O Estranho de Amarelo

4 Peça-me o que quiser e morra


— É agora que tu morre!!

A faca cruzou o ar em direção a Jeferson. Mas, antes que ele a recebesse, fechou os olhos para não ver a própria morte. Um pequeno som de lâmina perfurando a carne soou no ar. E depois disso houve silêncio. Na escuridão de seus olhos fechados Jeferson não ouvia mais nada. E também não sentia nada. Há não ser os braços do agressor que o prendiam se soltando. Ele abre os olhos e vê o improvável. O meliante com a faca olhava diretamente nos olhos de Jeferson, mas seus olhos estavam estanhos. Pareciam com um tom cinza nebuloso. Mas o mais estranho foi onde a faca foi parar. O atacante havia perfurado o pescoço daquele que prendia Jeferson por trás. Seu sangue jorrava e ele cambaleava perdendo as forças. Seus olhos reviravam pela agonia e ele suava como um porco na hora do abate. O homem com a faca empurrou Jeferson com força para o lado e foi pra cima do, até então, amigo.

— É agora que tu morre! É agora que tu morre! – repetia ele sem parar enquanto esfaqueava a barriga do amigo. Os outros dois olhavam a cena com terror em seus rostos.

— Cara, para com isso! – gritou um.

— Ele deve tá doidão. – disse o outro.

Após mais um dúzia de golpes no sujeito já morto e coberto de sangue, o assassino se levanta e se vira para a direção de Jeferson e seus dois comparsas. Seus olhos estavam brancos e sua face furiosa. Os dois meliantes que estavam há alguns passo atrás de Jeferson recuaram para trás cautelosos.

— É AGORA QUE TU MORRE!!! – berrou o dono da faca. Em seguida desferiu um golpe no próprio pescoço no lado esquerdo. Depois atravessou a lâmina até o direito com toda sua fúria. Uma fonte de sangue jorrou. Ele se engasgou e tremeu por alguns segundos antes de cair sem vida no chão.

Os outros dois bandidos gritaram de horror e correram em direções diferentes. Subitamente pararam. Um agarrou a própria cabeça e gritava como se sentisse uma dor insuportável. Sangue escorria pelos ouvidos, nariz e olhos. Caiu no chão sem vida. Ao mesmo tempo, o outro agarrava o próprio peito com as mãos, mas não falava nada. Somente seu rosto demonstrava o desespero que estava sentido. Também caiu no chão, morto.

O silêncio dominava o cenário de morte que rodeava Jeferson. Ele olhava os cadáveres ao seu redor. A adrenalina e o choque ainda bombardeavam sua mente impedindo-o de processar e entender o que foi tudo aquilo.

— Bem legal, não é? – disse uma voz. Jeferson se virou rapidamente em sua direção. Era Ny que falava. – Na verdade foi muito pouco original. Já fui melhor nisso antigamente. Mas estou sem criatividade já faz um tempo. Sabe como é.

— V-você fez isso a eles? – Jeferson apontava a mão tremula para Ny. Que respondeu apenas com um sorriso e um sinal de positivo com o polegar. – O que você fez? Como você fez?!

— Simples. O da faca eu o induziu a matar o cara que te segurava e depois a matar ele mesmo. Esse aqui. – apontou para o que vazava sangue pelos orifícios do rosto. – Um câncer no cérebro instantâneo e gigante. O outro foi só um ataque cardíaco forte o suficiente para explodir o coração.

— M-meu Deus... – disse Jeferson.

— Eu sei. Eu disse que estou sem criatividade. – suspirou Ny.

De repente, Jeferson lembrou. O cachorro. Correu em direção da árvore. Mas parou subitamente, foi até perto do corpo do cara que cortou a própria garganta. Pegou a sua faca e voltou a correr em direção à árvore. O cão estava lá com o seu pescoço preso na corda. Com um golpe Jeferson a corta. Ele agarra o animal ferido. Mas percebe que já era tarde demais.

— Droga. – lamentou.

Ny bufou e revirou os olhos.

— Deixe-o ai, temos coisas importantes para conversar. E vai começar a chover de novo daqui a alguns minutos.

— Não posso larga-lo aqui. Vou enterra-lo em algum lugar.

— Deixe-o ai. Amanha alguém vai encontra-lo e fazer o seu bendito enterro.

— Não. Algum outro bicho pode se aproveitar da carcaça dele. O pobre já sofreu demais.

Ny torceu o canto da boca. Fez um gesto rápido com as mãos. O cachorro desapareceu dos braços de Jeferson.

— O que houve? – perguntou.

— Mandei ele para a porta de uma clinica veterinária aqui perto. De manhã algum funcionário vai acha-lo e vai dar o enterro que você tanto quer. Satisfeito?

Jeferson não respondeu. Virou-se em direção a Ny. Mas não antes de ver os cadáveres dos quatro criminosos espalhados na grama do parque.

— E eles?

— Guerra de gangues. A policia dá um jeito de manhã. Será que podemos conversar agora?

— Sim. Tenho um milhão de perguntas na cabeça.

— Vocês sempre tem no inicio. Siga-me. – Ny começou a andar para a esquerda.

— Pra onde? – Jeferson apenas o segui-a com o olhar.

— Se sentar. Odeio conversar em pé. – Ny andava em direção a um banco de praça que tinha uma lixeira do lado esquerdo e um poste de luz no direito. Jeferson foi atrás. As questões bombardeavam a sua cabeça. Aquela noite estava terrivelmente estranha.

Ny se sentou na ponta esquerda do banco, perto do lixo. Jeferson da direita perto do poste de luz. Ele estava com um claro nervosismo no olhar. Colocou as mãos entres as coxas e não conseguia encarar Ny nos olhos. Já o deus de terno amarelo havia tirado uma barra grossa de chocolate de um bolso interno do paletó. Ofereceu a Jeferson com um sorriso, mas ele recusou com a cabeça. Ny deu de ombros, desembrulhou uma ponta da barra e deu uma dentada no chocolate.

— Adoro recheio de caramelo.

Ele mastigava e Jeferson nada dizia. Isso durou alguns minutos.

— Você é um deus mesmo? – finalmente Jeferson falou.

— Quer ver outros truques iguais aqueles pra acreditar de vez? – Ny fez um sorriso sinistro mostrando seus dentes sujos de caramelo.

— Não, não. De jeito nenhum. Nunca mais!... Mas como isso é possível? De onde você veio?

Ny se acomodou no banco. Colocou o braço sobre o encosto e cruzou as pernas. Suspirou.

— Longa história. A mais longa de todas, eu acho. Vou lhe dar o resumo do resumo do resumo. Bem, primeiro de tudo eu vim de outra dimensão do espaço. Vim de um lugar que não tem como eu descrever para você de um modo que lhe faça sentido. E eu estava de saco cheio de lá e resolvi conhecer novas paragens. Foi quando descobri seu planetinha azul. Gostei muito dele nas minhas primeiras visitas. As pessoas eram legais pra caramba antigamente. Elas que começaram a me chamar de deus em alguns locais que eu fui tirar férias. Como no Egito. Mas, com o passar do seu tempo, a gente não tinha mais tanta influência em vocês como antes. Pelo menos diretamente.

— Peraí! A gente? – interrompeu Jeferson. – Tem outros deuses?

— Sim, tem sim. Você até deve ter visto um hoje antes da boate. Aquela coisa gigante e verde cheia de tentáculos no céu.

Imediatamente Jeferson lembrou da imagem que viu desde que pôs os pés para fora de casa naquela noite. Deu uma rápida olhada no céu de agora por puro reflexo. Mas ele estava noturno e cheio de estrelas.

— E quem era aquele? – perguntou a Ny.

— Esquece. Aquele acha que é o maioral só porque está aqui a mais tempo que os outros. Mas nunca aparece. Pelo menos não diretamente. Talvez nos sonhos e devaneios das pessoas.

— Mas eu não estava sonhando. Nem dormindo estava. – retrucou Jeferson.

— Como você poderia saber? A vida pode ser um sonho ou uma ilusão. A questão é saber quem está sonhando. – Ny piscou um olho. – Mas, pelo jeito, tá mais para um pesadelo, não é?

— Certo, certo. Se você é um deus que veio de outra dimensão, por quê parece uma pessoa normal?

— Porque eu quero. Se eu estivesse na minha forma e tamanho real esta cidade estaria esmagada. Você viu o tamanho daquela coisa no céu.

Jeferson pensou um pouco, tentando imaginar como seria a forma real de Ny. O deus deu outra mordida no chocolate. Enfim, disse:

— Já que não tem mais perguntas idiotas, vamos aos negócios. Eu vi seu problema, Jeferson. E posso ajudá-lo.

— Você se referiu à minha irmã. Realmente ela anda atrapalhando a minha vida. Mas como você poderia me ajudar. Você tem o poder de curar ela?

Ny deu uma gargalhada alta.

— Essa foi boa. – disse ao se recompor. – Não, eu não posso cura-la. Não porque eu não tenha o poder. Mas porque eu não quero. Eu só tiro as coisas, não as devolvo.

— O que quer dizer com isso? Então vai me ajudar como?

— Simples. Vou ajuda-lo a matar sua irmã. – e deu outra mordida na barra de chocolate.

Jeferson olhava para Ny quase sem piscar e meio boquiaberto. Ainda estava processando aquela resposta em sua mente.

— O que você disse?

— Isso mesmo que você ouviu. Vou ajuda-lo a matar ela. E assim seus problemas acabarão. Não se preocupe. Ninguém vai saber de nada. Tenho experiência no ramo.

Jeferson ficou encarando Ny, esperando que o deus desse uma risada e revelasse que era tudo uma piada divina. Mas não aconteceu. Então Jeferson pigarreou e disse:

— Eu não quero matá-la. Isso já seria acima do limite. Só quero que ela pare de me atormentar. De atrapalhar minha vida.

Ny olhou seriamente para Jeferson.

— E de que outro modo você se livraria dela? Vocês não têm nenhum outro parente que possa cuidar dela no seu lugar. Ela não quer gastar da própria herança para se tratar ou para contratar alguém para cuidar dela. E nem você, porque no fundo você sabe que não é justo usar o seu dinheiro sendo que ela também tem.

Jeferson ficou cabisbaixo, como se estivesse pensando nas afirmações que acabou de ouvir.

— E tem o mais importante – continuou Ny – Tem a cláusula.

Jeferson olhou para Ny, sem entender.

— Que cláusula?

Ny deu um sorriso sarcástico.

— Ora, vai me dizer que esqueceu a cláusula do testamento dos seus pais. Aquela que diz que se um dos filhos fosse dado como morto a sua parte da herança iria para o outro. E isso é uma coisa que você quer muito, não é Jeferson? O dinheiro de sua irmã para si. Mais dinheiro do que nunca sonhou em ter.

Jeferson prendeu a respiração. De algum modo parecia que o deus que estava ao seu lado havia revelado algo que estava enterrado no fundo de sua mente. Algo que ele cogitou no momento que leu por completo o testamento dos pais mortos. Um milhão seria seu se sua irmã ingrata e problemática estivesse no fundo do chão. Um milhão para mudar sua vida do inferno para o céu.

Ny sorria alegremente, como se adivinhasse o que Jeferson estava pensando.

— Primeiro de tudo – Jeferson resolveu mudar um pouco o assunto – por que você quer me ajudar? Eu nunca sequer acreditei em deus algum e, de repente, aparece um na boate que eu frequento e do nada diz que vai me ajudar a me livrar da minha irmã. Posso ser ingênuo as vezes, mas não sou burro. Acredito que o que você diz é verdade pelo que vi você fazer agora a pouco. Mas sei que tudo tem uma razão e um preço.

Ny bateu palmas vagarosamente com um sorriso no rosto.

— Muito bom. Você é mais esperto que a maioria que já encontrei. Tem razão. Nada é sem motivo e nem de graça. Como eu disse, eu venho a este planeta para me deliciar com a vida mundana humana. De onde eu venho minha única diversão é ouvir músicas que as almas que eu coleto cantam para mim. Entediante. Vocês humanos me agradaram por milênios. Então eu resolvi retribuir o favor. Procuro por pessoas que estejam sofrendo o desespero em suas vidas e proponho resolver seus problemas. No seu caso, você apenas deu sorte de estar no mesmo lugar que eu vou raramente. Assim que você entrou na boate eu senti um sentimento de desesperança e desespero vindo de você. E aqui estamos.

Jeferson refletia em seus pensamentos o que Ny acabara de dizer. Voltou para o deus e disse:

— Certo. Mas eu quero saber qual é o preço que eu vou pagar por essa ajuda. Com certeza não vai ser nada pequeno.

Ny sorriu.

— Não será mesmo – respondeu – Mas o seu preço será igual ao de todos que eu já ajudei aqui na Terra. Faço o seu sofrimento acabar em troca da única coisa que você pode me dar e que eu não tenha ainda.

Jeferson prendeu a respiração e franziu o cenho, se preparando para o que viria a ouvir.

— Sua alma. Tudo o que eu quero em troca de meus serviços é sua alma.