yury se juntou a nós, fazendo espaço ao lado de Isa.

–Nem me atrevo a ficar perto dessa guria, mas dizem que as baixinhas são irritadas então... -ele se apoiou desleixadamente por cima da mesa com um sorriso leve nos lábios- eu devia tomar mais cuidado.

–Devia mesmo. -concordei, dando minha primeira mordida no cupcake.

–E o que houve com você na segunda aula? -o moreno olhou para Bianca do outro lado da mesa- Saiu e ficou sumida quase a terceira aula inteira. Se perdeu por acaso?

A loira vacilou por um momento antes de levantar o olhar da mesa.

–Na verdade não. -um sorriso formou-se em seus lábios- Fui chamada na secretaria para preencher uns formulários e rever algumas irregularidades na matrícula. Nada demais.

Não sei o que em sua frase me soou estranho, talvez o fato de isso não acontecer durante as aulas enquanto nos passam matéria, ou mesmo por seu tom de voz. Não sei se estava mentindo, mas com certeza tinha algo diferente em sua postura.

–Hum, que chato. -comentou Isa, parecendo desapontada- Pensei que tinha arrumado uma razão boa pra matar aula.

–Tipo o quê, ficar com um estranho aleatório no corredor? É geralmente o que você faria.

–Ei, eu não sou assim! E tenho um bom namorado! -ela bufou, já procurando-o inconscientemente com o olhar- Ok, um namorado aceitável. Ele bem que podia ser mais presente.

–Se ele fosse mais presente vocês se tornariam a mesma pessoa. -repliquei, recebendo um leve olhar irritado de volta- O que foi? Vocês mal se largam, é meio nojento.

–Diz isso porque não está apaixonada. -ela pontuou, suspirando.

–Eca. -sacudi a cabeça em desaprovação.

Isa poderia muito bem ser a menininha bobinha protagonista dessas comédias românticas que fazem tanto sucesso por ai. Ela se encaixava no papel como ninguém. Lembro de quando, alguns meses atrás, ela ficava suspirando pelos cantos por causa de Artie, a vontade era de esganá-la de tanto que falava nele. Parece aquele tipo insuportável que acredita no amor incondicional, sinceramente, eu não sou assim.

Essa coisa de 'vou te amar pra sempre' é a pior mentira que já ouvi. E a maioria das pessoas me acha muito insensível por isso, porém creio que essa fase de protagonista de novela nunca me afetou, ou, se já algum dia, foi-se há muito tempo.

Faz tempo desde a última vez que pensei sobre isso, os dias e as memórias me afastaram desses delírios. Se o amor existe mesmo, ele não está nem nunca estará nem perto de mim. Foi minha conclusão.

Então, de repente, foi tirada de meus pensamento quando senti uma mão fria agarrar meu pulso, até que me vi sendo puxada para fora do refeitório.

–E-Ei, me solta! -exclamei, antes mesmo de perceber quem me escoltava.

Recebi de volta um olhar frio dos olhos mais negros que ônix. E fui capaz de reconhecê-los.

–Gabe! -protestei, tentando me livrar de seu aperto de aço- Estou falando sério! Me solte!

Ele me ignorou, me arrastando pelos corredores sem se importar com a reação das pessoas ao redor, que nos olhavam curiosas.

Não resisti muito. Sabia exatamente o que me esperava e que aquela conversa não poderia ser adiada. Ele não ficaria sem resposta por muito tempo e, do jeito que era, já houvera ficado muito tempo sem ela.

Ele estava com uma expressão mortalmente séria, o que raramente era feitio seu. Os lábios estavam crispados em desaprovação, os olhos exalavam frieza e vazio, ainda que uma pequena chama de irritação se fizesse presente neles. Eu conhecia aquela expressão, e não tinha boas memórias da última vez que a vira em seu rosto.

Ele parou de andar subitamente, e percebi que já estávamos fora do prédio da escola. Ou, sendo mais específica, atrás dele. Ele queria conversar a sós, isso era óbvio, não queria ser interrompido por ninguém. Gabe sabia que eu não queria falar sobre aquilo, porém isso não lhe importava.

O loiro ficou de frente a mim, deixando que alguns segundo de um tenso silêncio se instaurasse no ar. Quando ele falou, sua voz estava dura, fria, e exigente. O tom de quem dá uma rodem.

–Não vou deixar que fuja de novo. Temos assuntos a resolver.

Notas finais
Gente, esse oi o primeiro POV da Amber! O que acharam? Ok, meio tenso, mas essa foi a parte que achei legal mostrar! Espero que tenham gostado e até o próx. cap.! *-*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.