O Dragão Enjaulado era uma boate de média popularidade. Sua fachada pintada de tinta preta era levemente iluminada por um dragão feito de neon vermelho que se enroscava no corpo de uma dançarina de neon amarelo. Seus clientes eram, na maioria, pessoas de classe média-baixa que não tinham um lugar melhor e barato para irem satisfazer seus prazeres mundanos. O estacionamento não estava lotado e não havia praticamente ninguém na fila de entrada. Estamos com sorte, disse Ricardo a Jeferson ao se aproximarem do local. Ele não se importou. Não parara de espiar o céu desde que saíram de sua casa a quase meia hora. As nuvens grossas ainda pairavam no firmamento despejando uma torrente quase diluviana. Mas nada de tentáculos ou outra figura estranha.

Após estacionarem, correram na chuva e entraram na boate. Foram revistados por dois leões-de-chácara, pagaram a entrada e finalmente entraram na “Boca do Dragão”, como se apelidou a parte interna do prédio.

— Droga. Odeio quando eles passam a mão. – reclamou Ricardo. – Já viemos aqui um monte de vezes e esses mesmos caras ainda apalpam a gente, achando que vão achar uma bazuca ou algo assim. Bando de viados!

Jeferson nada falou. Olhava para a multidão dentro da boate. Estava quase lotado ali. Na pista de dança, pessoas faziam coreografias sem sentido, ao som de musica psicodélica. A maioria com uma bebida e cigarros nas mãos. Estava meio escuro, apenas os canhões de luz que iluminavam ao ritmo da musica permitia a visão das coisas. Jeferson jurava ver pessoas ali que podiam ser menores de idade. Se agarrando e se esfregando quase numa orgia bacanal. Nas mesas, ao lado da pista, outro grupo de pessoas, bebendo, fumando, se agarrando e cheirando pó. Suas expressões de prazer e sorrisos largos e delirantes pareciam mostrar que estavam em uma viagem mental. A única viagem possível para fora das dores do mundo real, pensou Jeferson. Ele já havia ido à Gaiola do Dragão, e já tinha visto tudo aquilo e muito mais. Mas agora ele estava com um sentimento de desgosto e de nojo. Não queria estar ali.

— Ei cara, que que 'cê' tá fazendo parado aí?. – chamou Ricardo, batendo com força no ombro do amigo – 'Vamo' lá no bar começar a noite.

Tanto faz, ele pensou.

Vinte minutos e algumas doses de vodca depois, Jeferson despejava suas frustrações.

— Nada deixa ela satisfeito. Nada! Ela me prende em casa pra cuidar e dar as coisas na mão dela. Mas eu sei que ela pode se virar sozinha. Eu sei!

— Cara. Eu já te disse. Contrata alguém pra cuidar dela no seu lugar. Você tá deixando de viver, parceiro.

Jeferson virou mais uma dose de vodca. A bebida desceu queimando a garganta. Mas nem isso abaixou a voz de sua revolta.

— Eu tentei, mas eu queria pagar o salário da cuidadora com o dinheiro da parte da herança do nosso pai que ficou pra ela. Mas ela é tão mesquinha e avarenta que fez um escândalo quando disse isso. Ela não quer gastar nenhum centavo dela pro tratamento e pra ter uma enfermeira particular. Quer que eu custeie tudo da minha parte da herança! Pode isso? Mas esse gosto eu não vou dar pra ela. Não mesmo!

— E olha só que droga de ironia. Você tem esse dinheiro todo que seus pais deixaram, mas não pode desfrutar porque tem que ficar quase 24 horas por dia preso em casa com sua irmã louca.

—Exatamente! De que adianta eu ter herdado isso se não posso fazer nada de emocionante. Como uma viagem ou mesmo ir ao cinema! Ela deve tá nesse exato momento gritando e acordando os vizinhos. E eles vão me achar um monstro por ter deixado ela sozinha. Droga! Eu não sei mais o que fazer, cara.

Jeferson ficou meio cabisbaixo, olhando o fundo do pequeno copo de vodca. Se perguntava até quando ia viver aquele martírio. Era jovem, tinha uma boa conta no banco. Mas não lhe servia de quase nada naquele momento. Tudo culpa da irmã doente e ingrata. Percebeu então que Ricardo havia parado de falar. Virou o rosto em direção ao amigo. Ele estava observando algo. Seus olhos pareciam meio arregalados, ele não piscava de jeito nenhum. Um sorriso malícioso se formava em seus lábios.

— O que você tá olhando?

Jeferson acompanhou o olhar de Ricardo. Na extremidade direita da boate havia alguns sofás e mesinhas para as pessoas tomarem drinks mais confortavelmente. Em uma delas havia duas garotas, aparentemente bem novas. Usavam shorts curtos e camisas coladas ao corpo. Usavam maquiagem chamativa. Delineadores nos olhos e batom com cores fortes. Elas não conversavam entre si. Estavam mais entretidas com os smarthphones nas mãos.

Jeferson franziu o cenho. Olhou de volta para Ricardo. Ele ainda olhava as garotas como se fosse um lobo selvagem morrendo de fome.

— Cara. Fala serio? Elas mal devem ter dezoito anos!

Ricardo respondeu sem mover o olhar.

— Se fosse não poderiam entrar aqui.

Jeferson deu uma risada baforada.

— Você sabe que existe identidade falsa.

Ricardo se levantou e começou a andar em direção às meninas. Jeferson o parou colocando a mão no seu braço.

— Cara. Você não tem princípios?

Ricardo olhou para o amigo. Sua expressão era seria.

— São os princípios que não te deixam viver a vida.

Se desvencilhou da mão de Jeferson e partiu. Chegando no sofá das garotas se sentou sem fazer cerimônia e começou a conversar. Elas sorriam para ele inocentemente. Jeferson conhecia Ricardo havia anos. Agora sabia que não o conhecia quase nada na verdade.

— Doente.

Voltou-se para o fundo do copo que segurava com ambas as mãos.

— A humanidade é toda doente.

A voz vinda da esquerda pegou Jeferson de surpresa. Ao seu lado, um homem sentava no mesmo local em que Ricardo estava a poucos menos de um minuto. Trajava um terno cor de amarelo claro, óculos escuros de lentes redondas, era completamente careca. Jeferson percebeu que ele estava comendo um prato de macarrão com molho de tomate e queijo ralado. Depois de dar uma garfada e começar a mastigar, olhou para Jeferson por cima dos óculos.

— Mas eu não culpo vocês, sabe? Lá fora é bem pior. É por isso que gosto de vim aqui com frequência. Pra mim o seu planeta é um domingo no parque. Mas sei as coisas não estão tão agradáveis assim, não é Jeff?

Jeferson olhava para o estranho, sem entender nada do que ele acabara de dizer. Após alguns segundos, conseguiu formular a primeira pergunta.

— Desculpe, eu conheço você de algum lugar?...

O estranho pousou rapidamente o garfo no prato de macarronada e limpou a boca com um lenço.

— Eu que peço desculpa por não me apresentar. Meu nome é Ny, eu sou um deus.

Notas finais
O que estão achando?